domingo, 22 de janeiro de 2023

“Ten” (Epic, 1990), Pearl Jam





Até 1990, o movimento musical que vinha de Seattle e trazia um novo sopro de vida ao rock norte-americano já era uma realidade nos Estados Unidos. No entanto, para o resto do mundo, ou pelo menos para o grande público, o grunge era um completo desconhecido. Aqui no Brasil, me lembro que a revista “Bizz” fez uma série de matérias por volta de 1990 sinalizando que alguma coisa pesada e barulhenta estava acontecendo com o rock da terra do “Tio Sam”. O grunge só ganharia a visibilidade internacional a partir de 1991, e causaria um “terremoto” de grandes proporções no rock mundial só comparável ao impacto do movimento punk nos anos 1970. E um dos responsáveis por esse “abalo sísmico” roqueiro de proporções mundiais foi Ten, o primeiro álbum da carreira da banda Pearl Jam, um dos ícones do “som de Seattle”, como também é chamado o grunge.

O Pearl Jam surgiu dos cacos da banda de heavy metal Mother Love Bone, que chegou ao fim em 1990 com a morte do seu vocalista, Andrew Wood, vítima de overdose de heroína. Dois ex-integrantes, o guitarrista Stone Gossard e o baixista Jeff Ament, começaram a desenvolver com o guitarrista Mike McCready, um trabalho musical novo e pesado. Uma fita que gravaram caiu nas mãos de um surfista via Jack Irons, ex-baterista do Red Hot Chili Peppers que havia recusado o convite pra entrar na banda. O tal surfista ouviu a fita, que só tinha músicas instrumentais, e escreveu algumas letras. Gravou os vocais com as letras que escreveu para as músicas da fita e enviou para Ament e Gossard que gostaram e o convidaram para ser o vocalista. O tal surfista era Eddie Vedder.
Com a entrada de Dave Krusen para a bateria, a banda se completou e foi batizada de Mookie Blaylock, e em pouco tempo, já estavam assinando contrato com a Epic Records no final de 1990. Mas o nome Mookie Blaylock foi logo trocado por Pearl Jam, sugestão de Eddie Vedder cuja bisavó era chamada “Pearl Jam” (“geleia de pérola”).

Entre março e abril de 1991, o Pearl Jam gravou o seu primeiro álbum, tendo Rick Parashar na produção. Boa parte do disco foi baseada no material que havia sido gravado nas fitas “demo” e as letras escritas por Eddie Vedder.

Intitulado Ten, o álbum de estreia do Pearl Jam chegava às lojas em 27 de agosto de 1991. O estouro da faixa “Alive” nas rádios e o vídeo clipe sendo bem executado na MTV norte-americana, alavancaram as lentas vendas inicias de Ten. O álbum acabou entrando no Top 10 da Billboard 200. As críticas a Ten foram de uma certa maneira equilibradas. Parte da imprensa musical teceu elogios ao álbum, enquanto outra não poupou duras críticas. Aqui no Brasil, a “Bizz” se mostrou um tanto quanto “morna” ao primeiro trabalho do Pearl Jam.

Pearl Jam
Ainda no campo da crítica, irônico foram as críticas raivosas do ninguém menos que o “band leader” do Nirvana, Kurt Cobain, a Ten, afirmando que o Pearl Jam era “vendido” e “oportunista”.  Talvez ele estivesse se referindo ao fato do Pearl Jam ter assinado com uma grande gravadora como a Epic Records, e não com uma gravadora como a Sub Pop, selo de Seattle que foi o “celeiro” das bandas grunges, o que eu acho uma tremenda besteira por parte de Cobain. O Alice in Chains, outro ícone do grunge de Seattle, havia lançado o seu primeiro álbum, Facelift, por uma grande gravadora, a Columbia, um ano antes do Pearl Jam, vendendo mais de 2 milhões de cópias. 
A ironia é saber que o Nirvana do Cobain, que surgiu da cena alternativa, acabou devorado pelo “sistema” com o sucesso planetário de Nevermind no maintream. Tanta exposição fez Cobain não segurar a onda, e já sendo um cara com tantos problemas e “demônios” internos, acabou metendo uma bala na cabeça em 1994, pondo fim à própria vida, ao Nirvana e à Era Grunge. O Pearl Jam seguiu em frente, e sobreviveu a tudo isso com dignidade.

Os temas abordados nas canções de Ten são densos e até sombrios em algumas faixas. Vão desde suicídio (“Jeremy”), solidão (“Porch”), mendicância ("Even Flow") até temas mais amenos (“Oceans”). “Alive” é praticamente uma autobiografia de Eddie Vedder que fala de um garoto que descobre que seu pai é na verdade seu padrasto.

Eddie Vedder
Musicalmente, Ten apresenta uma bem dosada mistura de referências do hard rock clássico dos anos 1970 com a fúria selvagem do indie rock, guitarras pesadas e uma certa 
levada dançante marcada pelo baixo e bateria, remetendo ao funk metal que estava em voga na época através de bandas como Red Hot Chili Peppers, Faith No More, Living Colour entre outras. A pegada de rock clássico das guitarras do Pearl Jam era o que o diferenciava das outras bandas da explosão grunge. É possível perceber “ecos” de Jimi Hendrix por quase todo o álbum nos solos executados por Mike McCready, principalmente em “Why Go”(uma das minha preferidas do disco) na qual os efeitos de pedais wah-wah parecem fazer a guitarra “derreter”. Além disso, tem a voz rasgada de Eddie Vedder que nos palcos se agiganta com a sua presença carismática. Essas qualidades acabaram fazendo o Pearl Jam uma perfeita banda para grandes estádios e arenas.

“Alive”, “Jeremy”, “Even Flow” e “Black” foram os grande hits de Ten. O vídeo clipe de “Alive” foi indicado para o MTV Video Music Awards na categoria “Melhor Video Alternativo”, em 1992. “Jeremy” teve o seu vídeo clipe premiado na edição de 1993 do MTV Video Music Awards em quatro categorias.

Em mais de 20 anos de lançado, estima-se que Ten já tenha vendido mais de 13 milhões de cópias.

Nevermind, segundo disco da carreira do Nirvana, pode até ser o mais importante álbum do grunge, mas sem sombra de dúvidas, o melhor álbum de estreia de uma banda grunge é de longe, Ten. Nenhuma banda da onda grunge estreou também em disco como o Pearl Jam com Ten. De qualquer forma, ambos os álbuns, juntamente com Badmotorfinger, do Soundgarden, ajudaram naquele segundo semestre de 1991, a disseminar o som grunge em escala planetária e a modificar a trajetória do rock.

Faixas:

Lado A
  1. "Once" (Eddie Vedder - Stone Gossard)
  2. "Even Flow" (Eddie Vedder - Stone Gossard)
  3. "Alive"  (Eddie Vedder - Stone Gossard)
  4. "Why Go" (Eddie Vedder - Jeff Ament)
  5. "Black" (Eddie Vedder - Stone Gossard)
  6. "Jeremy" (Eddie Vedder - Jeff Ament)

Lado B
  1. "Oceans" (Eddie Vedder - Jeff Ament - Stone Gossard)
  2. "Porch" (Eddie Vedder)
  3. "Garden" (Eddie Vedder - Jeff Ament - Stone Gossard)
  4. "Deep" (Eddie Vedder - Jeff Ament - Stone Gossard)  
  5. "Release" (Eddie Vedder - Dave Krusen - Eddie Vedder - Jeff Ament - Mike McCready – Stone Gossard)
  6. "Master/Slave" (Eddie Vedder - Jeff Ament) 
Pearl Jam: Eddie Vedder ( vocais), Stone Gossard (guitarra), Mike McCready (guitarra solo), Jeff Ament (baixo) e Dave Krusen (bateria)



BIG CITY - SUNWIND SAILS (2023)

 

Da Noruega, Big City regressa com seu último e quarto álbum “Sunwind Sails”. Algo que pode ser incomum na indústria fonográfica, o álbum apresenta uma formação estável desde 2018, nomeadamente com o vocalista Jorgen Bergersen dos Rock the Night (banda cover dos Europe) ao microfone.
Musicalmente, Big City também mantém o curso que estabeleceu nos últimos álbuns. Essencialmente, o quinteto oferece melódico hard rock com alguma notável infusão de melódico metal. Os arranjos das músicas apresentam harmonia de guitarra dupla e conduzem a uma base de ritmo de rock e groove de um conluio de baixo e bateria. Além disso, com o novo álbum, tive a sensação de que Big City pode ter aumentado o lado do metal.
Sons Of Desire, Now, After The Raid e possivelmente I'm Somebody se encaixam nesse motivo, sendo canções com pressa e peso, nomedamente na linha de baixo espessa e proeminente. Semelhante, mas sendo mais pesado e estável é o Collin's Looking For A Hideout e Silver Line. Alternativamente, Diamond In The Rough e Sparks Of Eternity obscurecem a distinção entre hard rock e metal. No início, ambas parecem destinadas a serem canções de hard rock AOR, graças às linhas de guitarra principais, apenas para ficarem mais pesadas e determinadas à medida que os arranjos se expandem. No entanto, a música escolhida para este ouvinte foi Human Mind, simplesmente por causa da mistura fina de rock groove, harmonia vocal e uma sequência vocal significativamente mais suave, cerca de quatro minutos e meio depois. Tudo dito, Sunwind Sails dos Big City apresenta uma banda consistente, mas também amadurecida na composição, já que eles entregam melódico rock clássico com acessibilidade AOR.

01. I'm Somebody
02. Sons Of Desire
03. Human Mind
04. Collin's Looking For A Hideout
05. Diamond In The Rough
06. Now
07. After The Raid
08. Sunwind Sails
09. Silver Line
10. Sparks Of Eternity

Jorgen Bergersen - Vocals
Daniel Olaisen - Guitars
Frank Orland - Guitars
Miguel Pereira - Bass
Frank Nordeng Roe - Drums, Percussion
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TEN - SOMETHING WICKED THIS WAY COMES (2023)

 

Quando o COVID atingiu e o mundo entrou em bloqueio, muitos artistas musicais e bandas descobriram que esse não era o pior dos cenários. Isso deu a eles tempo para se agachar e trabalhar em novas músicas. Isso é exatamente o que Gary Hughes fez com sua banda Ten. Eles gravaram dois novos álbuns num curto período de tempo (não muito diferente de seus dois primeiros álbuns há muitos anos). Ten nos deu Here Be Monsters em fevereiro passado. Agora eles lançam seu último e décimo quinto álbum de estúdio, Something Wicked This Way Comes . Antes que tu perguntes, não há relação temática entre os dois.
A respeito de Something Wicked This Way Comes , espero que meus comentários sejam breves. Se tu conheces Gary Hughes e Ten, sabes exatamente o que esperar dessa equipe: melódico hard rock clássico com a voz de Hughes no comando. Ten é constante e consistente dessa maneira. Não há como reinventar a roda e sem diversões aventureiras em novos e estranhos géneros.
Para puro clássico rock, os arranjos do Ten são difíceis de bater. Eu gosto da melodia e harmonia da música, do ritmo e groove rock sem esforço, da mistura de teclados e guitarras e dos solos significativos de ambos.
Portanto, eu me pergunto como seria um álbum dos Ten com um vocalista diferente. Mas isso nunca vai acontecer. Ten é Gary Hughes. Hughes = Ten. No entanto, como vocalista, Hughes é muito bom em criar e acompanhar a melodia e a harmonia da música (o que em algumas das músicas de hoje pode ser uma arte perdida). Então, levando em conta a música das músicas, minhas escolhas favoritas seriam When Darkness Comes, Brave New Lie e Look For The Rose. Alternativamente, canções como a faixa-título e The Greatest Show On Earth pareciam um tanto lentas e pesadas, e não mantiveram meu interesse.
Se tu és fã dos Ten e Gary Hughes, encontrarás em Something Wicked This Way Comes outro álbum prático do seu clássico melódico hard rock. Sem frescuras, apenas Ten constante e há muitas coisas a serem ditas para consistência e um som característico.

01. Look For The Rose (6:28)
02. Brave New Lie (4:35)
03. The Tidal Wave (4:21)
04. Parabellum (6:38)
05. Something Wicked This Way Comes (7:02)
06. The Fire And The Rain (5:27)
07. New Found Hope (5:41)
08. The Only Way Out (5:12)
09. When The Darkness Comes (5:51)
10. The Greatest Show On Earth (5:31)

Gary Hughes - Vocals, Guitars
Dann Rosingana - Guitars
Steve Grocott - Guitars
Darrel Treece-Birch - Keyboards
Steve McKenna - Bass
Markus Kullman - Drums

Scott Hughes - Backing Vocals
Karen Fell - Backing Vocals
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BLACK STAR RIDERS - WRONG SIDE OF PARADISE (2023)

 

O primeiro álbum dos Black Star Riders em mais de três anos marca uma viragem na vida da banda. É a primeira gravada sem Scott Gorham, deixando apenas o vocalista Ricky Warwick da formação original que mudou de um Lizzy reformado exatamente uma década atrás. Com a saída do último membro dos Lizzy também vai a linha de guitarras duplas marca registada - pelo menos no estúdio, mas isso é outra história! A sensação de que este álbum está atrasado é acentuada pela forma como vários singles foram lançados ao longo de vários meses. Um riff de Stonesy inicia uma abertura muito decente na faixa-título, embora o Lynott estilo ainda estejam muito presentes na entrega de Ricky Warwick, se não a mesma sensibilidade melódica, enquanto o solo de guitarra do agora falecido Christian Martucci tinha um som original a torcer para ele. Mas 'Hustle' é o primeiro exemplo de como a mudança na formação permitiu que eles seguissem uma direção diferente, com uma estrutura musical menos convencional e um toque R'n'B particularmente no uso liberal da harpa de blues.
Mais familiar é 'Better Than Saturday Night' com aqueles Lynott estilo reminiscentes de alguns dos momentos mais maduros de Lizzy como 'Dancing in the Moonlight' e 'Riding Out the Storm' também é inesperadamente melódico. Há menos ênfase do que antes em solos de guitarra de qualquer tipo, e ainda assim ambas as músicas são excelentes. Para que não pensemos que o BSR tenha desaparecido, 'Pay Dirt', completo com referências autobiográficas a Belfast e Glasgow, chega mais perto do estilo áspero e pronto mais associado a Ricky Warwick desde seus dias com The Almighty.
O álbum dá uma guinada estranha para o pior no meio com 'Catch Yourself On', cujas guitarras têm uma sensação quase indie, tão desarticulada quanto seu título bastante estranho sugere e um cover fiel de 'Crazy Horses' bastante inútil.
'Burning Rome' é muito melhor e embora os acordes nos versos sejam muito Noel Gallagher-estilo, conforme a música avança as guitarras cantam em estilo gaélico como um cruzamento entre Lizzy e Big Country, enquanto 'Don't Let the World Get in the Way' é um hino BSR empolgante mais típico. No entanto, a insidiosa guitarra estilo Big Country é ainda mais proeminente em 'Green and Troubled Land', uma das muitas canções em que a letra de Ricky tem um toque do que os alemães chamam de 'weltschmerz', instável com o estado do mundo hoje.
'This Life Will Be the Death of Me' é outra música suave para fechar o álbum, mesmo com um sabor de Van Morrison, enquanto um excelente solo de wah-wah enquanto a música chega a um processo de conclusão para ser um descanso adequado para o mandato de Christian Martucci na banda.
Admito francamente que quando a saída de Scott Gorham foi anunciada, meu interesse na banda caiu pelo menos 50%. Mas, na verdade, acabei muito impressionado com este novo álbum, arriscando algumas vezes para ampliar seu alcance, mantendo o suficiente de seu som característico, tornando-o um começo muito promissor para sua nova era.

01. Wrong Side Of Paradise 03:44
02. Hustle 03:27
03. Better Than Saturday Night 03:40
04. Riding Out The Storm 03:51
05. Pay Dirt 03:46
06. Catch Yourself On 04:18
07. Crazy Horses 02:24
08. Burning Rome 03:49
09. Don't Let The World 03:48
10. Green And Troubled Land 04:50
11. This Life Will Be The Death Of Me 03:30
12. Cut 'n' Run 03:30 (Bonus Tracks)
13. Suspicious Times 04:06 (Bonus Tracks)

Ricky Warwick - Vocals, Guitars
Christian Martucci - Guitars
Robert Crane - Bass
Zak St. John - Drums
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“Televisão de Cachorro” (BMG, 1998), Pato Fu

 


A partir de meados dos anos 1990, o cenário do rock brasileiro se reconfigurou com a chegada de uma nova geração de artistas trazendo novas ideias e novas possibilidades para o gênero musical. Dessa nova geração roqueira fazia parte o Pato Fu, banda mineira que despontava com um som baseada no experimentalismo, na irreverência e nos novos recursos tecnológicos na área musical. Os três primeiros álbuns foram bem fundamentados nesse dito experimentalismo, chegando a ter uma repercussão modesta com o segundo álbum, Gol de Quem? (1995), através do hit “Sobre o Tempo” e com o terceiro álbum, Tem Mas Acabou (1996) com os hits "Pinga" e "Capetão 66.6 FM".

O sucesso comercial só veio mesmo com o quarto álbum, o Televisão De Cachorro, lançado em 1998. Foi o primeiro álbum do Pato Fu sob a produção de Dudu Marote, o mesmo que havia produzido os multiplatinados álbuns Calango e Samba Poconé, ambos do Skank. Trazendo  faixas autorais e regravações de outros artistas, Televisão De Cachorro é um dos mais coesos trabalhos da banda mineira. Para a gravação do álbum, o Pato Fu fugiu do processo tradicional de gravar as bases instrumentais e a posterior colocação dos vocais. Ao invés disso, a cada base musical gravada de uma determinada faixa, eram colocados os vocais.

Pato Fu em 1998: John Ulhoa, Fernanda Takai,
Ricardo Koctus, e Xande Tamietti.
Televisão de Cachorro abre com “A Necrofilia da Arte”, uma reinterpretação de “Alfômega”, uma antiga música de Gilberto Gil. A releitura foi feita nos anos 1980 pela Sexo Explícito, banda da qual John Ulhoa fazia parte juntamente com Rubinho Troll, o responsável pela reinterpretação e alteração da letra da música de Gil. Em 1998, o Pato Fu a regravou e pediu autorização para lançamento a Gilberto Gil, que liberou a leitura nonsense. O Pato Fu fez uma pequena alteração ao incluir na letra o nome de Kurt Cobain entre os astros mortos presentes na letra da música.

As faixas seguintes são “Antes Que Seja Tarde”(uma das primeiras faixas de trabalho do álbum), “Nunca Diga”(cover da banda gaúcha Graforreia Xilarmônica) e “Eu Sei”, uma versão pop do sucesso da Legião Urbana. A banda sempre relutou em gravar alguma coisa da Legião, mas esta foi uma forma de agradecimento a Renato Russo (1960-1996) que foi uma espécie de “garoto-propaganda” do Pato Fu, que em várias oportunidades apareceu vestindo uma camisa com o nome da banda ou falando dela nas suas entrevistas. “Licitação” é um recado direto aos políticos e às suas obras inacabadas e verbas embolsadas por eles. Em “Vivo No Morro”, o Pato Fu mistura rock com jazz das antigas big bands, seguida da boa “Um Dia, Um Ladrão”.

Renato Russo: "garoto-propaganda" do Pato fu
“Canção Pra Você Viver Mais” é dedicada ao pai de Fernanda Takai que havia falecido antes da gravação do álbum. Ela havia tentado compor uma música em homenagem ao seu pai, mas as emoções da perda travaram a artista. Seu marido e membro da banda, John Ulhoa, tomou a iniciativa e compôs a canção. Com uma grande sensibilidade, John conseguiu traduzir o sentimento de Fernanda Takai em relação ao seu falecido pai.

“Tempestade” é mais um cover presente no álbum, desta vez do Maskavo Roots, e traz o riff de “Inbetween Days”, do The Cure. O rock “O Mundo Não Mudou” remete aos bons tempos da new wave dos anos 1980. “Televisão De Cachorro”, faixa que dá nome ao álbum, é um folk que descreve de maneira lúdica o poder hipnótico da televisão. Única faixa em inglês no álbum, “Spaceballs”, The Ballad” é um cover da banda mineira Yellowfante, e poderia muito bem encerrar o álbum, se não fosse a chatinha e dispensável “Boa Noite” que fecha Televisão De Cachorro.

“Canção Pra Você Viver Mais”, “Eu Sei”, “Antes Que Seja Tarde” e “Nunca Diga” se tornaram os grandes hits de Televisão De Cachorro, álbum que se tornou um sucesso de público e crítica, conquistando disco de ouro ao atingir a marca das 100 mil cópias vendidas. A popularidade da banda mineira cresceu e a expectativa para um próximo álbum tão bom ou melhor do que Televisão De Cachorro, também. O Pato Fu não decepcionou, veio com ótimo Isopor, em 1999, que alcançou um êxito comercial ainda maior.  

Faixas:
  1. "A Necrofilia da Arte" (Rubinho Troll - Gilberto Gil)
  2. "Antes que Seja Tarde" (Tarcisio Moura - John Ulhoa - Fernanda Takai)
  3. "Nunca Diga" (Frank Jorge)
  4. "Eu Sei" (Renato Russo)
  5. "Licitação" (John Ulhoa)
  6. "Vivo num Morro" (John Ulhoa)
  7. "Um Dia, Um Ladrão" (John Ulhoa)
  8. "Canção pra Você Viver Mais" (John Ulhoa)
  9. "Tempestade" (M. Vouraski – Marrara - Carlos Pinduca – Prata - Joana Lewis - Txotxa)
  10. "O Mundo Não Mudou" (John Ulhoa)
  11. "Televisão de Cachorro" (John Ulhoa)
  12. "Spaceballs, The Ballad" (Bob Faria – Bert - Zuim)
  13. "Boa Noite" (Ricardo Koctus) 
Pato Fu: Fernanda Takai (vocais, guitarra e violão), John Ulhoa (vocais, guitarra, violão e programações eletrônicas), Ricardo Koctus (vocal e baixo) e Xande Tamietti (bateria e percussões).

"Antes que Seja Tarde" 



"Eu Sei"



"Canção pra Você Viver Mais"



"Spaceballs, The Ballad"



"Nunca Diga"

Bélgica e Holanda: O Paraíso dos Discos (Parte II)

 

Seguindo a minha peregrinação pelo Paraíso dos discos, hoje encerro o mesmo com a passagem pela Holanda.
Partindo de Bruxelas para a Amsterdam, a terra da maconha livre, peguei o trem, e depois de três horas de viagem, cheguei na Estação Central. Saindo pela única saída que existe, aconselho imediatamente a adquirir um mapa, e com ele, ir para o Van Gogh Museum, fácil de ser localizado por estar situado próximo ao monumento IAMSTERDAM. Qualquer holandês sabe aonde fica esse monumento, e ele será o nosso ponto guia para as lojas.
Antes, um pequeno comentário sobre a cidade. Recheada de pequenos canais, me marcou bastante o forte cheiro de erva em toda a cidade, e como a mesma é consumida em público como se fosse um cigarro normal . Lojas especializadas em produtos com maconha estão espalhadas por toda a cidade, e inclusive artefatos como queijos, chocolates e chás são encontrados em supermercados. Me decepcionei um pouco com o quesito mulheres bonitas, inclusive na famosa Red Line, onde apenas duas meninas exibiam-se nas vitrines, completamente vestidas, sem mostrar nem um pouco algo mais excitante. No geral, uma cidade muito bonita, acolhedora para um passeio com a digníssima, e também para comprar discos.
Vamos à eles.
Second Life Music
Eu havia feito uma breve pesquisa na internet um dia antes, e vi que a loja mais recomendada para visitar era a Second Life Music. Foi bom começar por ela, não pelos discos, mas por que o vendedor me indicou todas as lojas que estavam abertas naquele dia. Descobri que das cinco lojas que eu havia anotado, três estavam fechadas, mas as demais ficavam abertas até as 18 horas, o que me motivou bastante.
Quanto a Second Life, localizada na Prinsergracht 366, tirando a atenção do vendedor, achei a loja muito fraca. Os discos (essencialmente LPs) são mal organizados, divididos apenas por sessões, como Rock Holandês, Rock em Geral, Música Clássica, Reggae e outros. Não há uma ordenação alfabética ou algo assim. 
Second Life internamente
Além disso, os vinis são bem usados, e o preço, variando entre 10 e 200 euros, não me convenceu em nada a comprar algo. O único material que eu realmente levaria era a caixa de charutos de Long John Silver (Jefferson Airplane) que o vendedor se recusou a vender por não vir o vinil junto (?!), mesmo eu querendo comprar.
Com o mapa repleto de marcações de lojas de discos, tive que escolher um roteiro que abrangesse o maior número de pontos turísticos e lojas ao mesmo tempo, principalmente por que isso já eram 13 horas. Como eu queria visitar a fábrica da Heineken, e a mesma fica próxima ao IAMSTERDAM, escolhi aquela região, a qual fica próxima ao centro da cidade.
Saindo então pela Prinsergracht, desci a mesma até a Leidseplein Street (nome fácil de lembrar pela comparação com o Led Zeppelin), e da Leidseplein, cheguei na Weteringschans 33 A 1017, onde está localizada a Record Palace. 
Record Palace
Quando vi a placa, lembrei que já conhecia essa loja de algum lugar, e lá dentro, consegui a resposta. O dono da loja me contou, em um inglês bem tosco, que Ed Motta é comprador assíduo da loja, fazendo importações frequentes, e então conclui que em alguma entrevista do sobrinho de Tim Maia ele deve ter citado o local.
O vendedor é muito camarada, e a loja é um atentado ao coração de um bolha. Com preços variando entre 5 e 100 euros, ela é muito limpa e organizada, possui dois andares bem distintos. No andar de cima, estão os discos de rock, englobando desde o Pop Rock do A-ha até o metal extremo de Venom, todos divididos em ordem alfabética e por sessões.
No andar de baixo, discos de jazz, soul, blues, música clássica, reggae e pop holandês. Os compactos ocupam uma pequena estante, e ali comecei a gastar meus euros na Holanda, ampliando minha coleção de compactos do Queen e de David Bowie.
Andar de cima da Record Palace (acima);
Andar de baixo da mesma loja (abaixo)
Nos discos, após uma longa busca, e ter ficado babando um bom tempo nos bootlegs do Pink Floyd (todos na faixa de 30 euros), adquiri o Long John Silver em versão original (com um pequeno defeito na capa, mas tudo bem, o que vale é que agora eu posso montar minha caixa de charutos), e mais os compactos citados. O problema do peso na bagagem da Ryan Air novamente me impediu de comprar diversos discos, mas enfim, a peregrinação tinha que continuar.
A Record Palace fica muito próxima ao monumento IAMSTERDAM, e após ir no mesmo, peguei a Stadhouderskade em direção a Ferdinand Bolstraat. Na esquina dessa rua com a Stadhouderskade fica a fábrica da Heineken, mas decidi ir primeiro em uma loja que fica atrás da fábrica, na própria Ferdinand Bolstraat, número 30, chamada Record Mania.
Record Mania
Assim como na Record Palace, é um local sensacional, com muitos discos e muito material para adquirir. O forte da loja é o rock e o reggae, e essa foi a loja de usados que encontrei mais CDs para vendas. Toda a loja é separada por sessões, em ordem alfabética e por bandas, o que facilita muito na busca do seu artista preferido, com um detalhe: você aqui vai encontrar Ozzy Osbourne e Dio na sessão Black Sabbath, assim como (por exemplo) Whitesnake, Trapeze e Rainbow na sessão Deep Purple. 
Divisões de LPs na Record Mania. Rock (acima),
Eletrônico e músicas do mundo (abaixo)
Como estava atrás de Jefferson Airplane, fui direto na sessão do grupo, e me deparei de cara com o que estava querendo: a versão original do álbum Bark, com a sacola de papel. O preço estava meio salgado, e como eu já estava com poucos euros, além do famoso “peso extra”, preferi investir na fábrica da Heineken. 
Record Mania internamente
Saí frustrado da Record Palace, com apenas dois vinis (um do Moody Blues e outro do Erasure) adquiridos por míseros 1 euro cada, e cheguei na Heineken. Porém, quando eu vi que a entrada na fábrica era o dobro do que custava o Bark, voltei para a Record e peguei o mesmo, ainda levando um raro (pelo menos no Brasil) CD do retorno do Quicksilver Messenger Service, gravado ao vivo em 2010, pelo mesmo preço (ambos) do que eu teria se tivesse ficado uma hora aprendendo como a Heineken é feita. Coisa de bolha, mas não me arrependo nem um pouco.
Feliz da vida, com dois discos que estava catando há algum tempo dentro da sacola, dirigi-me pela Vijzelstraat, dobrando a direita na Keizersgracht e retornando um pouco na Utrechtstraat, aonde fica localizada a maior loja de discos de Amsterdã, a Concerto Records.
Essa loja é impressionante! Na verdade são cinco lojas, uma ao lado da outra e todas unidas internamente. Ainda existe uma sexta loja na quadra seguinte, a qual vende apenas produtos fonográficos, como toca-discos, alto-falantes, fones-de-ouvido e outros aparatos musicais em geral.
As cinco lojas são cada uma para um estilo, ou seja: World /Jazz; Pop Rock;  Dance; Rock; Vinil / Usados. As quatro primeiras lojas vendem apenas CDs, enquanto a última vende CDs e LPs usados, além de LPs recém lançados. Todas elas são divididas em três andares, e realmente, dá para passar uma tarde ali dentro. 
Como estava com pressa, e certo de que estava violando o maldito peso da Ryan Air, olhei a loja muito rapidamente, mas com certeza, é um local que se um dia eu voltar para Amsterdã, irei preparar bem os bolsos (e as malas) para fazer aquisições, principalmente no que diz respeito aos discos novos.
Retornei pela Utrechtstraat, me dirigindo a Amstel Records, localizada na Amstelstraat, e que infelizmente estava fechada. Perto dela, encontrei uma feira de discos ao ar livre, com vinis bastante usados, na faixa de 1 a 5 euros. Não encontrei nada interessante ali, mais pela pressa em olhar os LPs do que pela qualidade do material em si.

Entre diversos canais, ruas estreitas e muitas fotos, além de cervejas baratas (bebi oito latas de 500 ml durante toda a tarde, e gastei no máximo 2 euros com TODAS elas), voltei para a estação de trem, certo de ter deixado muitos discos para trás, e com a certeza de que a Holanda vale bastante a pena ir buscar o que você está procurando, ou até mesmo, o que você nem imagina que existe.

Só prepare sua mala, e não viaje de Ryan Air, se não, o risco de pagar uma multa valiosa para ter aquele LP/CD é enorme.

Mapa com algumas lojas de discos em Amsterdã

O mapa acima mostra as lojas citadas no texto. Existem muitas mais espalhadas por Amsterdã, que eu torço poder visitar em uma próxima passagem pela cidade. 

Destaque

ROCK ART