Mairon: Conheço o Flea, mas não conheço o grupo Etna. Vamos ver o que nos aguarda aqui. Com certeza, se os membros fizeram parte do Flea, teremos bastante virtuosidade e influências de jazz.
André: Também disco e banda desconhecidos para mim. Vamos ver.
Ronaldo: Essa introdução com os rufos de bateria me soam como se uma erupção fosse começar. O trabalho do baixo nessa introdução é fantástico
André: O início me passou a impressão de ser algo espacial, mas agora começou uma pegada mais jazz rock
Mairon: Mazah, exatamente o que eu esperava. Baixão na cara, teclados e guitarras fazendo boas variações de acordes e uma bateria fulminante a la Billy Cobham.
André: A bateria é o destaque maior dessa intro
Mairon: Quais deles fizeram parte do Flea? Eu apostaria o guitarrista e o batera. Mesmo estilo de tocar (saliento que não conheço os músicos do Flea, só ouvi o disco)
Ronaldo: Todos os instrumentistas dessa banda são incríveis e me impressiona o quanto todos conseguem se destacar em diferentes momentos. É um jazz rock extremamente democrático e com composições maravilhosas, que fogem daquela estirpe da virtuose meramente demonstrativa
Mairon: Muito bom! Muito bom!
2 - South East Wind
Mairon: Essa já possui um clima mais viajandão.
André: Um tanto experimental mesmo, me lembra algo da turma do krautrock
Ronaldo: Mairon, ao que me lembro, todos que gravaram o segundo disco do Flea tocam no Etna. Essa faixa já tem uma pegada mais funky, apesar dos acordes tortos e um ar mais experimental
Mairon: Agora voltou ao jazz rock, mas daqueles mais ligados a turma do Brand-X. Se bem que é antes do Brand-X.
André: Tem vocais nesse disco, Ronaldo?
Ronaldo: O vocalista do Flea também era tecladista e no Etna, dedicou-se apenas em tocar, já que o Etna é todo instrumental.
Eu particularmente não sinto falta de vocais nesse disco. Acho as composições muito envolventes. Essa faixa também tem uns lances de percussão bem curiosos.
Mairon: Legal. Essa do teclado é uma surpresa. Curioso que o baixista não brilhava tanto no Flea mas aqui ele é um dos principais nomes. Boas intrincações nessa faixa.
André: Eu curto muito disco instrumental, não me faz falta. Já ouvi vários do The Enid, embora esta banda seja mais da turma do sinfônico
Ronaldo: Mairon, acho o trabalho de baixo do Topi Uomini (segundo disco do Flea) bem consistente, mas de fato não tem tanto destaque quanto no Etna. Acho esse riff de baixo e guitarra até assobiável, o que é uma raridade para qualquer coisa relacionada ao jazz. O final dessa faixa é da pesada!
André: Por enquanto, este baterista está se destacando aos meus ouvidos
Mairon: É que é um jazz meio samba com algo funk aqui né. É difícil definir. E bastante variações. Olha essa mudança de andamento para o solo de guitarra.
Ronaldo: Solo de guitarra absurdo!
Mairon: O baixista não pode ser o mesmo do Flea. Não consigo acreditar ...
André: Incrível o seu domínio principalmente as batidas de caixa
3 - Across the Indian Ocean
Mairon: Cada faixa, uma surpresa! Como você descobriu esse diamante bruto, Ronaldo?
André: É, esse gongo e o título da música já dá a dica de algo mais asiático
Mairon: E o baixão novamente em ação.
Ronaldo: Foi uma indicação de um amigo, que tinha um blog. Conheci pelos idos de 2006-2007 e desde então é um dos meus discos favoritos da Itália. Essas percussões no início me remetem aquelas experiências que o James Muir fazia no King Crimson
Mairon: Muito bom cara. Impressionante que nessa época, a Itália não devia quase que nada para a Inglaterra e a Alemanha em termos de música, mas depois da década de 80, não conseguiu produzir quase nada de relevante. Pior que lembra o Muir sim. Mas cara, novamente, o baixo é muito bom. E o batera é uma mistura assombrosa do DeJohnette com o Cobham.
André: A Itália sempre surpreende
Ronaldo: Essa faixa pra mim tem um clima de trilha sonora a la Luis Bacalov ou Lalo Schfrinn com uns toques étnicos. O guitarrista quando aparece, detona!
Mairon: Loucura, loucura, loucura! (#HuckModeOn)
Ronaldo: Os italianos parece que se desencantaram com o rock dos anos 80 em diante! (risos). Esse piano elétrico Fender Rhodes é onipresente no disco todo...sensacional! O baterista é de uma criatividade absurda.
André: Ronaldo, se um dia eu ganhar na megasena, prometo que te dou um sintetizador Moog de presente
Ronaldo: Oba! que maravilha!
4 - French Picadores
Mairon: Ronaldo, se um dia eu ganhar na mega-sena, prometo que te pago uma passagem de avião e um churrasco, mais muita cerveja, para tocar um Moog aqui em casa.
Ronaldo: Meu Deus, que honra!
Mairon: Mas que barbaridade, os caras não param de me surpreender! Olha esse violão, que LINDO!
Ronaldo: Essa música é uma beleza. Clima mais acústico... arrisco dizer que é a minha favorita desse disco.
Mairon: Até achei que tinha entrado uma propaganda do Youtube. Totalmente diferente do que ouvimos até então.
Ronaldo: Te remete àquelas paisagens da Sardenha...
André: Que linda faixa, um violão dando uma atmosfera folk, legitimamente vinda dos bardos da Itália
Ronaldo: Os caras, além de ótimos instrumentistas, eram compositores de mão cheia.
André: Depois te perguntarei a quantas anda esta banda
Mairon: Ótimo crescendo. Lindo!
André: É um sax, não é?
Ronaldo: Já perdi as contas de quantas vezes ouvi essa música. Consta do meu top list tranquilamente. Sim, um sax nesse trecho final. É o baixista quem toca.
André: Incrementou bastante este solo de sax ao fim
5 - Golden Idol
Ronaldo: Essa também com uma pegada soul-funk na introdução e o baixo em destaque.
André: Gostando muito deste álbum, é variado e cada faixa muito diferente uma da outra.
Ronaldo: Uma batida que lembra até um pouco de "Watcher of the Skies" do Genesis.
André: Cada instrumentista com seu momento de destaque e todos tocando pelo bem da canção, uma pena não os ter conhecido antes.
Mairon: Exato André, bem variado. E um instrumental de alta qualidade. Esse som é mais um que traz um pouco daquela sensação da Mahavishnu (Orchestra). Só que o estilo do guitarrista é bem mais conservador em relação ao McLaughlin'.
Ronaldo: Agora é só curtir, André! O guitarrista é mais econômico que o McLaughin'...apesar do virtuosismo dos músicos, acho que o forte do Etna é o conjunto e as composições. Não me soa exagerado em nenhum momento.
Mairon: Tudo muito bem dosado, e muito bem feito. Belo disco.
Ronaldo: Pena que a banda parou por aí mesmo...ficou só neste disco.
Mairon: Assim como várias tantas outras boas bandas italianas dos anos 70. Fernando Bueno tinha que estar ouvindo isso. Para ver o que é rock italiano raiz, e não a "nutellice" de PFMs e Bancos que ele ouve.
Ronaldo: Pois é...isso deveria ser melhor investigado do porquê.
Mairon: Cara, olha esse piano! Sensacional!
Ronaldo: Incrível! o cara trabalha o tempo todo no elétrico e aí vai pro acústico ... uma variação muito legal.
André: hahahahahaha! Fernando é da turma do prog Nutella.
Ronaldo: Obviamente que essas bandas tem seu mérito, mas o prog (rock) italiano vai muito além disso! o tecladista abusa das dissonâncias e dá um clima meio cinzento em todas as faixas.
Mairon: Sim. Aqui é um prenúncio do jazz rock. Parece que os caras acabaram de conhecer o Bitches Brew, e resolveram fazer algo nessa linhas, mas com um Mamma Mia italiano, adicionado de muito formaggio e pomarolla.
Ronaldo: e a faixa termina tal como começou!
6 - Sentimental Lewdness
Ronaldo: Hora do baterista mostrar seus dotes.
André: Devia ser ótimo ver uma faixa dessas ao vivo.
Mairon: Pronto, agora sim, o batera resolveu mostrar que sabe tocar e que é o dono da banda. Que baita intro hein? E que baita riff. Puta que pariu! Que baita música. Coisa boa quando ouvimos algo que em apenas 15 segundos já te faz gostar!
Ronaldo: Pois é...essa faixa é impressionante! acho que é a que mais remete ao Flea...tem um riff agressivo e me lembra também uma banda bastante subestimada nesse território do jazz-rock, o Isotope. Agora um clima mais melancólico e batidas mais lentas
Mairon: Ronaldo, um carinhoso e honesto "Vá Se Foder". Caralho cara, que baita música. Muito obrigado por me apresentar isso e fazer meu domingo mais feliz!
André: Do jazz rock, sempre curti os alemães do Embryo.
Ronaldo: hahahahaha...agradeço pelo xingamento carinhoso! Embryo é ótimo também! Eu quis trazer esse disco pra vocês porque acho que essa banda deveria ser mais reverenciada e conhecida. Acho esse disco dentre as melhores coisas produzidas no rico cenário italiano dos anos 70.
André: Não esperava menos do nosso mestre, nos "Recomendas" sempre conseguia achar uma banda setentista que encaixava no tema e ainda por cima era muito boa.
Ronaldo: Agora uma quebra incrível, com a bateria e a guitarra dialogando. Valeu André!
Mairon: E fica a pergunta, por que será que desmancharam o Flea para criar o Etna, e depois não vingou? Guerra de egos?
Ronaldo: Informação sobre esses caras na internet ou revistas é muito escassa. Nunca consegui entender o motivo e o porquê da banda não ter dado certo. Esse final é épico!
Mairon: Sonzeira do cão! Melhor faixa em disparado!
Ronaldo: a faixa passou do jazz-rock mais furioso para um final mais sinfônico e dramático!
André: Adorei também.
Mairon: Só eu percebi algo de Focus por aqui?
Ronaldo: Percebo também e algo do Genesis!
André: O guitarrista achei que passou meio despercebido no começo, mas nesse final aí ele também demonstrou a que veio
Ronaldo. Um final apoteótico!
7 - Barbarian Serenade
Ronaldo: Essa também mais tranquila, com a presença de mandolim e piano acústico. E baixo acústico!
Mairon: Meu Deus. Mais uma mudança. Os caras são os reis das variações musicais. Outra faixa suave, com o piano fazendo as honras. E esse arco no baixo é de chorar! Arrepiante!
Ronaldo: Variações extremamente bem pensadas. Esse disco é arrebatador e o potencial dessa banda era praticamente infinito.
André: É, realmente tinha que estar no mesmo patamar das grandes da Itália, é lamentável que não tenha vingado
Mairon: Por outro lado, admiro que os caras gravem um disco de tão alta qualidade e parem por aí. Tipo "Cara, ja fizemos uma obra prima, vamos curtir nossos filhos agora" ...
Ronaldo: Ouço esse disco e tenho dois sentimentos distintos - ou desisto de ser músico ou me dedico absurdamente para tentar amarrar o sapato de caras assim. Pois é Mairon...será que os caras realmente pensaram que já queimaram toda a lenha disponível? esse tema é lindíssimo...uma carga dramática muito boa. Talvez a faixa mais sinfônica do álbum
Mairon: Cara, eles já tinham gravado dois bons discos com o Flea, mas aqui a coisa é absurdamente melhor. Só pode ser ...
Ronaldo: as viradas do baterista são avassaladoras! e esse mandolim, que lindeza
Mairon: Outra faixa sensacional. Assim como a antecessora. Encerramento do disco é muito melhor que o seu início, e olha que o início já é de cair o queixo.
Ronaldo: Chegamos ao fim!
Comentários finais:Mairon: Cara, sem palavras. Ótimo disco. Instrumental muito bem trabalhado, músicos gabaritados, construções harmônicas fantásticas. Tudo perfeito.
André: Disco excelente, todos grandes instrumentistas que exibem suas qualidades sem qualquer detrimento a música, cada um protagonizando e se afastando dos holofotes no momento certo para que assim tenhamos um disco de enorme qualidade.
Ronaldo: Disco e banda muito subestimados. Composições incríveis, de alto nível, junto com um instrumental que é ao mesmo tempo virtuoso e extremamente funcional. Lamentável terem lançado apenas essa obra. Creio ter dado uma contribuição para que este petardo seja descoberto por quem se interessa pelo jazz-rock/progressivo.
Ronaldo: Obrigado meus caros, fico feliz que tenham apreciado!
Mairon: Com certeza Ronaldo. Bem distante dos também ótimos discos do Flea, em um nível muito superior. Dá vontade de ouvir novamente.
Ronaldo: Os músicos saíram de um hard rock/psicodélico para adentrar com muita propriedade no terreno do jazz rock.
André: Depois desse disco, se eu ganhar na megasena te dou um Moog e mais um Hammond, Ronaldo.
Ronaldo: Será recebido de bom grado! já estou na torcida por você! se eu ganhar, ao menos um LP original do Etna eu arremato no Ebay pra vocês!
Mairon: E fica a dica para procurar outros nomes do jazz rock italiano. Certamente iremos encontrar algo desse nível.