domingo, 29 de janeiro de 2023

Rap + Rock

 


Junção de bandas de rock com grupos de Rap/Hip-Hop não são exatamente uma novidade, vide a “colaboração” do Aerosmith com o Run DMC em uma releitura de “Walk This Way”. Na verdade, o Run DMC sampleou as partes do Aerosmith tendo a participação direta do vocalista Steven Tyler e do Guitarrista Joe Perry em algumas partes, embora a possibilidade de estas partes terem sido regravadas seja bastante discutível. De qualquer forma, a canção – lançada em 1986, no disco Raising Hell – popularizou o nome do Run DMC para o público geral disseminando o som do grupo entre aqueles que não estavam familiarizados com o gênero do trio, angariando novos fãs e admiradores.

O Aerosmith também se beneficiou com a colaboração tendo novamente seu nome nos noticiários musicais depois de anos em baixa, devido aos abusos de drogas e a vertiginosa decadência criativa. Além da sobrevida no meio artístico, a parceria ainda convenceria os executivos da gravadora Geffen a não dar um pé na bunda do grupo depois do fiasco do último disco dos caras, o fraquíssimo Done With Mirrors. Logo depois de lançada – e nos anos seguintes – a junção de ambos os grupos mudou consideravelmente tanto o mainstream, quanto o underground de ambos os estilos musicais.

Steven Tyler e Run DMC.

Grupos de rock das mais variadas vertentes incorporariam elementos de Hip Hop em sua música. Artistas de Rap aliaram o ataque lírico do gênero à agressividade musical do Rock.

Cinco anos depois da dobradinha Aerosmith/Run DMC é a vez do Anthrax juntar forças com o Public Enemy através da poderosa “Bring The Noise” (ou “Bring Da Noize”). Desta feita, na mão oposta, uma vez que não foi o Public Enemy a samplear partes da canção do Anthrax, mas sim, esse regravar a música dos rappers (lançada originalmente quatro anos antes) com a participação do MC Chuck-D. Mais pesada, poderosa e impactante que “Walk This Way” – tanto pelo ataque Thrash do Anthrax, quanto pela ira do Public Enemy – “Bring The Noise” é um soco à mão pesada muito bem dado e certeiro.

Não por acaso, a canção passaria a fazer parte de boa parte dos shows do Anthrax. Contando, muitas vezes com Chuck-D e seu parceiro estranhão Flavor Flav (uma das maiores figuraças da música americana). Lançada originalmente como na coletânea de lados B e “sobras” Attack Of The Killer B’s em junho de 1991. Apesar da choradeira de alguns conservadores, a versão é forte e empolgante. Não poderia ser diferente, uma vez que se trata de dois agressivos representantes.

Anthrax e Public Enemy.

Passados dois anos, em 1993, chega às prateleiras a trilha sonora do filme “Judgment Night”. Thriller de ação meia boca com elenco encabeçado pelo ótimo Cuba Gooding Jr. e pelo bem meia-boca Emilio Estevez (o irmão menos talentoso de Charlie Sheen). O longa fez pouquíssimo sucesso, mas sua trilha sonora chamou bastante atenção por sua proposta até então inusitada: juntar em um único álbum artistas de Rap e Rock, unindo um artista de cada estilo em cada faixa.

Entre vários grupos do famigerado “Rock Alternativo” – tais quais Mudhoney, Sonic Youth, Dinossaur Jr. e outros – temos o já na época famoso Pearl Jam, o Therapy? (que com ou sem RAP é sempre chato) e mais alguns. Os que mais chamam a atenção, no final das contas, são os grupos mais pesados. O Biohazard sempre teve algo de Hip-Hop mesclado ao seu Hardcore bem ao estilo NY (influenciado por Agnostic Front, Cro-Mags e afins) e aqui junta forças novamente com o Onyx. Ambos já haviam feito uma parceria na ótima “Slam”, do mesmo ano. Desta feita, a pedrada atende pelo mesmo nome do filme e é outra parceira do gênero merecedora de crédito.

Living Colour junta forças com os veteranos do Run DMC em “Me Myself & My Microphone” com seu groove estranhão, mas muito bacana. Outra que merece uma nota alta é “Just Another Victim” que une o minimalismo quase industrial do Helmet com a batida seca e pontual dos Rappers “Hooligans” do House of Pain. O ritmo marcial da música é quase hipnótico e um tanto perturbador.

Mas o que pega mesmo são duas parcerias excelentes. De longe, as melhores do disco e, com certeza, algumas das melhores de toda a história da junção Rap + Rock/Metal. A união de forças do Faith No More com o Boo-Yaa T.R.I.B.E. beira o absurdo de tão bacana e ensandecida. Inclusões de elementos do Rap nunca foi novidade no som do FaithNo More, mas nada chega perto do que temos na maravilhosa “Another Body Murdered”. Da parte do FNM; poucos teclados em forma de um piano pontual,  muita guitarra na cara, um fortíssimo trabalho de baixo e gritos desesperados de Mike Patton (um dos mais versáteis e criativos vocalistas da música) fazendo um contraponto perfeito para o ritmo denso e marcado do BYT – grupo americano de origem em uma tribo samoana. Quase inacreditável. Essa música é uma pérola não só entre os Crossovers. Até porque parece ser um único grupo, tamanha a sintonia entre as duas coisas. Impressionante!

Para terminar, a faixa que na época criou um alvoroço e uma interminável fiasqueira dos “radicais”: “Disorder”. Parceria entre Ice-T e o Slayer. Sim… aquele Slayer mesmo! Apesar da ladainha de “vendidos”, “traidores” e afins dos chorões de plantão é preciso deixar claro que a música é uma paulada certeira! Um tijolaço que na verdade pouco tem de Rap e/ou Hip Hop, lembrando muito aquele Hardcore Novaiorquino dos supracitados Agnostic Front e Cro-Mags. A explicação para esse “resultado” é simples: a faixa, na verdade, é um “medley” de 3 músicas dos veteranos da banda punk escocesa Exploited. O som reúne a agressividade característica do clássico – cru – punk bretão, a fúria lírica do Rap e a violência sônica insandecida do Slayer. Para quem já tinha um pouco de conhecimento acerca dos grupos que influenciaram tanto Slayer quanto Ice-T já esperava uma faixa violenta e agressiva, qualquer que fosse o estilo. Ambos tiveram sua formação musical calcada no Punk Rock inglês e no Hardcore americano dando base para toda agressividade que viria a tomar forma e fazer parte do som de ambos no passar dos anos.

Existem também aquelas bandas que não fazem necessariamente junções com grupos de um outro estilo/vertente, mas incorpora participações esporádicas de músicos de estilos que não o seu em seus discos. Temos como exemplo o Cypress Hill que além de manter um pé no rock, vez por outra tem algum músico de rock participando em suas fileiras como no álbum Skull And Bones de 2000, onde músicos do Fear Factory e do Rage Against The Machine dão as caras. Esse mesmo RATM é outro bom exemplo do encontro Rap/Rock. Embora não façam uso de convidados em seus discos, o som do grupo casa muito bem os dois estilos, utilizando de uma forma ímpar o que de mais agressivo e energético os dois estilos oferecem.

Cypress Hill.

Muito além da pobreza de espírito e do radicalismo imbecil e cego há uma infinidade de grupos, álbuns e músicas dignas de figurarem nas melhores coleções de rock  (e de Rap, pq não?) daqueles que não abrem mão do bom gosto em detrimento do preconceito.

Vale a pena se informar e conhecer não só os grupos aqui citados, mas também ir mais a fundo e descobrir muito material de qualidade que a união desses dois estilos pode proporcionar!

Kiss Alive!, uma saga em cinco partes

Hoje vamos tratar de cinco álbuns ao vivo que o Kiss lançou oficialmente, conhecidos como Alive!

O primeiro Alive! foi lançado em 10 de setembro  de 1975 e é tido por muitos como um dos melhores discos ao vivo de todos os tempos. Nele, a formação clássica da época mascarada: Paul Stanley (guitarra, vocais), Gene Simmons (baixo, vocais), Ace Frehley (guitarra, vocais) e Peter Criss (bateria, vocais). Apesar de vários overdubs (gravações feitas em estúdio para corrigir os erros cometidos ao vivo) comprovados e enaltecidos com o passar dos anos, trata-se de um disco fundamental em qualquer coleção que se preze. Trazendo apenas canções dos três primeiros discos (Kiss, de 1974; Hotter Than Hell, de 1974; e Dressed to Kill, de 1975) é um petardo seminal, destacando versões definitivas para “Black Diamond”, “Firehouse”, “Cold Gin” e “Strutter”, entre outras de grande relevância.

Não existe nada que se compare às performances hipnotizantes de “Cold Gin”, “She” (um dos melhores solos da carreira de Ace Frehley) e a incrível “100.000 Years”, canção que levou este que vos escreve a se apaixonar pelo grupo. Nela, Paul Stanley dá uma aula de como agitar uma plateia sem ser arrogante.

Alive! vendeu tanto que mudou a carreira do Kiss. Foram mais de 500 mil cópias apenas nos Estados Unidos (onde atingiu a nona posição em vendas) alavancando a carreira da banda e o status dentre os grandes nomes do rock. A partir dele, o nome Kiss permaneceria como símbolo de marketing feito com muito talento e, principalmente, sinônimo de boa música.

Dois anos depois, no dia 14 de outubro de 1977, a mesma formação clássica fez Alive II chegar às lojas. Planejado como o primeiro ao vivo do grupo a ser registrado no Japão, na verdade Alive II é um pequeno registro de shows ocorridos nos Estados Unidos, e ainda um lado inteiro de estúdio com as inéditas “All American Man”, “Rockin’ in the USA”, “Larger Than Life”, “Rocket Ride” e a cover para “Anyway You Want It”, de Dave Clark.

Na parte ao vivo, registros históricos de sua melhor fase, abrangendo os álbuns Destroyer (1976), Rock and Roll Over (1976) e Love Gun (1977). Ouvir as violentas versões de “Love Gun”, “Detroit Rock City”, “God of Thunder” e “I Want You” é sentir o peso que o quarteto mascarado era capaz de dar às suas canções em cima do palco. Apesar de pequenos deslizes, como as inclusões de “Christine Sixteen”, “Hard Luck Woman” e “Tomorrow and Tonight”, o Kiss mostra aquilo que sabia fazer de melhor: tocar o bom e simples rock’n’roll, na alucinante versão de “Shout It Out Loud”.

É em Alive II que “Beth” ganha o status de clássico com uma versão definitiva (assim como foi com “Love of My Life”, do Queen), tendo Peter Criss comandando a bela letra da canção. As especulações sobre overdubs também foram comprovadas, mas em nada comprometem ao resultado final de mais um grande disco. Não tão perfeito quanto seu antecessor, mas ainda assim, essencial. O álbum vendeu muito mais que Alive!, chegando na incrível marca de dois milhões de cópias apenas nos Estados Unidos (onde atingiu a sétima posição nos charts da Billboard). 

Os brindes de Alive II: o livro The Evolution of Kiss (acima);
as tatuagens removíveis (abaixo).

Como destaque extra, a versão original deste LP traz apetitosos itens de colecionador. Dentre eles, liner notes em relação à cada canção, um livreto de fotos chamado “The Evolution of Kiss” e mais um conjunto de tatuagens removíveis. Encontrar essa versão hoje em dia é mais difícil do que encontrar uma agulha no palheiro.

Depois de mais de quinze anos, em 1993 uma nova formação registrou a terceira edição Alive. Paul Stanley e Gene Simmons agora estavam acompanhados de Eric Singer (bateria, vocais) e Bruce Kulick (guitarra, vocais). Sem máscaras e com uma carreira que atingiu muitos pontos baixos durante os anos 80, mas voltou ao topo a partir do sucesso do álbum Revenge (1992). 

É exatamente a turnê deste álbum que está registrada em Alive III, lançado no dia 18 de maio de 1993. Como primeiras atrações estão as canções da fase sem máscaras, como “Heaven’s on Fire”, “God Gave Rock ‘n’ Roll To You” e “Forever”. É inegável, contudo, que os maiores destaques ficam para os primeiros registros ao vivo de torpedos do porte de “I Was Made for Loving You”, “Creatures of Night”, “I Still Love You” e “I Love it Loud”, além de Bruce Kulick mandando ver em uma interessante versão para “Star Spangled Banner”.

Repetidas em relação aos dois antecessores, estão apenas “Rock and Roll All Night”, “Detroit Rock City” e “Deuce”. Um registro mais fraco do que Alive! e Alive II, com uma qualidade de gravação um pouco desejável, mas que vale por ser o único registro ao vivo com Kulick nas seis cordas. Alive III vendeu 500 mil cópias nos Estados Unidos e tornou “I Love it Loud” mais um hino obrigatório de ser apresentado para os fãs a partir de então.

Em 1995, o especial MTV Unplugged trouxe novamente a formação clássica (Stanley, Simmons, Criss e Frehley) em uma participação especial, registrada em Kiss Unplugged, lançado no mesmo ano. Apesar de não fazer parte da série Alive, é um grande disco, com “I Still Love You” sendo uma aula da potência vocal de Paul Stanley, um verdadeiro mestre nos microfones.

No ano seguinte, foi lançada a coletânea You Wanted the Best, You Got the Best!!!, fazendo um apanhando do que há de melhor nos dois primeiros volumes da série e quatro canções registradas ao vivo pela primeira vez: “Room Service”, “Two Timer”, “Let Me Know” e “Take Me”. 

Posteriormente da reunião acústica, o Kiss voltou a usar máscaras, trouxe novamente Frehley e Criss como membros oficiais, lançou o álbum Psycho Circus (1998) e voltou a fazer shows com todas as peripécias que marcaram sua carreira durante toda a década de 70 e início dos anos 80. 

Para comemorar os trinta anos da banda, Alive IV chegou às lojas no verão de 2003, mais precisamente no dia 22 de julho, resgatando a épica performance do quarteto mascarado (agora com Tommy Thayer no lugar de Ace Frehley) ao lado da The Melbourne Symphony Orchestra. 

A versão original, em formato de CD duplo, apresenta o show realizado em Melbourne no dia 20 de fevereiro de 2003. Este show foi dividido em três atos. No primeiro, apenas o quarteto interpretando clássicos como “Deuce”, “Strutter”, “Let Me Go Rock ‘n’ Roll” e “Psycho Circus”. No segundo, um momento acústico, acompanhado por apenas uma parte da orquestra e resgatando belas versões para “Forever”, “Sure Know Something”, “Beth”, “Goin’ Blind” e “Shandi”.

É a partir do terceiro e último ato (CD 2) que a orquestra inteira entra em ação. É impossível resistir ao embalo e ao arranjo de clássicos do tamanho de “Detroit Rock City”, “Do You Love Me?”, “God of Thunder”, “Love Gun” e “I Was Made for Loving You”. Somente esse ato já vale a aquisição da versão original. Meses depois, Alive IV foi lançado também em um formato simples, fazendo uma mescla de todos os atos e trazendo como bônus uma cover para “Do You Remember Rock ‘n’ Roll Radio?” (Ramones). Essa faixa foi lançada originalmente no CD tributo aos Ramones We´re a Happy Family (2003).

A apetitosa caixa Kiss Alive! 1975 – 2000

Em 2006, o box set Kiss Alive! 1975-2000 apresentou os três primeiros Alive em um caixote exclusivo. De quebra, temos o CD que era para ter se tornado a primeira versão de Alive IV, o qual supostamente deveria ter sido lançado em 2000, comemorando o retorno da formação clássica do grupo. Problemas contratuais acabaram impedindo de o mesmo chegar nas mãos dos fãs. Ainda em 2006, aproveitando-se da moda dos chamados Instant Live, que captura shows ao vivo de uma banda na íntegra, o Kiss lançou dois CDs nessa série, que não acrescentam muito do ponto de vista musical na vasta coleção do grupo, servindo realmente como item de coleção.

A quinta e última parte da saga Alive foi lançada em 2008 com o lançamento da série de CDs Kiss Alive 35, os quais registram shows na íntegra da turnê de trinta e cinco anos do grupo, através da Europa e da América do Norte, no mesmo formato que os já citados Instant Live. A formação desses CDs conta agora com Stanley, Simmons, Thayer e Singer. 

O curioso é que essa série não limitou-se somente aos CDs, também foi lançada em pendrives especiais, trazendo os shows no formato MP3 com qualidade de 320 kbps, acompanhados de uma pulseira personalizada da banda. Da série, foi lançado The Best of Kiss Alive 35, que já foi apresentado para você, leitor do Consultoria do Rock, pelo colega Pablo Ribeiro.

Sonic Boom Over Europe (capa original, acima) e a
versão em pendrive (abaixo)

 O mesmo formato foi repetido em 2010, com o lançamento da série Kiss Sonic Boom Over Europe, a qual também chegou aos fãs no formato MP3, em um luxuoso pendrive. A formação é a mesma que gravou os discos Alive 35. Os shows registrados compreendem a turnê de promoção do álbum Sonic Boom (2009), na Europa e na América do Norte. Até agora é o lançamento mais recente do Kiss nesse formato. 


Mas certamente, não será o último. Afinal, uma banda contendo Paul Stanley e Gene Simmons não irá limitar-se a concluir uma saga com apenas cinco discos. Fica a expectativa de quando a banda vai lançar mais um item de colecionador para os fãs, privilegiando sempre o melhor já registrado em sua longa carreira que completou cinquenta anos no início de 2023.



CRONICA - JEFF BECK | Wired (1976)

O lançamento em março de 75 de Blow By Blow pegou os fãs de Jeff Beck com o pé esquerdo. Longe da selvageria do hard rock dos primórdios com o Jeff Beck Group e o BBA, Blow By Blow não é nem mais nem menos que um Lp de jazz rock instrumental. Mas um jazz rock com um groove poderoso e de muita qualidade. A volta de 33 será certificada como ouro em outubro do mesmo ano. Jeff Beck que passou seu tempo procurando por si mesmo artisticamente, sob a influência do guitarrista John McLaughlin parece ter encontrado seu caminho. Exceto que ele tem que confirmar. Especialmente desde que uma oportunidade se apresenta a ele.

De fato, John McLaughlin acabou de dividir a Orquestra Mahavishnu. Jeff Beck acredita na boa ideia de convidar o tecladista Jan Hammer e o baterista do Norada, Michael Walden, para seu novo álbum. De resto encontramos o fiel Max Middleton no piano elétrico, Wilbur Bascomb no baixo e em certas peças Richard Bailey na bateria. No início de 1976, entre Londres e Hollywood, essa bela equipe se trancou em estúdio para lançar Wired em maio do mesmo ano, totalmente instrumental, também em nome da gravadora Epic.

Se Wired for uma sequência de Blow By Blow , será muito diferente. E isso por muitas razões. Aqui, saia da seção de cordas que transfigurou Blow By Blow , mesmo que o Beatles George Martin ainda está produzindo, um trabalho que ele tem que dividir com Jan Hammer. Quanto à escrita, Jeff Beck está excluído. Ele não é creditado em nenhum título. Boa parte das composições são assinadas por Norada Michael Walden. Acresce a chegada dos sintetizadores moog manipulados por Jan Hammer que sanitizam o todo, podendo tornar-se intrusivos e rivalizar com a Stratocaster de Jeff Beck. É de se perguntar se Jeff Beck não é o convidado de seu próprio álbum. Mas o guitar hero que sabe se adaptar, se encaixar no molde não vai desistir. É verdade que escrever não é o seu forte. Então ele pede a Max Middleton e Wilbur Bascomb para começar a acalmar o ardor dos desertores da Orquestra Mahavishnu .E depois há o seu toque, agressivo, espontâneo, blues, rápido e inventivo capaz de enfrentar o estilo excessivo de Jan Hammer tanto nos riffs quanto nos solos.

O conteúdo permanece. A Wired vai oferecer peças, certamente complexas, mas mais diretas de forma a surpreender os olhos e os ouvidos, longe da delicadeza que joga com as emoções que caracterizou o Blow By Blow .

O vinil abre com a composição única de Max Middleton, a percussiva “Led Boots” para uma grande demonstração de força entre cada instrumento. No final do primeiro lado surge a contribuição de Wilbur Bascomb, “Head for Backstage Pass”, onde entre o slap e o funk os aficionados de Stanley Clarke vão encontrar a sua conta. No meio há a balada sensual que nos traz de volta um pouco ao opus anterior, "Goodbye Pork Pie Hat", um cover do contrabaixista Charles Mingus. Este último seduz, vai dar os parabéns a Jeff Beck por esta magnífica versão.

A sequência ficará a cargo de Jan Hammer e Narada Michael Walden, onde Jeff Beck colocará sua guitarra lá para solos destrutivos e insalubres. "Come Dancing" é um funk mid-tempo legal e atrevido. Como um soco, “Blue Wind” com variações de ritmos chega como uma bala de canhão. "Sophie" com mudanças de ritmo, passa da balada para a febre do funky rock. Grooby, "Play with Me" exala euforia.

O disco finaliza com a linda e sonhadora "Love Is Green" com esse belíssimo piano tocado por Narada Michael Walden e a nostálgica guitarra de Jeff Beck.  

Se Wired não é tão sedutor quanto Blow By Blow , ainda assim é fantástico. O sucesso servirá de pretexto para uma digressão com o Jan Hammer Group.

Títulos:
1. Led Boots
2. Come Dancing
3. Goodbye Pork Pie Hat
4. Head For Backstage Pass
5. Blue Wind
6. Sophie
7. Play With Me
8. Love Is Green

Músicos:
Jeff Beck: guitarra, baixo
Max Middleton: clavinete, piano
Jan Hammer: sintetizador, bateria
Wilbur Bascomb: baixo
Narada Michael Walden: bateria, piano
Richard Bailey: bateria
Ed Greene: bateria

Produção: George Martin, Jan Hammer

CRONICA - FRANKIE MILLER | Falling In Love (1979)

O escocês Frankie Miller estava olhando para a América há algum tempo, e a América o ignorava teimosamente. Double Trouble , apesar de seu bom desempenho, vinha lutando para encontrar um lugar entre os 200 mais vendidos do ranking americano, conseguindo uma pontuação ainda pior que Full House , álbum anterior que entretanto não quebrou tijolos. O sucesso estava em sua pátria onde Frankie Miller o veria finalmente chegar; e ironicamente, foi com a retoma de um título nacional, a disciplina rainha do país que tanto o fez sonhar, que viria a registar a melhor prestação da sua carreira, tanto na Grã-Bretanha (um belo lugar) do que na Noruega (no topo da parada de singles) e até mesmo na Austrália. No entanto, a música — “Darlin'” — está longe de representar a quintessência do repertório de Miller, que até então se mostrava muito mais avantajado no rhythm & blues.

A ideia de ganhar os tímpanos nos Estados Unidos provavelmente não foi abandonada, mas depois de Nova Iorque, é em Inglaterra que Miller vai gravar este sexto álbum com o produtor australiano David Mackay, que acompanhou notavelmente os primórdios da carreira. Bonnie Tyler, e uma equipe amplamente renovada. A primeira manchete, aliás, parece confirmar que Miller ainda está de olho nos Estados Unidos. Country rock no programa da muito boa “When I'm Away From You” que Kim Carnes fará cover dois anos depois em Mistaken Identity . Estranhamente, o título não se imporá em single, nem na Grã-Bretanha (um pequeno 42ºlugar) ou em outro lugar. A melodia é, no entanto, muito mais cativante do que a banal "Darlin'" retomada neste disco após o sucesso que acabamos de ver nas vendas de 45 rpm em outubro de 1978.

Mudança de programa a partir da segunda faixa com um cover surpreendente e de muito sucesso de “Is This Love”, de Bob Marley. Miller o torna quase irreconhecível, apagando sua coloração reggae para passá-lo por um grinder de rhythm & blues modernizado, cujos arranjos lembram um pouco o que as Pointer Sisters faziam naquela época. Começos muito promissores, que infelizmente não serão seguidos de efeitos, porque a sequela se limita a levar-nos a passear entre influências country e rhythm & blues, mas sem o brilho que muitas vezes encontramos no álbum anterior. As músicas são corretas e perfeitamente interpretadas, às vezes levantamos os ouvidos como em "A Woman To Love" que nos traz de volta mais uma vez ao estilo de Bob Seger, mas o tédio se instala rapidamente.

Sem surpresa, este disco não fará faíscas nos rankings, exceto na Noruega, onde o estrondoso sucesso de "Darlin'" provavelmente servirá de locomotiva.

Títulos:
01. When I’m Away From You
02. Is This Love [reprise BOB MARLEY & THE WAILERS]
03. If I Can Love Somebody
04. Darlin’ [reprise POACHER]
05. And It’s Your Love
06. A Woman To Love
07. Falling In Love With You
08. Every Time A Teardrop Falls
09. Pappa Don’t Know
10. Good To See You [reprise ALLAN TAYLOR]
11. Something About You [reprise FOUR TOPS]

Músicos:
Frankie Miller: vocal, guitarra, gaita, backing vocals
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Tim Renwick: guitarra
Ed Deane: guitarra
Terry Britton: guitarra
Steve Simpson: guitarra, bandolim, acordeão
Chris Hall: teclado
Paul Carrack: teclado, backing vocals
Tex Comer: baixo
Dave Wintour: baixo
Fran Byrne: bateria
Chris Slade: bateria
Ron Asprey: metais
Barry Guard: percussão
Plain Sailing: backing vocals
Linda Taylor: backing vocals

Marcador: Crisálida

Produtor: David Mackay

Destaque

Kid Abelha – Tomate (1987)

  Tomate é o terceiro álbum de Kid Abelha, lançado originalmente em 1987 pela Warner    Music . Foi o primeiro trabalho sem Leoni, principal...