domingo, 29 de janeiro de 2023

10 discos essenciais: Ney Matogrosso

 


Ao longo de cinco décadas de carreiras, marcada por transgressões, inúmeras turnês e uma longa discografia, Ney Matogrosso construiu uma carreira vitoriosa. Sempre foi um artista que primou pela qualidade do seu trabalho, desde o cuidado com o figurino à iluminação dos palcos, passando pelo repertório dos seus discos e apresentações.

Ney cravou seu nome na história da música brasileira não apenas pela sua voz marcante e pelo seu talento, mas também pela sua postura transgressora, ao ter a coragem de enfrentar o preconceito contra a homossexualidade, orientação sexual que ele assumiu ainda muito jovem, aos 17 anos. No início da carreira, quando integrava os Secos & Molhados, Ney foi pop star com um visual andrógino, maquiado e cantando com uma voz aguda quase feminina, numa época em que o Brasil estava mergulhado numa ditadura militar.

Filho de pai militar e mãe dona de casa, Ney de Souza Pereira nasceu em 01º de agosto de 1941, em Bela Vista, no Mato Grosso do Sul. A carreira musical começou tardia, em 1971, quando aos 30 anos, foi convidado para integrar o conjunto Secos & Molhados. Entre 1973 e 1974, o conjunto lançou dois discos e se tornou um dos maiores fenômenos da música brasileira, graças ao visual andrógino que chocou os conservadores e às músicas de alta qualidade que misturava rock, folk music e música portuguesa, e letras de uma rica sensibilidade poética. Após um sucesso avassalador, o grupo acabou em 1974.

Em 1975, Ney Matogrosso lançou o seu primeiro disco solo, Água do Céu – Pássaro, e prosseguiu com o visual andrógino consagrado com os Secos & Molhados. No ano seguinte, emplacou o primeiro grande sucesso de carreira solo, “Bandido Corazón”, canção do seu segundo álbum solo Bandido. Faixa do álbum Feitiço (1978), “Não Existe Pecado Ao Sul do Equador” vira tema de abertura da novela Pecado Rasgado, exibido pela TV Globo, em 1978, e tem boa execução nas rádios. Através do álbum Seu Tipo, de 1979, Ney se apresenta pela primeira vez sem maquiagem e sem fantasia.

Ney conquista disco de ouro em 1981 com o disco Ney Matogrosso, graças ao estouro da música “Homem com H” nas paradas de sucesso. Dois anos depois, “Telma, Eu Não Sou Gay”, música em que Ney é acompanhado pelo grupo João Penca & Seus Miquinhos Amestrados, é uma das mais tocadas do ano no Brasil. Em 1985, Ney abre a primeira edição do Festival Rock in Rio, no Rio de Janeiro. Acompanhado de um conjunto formado por músicos notáveis, Ney lança em 1987 o seu primeiro disco gravado ao vivo, o elogiado Pescador de Pérolas.

Durante a década de 1990, lançou uma série de discos dedicados a intérpretes ou compositores consagrados como Ângela Maria (Estava Escrito, 1994), Chico Buarque (Um Brasileiro, 1996), Antônio Carlos Jobim e Heitor Villa-Lobos (O Cair da Tarde,1997) e Cartola (Ney Matogrosso interpreta Cartola, 2002). Em parceria com a banda Pedro Luiz & A Parede, Ney lançou em 2004 o disco Vagabundo, que deu origem a uma turnê que resultou no disco e num DVD gravados ao vivo. Na 28ª edição do Prêmio da Música Brasileira, em 2017, Ney foi o artista homenageado. Lança em 2019, o álbum Bloco na Rua, que contou com uma turnê nacional. Em 2021, em comemoração aos 80 anos de idade do cantor e 50 anos de carreira, foi lançado o EP Nu Com Minha Música e o livro Ney Matogrosso, a Biografia, de Júlio Maria, pela editora Companhia das Letras.

Abaixo, confira dez discos essenciais da discografia de Ney Matogrosso.


Água do Céu – Pássaro (Continental, 1975). Também conhecido como Homem de Neanderthal, este é o primeiro álbum solo de Ney Matogrosso. É um trabalho que tem uma inclinação para o experimentalismo, o que talvez explique a sua pouca aceitação popular na época de seu lançamento. Mesmo assim, duas faixas do álbum chegaram a ter alguma visibilidade, “América do Sul” e “Coubanakan”.




Bandido (Continental, 1976). Para este segundo disco solo de Ney, a estrela do rock brasileiro, Rita Lee, compôs especialmente “Bandido Corazón”, uma canção pop com inspiração na música caribenha que se tornou o primeiro grande sucesso da carreira solo do ex-Secos & Molhados. O disco traz uma releitura de “Mulheres de Atenas” (de Chico Buarque), além de “Gaivota” (de Gilberto Gil) e a maliciosa “Trepa no Coqueiro” (de Ary Kerner).




Feitiço (Warner, 1978). Este álbum marca a estreia de Ney Matogrosso na Warner, gravadora recém-instalada no Brasil na época. Feitiço gerou polêmica por causa da foto da parte interna da capa dupla, onde Ney Matogrosso aparece deitado e nu, numa pose provocante e cercado de flores. O grande sucesso do álbum foi “Não Existe Pecado Ao Sul do Equador” (de Chico Buarque), que com sua levada em ritmo de disco music, foi tema de abertura da novela Pecado Rasgado, da TV Globo, em 1978, e que ajudou a impulsionar as vendas de Feitiço. Destaque também para as faixas “Bandolero”, “Mal Necessário” e a regravação de “Tic-Tac do Meu Coração”, originalmente gravada por Carmem Miranda em 1935.


Seu Tipo (Warner, 1979). Neste álbum, Ney abandonou pela primeira vez a maquiagem e a fantasia. A música que virou sucesso nas rádios foi a faixa-título. “Encantado”, versada para o português por Caetano Veloso a partir de “Nature Boy”, gravada originalmente por Nat King Cole, traz nos seus versos uma conotação homossexual. O disco contém também canções de gente consagrada como Tom Jobim (“Falando de Amor”), como também de artistas que estavam em início de carreira como Joyce (“Ardente”) e Fátima Guedes (“Dor Medonha”). Ney faz uma visita ao passado glorioso na regravação de “Rosa de Hiroshima”, grande sucesso do seu ex-conjunto.


Ney Matogrosso (Barclay/Ariola, 1981). Ney inicia a nova década numa nova gravadora, a Ariola, e o seu primeiro trabalho pela companhia foi este álbum que leva o seu nome, que contou com os arranjos sofisticados de César Camargo Mariano e Lincoln Olivetti. Puxado pelo sucesso do forró irreverente “Homem com H”, que estourou nas rádios de todo o Brasil, o álbum conquistou o disco de ouro. Outras faixas que também fizeram sucesso radiofônico foram “Amor Objeto” e “Vida,Vida”, esta última tema de abertura da novela Jogo da Vida, exibida pela TV Globo em 1981.



Mato Grosso (Barclay / Ariola, 1982). Este álbum repete a “fórmula” musical que deu certo no disco anterior. Na linha forrozeira de “Homem com H”, Ney gravou para este álbum “Por Debaixo dos Panos”, uma crítica bem humorada, mas relevante sobre corrupção no Brasil. A faixa “Promessas Demais” foi outra do disco que também ficou conhecida, muito por conta de ter sido tema abertura da primeira versão da novela Paraíso, exibida pela TV Globo em 1982. O destaque deste disco fica para o bolero pop “Tanto Amar”, composta por Chico Buarque, que embora tenha sido gravada antes pelo próprio autor, em 1981, ganhou no entanto uma versão definitiva com a voz de Ney Matogrosso.


... Pois É (Barclay/Ariola,1983). Nono álbum da carreira de Ney, ... Pois É abre em ritmo comemorativo aos dez anos do estouro de Ney com os Secos & Molhados, através de um pout-pourri com os primeiros sucessos da carreira solo do cantor. O disco traz uma versão na voz de Ney para “Pro Dia Nascer Feliz”, do Barão Vermelho, o que ajudou a banda carioca a ficar conhecida perante o grande público. A faixa “Calúnias” (“Telma, Eu Não Sou Gay”), versão hilária de “Tell Me Once Again, do Light Reflections, com Ney acompanhado da banda João Penca & Seus Miquinhos Amestrados, foi uma imposição da gravadora, que mesmo contrariando Ney. A música caiu no gosto do público, mas anos mais tarde, quando álbum foi relançado em formato CD, ela foi excluída.


Pescador de Pérolas (CBS, 1987). Em 1986, Ney iniciou um espetáculo em que ele novamente se apresenta sem maquiagem e sem fantasias extravagante, optando por um traje mais sóbrio, e adota uma performance de palco mais discreta conforme era o perfil do projeto. Para acompanha-lo nas apresentações, Ney convidou um time pequeno de músicos, mais formado apenas por nomes notáveis da música brasileira: o pianista Arthur Moreira Lima, o saxofonista Paulo Moura (1932-2010), o violonista Raphal Rabello (1962-1995) e o percussionista Chacal. O espetáculo fez um sucesso tão grande que gerou este álbum gravado ao vivo, o primeiro da carreira de Ney. O repertório é sublime, e faz jus ao título do disco, que contém pérolas da música brasileira como “O Mundo É Um Moinho” (de Cartola), “Tristeza do Jeca” (Herivelton Martins – Marino Pinto) e “Aquarela do Brasil” (Ary Barroso).


Um Brasileiro (Polygram, 1996). Álbum gravado por Ney apenas com canções compostas por Chico Buarque, como “Construção”, “Roda Viva”, “Almanaque” e “A Banda”. Gravada por Ney em 1978, “Não Existe Pecado Ao Sul do Equador” é revisitada pelo mesmo cantor, mas desta vez com uma versão mais caribenha e com alguns versos alterados. “Até O Fim”, dueto de Ney com Chico Buarque, tocou bastante nas programações de rádio na época.








Ney Matogrosso Interpreta Cartola
 (Universal Music, 2002). Dando continuidade à série de álbuns dedicados a intérpretes e compositores que marcaram a música brasileira, em 2002, foi a vez de Ney homenagear Cartola (1908-1980), regravando alguns dos clássicos de autoria do mestre do samba como “O Sol Nascerá (A Sorrir)”, “As Rosas Não Falam”, “Peito Vazio” e “Cordas de Aço”. As canções ganharam arranjos mais simples e intimistas, que valorizam as letras das canções e a própria voz de Ney como intérprete. A turnê do álbum foi tão bem sucedida que gerou um disco e um DVD gravados ao vivo, intitulados Ney Matogrosso Interpreta Cartola Ao Vivo, lançados em 2003. 

“American Idiot” (2004, Reprise), Green Day

 


O power trio americano Green Day estourou mundialmente em 1994 com o seu pop punk através do seu terceiro álbum de estúdio Dookie, um fenômeno em vendas que chegou à casa dos 20 milhões de cópias e várias canções nas paradas de rádio em todo o planeta. Os dois álbuns seguintes, Insomniac (1995) e Nimrod (1997), embora não tivessem alcançado o mesmo número de vendas de Dookie, tiveram um desempenho comercial muito bom, vendendo respectivamente 9 milhões e 6 milhões de cópias em todo o mundo.

Mesmo assim, havia quem achasse que o Green Day ainda se escorava no sucesso de Dookie, o que é uma justificativa injusta. Seria fácil repetir a “fórmula” de Dookie, e estaria resolvido o problema. Porém, além do seu punk rock radiofônico, o Green Day se notabilizou por ser uma banda que gosta de ousar, de tentar fazer algo diferente, independente se vai dar certo ou não. No sexto álbum de estúdio, Warning, o Green Day abriu o seu leque musical, experimentou outras sonoridades como a folk music, ao fazer bastante uso de violões. O resultado foi bom, mas a resposta do público não foi tão satisfatória, a não ser pelos fãs mais próximos. Warning teve uma vendagem inicial modestíssima, muito aquém para os padrões de vendas que o Green Day havia chegado com os três discos anteriores.

Entre julho e outubro de 2002, o Green Day gravou no Studio 880, em Oakland, na Califórnia, um material com cerca de 20 canções para um novo álbum que tinha como título provisório Cigarettes and Valentines, tendo Rob Cavallo no comentado da produção. Cavallo já havia trabalhado o Green Day nos álbuns Dookie, InsomniacNimrod Warning.

Contudo, as fitas masters dessas gravações foram simplesmente roubadas. Ao invés de regravar as canções, o Green Day decidiu começar tudo de novo, a partir do zero. Mas há quem afirme que no fundo, a história não seria bem essa, mas sim de que o repertório do material supostamente roubado era muito fraco, e que a banda resolveu compor novas canções.

Com seu terceiro álbum, Dookie (1994), o Green Day foi catapultado para o estrelato.

Verdade ou não, o fato é que o guitarrista e vocalista Billie Joe Armstrong estava decidido a compor novas canções. À medida que Armstrong ia compondo as novas canções e ia trocando ideias com os seus companheiros de banda, o baixista Mike Dirnt e o baterista Tré Cool, eles percebiam que algumas canções mais pareciam capítulos de uma história, de um romance ou de um filme. Foi a partir disso que tiveram a ideia de fazer do novo álbum uma ópera rock. O trio contou com o apoio do produtor Rob Cavallo que incentivou os três a criarem um “álbum conceitual”, ou seja, um álbum em que todas as canções seriam partes de uma mesma história, de um mesmo tema.

A inspiração para o tema do novo disco era a realidade sócio-política dos Estados Unidos naquela primeira metade dos anos 2000. O país ainda vivia o trauma do ataque terrorista que destruiu o World Trade Center, em Nova York, em 2001, e que matou milhares de pessoas. Como se isso só não bastasse, o então presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, enfiou o país em mais um conflito bélico, ao invadir o Iraque em 2003, dando início à chamada Guerra do Iraque. O medo, a desilusão, a desesperança da sociedade americana e o governo de George W. Bush serviram de elementos para que o Green Day desenvolvesse a sua ópera punk rock.

Para dar forma à sua ópera punk rock e ao seu álbum conceitual, os integrantes do Green Day buscaram inspiração em trabalhos consagrados dentro dessa linha como os álbuns Tommy (1969) e Quadrophenia (1973), do The Who, e The Rise and Fall of Ziggy Stardust and The Spiders From Mars (1972), de David Bowie, além de terem ouvido alguns musicais da Broadway como West Side StoryThe Rock Horror ShowGrease Jesus Christ Super Star. O trio ainda teria buscado inspiração também em artistas contemporâneos como Eminem, Kanye West e Linkin Park.

As gravações do novo álbum ocorreram no Studio 880, em Oakland, na Califórnia (onde o green Day havia gravado as canções de Cigarettes and Valentines ), e no Ocean War Recording, em Hollywood, na Califórnia.

Lançado em 20 de setembro de 2004, American Idiot, o sétimo álbum do Green Day, já dava no título uma ideia do seu conteúdo. O tema do álbum é a história de Jesus of Suburbia (Jesus do Subúrbio), um jovem adolescente americano, um anti-herói que detesta a cidade em que vive, e demonstra um inconformismo com aquela realidade. A história ainda conta com outros dois personagens, o punk St. Jimmy, que é na verdade o alter ego de Jesus of Surburbia, uma identidade que ele havia adotado para se rebelar contra aquela dura realidade que ele via, e Whatsername, uma garota punk por quem St. Jimmy se apaixonará e terá depois uma grande desilusão.

A capa de American Idiot é de autoria do artista gráfico Chris Bilheimer, o mesmo que fez as capas de Nimrod e da compilação International Superhits! (2001). Mostra uma mão segurando uma granada em forma de coração sangrando, uma ideia que teria partido dos versos de uma das canções presentes em American Idiot, “She’s A Rebel”, onde um dos versos diz “And she's holding on my heart like a hand grenade” (“E ela está segurando meu coração como uma granada de mão”). A capa estava bem de acordo com o clima bélico que os Estados Unidos estavam vivenciando na época com o governo de George W. Bush, envolvidos até o pescoço com a Guerra do Iraque.

O designer gráfico Chris Bilheimer (foto), foi o responsável pela arte
da capa de American Idiot.

O álbum começa com a fúria e a velocidade do punk rock “American Idiot”, faixa que dá nome ao disco. A música traça uma crítica aos Estados Unidos da era George W. Bush: “Don't wanna be an american idiot. / Don't want a nation under the new media / And can you hear the sound of hysteria? / The subliminal mind fuck America” (“Não quero ser um americano idiota / Não quero uma nação sob a nova mídia / E você consegue ouvir o som da histeria? / A mensagem subliminar é foda-se a América”).

“Jesus Of Suburbia” é a faixa seguinte, uma música “quilométrica”, com pouco mais de nove minutos de duração, algo incomum para o punk rock. A música é dividida em cinco partes, onde há mudanças de rítmicas, algumas bruscas entre uma parte e outra. É uma faixa que apresenta o protagonista desta ópera punk rock ao ouvinte, dividida em cinco partes.

I – “Jesus Of Suburbia”, é apresentado o personagem protagonista desta ópera rock que é o álbum, chamado Jesus of Suburbia (Jesus do Subúrbio), um jovem descontente e inconformado com a realidade do lugar onde vive.

II – “City of The Damned” trata sobre a cidade onde vive Jesus of Suburbia, um lugar hostil e com aparência pós-apocalíptica. A maneira como Jesus of Suburbia enxerga a realidade onde vive á abordada na parte III – “I Don’t Care”.

IV – “Dearly Beloved” é sobre a solidão e a insegurança emocional do personagem protagonista.

V - “Tales of Another Broken Home” descreve Jesus of Suburbia fugindo de casa para depois assumir uma nova identidade.

Depois da longa “Jesus of Suburbia”, vem a animada e divertida “Holiday”, um punk rock que remete o Green Day dos tempos de Dookie. Descreve a vida agitada do personagem, regada a muita festa e diversão. Ao mesmo tempo, “Holiday” faz uma provocação indireta ao conservadorismo da sociedade americana e ao então presidente dos Estados Unidos George W. Bush, que é identificado na letra como “the presidente Gasman”(algo como “presidente gasolina”, numa tradução simplória).

O criticado governo do presidente dos Estados Unidos, George W. Bush (foto)
foi uma das inspirações para o Green Day elaborar o álbum American Idiot
.

A faixa seguinte é “Boulevard of Broken Dreams”, uma balada que mescla melodia e peso agressivo. É uma das principais músicas de American Idiot e um dos maiores sucessos da carreira do Green Day. “Boulevard of Broken Dreams” possui versos melancólicos que falam da solidão de Jesus of Suburbia, que tem apenas como companhia a sua própria sombra. Na vida real, Billie Joe Armstrong escreveu a canção inspirado numa fase de sua vida, quando morou sozinho em Nova York.

Com coro forte cantando a plenos pulmões um refrão marcante, “Are We The Waiting” é uma balada de tom épico onde o nosso anti-herói começa a se fazer questionamentos. A próxima música, “St. Jimmy”, é um punk rock veloz e raivoso, cuja letra traz Jesus of Suburbia assumindo uma nova identidade, a de St. Jimmy, um punk rebelde, violento e sem pudores: “My name is Jimmy and you better not wear it out / Suicide commando that your momma talked about / King of the forty thieves / And I'm here to represent / The needle in the vein of the establishmen”. (“Meu nome é Jimmy e não fale esse nome em vão / Sou a má companhia sobre a qual a sua mãe falou / Rei dos quarenta ladrões / E estou aqui pra representar / A agulha na veia do sistema”).

Em “Give Me Novacaine”, uma segunda personagem é apresentada, ainda que seu nome não seja revelado. Os versos da canção retratam alguém que busca uma fuga da realidade, da dor física e psicológica através de uma droga que teria sido recomendada por St. Jimmy. Mas é no punk rock “She’s A Rebel” que a tal segunda personagem dessa ópera punk rock é revelada, chamada Whatsername, uma garota punk, transgressora, “símbolo da resistência”. 

“Letterbomb” é um pop punk à moda Green Day dos velhos tempos. Como diz o próprio título da música, os versos são como uma “carta bomba” de Whatsername, que traz uma franqueza devastadora para St. Jimmy. Dentre outras coisas, a garota punk expõe as fraquezas de St. Jimmy, diz que ninguém gosta dele e que o acompanhavam o abandonaram.

Cena do videoclipe de "American Idiot".

A balada “Wake Me Up When September Ends” é a única música que nada tem a ver com o conceito do álbum. Ela é uma canção sobre o pai de Billie Joe Armstrong, que morreu vítima de câncer, em 1982, quando o vocalista tinha dez anos de idade. O mês de setembro que aparece no título e na letra da canção, refere-se ao mês em que o pai de Armstrong faleceu.

“Homecoming” é outra faixa longa presente no álbum, com uma duração de quase dez minutos. Assim como “Jesus of Suburbia”, “Homecoming” também é dividida em cinco partes, e alterna vários andamentos rítmicos que mais parecem uma montanha russa sonora.

I - "The Death of St. Jimmy". Aqui o protagonista da ópera punk rock “mata” o seu alter ego, St. Jimmy, volta a ser o que ele era antes, e retorna para sua cidade natal.

II - "East 12th St." Traz o nosso anti-herói numa versão cidadão comum, que passa a trabalhar num escritório para ganhar a vida.

III – “Nobody Likes You” (cantada pelo baixista Mike Dirnt). O tormento e a solidão tomam conta de Jesus of Suburbia nesta terceira parte por causa das cartas de Whatsername, a garota punk por quem era apaixonado.

IV – “Rock and Roll Girlfriend”. É cantada pelo baterista Tré Cool, e versa sobre o reencontro de Jesus of Surburbia com um velho amigo dos tempos da vida punk, e que ainda continuava naquela vida marginal.

V - “We’re Coming Home Again”. O personagem protagonista larga tudo, retoma a sua identidade marginal e volta à vida punk das ruas.

Encerrando o álbum, a faixa “Whatsername”, uma música que se mostra uma resposta de St. Jimmy a Whatsername, àquelas alturas, que foi embora. É uma resposta cheia de mágoa e ressentimento no coração do jovem rebelde.

American Idiot foi muito bem recebido pelos mais diversos órgãos da imprensa musical como NME (New Music Express), New York TimesKerrang! e Time. O público reagiu muito bem, fazendo o álbum alcançar o 3° lugar da Billboard 200, nos Estados Unidos.

O álbum trouxe o status do Green Day de volta ao maistream do rock mundial. American Idiot chegou à marca de 14 milhões de cópias vendidas, se tornando o segundo álbum mais vendido do trio punk americano, perdendo apenas para Dookie. De American Idiot foram extraídos cinco singles, “America Idiot”, “Boulevard of Broken Dreams”, “Holiday”, “Wake Me Up When September Ends” e “Jesus of Suburbia”.

Com American Idiot, o Green Day conquistou vários prêmios, dentre os quais o Grammmy em 2005 na categoria “Melhor Álbum de Rock”. No mesmo ano, conquistou outros dois prêmios como o MTV Europe Music Awards, na categoria “Melhor Álbum”, e o American Music Awards como “Álbum Favorito de Pop / Rock”. No ano seguinte, em 2006, American Idiot rendeu ao Green Day o Brit Awards de “Melhor Álbum Internacional”.

Em 2009, American Idiot virou um espetáculo musical na Broadway, que foi um grande sucesso de público e crítica, e ainda foi contemplado com dois Tony Awards, em 2010, por “Melhor Design Cênico de Musical” e “Melhor Design de Iluminação de Musical”.

Faixas

Todas as letras escritas por Billie Joe Armstrong, exceto onde indicado, todas as músicas compostas por Green Day.

1."American Idiot"       

2."Jesus of Suburbia"

    I. "Jesus of Suburbia"

    II. "City of the Damned"

    III. "I Don't Care"

    IV. "Dearly Beloved"

    V. "Tales of Another Broken Home" 

3."Holiday" 

4."Boulevard of Broken Dreams" 

5."Are We the Waiting" 

6."St. Jimmy" 

7."Give Me Novacaine" 

8."She's a Rebel" 

9."Extraordinary Girl"

10."Letterbomb" 

11."Wake Me Up When September Ends" 

12."Homecoming"

    I. "The Death of St. Jimmy"

    II. "East 12th St."

    III. "Nobody Likes You" (Mike Dirnt)

    IV. "Rock and Roll Girlfriend" (Tré Cool)

    V. "We're Coming Home Again"

13. "Whatsername" 



Ouça na íntegra o álbum American Idiot

"American Idiot" 
(videoclipe original)

"Boulevard Of Broken Dreams"
(videoclipe original)

"Wake Me Up When September Ends"
(videoclipe original)

ESQUINA PROGRESSIVA

 

Jan Dukes de Grey - Mice and Rats in the Loft (1971)



Jan dekes de Grey é certamente uma das bandas mais subestimadas da história do rock progressivo. Formada em 1969 apenas como um duo, foi uma das últimas bandas de rock progressivo a ter assinado com a gravadora Decca. Falei o nome da gravadora, pois essa ficou famosa por ser o selo que recusou os Beatles quando ainda lá nos seus primórdios os garotos de Liverpool mostraram-lhes algumas músicas para teste.

Lançaram apenas dois trabalhos, o primeiro, Sorcerers, foi um álbum de folk ácido típico, não particularmente inovador, mas apresentou os talentosos multi-instrumentais, Michael Bairstow e Derek Noy. O álbum teve pouco impacto e só está disponível através de bootleg. Mas a sua maior obra com certeza era o que estaria por vir. Já como um trio após a entrada do baterista Denis Conlan, lançaram o álbum Mice and Rats in the Loft. Composto por três longas músicas encharcadas de psicodelia, tinha uma forma de soar muito mais livre e improvisada que o seu trabalho anterior. Muito mais inclinado pra música progressiva, prog folk especificamente. Uma enorme variedade de instrumentos. Entre algumas influências, se pode notar a mistura entre Jethro Tull com pitadas de Incredible String Band. Infelizmente o álbum teve pouco sucesso, visibilidade e o grupo não conseguiu continuar e teve que se dissolver após esse brilhante lançamento.

A primeira e maior faixa do álbum, contendo dezenove minutos é "Sun Symphonica". Começa com um fantástico tema folk acompanhado por vocais excêntricos, mais linha de baixo com bom groove. Depois de dois minutos de música, a calmaria cede espaço a sonoridade frenética, ácida, freak, folk que faz o ouvinte que conhece a banda Magma até remeter esse som a eles. Após essa passagem instrumental que também possui um ótimo solo de guitarra acústica, a banda novamente cai em uma calmaria vocal, antes de mais uma vez crescer com a sua sonoridade folk de novo dentro do sobe e desce que a música se cadencia. Seções instrumentais sempre compostas com veia bastante psicodélica. Após esse ponto, por volta de seis minutos, é quando aparecem alguns elementos sinfônicos, assim como algumas partes de cordas que são realmente impressionantes e que agregam o resultado final do som. Os vocais quando reaparecem se comportam de maneira bem menos alegre, fazendo quem escuta a música esquecer como foi que tudo começou. A letra entra em reviravolta, tendo como base agora vários temas obscuros, descrições sinistras. Uma espécie de pseudo-zeuhl retorna com a música após essa parte. A linha final da faixa é composta inicialmente por vocais carregados de lamentos e depois vai se transformando em verdadeira aberração psicodélica, com todos os tipos de instrumentos e sons em camadas um por cima do outro tendo como pano de fundo a base de um baixo repetitivo. Sem sombra de dúvidas um dos grandes épicos negligenciados da história do rock progressivo e que qualquer admirador do estilo deveria conhecer.

"Call of the Wild" começa de uma maneira com muito menos loucura que a sua antecessora, com uma extrema influência em Jethro Tull, soa muito bem com algumas excelentes harmonias vocais criando uma sonoridade folk que tem resultado muito bonito. A música inclui vários intervalos entre vocais e inconstância de solos de guitarra e flautas insanas que variam de padrão folk acústico para algo mais sombrio. De fato, boa parte do meio da faixa tem uma seção instrumental que parece que foi realizada em uma única guitarra, sendo impressionante o quanta banda é capaz de arrancar uma sonoridade encorpada a partir de um (ou no máximo dois) instrumentos tocando desacompanhado. Tal como a primeira faixa, no entanto, são os últimos minutos que realmente brilham se você está procurando música psicodélica freak-out. Dedilhar sombrio de guitarra, frenético, é o que temos como carro chefe do final da canção, mas novamente todos os tipos de instrumentos aparecem nesta seção final. "Call of the Wild" pode não ser o épico magistral que "Sun Symphonica" foi, mas ainda é uma viagem de folk executada na base de muito ácido, como era de costume na época.

A faixa título, que conclui o álbum, "Mice and Rats in the Loft", é de longe a mais obscura e estranha entre as três. Começando com um barulho de sirene estridente, mas rapidamente se aprofundando em um ritmo incomum, contém alguns vocais bastante nefastos e traz seções instrumentais muito estranhas. É a música de estrutura menos rebuscada do álbum (embora ainda seja algo bem distante de ser considerado simples), mas é, provavelmente, também a faixa mais visceral e intensa entre todas elas.

Uma banda esquecida, ou pior, desconhecida, um disco pouco mirado, mas com certeza uma obra sensacional sobretudo aos amantes do prog rock caído mais pro folk, na linha principalmente do Jethro Tull. Mas nesse caso, com muito mais experimentalismo e psicodelia. Um verdadeiro pecado Mice and Rats in the Loft ter sido apenas o álbum de uma banda que não vingou. Sorte da música ser algo atemporal e que cedo ou tarde, a arte pode ter o seu valor reconhecido.


Track Listing

1.Sun Symphonica 18:58
2.Call Of The Wild - 12:48
3.Mice And Rats In The Loft - 8:19





A cobra vai fumar: Harvey “The Snake” Mandel

 

Você pode não conhecer Harvey Mandel, mas com certeza já ouviu falar de Rolling Stones, Canned Heat, John Mayall, Don “Sugarcane” Harris, Love, The Ventures… Estes são apenas alguns dos nomes que ilustram o cartão de visitas deste incrível guitarrista americano, que foi sondado até mesmo por Mick Jagger e cia. para ocupar a vaga deixada por Mick Taylor, antes de baterem o martelo para o amigo Ron Wood. E é justamente por estar sempre ocupado ajudando outros músicos a fazer discos fantásticos, que Mandel nunca teve muita visibilidade junto ao grande público. Mas não se engane: apesar dele ter uma base um tanto fraturada de fãs, de seus discos serem instrumentais, de ziguezaguear pelos caminhos do blues, do jazz e do rock, e de só ter conhecido as mordomias do estrelato quando tocava no Canned Heat, desde que abriu seu pacotinho de bolachas em 1968 Harvey “The Snake” Mandel sempre foi um queridinho dos críticos e dos fanáticos por uma guitarra bem tocada.
Mandel nasceu em Detroit, no estado de Michigan, em 11 de março de 1945, mas cresceu em um subúrbio de Chicago, Illinois. No começo dos anos 60, lá pelos seus 16 anos, já tocava os rudimentos da guitarra que aprendeu sozinho ouvindo discos de sua banda preferida, The Ventures. Como outros garotos da cidade, Mike Bloonfield e Charlie Musselwhite, por exemplo, que em breve iriam transformar o blues negro em algo palatável para a juventude branca americana, Mandel deixou de lado o bom mocismo e se aventurava direto no lado barra pesada da cidade, onde proliferavam os clubes frequentados pelos deuses do blues.
Um dia conheceu sua fada madrinha: Sammy Fender, um negrão guitarrista cuja banda acompanhava todos os cobras que iam tocar nesses clubes dos lados sul e oeste de Chicago. Fender pegou aquele garoto interessado e ensinou a ele tudo sobre o verdadeiro blues. E uma vez sob suas asas, e sentindo seu progresso, permitiu que Mandel não apenas olhasse, mas passasse a tocar com a nata do blues clássico de Chicago: Buddy Guy, Otis Rush, Howlin’ Wolf, Albert King e Muddy Waters. Com uma escola dessas, não demorou muito para que Harvey fosse solicitado como session man para os discos do organista Barry Goldberg. Ambos, aliás, fizeram parte em 1966 das gravações de um dos marcos pioneiros do blues branco de Chicago, o disco de estreia do gaitista Charlie Musselwhite, Stand Back (Here Comes Charlie Musselwhite’s Southside Blues Band). Por algum motivo, esse disco começou a fazer sucesso na bay area de São Francisco, graças ao produtor e disc jockey Abe “Voco” Kash, que o tocava direto em seus programas na rádio KSAN. Logo Charlie Musselwhite e sua Soutside Blues Band estavam tocando no Fillmore de Bill Graham, abrindo para a Electric Flag de Mike Bloomfield e o próprio Cream. Foi por essa época que Harvey recebeu de Charlie (tem quem diz que foi de Barry Goldberg) o apelido de “The Snake”, provavelmente devido à extrema destreza com que seus dedos deslizavam de forma fluída pela guitarra.
Vivendo em São Francisco e empresariado agora por Abe Kash, assina com a Philips e grava seu primeiro LP, Cristo Redentor, também produzido por Kash. Quem esperava um disco preso ao blues, se surpreendeu com a versatilidade de Mandel neste disco indescritível, uma mistura sofisticada de psicodelia, jazz, country, funk e, claro, blues. Climas etéreos se intercalam com grooves funkiados e o som passeia pelas caixas em um efeito estéreo que chega a desnortear o ouvinte. Cristo Redentor é uma gema da psicodelia americana, pouco comentado por aí, mas indispensável na discoteca de qualquer colecionador sério.
A fama de virtuoso da guitarra de Mandel só crescia, principalmente devido às suas jams no clube The Matrix, acompanhado por figuras de prestígio na cena da costa oeste como Jerry Garcia e Elvin Bishop. Graham Bond, que havia acabado com a sua Organization na Inglaterra e passou um breve período nos Estados Unidos, teve seu disco Mighty Grahame Bond (1969) produzido por Abe Kash e não titubeou quando este indicou seu protegido para ser o guitarrista. Ainda no mesmo ano, no intervalo de uma apresentação do Canned Heat no Fillmore, o guitarrista Henry Vestine teve uma desavença séria com o baixista Larry Taylor e saiu da banda. Diz a lenda que a banda procurou, num primeiro momento, o Mike Bloomfield, e este declinou do convite. Bob Hite, cantor do Canned Heat, soube então que Harvey Mandel estava na plateia e pediu para chamá-lo. Agora nas palavras de Mandel: “Eu conheci o Canned Heat na primeira vez que estive em Los Angeles e eles tocavam no Whisky a Go-Go. Haviam acabado de lançar seu disco de estreia e estavam apenas começando a ser realmente populares. Eles soavam muito bem. Passado um tempo, eu estava com amigos perambulando por aí numa noite qualquer e a gente acabou entrando no Fillmore. Eles estavam por lá e eu nem sabia disso. Foi uma coincidência. Só sei que uma garota se aproximou e disse nos meus ouvidos que o Bear (apelido do Bob Hite) queria me ver. Fui até o camarim e soube da briga entre o Taylor e o Vestine e que este havia abandonado a banda. Eles ainda tinham que voltar para o palco e eu fui convidado para segurar a onda. Eu topei e as coisas correram muito bem. Eles iriam ainda naquela noite para uma série de apresentações em Nova Iorque, das quais a segunda ou terceira iria ser em Woodstock. Eu fui com eles e pude participar da magia de Woodstock, o que foi ótimo.” Foi talvez o tempo máximo que Harvey Mandel se dedicou à uma banda específica, gravando dois álbuns: Future Blues e Canned Heat 70 Concert Live in Europe. E foram os tempos mais badalados que o guitarrista já conheceu, viajando com aquele bando de malucos de Topanga Canyon pela Europa, Austrália, Singapura e México.
Mandel também participou nessa virada dos 60 para os 70 das gravações da série de super sessions Music for Free Creek, onde músicos das mais variadas correntes se juntavam com amigos em estúdio para gravar apenas por divertimento. Jeff Beck teve sua sessão, Eric Clapton e Keith Emerson também. Na sessão de Harvey, registrada no disco duplo da série lançado em 73, ele registrou “Simpathy For The Devil”, “Earl’s Shuffle” e até a nossa “Garota de Ipanema”.
Outro que se encantou com Mandel foi John Mayall. Em 69 ele havia se mudado para os EUA e chegou a usar o Larry Taylor (o baixista do Canned Heat que brigou com o Henry Vestine) numa das faixas do seu LP Empty Room, o único disco de estúdio da sua fase Turning Point. Morando em Los Angeles e pressionado por sua gravadora a lançar um novo disco, convidou Larry Taylor e Harvey Mandel para retomar o Bluesbrakers, completado pelo violinista Don “Sugarcane” Harris. Foi o fim de Mandel no Canned Heat e o começo de uma associação com o Mayall que renderia dois discos: USA Union (1970) e o duplo Back to the Roots (1971), que ainda teria Eric Clapton e Mick Taylor dividindo as guitarras. Mas tocar com a lenda viva do blues inglês, um cara divertido e carismático, significava também certa obediência ao jeito do líder ver as coisas. Não demorou muito e Mandel saiu, levando Sugarcane com ele.
Vamos fazer um intervalo por aqui para atualizar a discografia solo de Harvey Mandel até este momento, pois ele sempre foi um artista muito produtivo, principalmente nesta época, para muitos o auge de sua produtividade e criatividade. Depois de lançar o genial Cristo Redentor em 68, Mandel deu continuidade às suas viagens psicodélicas no disco Righteous, de 69. Como guitarrista ele era tão poderoso quanto Jeff Beck, Santana ou Bloomfield e, como eles, também não tinha voz suficiente para se aventurar a cantar, por isso seus discos seguiam na linha instrumental. Em 1970, rendeu-se à voz do multi-instrumentista Russell Dashiel e o usou para lançar Games Guitars Play, um álbum que caminhava com desenvoltura pelas trilhas do blues e do soul, mas com uma preocupação mais comercial, o que baixou um pouco o nível se comparado aos seus dois lançamentos anteriores. 

Para compensar, o álbum Baby Batter, lançado em 1971, é uma apaixonante e pirotécnica viagem instrumental pelo blues-rock, mas com paradas obrigatórias para apreciar as mais belas paisagens jazzistas. Seu próximo disco, Get Off in Chicago, é uma espécie de dedicatória de amor à cidade que ele sentia ser seu lar. Considerado um Supper-Session (aquele projeto do Bloomfield com o Al Kooper) mais underground, Harvey reuniu aqui 16 músicos de jazz, rock e blues da cidade, todos no intervalo de suas sessões ou turnês e, em apenas três dias, fez uma jam fenomenal que resultou em nove músicas de tirarem o fôlego.

Em 1972, Mandel e Don “Sugarcane” Harris começam uma parceria que gerou cinco discos muito interessantes. Como banda eles formam o Pure Food & Drug Act e lançam um único álbum nesse mesmo ano, o Choice Cuts. Podemos dizer que o Sugarcane, famoso malucão, era responsável pelo Drug Act do nome da banda. Já Mandel, injustamente famoso nesse quesito (talvez mais por andar com Don Harris), pois gostava mesmo é de um matinho do bom, era o lado Pure Food. Mas bastou juntar os dois para que todos alucinassem num álbum repleto de fusion e com pitadas de blues e funk. Outros dois discos da parceria, Fidler on the Rock e Cup Full of Dreams são encarados mais como trabalhos solo de Sugarcane. Para completar e devolver o favor, Don Harris colaborou em dois ótimos álbuns solo de Harvey. O primeiro deles, The Snake, foi lançado também em 72 e traz uma novidade: a voz do guitarrista na faixa “Uno Ino”. Como em todos os seus discos, é impossível deixar de constatar o quanto ele estava à frente do seu tempo e como sua técnica era surpreendente. Neste álbum, Mandel presta uma emocionante homenagem a Alan “Blind Owl” Wilson, um dos fundadores do Canned Heat e que havia morrido recentemente, na faixa “Ode to the Owl”.
Em 1973, para coroar a colaboração do Sugarcane, Harvey lança o álbum Shangrenade. E que álbum! Em 85% dele, usou e abusou do 2-handed finger tapping, sendo um dos primeiros guitarristas do rock a usar essa técnica (Steve Hackett, por exemplo, já havia utilizado no Genesis), anos antes dela ser popularizada por Eddie Van Halen e Stanley Jordan. Ritchie Blackmore já afirmou em entrevistas que Harvey foi o primeiro guitarrista a utilizar o tapping que ele viu em ação, isso lá por 1968 no Whisky A Go-Go. Disse que os guitarristas ficavam por lá curtindo e batendo papo, mas que quando Harvey começava a tocar, todos se calavam e no máximo diziam: “Pô, como é que ele faz isso”. George Lynch, guitarrista do Dokken, também disse em entrevista que ele e Eddie Van Halen viram o tapping de Mandel no Starwood Club, em 1970.
Em 74, Harvey participou, como músico de estúdio, do último álbum oficial da banda Love, Reel to Reel, tocando na faixa “Which Witch is Which?”. Lançou duas coletâneas por essa época e fez algumas turnês. Em 1975, recebeu uma ligação de Mick Jagger no meio da noite, pedindo para ele comprar uma passagem e ir encontrar a banda em um estúdio em Munique, na Alemanha. Os Stones estavam às voltas com a gravação de seu novo LP, depois chamado de Black and Blue e lançado em 1976, e ao mesmo tempo testavam novos guitarristas para substituir Mick Taylor. Jagger conhecia Mandel de seus trabalhos com John Mayall e Canned Heat e gostava de pensar nele como um guitarrista com o temperamento de Mick Taylor, quietão e técnico lá no fundo do palco enquanto Jagger e Richards brilhavam nos holofotes. Mandel tocou em “Hot Stuff” e “Memory Motel” e nada leva a crer que ele não estaria na banda não fosse a amizade de Richards por Ron Wood. Olhando para trás, hoje ninguém ousaria dizer que não foi uma boa escolha. Em 1977, Mandel prestou tributo aos seus ídolos da adolescência, The Ventures, gravando para a banda em dois discos, Rock’n’Roll Forever e Live in Japan 77, tocando tanto a guitarra base quanto a solo.
Harvey Mandel está vivo e produtivo até hoje, mas vou parando este texto por aqui para não ser repetitivo na babação de ovo a este que pode ser considerado um dos maiores guitarristas já surgidos no rock. E se até aqui você não se sentiu motivado a conhecer sua obra, mesmo uma coisinha ou outra, só me resta encerrar esta matéria repetindo o jargão de outra lenda, mas esta do noticiário tupiniquim: “Desculpe a nossa falha”.

Algumas músicas: 

Wade in Water (Cristo Redentor – 68) 

Just a Hair More (Righteous – 69) 

I’m her Man (Canned Heat live at Woodstock – 69) 

Sugar Bee (Canned Heat’s Future Blues – 70) 

El Stinger (Baby Batter – 70) 

Nature’s Desappearing (John Mayall’s USA Union – 70)

I’m a Lonely Man (Get Off Chicago -71) 

My Soul’s on Fire (Pure Food and Drug Act – 72)

Peruvian Flake (The Snake – 72)

Fish Walk (Shangrenade – 73) 

Which Witch is Which (Love’s Reel to Reel – 74) 

Hot Stuff (Rolling Stones’ Black and Blue – 76) 

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