sexta-feira, 17 de março de 2023

Review: Mastodon – Hushed and Grim (2021)

 


O que falar sobre o Mastodon que ainda não tenha sido dito? Bem, após ouvir Hushed and Grim, novo álbum da banda norte-americana, algumas palavras inéditas surgirão. Uma delas certamente é superação, já que o disco exorciza os últimos anos do quarteto, cujos músicos não só superaram uma pandemia e suas consequências psicológicas, econômicas e sociais como todos nós, mas também tiveram que enfrentar a morte de um pessoa próxima, como muitos de nós. No caso, a banda perdeu o manager Nick John, vítima de um câncer em 2018. A capa inclusive traz o rosto de Nick, com o baterista Brann Dailor declarando à Kerrang! que “a capa do disco é baseada na mitologia que diz que quando morremos o espírito se funde com uma árvore para se despedir do mundo natural antes de partir para outra dimensão. O homem na imagem é Nick”.

Hushed and Grim é facilmente um dos melhores álbuns do Mastodon, e vem na sequência de um disco que, pessoalmente, não está entre os meus favoritos, que foi Emperor of Sand (2017), obra onde a banda abordou o câncer de forma alegórica e a proximidade da doença com o seu cotidiano, já que ela afetou não apenas Nick John mas também a mãe do guitarrista Bill Kelliher. Musicalmente, fica claro que o Mastodon extrapolou o heavy metal, processo que já estava em curso há muitos anos. O novo álbum é rock, é metal, é prog, é psicodélico, é atmosférico, é tudo, com o grupo usando com sabedoria as mais diversas sonoridades para traduzir em música os seus sentimentos. O disco traz algumas participações, sendo as mais destacadas a de Kim Thayil, do Soundgarden, que faz o solo de “Had It All”, e de Marcus King, revelação da nova geração do southern rock, responsável pelo solo de “The Beast”.

O álbum, que é duplo, é o Physical Graffiti do Mastodon, no sentido de a banda, assim como fez o Led Zeppelin em 1975, não se prender em limites e explorar diversos gêneros musicais, sempre alcançando resultados muito acima da média. Se antes desse trabalho o Mastodon já era saudado como uma das bandas mais inovadoras, originais e incríveis surgidas neste século, com Hushed and Grim esta certeza torna-se sólida como rocha.

As quinze canções formam uma obra com começo, meio e fim, que se desenvolve como um quebra-cabeça, com cada faixa construindo um pedaço do que a banda criou. Não é um álbum de singles, apesar de, coletivamente, soar como um dos discos mais fáceis de digerir do Mastodon, com uma aura de acessibilidade que convive harmonicamente com a complexidade instrumental e pretensão artística que sempre marcaram a obra da banda. Equilibrar elementos tão opostos é para poucos, e o Mastodon é um desses escolhidos.

Não vou resistir a usar uma referência mais contemporânea, mas a audição de Hushed and Grim me transportou até Yellow and Green, o fenomenal álbum duplo lançado pelo Baroness em 2012 e que também transborda níveis de sentimento e emoção. São irmãos, mesmo tendo sido gravados por bandas diferentes.

Há momentos de elevação espiritual proporcionados pelo teleporte musical que canções como “Pain with an Anchor”, “More Than I Could Chew”, “The Beast”, “Teardrinker”, “Had It All” e “Gobblers of Dregs” possibilitam, o que torna o álbum uma experiência que vai muito além do aspecto sonoro e impacta todos os sentidos. Isso só é alcançado por trabalhos especiais, e Hushed and Grim é um deles. Há uma profusão de melodias, harmonias bem construídas e criatividade, tudo embalado de forma acessível, em um processo que a banda vem evoluindo desde The Hunter (2011). A variação de vozes entre Brent Hinds, Troy Sanders e Brann Dailor é uma das cartas na manga do Mastodon, com cada um dos músicos possibilitando caminhos diferentes para as canções. Resumindo: não tem música ruim e o tracklist funciona como um conjunto perfeitamente afinado.

Uma obra-prima de tirar o fôlego: essa frase certamente já foi usada para definir algum álbum do Mastodon (Crack the Skye, de 2009, é um exemplo disso), e aqui ela cabe de maneira perfeita mais uma vez.


Review: The Night Flight Orchestra – Aeromantic II (2021)

 


O The Night Flight Orchestra alcançou mais expressão que o Soilwork, ao que parece. Pelo que menos é o que dá a entender o foco de Björn Strid em sua banda paralela nos dois últimos anos. Enquanto o último álbum do Soilwork saiu em 2019 – Verkligheten -, o TNFO gravou dois discos na sequência, com a primeira parte de Aeromantic saindo em 2020 e a segunda agora em 2021. O próprio investimento da Nuclear Blast na banda, traduzido em clipes muito bem feitos, aponta para isso.

A questão é que a música do TNFO é mais universal que a do Soilwork. Mesmo que álbuns como Natural Born Chaos (2002) tenham impactado muito o metal dos anos 2000, é inegável que trata-se de uma banda com um potencial mercadológico menor. E na realidade atual, onde o classic rock dita as regras e o público de rock não apenas envelheceu como está mais saudosista do que nunca, o mergulho nos anos 1980 proporcionado pelo The Night Flight Orchestra soa como a música certa na hora certa.

A sensação ao ouvir Aeromantic II é que entramos em uma máquina no tempo de volta para o passado. O álbum é mais redondo e inspirado que seu irmão lançado em 2020, com uma coleção de canções que o coloca facilmente entre os melhores discos do TNFO. Os timbres, arranjos, instrumentos, batidas, refrãos e tudo que compõe a música da banda bebe diretamente e sem filtro na década de 1980, priorizando o AOR e alguns elementos do pop daquela época. A questão é que a viagem não apela apenas para o saudosismo, mas consegue cativar também pela inspiração com que é feita.

Os teclados de John Kyoto Lönnmyr, que entrou na banda durante a pandemia, deram um novo fôlego ao grupo. Criativo e fluente em diversas linguagens musicais, John agregou sangue novo ao conjunto, e isso se refletiu claramente no ânimo geral. Tudo parece soar mais leve, provavelmente refletindo o ambiente atual da banda.

O tracklist é pura diversão e coloca qualquer um pra cima. Tendo o guitarrista David Andersson como principal força criativa (o cara assina dez das doze faixas), o The Night Flight Orchestra fez um disco repleto de hits potenciais como “Violent Indigo”, “How Long”, “Burn for Me” (cuja introdução lembra “Modern Love”, clássico oitentista de David Bowie), “Zodiac” e “White Jeans”.

A bela capa, criada pela artista Giorgia Carteri, responsável também pelo disco anterior,  merece destaque não só pela ilustração mas sobretudo pelo excelente trabalho de colorização.

A edição nacional, lançada pela Shinigami Records, vem em um digipack com dois paineis e traz encarte com todas as letras. Além disso, a Shinigami tem incluído em seus lançamentos recentes uma contracapa para quem prefere a edição em acrílico, mas sinceramente eu não entendi muito bem pra que isso serve. É pra cortar o digipack e colocar ele dentro de uma caixa de acrílico? Alguém me explica ...

Mais um belo disco do The Night Flight Orchestra, que segue o seu objetivo de trazer raios de sol cada vez mais brilhantes para iluminar nossos dias. E não preciso nem dizer que eles são muito bem-vindos em uma era tão cheia de momentos sombrios como a que estamos vivendo.


quinta-feira, 16 de março de 2023

Review: Malvada – A Noite Vai Ferver (2021)

 


Formada em 2020, a Malvada conta com Angel Sberse (vocal), Bruna Tsuruda (guitarra), Ma Langer (baixo) e Juliana Salgado (bateria), e agora em 2021 lançou o seu primeiro álbum. A Noite Vai Ferver saiu pela Shinigami Records e traz nove canções próprias.

Ao contrário do recente boom de bandas femininas brasileiras como Crypta, Eskröta e a já veterana Nervosa, a Malvada não vai pelo lado mais extremo do metal, apostando em um hard rock que equilibra influências atuais com uma pegada classic rock. Gravado no Studio Pub em Santo André com produção da dupla Tiago Claro e Nobru Bueno, o álbum alterna canções cheias de energia e baladas, mostrando os dois lados da sonoridade da banda.

As instrumentistas são competentes, e o vocal de Angel remete, em certos momentos, a ícones como Joan Jett e até mesmo a lendas do rock brasileiro como a dupla Cornélius Lucifer e Percy, do Made in Brazil. Musicalmente, porém, a banda acaba não se destacando tanto. As canções carecem de maior inspiração, e no geral o trabalho acaba soando apenas mediano. Algumas canções se destacam como a música que batiza o disco, “Ao Mesmo Tempo”, “Disso Que Eu Gosto” e a pesadona “Mais Um Gole”, que fala sobre a pandemia.

Ainda há um longo caminho para a Malvada percorrer e evoluir, e isso fica claro após a audição do álbum de estreia do quarteto.  



30 anos de “Rage Against The Machine”: A raivosa estreia do Rage Against The Machine.

 É difícil elencar uma banda mais visceral que o Rage Against The Machine, com muita personalidade e força, eles surgiram numa época excelente para desenvolver a sonoridade que consagrou sua carreira. Hoje comemoramos os incríveis 30 anos do disco de estreia deles, o autonitulado “Rage Against The Machine”!

Lançado em 1992, o disco de estreia do Rage Against The Machine é um dos mais potentes e bem produzidos da década de 90, o que é bacana levando em conta essa sonoridade furiosa que a banda carrega desde a primeira composição, a banda era formada por Zack de la Rocha nos vocais, Tom morello na guitarra, Tim Commerford no baixo e Brad Wilk na bateria.

Com ideais revolcionários e extremamente politizados, eles conseguiram passar através de suas composições, todo esse sentimento exalado pela voz raivosa de Zack que caminha muito bem ao lado dos riffs grandiosos e empolgantes de Tom Morello, que é um dos ídolos particulares meus. Apesar de eu não ser muito fã dos conceitos trazidos no disco, a musicalidade é muito intensa e acaba sendo muito envolvente, e temos que admitir, neste disco de estreia essa intesidade está mais do que consolidada.

A capa também é das mais polêmicas, leva a icônica foto de Thích Quảng Đức que ateou fogo em seu próprio corpo como forma de protesto, coisa que tem tudo haver com a temática e conceito que o grupo imprimiu em suas composições. E falando um pouca mais sobre elas, tenho comigo três grandes destaques, as três primeiras do disco. Começando por “Bombtrack”, uma faixa que tem todos os requisitos da banda, Riff icônico de Tom e a potência característica da banda, uma das melhores. Já o maior destaque do disco, não pode deixar de ser “Killing In The Name”, uma das melhores composições da década de 90, pedrada nos ouvidos, eu imagino a força que essa música deve ganhar ao vivo. E também não posso deixar de citar “Take the Power Back”, que carrega uma linha de baixo insana!

De considerações finais, o autointulado disco de estreia do Rage Against The Machine foi o melhor início possível para a banda. Um trabalho praticamente perfeito, sem excessos, forte e com alguns clássicos da década de 90. Fica como homenagem nos 30 anos de seu lançamento!




45 anos de “Rocket Russia”: Um dos maiores clássicos do Ramones.

 Hoje é dia de barulho aqui no Entre Acordes! E se tem uma banda que sabia fazer um barulho bom, eram os Ramones, um dos maiores pilares do Punk Rock que ainda hoje possui uma verdadeira legião de fãs ao redor do mundo! Um dos discos mais respeitados deles é o “Rocket Russia” e no dia de hoje, tenho o prazer de relembrá-los que ele está fazendo 45 anos desde o seu lançamento!

Até então a banda havia lançado apenas dois discos, o clássico autointiulado de 1976, depois disso, já no incônico e grandioso ano 1977 a banda lançou dois discos que trouxeram muita consistência à discografia do grupo, o “Leave Home” e mais pro final do ano o “Rocket To Russia”, que será mais comentado aqui hoje! O disco que eu considero o definitivo da banda!

Aqui, a banda apostou em alguns aspectos diferentes que eu acredito que elevou ainda mais o patamar do grupo, o primeiro ponto para mim é a produção que para mim é a mais precisa de todos os discos deles, eles conseguiram atingir um ponto onde vemos nitidamente uma nitidez e clareza perfeitos, ao mesmo tempo que a sujeira do modo que eles tocam, estão lá e a pressão que a banda mostrava ao vivo, foi exaltada por aqui, passando mais sentimento do que realmente eram os Ramones.

Eu não posso deixar de destacar algumas músicas que fazem dele o grande disco que é, a começar por “Rockaway Beach”, uma faixa divertida e que logo de cara deixa claro que o direcionamento do disco é o punk mas que a surf music influenciaria e muito as composições. Uma das minhas favoritas é “Here Today, Gone Tomorrow”, uma faixa maravilhosa, diferente e muito marcante. “Sheena Is A Punk Rocker” talvez seja a mais clássica do disco, um dos maiores sucessos da carreira da banda, muito boa. Eu também adoro a versão deles para “Surfin’ Bird” do The Trashmen que é uma música que tem absolutamente tudo haver com a vibe dos Ramones.

Eu sinceramente acho esse disco, o trabalho defintivo dos Ramones. Não no sentido de ser o melhor ou meu favorito, mas que vemos a banda em seu estado mais amadurecido e sincero possível, pelo menos este é meu sentimento. E também é um disco perfeito por si só, com grandes composições, nada de gordura e muita energia! Fica a homenagem nos 45 anos de seu lançamento!



50 anos de “Can’t Buy a Thrill”: A subestimada estreia do Steely Dan.

Considerada uma das bandas mais cuidadosas de todos os tempos, o Steely Dan soube muito bem como desenvolver uma discografia maravilhosa com diversos clássicos. Para quem não conhece muito a banda, eu já adianto que você está diante de uma entidade do Yatch Rock, e em particular, hoje comemoramos 50 anos de um dos maiores discos de estreia de todos os tempos, o “Can’t Buy A Thrill”!

O ano de 1972 foi dominado pelos grandes artistas que tiveram coragem de se desenvolver musicalmente e arriscar um novo modelo de som mais adequado á cena que regia aquele início da década de 70. Ao mesmo tempo, alguns artistas que seriam extremamente relevantes surgiam naquele momento, dentre eles o “Steely Dan”, totalmente na contra mão do Rock e numa direção do Yatch Rock ou AOR que começara a se desenvolver a partir dali.

Também muito influenciados pelo Jazz Rock, o Steely Dan chegou com um disco de estreia simplesmente maravilhoso, músicas assobiáveis, composições únicas e uma qualidade praticamente incomparável, esse disco seria o “Can’t Buy A Thrill”, liderados por um gênio chamado Donald Fagen! Neste trabalho nos deparamos com uma banda definitivamente pronta, sabendo o que queria.

Das faixas do disco, eu preciso destacar a faixa de abertura “Do It Again”, uma abertura que representa perfeitamente tudo isso que comentei até agora, grande início! Já minha favorita do disco é a segunda do disco, “Dirty Work”, uma faixa envolvente e muito diferente do que estava rolando na época! E é claro que eu preciso falar sobre “Reelin’ In The Years” que sem dúvida é o maior sucesso desse trabalho!

De considerações finais, o “Can’t Buy A Thrill” é um dos melhores lançamentos do ano de 1972 e uma das maiores estreias de todos os tempos. Poucas bandas chegaram na indústria musical com tanto preparo e inovação e o Steely Dan é uma das bandas menos comentadas nessa área. Merece demais esse destaque e homenagem nos 50 anos do lançamento dessa verdadeira pérola!

 



"14 Bis II" (EMI-Odeon, 1980), 14 Bis

 


A banda 14 Bis surgiu em 1979, em Belo Horizonte, Minas Gerais. Flávio Venturini (vocal e teclados) e Sérgio Magrão (vocais e baixo) haviam deixado a banda O Terço, em 1978. Vermelho (vocais e teclados) e Hely Rodrigues (bateria) vinham do grupo Bendengó. Cláudio Venturini havia tocado na banda do cantor Lô Borges. Os cinco se juntaram e decidiram formar uma nova banda, com uma sonoridade calcada em Beatles (fase final), no rock progressivo de Yes e Pink Floyd, e influência de rock rural e do movimento Clube da Esquina.

Os integrantes batizaram a banda de 14 Bis, nome tomado emprestado do famoso avião do inventor brasileiro Santos Dumont (1873-1932), que em 1906, fez um voo histórico no campo de Bagatelle, em Paris, onde o aparelho voou sem nenhum auxílio externo, percorrendo cerca de 60 metros de distância, a uma altura de dois metros, perante mil espectadores.

O avião 14 bis e o seu criador, Alberto Santos Dumont: inspirações para o nome da banda de rock mineira.


Ainda em 1979, já integrado à nova banda, Flávio recebeu uma proposta da gravadora EMI-Odeon para gravar um álbum solo. O vocalista no entanto, convenceu a gravadora a contratar a banda, que logo entrou em estúdio para gravar o seu primeiro álbum. Na produção do seu álbum de estreia, a 14 Bis contou com nada mais, nada menos que Milton Nascimento, que era uma espécie de padrinho da banda.

Em pouco tempo, o álbum ficou pronto, e já estava nas lojas. Naquele momento, havia uma carência de bandas de pop rock no cenário musical brasileiro. A banda 14 Bis e seu primeiro e homônimo álbum tentava preencher um pouco essa lacuna. O disco foi uma grata surpresa, ao revelar um som que ao mesmo tempo que herdava a complexidade do rock progressivo de O Terço, antiga banda de Flávio e Sérgio, mostrava também uma vocação para canções acessíveis, com forte apelo radiofônico. As belas harmonizações vocais e o cuidado com os arranjos instrumentais chamaram a atenção do público e da crítica. Daquele primeiro álbum, as faixas "Natural", "Perdido em Abbey Road" e "Canção da América" - esta última regravada um ano depois por Milton Nascimento - tocaram bastante no rádio.

O bom êxito do primeiro garantiu ao grupo gravar o segundo álbum, intitulado 14 Bis II, lançado em 1980. A produção artística ficou por conta de Miguel Plopschi, enquanto que a produção executiva contou com Tavito e Mayrton Bahia. O maestro e arranjador tropicalista, Rogério Duprat, foi responsável pela orquestração e regência, posto que ele também exerceu nas gravações do primeiro álbum do 14 bis.

14-Bis, da esquerda para a direita: Vermelho, Cláudio Venturini (acima),
Hely Rodrigues (embaixo), Venturini e Sérgio magrão.

"Bola de Meia, Bola de Gude" é a primeira faixa de 14 Bis II, composta por Milton Nascimento e Fernando Brant, mas que se imortalizou com a banda mineira. A música carrega uma aura nostálgica e nos alerta que devemos manter viva a leveza e a pureza da criança que fomos dentro de nós para enfrentarmos o mundo adulto e hostil. A linda "Caçador de Mim" é de autoria de Sérgio Magrão e de Luiz Carlos Sá, da dupla Sá & Guarabyra. O maestro Rogério Duprat fez um belo e primoroso arranjo de cordas para a canção, assim como a banda fez harmonizações vocais sensacionais. "Caçador de Mim" foi regravada em 1981 por Milton Nascimento para o seu álbum que leva o nome da canção.

Com uma introdução feita por teclados num tom imponente e épico, "Planeta Sonho" bem que poderia ser a música de abertura do disco. As camadas de teclados criadas por Flávio Venturini e Vermelho, os dois tecladistas da banda, dão um clima futurista a esse rock progressivo levando ao ouvinte a ter a impressão de estar flutuando no espaço sideral. 

Em "14 Bis (Instrumental I / Instrumental II)", os membros da banda mostram as suas habilidades nos seus instrumentos. A faixa é dividida em duas partes, sendo a primeira parte mais calma, à base de teclados e violões, porém evoluindo na segunda parte para um ritmo um pouco mais acelerado com a entrada da bateria, baixo e guitarra. A faixa instrumental encerra com a mesma linha melódica do início da música.

Área interna da capa dupla de 14-Bis II.

"Nova Manhã" é aquele tipo de música de melodia agradável e que ninguém resiste em cantarolar. Vale destacar que a banda 14 Bis concorreu com "Nova Manhã" no Festival MPB 80, promovido em 1980 pela TV Globo. Naquele mesmo ano, a canção foi incluída na trilha sonora da telenovela Plumas e Paetês, da mesma TV Globo.

"Pra te Namorar"  é calma e romântica. "Esquemas de Tantas Ruas" é um rock cheio de solos e riffs de guitarra produzidas pela guitarra de Cláudio Venturini.

"Carrossel" remete ao pop barroco das bandas inglesas na segunda metade dos anos 1960. A introdução traz um som delicado de piano e violões. O trabalho de Rogério Duprat fazendo os arranjos de orquestração foi mais uma vez impecável neste álbum. Nessa música, o 14 Bis fez uma das suas melhores harmonizações vocais em toda a carreira.

"Pedras Rolantes (Nas Ondas do Rádio)", presta um tributo ao rock'n'roll fazendo citações aos Rolling Stones e aos Beatles: "Das pedras rolantes / O banquete dos mendigos / Nos campos de morango / E Lucy no céu com seus diamantes". Mas curiosamente, faz citações à música brasileira de maneira sutil: "Asa branca voando nas ondas do rádio / Fazendo ponteio prás ave-marias", uma clara alusão a "Asa Branca" de Luiz Gonzaga, e a "Ponteio" de Edu Lobo.

Rolling Stones, Beatles, Luiz Gonzaga (ao centro) e Edu Lobo: citações em "Pedras Rolantes (Nas Ondas do Rádio)".

14 Bis II não decepcionou quem havia gostado primeiro álbum da banda. Das suas nove faixa, quatro se tornaram sucesso e entraram nas paradas radiofônicas do Brasil na época. "Nova Manhã" entrou para a trilha sonora da telenovela Plumas & Paetês, da TV Globo, em 1980, e acabou tendo grande execução nas FM's. "Planeta Sonho", "Bola de Meia, Bola de Gude", "Caçador de Mim" ganharam as rádios de todo o Brasil, e passaram a ser músicas obrigatórias nos shows do 14 Bis.

Faixas
  1. "Bola de Meia, Bola de Gude" (Milton Nascimento - Fernando Brant)
  2. "Caçador de Mim" (Sergio Magrão - Luiz Carlos Sá)
  3.  "Planeta Sonho" (Flávio Venturini - Vermelho - Márcio Borges)
  4. "14 Bis" (Instrumental I - Flávio Venturini; Instrumental II - Vermelho - Hely - Sergio   Magrão - Cláudio Venturini - Flávio Venturini)
  5. "Nova Manhã" (Vermelho - Flávio Venturini - Tavinho Moura)
  6. "Pra te Namorar" (Flávio Venturini - Murilo Antunes)
  7. "Esquina de Tantas Ruas" (Flávio Venturini - Hely - Cláudio Venturini - Vermelho)
  8. "Carrossel" (Flávio Venturini  - Suzana Nunes - Vermelho)
  9. "Pedras Rolantes (Nas Ondas do Rádio)" (Vermelho - Suzana Nunes - Flávio Venturini)


14-Bis: Flávio Venturini (vocal e teclados), Cláudio Venturini (vocais e guitarra), Sérgio Magrão (vocais e baixo), Vermelho (vocais e teclados) e Hely Rodrigues (bateria).


"Caçador de Mim"



"Planeta Sonho"



"14-Bis (Instrumental I e Instrumental II)"


"Pra te Namorar"



"Esquinas de Tantas Ruas"



"Carrossel"



"Pedras Rolantes (Nas Ondas do Rádio)"



"Planeta Sonho" (vídeo clipe - Fantástico
TV Globo, 1980)

10 discos essenciais: Hard rock

 


Também conhecido vulgarmente como “rock pauleira”, o hard rock surgiu na segunda metade dos anos 1960. Ele foi basicamente uma aceleração do blues rock praticado por bandas da época como Cream e The Jimi Hendrix Experience, por exemplo, bem como tem suas raízes ligadas a bandas inglesas de rock de garagem de meados dos anos 1960 como The Kinks, que já exploravam um som mais sujo e agressivo.

O hard rock caracterizou-se pelo seu ritmo básico e pesado, o som potente e hiper-amplificado, guitarras distorcidas e canto berrado. Dentre as bandas precursoras de hard rock estão Blue Cheer, Vanilla Fudge e Iron Butterfly. Mas foi através do Led Zeppelin, Deep Purple e Black Sabbath que na virada da década de 1960 para a década de 1970, o hard rock ganhou popularidade e abriu um mercado muito importante para o rock pesado. A partir dali, o hard rock exerceria muita influência para o surgimento no começo dos anos 1970 de uma das mais importantes vertentes do rock: o heavy metal. Porém, isso não significou o seu desaparecimento. O hard rock influenciou outros subgêneros como arena rock e o glam metal (também chamado de hair metal ou “metal farofa”) nos anos 1980. Esteve em baixa com a onda grunge nos anos 1990, mas continua na resistência e revelando novos artistas e bandas que continuarão mantendo a chama do rock pesado acesa.


Led Zeppelin (Atlantic, 1969), Led Zeppelin. Dos escombros dos New Yardbirds surgiu em 1968 o Led Zeppelin, que alçou voo rumo ao estrelato do rock com o seu primeiro e autointitulado álbum lançado no começo de 1969. Apesar das críticas negativas da imprensa musical dos Estados Unidos inicialmente, o álbum acabou conquistando o público graças à receita sonora da banda calcada na bem azeitada fusão de blues, rock, peso e distorção. As faixas “Good Times, Bad Times”, “Communication Breakdown” e “Dazed And Confused” mostram para que o Led Zeppelin estava chegando.



In Rock (Harvest, 1970), Deep Purple. Quarto álbum de estúdio do Deep Purple, In Rock é no entanto o primeiro com a formação clássica do quinteto inglês com a chegada de Ian Gillan (vocais) e Roger Glover (baixo). Esses juntaram-se a Ritchie Blackmore (guitarra), John Lord (teclados) e Ian Paice (bateria) que já estavam na banda. O álbum mostra a nova formação bem entrosada. Com In Rock, o Purple conseguiu afastar-se dos resquícios de psicodelia que existiam em seu som e ficar em pé de igualdade com as bandas de som pesado da época. Destaque para petardos como “Speed King”, “Bloodsucker”, “Flight Of The Rat” e “Into The Fire”.


Paranoid (Vertigo, 1970), Black Sabbath. No seu primeiro e homônimo álbum, o Black Sabbath lançou as bases do que seria conhecido mais tarde como heavy metal. Mas a banda inglesa consolida esse processo com o seu segundo trabalho, Paranoid, sete meses após o lançamento do primeiro. Além das temáticas sombrias e mórbidas exploradas no primeiro disco, em Paranoid, o Black Sabbath fala sobre guerra como em “War Pigs”. Graças a faixas como “Paranoid” e “Iron Man”, o álbum foi 4º lugar no Reino Unido e ainda projetou o Black Sabbath no mercado norte-americano.  Paranoid vendeu mais de 4 milhões de cópias, é o mais vendido da discografia do Black Sabbath.


Led Zeppelin IV(Atlantic, 1971), Led Zeppelin. Após críticas injustas da imprensa musical à sonoridade acústica do Led Zeppelin III, o quarteto inglês deu uma resposta à altura com o eu quarto álbum, que não tem um título específico, mas é popularmente chamado de Led Zeppelin IV. Há quem o chame de “Quatro Símbolos” ou “Zoso”. Em seu quarto álbum, o Led Zeppelin fez um perfeito equilíbrio entre a leveza da sua veia eletroacústica (“Going To California”, “Battle For Evermore”) com a agressividade da sua vocação para o som pesado (“Black Dog”, “Rock And Roll” e “When The Levee Breaks”). Mas a grande faixa do álbum, em tamanho e importância, é a épica “Stairway To Heaven”. Com mais de 22 milhões de cópias vendidas, Led Zeppelin IV é o quarto álbum mais vendido da história da indústria fonográfica.


Machine Head (Harvest, 1972), Deep Purple. Sexto álbum do Deep Purple, Machine Head é o ápice da formação clássica do quinteto inglês. É um dos álbuns mais influentes do hard rock e do heavy metal. Não é para menos: tem “Smoke On The Water” e seu emblemático riff de guitarra; “Highway Star” com os vocais escandalosos de Ian Gillan, os solos de guitarra de Ritchie Blackmore, mais os teclados arrebatadores de John Lord; “Space Truckin” atropelando tudo que tem pela frente com seu som peso-pesado. Sobra até tempo para um hard rock em tom jazzístico com “Lazy”. 1º lugar no Reino Unido e 7º lugar nos Estados Unidos, Machine Head é o álbum mais vendido do Deep Purple.


Rocks (Columbia, 1976), Aerosmith. Sucessor de Toys In The Attic (1975), álbum que catapultou o Aerosmith para o estrelato, Rocks é para alguns fãs o melhor álbum da banda norte-americana. Rocks conseguiu afastar a imagem do Aerosmith de mera cópia dos Rolling Stones. Mais cru e pesado que seu antecessor, Rocks faz jus ao nome que tem e traz uma fileira de hard rocks pesados e afiados como “Rats In The Cellar”, “Combination”, “Sick As A Dog” e “Lick And A Promise”. “Home Tonight”, é a única balada do álbum, e é ela quem fecha Rocks.




Van Halen (Warner, 1978), Van Halen. O primeiro e homônimo álbum do Van Halen quando foi lançado, trouxe um novo vigor para o hard rock e apontou caminhos para o futuro do gênero para década seguinte. Van Halen, revelou ao mundo o guitarrista Eddie Van Halen, que apesar de muito jovem, mostrava a destreza e o virtuosismo de um veterano, como pode ser comprovado na faixa fenomenal “Eruption”.  O álbum ainda apresentou um vocalista carismático e muito louco, David Lee Roth. O cover de “You Really Got Me”, hit dos Kinks, e “Runnin’ With The Devil” são alguns dos bons momentos do álbum que alcançou a marca de 10 milhões de cópias vendidas.


Highway To Hell (Albert, 1979), AC/DC. Highway To Hell é o sexto álbum do AC/DC, e foi com ele que a banda australiana conquistou os Estados Unidos, objetivo que tanto almejava. Lá, Highway To Hell alcançou o posto de 17º, enquanto que no Reino Unido ficou em 8º lugar. O riff da faixa-título e que abre o álbum, é um dos mais memoráveis do rock pesado. Além da faixa que dá nome ao álbum, merecem destaque outras faixas como “Touch To Much”, “Got It Hot” e “Love Hungry Man”. Highway To Hell foi o último álbum de Bon Scott como vocalista do AC/DC. Ele morreu de maneira mal explicada no começo de 1980 no momento em que o álbum fazia sucesso.


Back In Black(Albert, 1980), AC/DC. Apesar do duro golpe sofrido com a morte de Bon Scott, o AC/DC não se entregou à tristeza: levantou-se e deu a volta por cima. Back In Black marcou a estreia de Brian Johnson como novo vocalista do AC/DC no lugar do falecido Scott. A capa preta e o título do álbum são referências a Scott. Dentre os destaques do álbum, a voz rasgada de Johnson, os solos demolidores de guitarra de Angus Young e os riffs genias da guitarra rítmica de Malcolm Young. Faixas matadoras como a faixa-título, “You Shook Me All Night Long”, “Shoot To Thrill” e “Hells Bells” tonaram-se clássicos do repertório do AC/DC e fizeram de Back In Black o disco de rock mais vendido em todos os tempos com 51 milhões de cópias. É o segundo álbum mais vendido da história da indústria fonográfica, perdendo apenas pra Thriller, de Michael Jackson.


Appetite For Destruction(Geffen, 1987), Guns N’ Roses. Simplesmente um dos melhores álbuns de estreia da história do rock. Primeiro disco do Guns N’ Roses, Appetite For Destruction  trouxe de volta, em plena “ressaca” pós-punk nos anos 1980, a alegria, a força, a rebeldia e a irreverência do hard rock dos anos 1970, tendo como inspiração Aerosmith, Led Zeppelin, Nazareth, Humble Pie e tantas outras. A dobradinha Axl Rose/Slash, reviveu outras dobradinhas memoráveis do hard rock envolvendo vocalista/guitarrista como Robert Plant/Jimmy Page, no Led Zeppelin e Steven Tyler/Joe Perry, no Aerosmith. Do início ao fim, o álbum possui hard rocks arrasadores como "Welcome To The Jungle", "Paradise City", "Sweet Child O' Mine" e "Nightrain” que ajudaram Appetite For Destruction a vender mais de 30 milhões de cópias em todo o mundo.

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