segunda-feira, 15 de maio de 2023

Nick Cave & The Bad Seeds - The Skeleton Tree [2016]

 






Push The Sky Away, manteve em alta o nome de Nick Cave entre público e crítica, apostando em um rock alternativo com mais texturas que certamente diferiu do rock de garagem que ele vinha apostando em lançamentos como Dig, Lazarus, Dig!!! e os álbuns com o Grinderman. Porém, um fato que marcou a produção desse álbum foi o trágico falecimento de Arthur Cave, filho do frontman, aos 15 anos em um infeliz acidente. Muitas das letras então escritas foram alteradas, incorporando temas como perda, luto e morte. Não é a primeira vez que Nick escreve sob extrema influência de sua vida pessoal - Let Love In e The Boatman's Call, escritos depois do término de relacionamentos são testemunhas disso - mas esse aqui tem algo de diferente e singular, incorporando influências eletrônicas, ambient e avant-garde, como estruturas musicais pouco habituais, elementos dissonantes, sintetizadores, bateria eletrônica e loops.

01. Jesus Alone

AC: Quando começaram os primeiros segundos dessa faixa eu já fui tomado por um arrepio na espinha. Sabia que a coisa aqui seria completamente o oposto da elegância do Push the Sky Away.

BB: Sim, enquanto Push the Sky Away tem um extremo cuidado, esse aqui é minimalista, visceral, muitas vezes com letras improvisadas. Esse assobio dissonante com as texturas eletrônicas são de dar um nó no estômago.

AC: O uso de spoken word pelo Nick Cave já não é novidade, mas aqui isso parece tomar proporções mais adequadas.

MM: Como não conheço muito bem a obra de Nick Cavem e o pouco que ouvi não gostei, comentarei apenas o que estou sentindo. Faixa sombria, agonizante, que parece ser uma introdução para algo muito mais tenso

BB: Me lembrou muito, em certo sentido, "Avalanche", do Leonard Cohen, faixa que abre o clássico Songs of Love and Hate.

AC: "You believe in God, but you get no special dispensation for this belief now". Isso já é pra deixar qualquer um tenso.

BB: Apesar de parecer que a música vai explodir a qualquer momento, o que temos é o piano sendo introduzido de maneira quase imperceptível e deixando o que era sombrio bem melancólico.

MM: Pois é, não explode nunca. Sofrência total!

AC: Sabia decisão em deixar que o clima fosse mantido ao invez de ir para o caminho óbvio.

02. Ring of Saturn

MM: Clima continua para baixo, mas pelo menos, agora temos uma música. Diogo Bizzotto irá gostar dessa.

BB: Deu uma amenizada no clima rasgado da outra, com uma sugestão melódica servindo de cama para a spoken word acompanhada de backing vocals algo fantasmagóricos.

AC: Os vocais por hora viajam pela faixa, surgem deixando escapar trechos da letra para dar um tom cada vez mais sofrido.

MM: Esse estilo de vocal falado é próprio de grandes músicos, como Bob Dylan ou Bruce Spingsteen, e ficou bem para o clima pesado dessa faixa

AC: As programações são menos abrasivas, então o resultado é uma música que tem certo poder de abraçar o ouvinte.

BB: Warren Ellis é bem menos esquisito do que o Blixa Bargeld, mas é um parceiro ideal para essa fase contemporânea de Nick Cave, sabendo o caminho certo entre experimentalismo e barulho e melodia e sofisticação.

03. Girl in Amber

MM: Segue o clima sombrio. Nick Cave decide cantar agora, mas de forma amena e com muita dramaticidade. Ele devia estar em um momento de profunda dor nas gravações. A perda do filho se faz presente

BB: Agora ele começou de fato a cantar, para alegria (ou não) do Mairon hahaha.

AC: Essa interpretação e a cama de teclados e sintetizadores é talvez um dos momentos mais fortes do registro todo. "And if you want to leave, don't breathe", o refrão é fantástico...

BB: Sim. O cara tá escolado já em como dar um tapa fortíssimo na nossa cara com uma leveza impressionante. A voz grave dele é um grande contraponto aos teclados e cordas mais suaves.

MM: Agradável faixa, com um bom clima de sintetizadores.

AC: É uma faixa extremamente triste e sofrida, mas daquelas que adoramos ouvir pra sofrer com qualidade.

BB: A primeira vez que ouvi o disco os backing vocals nem sempre pareceram casar, mas acho que era meio a ideia. No clima mais moderno, tem alguns elementos mais tradicionais que parecem ecoar de dentro de uma gruta ou igreja antiga.

AC: Como algo a parte do próprio disco, talvez.

BB: Exato.


04. Magneto

AC: Essa traz de volta um clima mais abrasivo. Notem os loops e o baixo nessa faixa.

MM: Cara, que viagem. Se esse disco é executado na casa de um possível suicida, a possibilidade irá se tornar real logo em seguida. Disco muito triste - não do sentido de ruim, que isso fique claro.

BB: Parece casar com a "Jesus Alone". O avant-garde e o post-rock assentaram o pé de vez na sonoridade de Cave. O agudo corta, o grave ruge... E o piano faz uma terceira coisa , alheio, triste, lamurioso. Muito louco esse casamento.

AC: Algo que fica na minha cabeça é que em alguns momentos do disco, instrumentos tentam encaixar algo de mais comum e tradicional, mas sempre ficam encobertos em segundo plano pelas programações pesadas. Notem que há um piano e um violão ao fundo, mas que nunca tomam a dianteira no conceito do disco. O show aqui é do avant-garde nas programações.

BB: Curioso notar que hoje os discos dele não tem meio termo, ou é uma barulheira desgraçada ou é música mais solta, experimental e confessional tipo essa.

MM: Estou percebendo isso Alisson. É uma presença muito sútil de piano e violão, quase imperceptível, já que a voz sombria do Nick e as camadas de sintetizadores toma conta.



05. Anthrocene

AC: Ainda seguindo o que disse lá atrás, a bateria jazzística solta batidas pela música, mas ela vai e volta, sempre mantendo-se na tangente.

MM: Apesar da bateria tentar criar um ritmo para a canção, a tristeza e agonia toma conta. Gente, ainda bem que hoje estou tranquilo, por que se pega esse disco em um dia de tristeza, puta merda, estaria banhado em lágrimas. Que letras doloridas, barbaridade.

BB: O título é uma variante do termo científico "Anthropocene", que significa "a era do homem". A letra fala além da dor pessoal, também sobre o homem e seus efeitos sobre a terra. Acho que é um dos momentos mais apocalípticos de Cave.

MM: A letra é pesada demais cara. De cortar os pulsos.

BB: A bateria "briga" para compartilhar espaço com o piano e a eletrônica. Junto com a letra, se ele quis criar uma letra incômoda e reflexiva, conseguiu. O resultado é perturbador. Uma letra incômoda = uma música incômoda *

MM: "All the things we love, we love, we love, we lose; It's our bodies that fall when they try to rise". Arrepios demais.

BB: "Well, I heard you been out looking for something to love
Close your eyes, little world
And brace yourself". Que puta letrista.

6. I Need You

AC: Nick claramente está abalado nessa faixa. A letra dispensa comentários, a meu ver.

MM: Vou permitir-me apenas sentir essa faixa. Muito linda a interpretação do Nick.

BB: "Nada mais importa quando aquele que você ama foi embora". Essa, junto com a abertura, é a que mais toca no tema morte e perda.

AC: A coisa que mais se ouve na faixa: "Nothing Really Matters". Isso só já diz muito a respeito do momento que o Nick Cave passou.

BB: Essa é talvez a minha favorita do álbum. Nem ligo se é a mais careta, mais quadrada. É uma balada sombria inspiradíssima que rasga a alma.

AC: e talvez seja o momento mais "comum" de todo o disco. Girl in Amber ainda tá num pedestal pra mim.

MM: É o melhor momento do álbum, com certeza. Adoro quando o artista se entrega para a música, e se o resultado for bom, é perfeito.

BB: Não sei se tô viajando, mas ele nitidamente parece chorar quando chega lá pro final... "Just breathe, just breathe, I need you, I need you".

AC: Acredito que sim.... Nossa...

MM: Linda!

BB: Rapaz, só ouço esse CD de novo depois de ver um episódio de Chaves, ouvir piadas do Ary Toledo...


07. Distant Sky

AC: Faixa que ele divide os vocais com a Else Torp.

MM: Poxa, o Bernardo hoje está querendo me levar às lágrimas né.

AC: O que essa mulher interpreta também é impossível descrever em palavras. "Let us go now, my darling companion / Set out for the distant skies".

BB: Sim, soprano dinamarquesa que participa do Theatre of Voices que canta de música barroca a contemporânea, de Schutz a Stockhausen.

AC: Como não chorar com a mulher cantando esses versos nessa voz maravilhosa?

BB: Aí vocês me permitem o exagero, natural ela cantar com o Nick Cave, um dos grandes músicas e compositores vivos, hehe.

AC: Sem exagero algum, Nick Cave já deve ter na discografia pelo menos uns 8 clássicos incontestáveis.

BB: Não sei nem o que interpretar da letra, pra te falar a verdade, mas é tão doída quanto bonita. O contraponto que as vozes dos dois armam parece desenhar uma história sonora, atmosférica...

AC: Provavelmente seja a faixa onde ele fale diretamente sobre o filho q ele perdeu

BB: Essa poderia estar no Push The Sky Away, pela delicadeza e sofisticação nos arranjos. Esses tem uma sonoridade meio "celestial".

AC: o último trecho dela é o q me deixa essa impressão.

MM: Daí já é exagero, com certeza. O pouco que conheço do Nick Cave não gostei. Esse álbum me faz sentir muitas emoções tristes, e gostei disso

BB: Sim... E talvez uma conotação mais religiosa, espiritual... Contrapõe com o clima quase ou completamente niilista de muitas das primeiras faixas.

AC: Sobre se encaixar no Push the Sky Away, acho difícil, pois mesmo mais sofisticado, aquele disco tinha um "calor" diferente.


8. Skeleton Tree

MM: Outra faixa com ritmo leve, mas ainda assim triste. Pronto Bernardo, você conseguiu que uma lágrima brotasse do meu olho esquerdo ...

AC: E a faixa também encerra de maneira certeira o disco. Não dá pra imaginar alguma outra faixa finalizando o registro a não ser essa. Mesmo deprê e coisa do tipo, ela finaliza o disco com algo de esperança, em uma nota mais alta.

MM: Sim, é perceptível isso. O encerramento traz a sensação de que apesar de muita dor, deve ser superado esse momento e bola pra frente.

AC: Ele se lamentou em "I Need You", encarou as perdas em "Distant Sky" e parece aceitar tudo e seguir a diante com a vida.

BB: Pra mim "I Need You" leva o disco para outra direção: antes, ele estava niilista, visceral, rasgado e improvisado, com loops, eletrônica, bateria e spoken word comendo solto. Agora que chegamos na faixa-título e encerramento do álbum, as composições ficaram mais tradicionais, mas ainda magistralmente executadas. De uma sensibilidade ímpar. A melodia do piano é algo a se destacar também: infunde esperança na canção, e sinto até os vocais mais leves, menos soturnos.

AC: Isso tudo eu to deduzindo apenas pela forma como os instrumentos parecem mais vívidos.

MM: Bela faixa de encerramento

BB: Sim, e mais alinhados, conversando entre si... Agora parece algo ensaiado, e não um "falatório" desgovernado. Cave provando que sabe nos atingir dos dois jeitos.



Considerações Finais

MM: Conforme disse anteriormente, não sou um grande apreciador da obra de Nick Cave. Esse álbum em especial não me tornou fã do homem, mas confesso que pelo menos ganhou um espaço de respeito na minha lista de músicos que não comprarei discos, mas respeito ele. A profundidade das letras e o peso climático do instrumental é de arrepiar, e facilmente irá levar depressivos às lágrimas. Um dos grandes lançamentos de 2016 que ouvi até o momento, e agradeço ao Bernardo pela oportunidade.

AC: Que David Bowie me perdoe, mas o topo do ano é do Nick Cave. Provavelmente este seja um dos discos mais sentimentais sobre perda e encarar os desafios e revés da vida. Me lembro facilmente que no começo do ano eu proferi que desejava que surgisse algum disco tão forte, impactante e com alguma mensagem a me dizer, quanto Blackstar. Pois aí está ele. Obrigado, Nick Cave.

MM: Bah, David Bowie não irá perdoá-lo e discordo de ti. O primeiro lugar é dele, pois em termos de o mais sentimental sobre perda e encarar os desafios e revés da vida, o Bowie teve que fazer sobre ele mesmo. É difícil narrar a perda de um filho, mas narrar sobre a própria morte é muito mais difícil. E isso, Bowie fez com superação e toda a magia que ele tinha.

AC: Isso eu falo por mim, claro. Ambos me tocaram de maneira absurda, mas o Skeleton Tree falou comigo de uma maneira mais... intensa. Não sei explicar, só sentir.

BB: Te falar que pra mim, não chega a figurar como um "clássico" BadSeediano - o último talvez na minha opinião seja a dupla Abbattoir Blues/The Lyre of Orpheus de 2004. Mas, ainda assim, se tornou um disco especial a ser ouvido, tão impactante quanto o Blackstar de David Bowie. Se em um ouvimos o Camaleão se despedindo de nós, aqui ouvimos Nick Cave se despedindo de um ente querido, em busca de fazer as pazes com seus demônios. Ainda que não venha fazendo trabalhos com a atmosfera grandiosa de antigamente, ele continua surpreendendo e provando o compositor, experimentador e intérprete de mão cheia que é, sabendo aliar barulho e harmonia para compôr um disco sobre sentimentos sombrios que ninguém quer encarar. Resta a gente desejar nossos pêsames e agradecer por fazer algo tão íntimo, que tanto dissesse sobre a alma de um artista e de um indivíduo. Belo e sombrio ao mesmo tempo, o que o configura como um dos melhores discos do ano - e da década, talvez?

MM: Gostei do álbum mais do que o The Boatman’s Call, e bem mais que o terrível Murder Ballads. Quem sabe quando eu ficar velhinho eu passe a correr atrás da obra do homem.

BB: Recomendo ouvir o início da carreira, Mairon: Tender Prey, Let Love In, The Good Son, Your Funeral... My Trial, Henry's Dream, From Here To Eternity... Tudo de muito bom a obra-prima.

AC: Your Funeral... My Trial é legal se você gosta de post-punk. A primeira fase dele toda, na verdade.

BB: E o disco de covers Kicking Against The Pricks, onde ele canta desde blues antigo e Johnny Cash, passando por Velvet Underground e chegando em Gene Pitney.






DISCOS DE ÊXITOS


                                         Lady in Red - A Collection of Great Ballads


Traklist:

01 – Chris De Burgh - The Lady In Red 4:15
02 – Berlin - Take My Breath Away 4:10
03 – Terence Trent D'Arby - Sign Your Name 4:33
04 – Cyndy Lauper - True Colors 3:47
05 – The Cars - Drive 3:50
06 – Bangles - Eternal Flame 3:54
07 – Leo Sayer - When I Need You 4:07
08 – Robin Beck - The First Time 3:18
09 – Elton John - Blue Eyes 3:27
10 – Heart - Alone 3:38
11 – Lionel Richie - Say You, Say Me 4:00
12 – Linda Ronstadt & Aaron Neville - Don't Know Much 3:32
13 – Stevie B. - Because I Love You (The Postman Song) 3:47
14 – Roxette - It Must Have Been Love 4:17
15 – Chris Isaac - Wicked Game 4:58
16 – Sinead O'Connor - Nothing Compared 2 U 5:02
17 – Zucchero Featuring Paul Young - Senza Una Donna 4:30



                                         Jovem Guarda - Millennium


         



















Faixas:

01. Festa De Arromba - Erasmo Carlos
02. Pobre Menina (Hang On Sloopy) Lilian & Ed Wilson
03. Querida (Don't Let Them Move) - Jerry Adirani
04. Última Canção - Martinha
05. Meu Primeiro Amor (You're Going To Lose That Girl) - Renato E Seus Blue Caps
06. Coruja - Deny & Dino
07. Mar De Rosas (I Never Promised You A Rose Garden) - The Fevers
08. O Calhambeque (Road Hog) - Caetano Veloso
09. Ternura (Somehow It Got To Be Tomorrow) (Today) - Wanderléa
10. Coração De Papel - Sérgio Reis
11. O Bom Rapaz - Wanderley Cardoso
12. A Volta - Os Vips
13. Splish Splash (Splish Splash) - Silvinha
14. A Festa Do Bolinha - Trio Esperança
15. Era Um Garoto Que Como Eu Amava Os Beatles E Os Rolling Stones - Os Incríveis
16. O Ritmo Da Chuva (Rhythm Of The Rain) - Leno
17. A Praça - Ronnie Von
18. O Bom - Eduardo Araújo
19. Alguém Na Multidão - Golden Boys
20. Diana (Diana) Carlos Gonzaga

MUSICA&SOM



RARIDADES

 

Circles - Circles (1983)



don't hang around, enjoy good music!

domingo, 14 de maio de 2023

“Tapestry” (Ode Records, 1971), Carole King



Foi através de seu segundo álbum solo, Tapestry, que a norte-americana, Carole King, teve o seu talento como cantora e compositora reconhecido pelo público e pela crítica. Pode parecer precoce o reconhecimento do talento de um jovem artista vir no segundo álbum, mas em se tratando de Carole King, é diferente. Embora estivesse em seu segundo álbum solo, King já era uma artista experiente, tanto na vida quando na arte. Beirando os 29 anos de idade quando lançou Tapestry no início de 1971, King vinha de um divórcio, era mãe de duas meninas e tinha uma carreira como compositora de pouco mais de 12 anos, compondo ao lado do seu então marido, Gerry Goffin, canções de sucesso para dezenas de artistas, verdadeiras gemas pop.

Até chegar ao multiplatinado e premiado Tapestry, Carole king percorreu um caminho longo. Filha de pais judeus, Carole King nasceu em 9 de fevereiro de 1942, em Nova Iorque, nos Estados Unidos. Aos quatro anos de idade, aprendeu a tocar piano com sua mãe.  Na adolescência, nos anos 1950, montou com os amigos a banda Co-sines. Em 1958, com 16 anos, grava o seu primeiro single, “The Right Girl”, canção composta por ela mesma.

Pouco depois, Carole King ingressa na Queen College, onde conhece Gerry Goffin, com o qual inicia um romance. Carole engravida de Goffin, e os dois se casam, o que obriga o casal a abandonar a faculdade para trabalhar para sustentar a família que os dois estavam formando com a chegada do bebê, em 1960. O casal trabalhava de dia, e à noite, compunha canções para os mais diversos artistas gravarem. Geralmente Goffin escrevia as letras, King fazia a melodia ao piano.

Goffin e Carole King: de casal de namorados a dupla de compositores de sucesso. 

Não demorou muito e ainda em 1960, a primeira canção composta pela dupla Goffin-King a estourar foi “Will You Love Me Tomorrow”, através das Shirelles. Com essa música, as Shirelles foram o primeiro grupo musical formado por negras a chegar ao 1º lugar da parada da Billboard Hot 100, nos Estados Unidos.

Com o sucesso de “Will You Love Me Tomorrow”, o casal passou a ser bastante requisitado por artistas para fornecer canções para gravar. A quantidade de canções que produziam e que viravam sucesso era enorme, fazendo com que Goffin e King deixassem os seus trabalhos diurnos para se dedicarem exclusivamente às composições de canções. O casal fez parte do chamado grupo Brill Building, que integrava compositores, músicos e produtores que trabalhavam num edifício de mesmo nome, em Nova Iorque, criando canções para bandas, cantores e trilhas sonoras. Gente como Neil Diamond, Burt Bacharach, Bobby Darin, entre outros faziam parte desse grupo, assim como o casal Goffin-King.

Até 1967, o casal Goffin-King compôs uma considerável coleção de canções que se tornaram sucesso na voz dos mais diversos artistas como “Take Good Care Of My Baby” (com Bobby Vee, em 1961), “The Loco-Motion” (com Little Eva, em 1962), “Up On The Roof” (com The Drifters, em 1962), “Chains” (com The Cookis, e depois The Beatles, ambas versões em 1962), “Hey Girl” (com Freddie Scott, em 1963), “I’m Into Something” (com Heman’s Hermit, em 1964), “Bring Me Down” (com The Animals, em 1966).  Mas o grande sucesso composto pelo casal foi “(You Make Me Feel Like) A Natural Woman”, que estourou com Aretha Franklin, em 1967, chegando ao 8º lugar da parada de singles da Billboard Hot 100, nos Estados Unidos. Se tornou um dos maiores sucessos da carreira de Aretha Franklin.

"Will You Love Me Tomorrow", gravada pelas The Shirelles (foto) em 1960,
foi a primeira canção composta pela dupla Gerry Goffin e
Carole King a se tornar um grande sucesso.

Apesar do sucesso da carreira profissional como compositores, a vida pessoal do casal não ia bem. Goffin e King se separaram em 1968. Após o divórcio, King mudou-se com as duas filhas, frutos do seu casamento com Goffin para Los Angeles, indo morar em Laurel Canyon, uma localidade habitada por vários astros do rock da época. Lá, Carole King fez amigos, conheceu a cena musical, e fez amizade com James Taylor e Joni Mitchell. Em Los Angeles, Carole King formou com o guitarrista Danny Kortchmar e o baixista Charles Larkey (com quem King se casaria), o trio The City, onde ela atuou como vocalista e pianista do grupo. O trio chegou a lançar um álbum, mas o trabalho não teve repercussão porque Carole tinha pavor de palco, o que impossibilitou o grupo de fazer shows para divulgar o disco. Com isso, The City acabou se dissolvendo em 1969.

Graças ao incentivo de James Taylor, Carole King se lançou em carreira solo, lançando em 1970 o seu primeiro álbum solo, The Writer. O álbum contou com a colaboração de James Taylor no violão e nos vocais de apoio. Apesar da avaliação positiva por parte da crítica, The Writer teve uma produção ruim, e suas vendas foram muito fracas.

Apesar do desempenho comercial do seu primeiro álbum ter sido fraco, Carole King se sentia motivada para gravar o seu segundo álbum. Boa parte das canções do novo álbum foi escrita por Carole King. No entanto, King incluiu três canções da sua antiga parceira com Gerry Goffin: “(You Make Me Feel Like) A Natural Woman” (gravada por Aretha Franklin), “Will You Love Me Tomorrow” (sucesso com as Shirelles, em 1960) e a até então inédita “Smackwater Jack”. O repertório incluiu também duas parcerias de Carole King com a poeta e letrista Toni Stern.

A produção do novo álbum foi conduzida por Lou Adler, proprietário do selo Ode Records, e as gravações ocorreram no estúdio B da A&M Records, em janeiro de 1971. Carole King contou com a participação de amigos como James Taylor, que tocou violão em algumas faixas e fez vocais de apoio. A cantora Joni Mitchell, amiga de Taylor e de King, também participou das gravações fazendo vocais de apoio. Os ex-parceiros de King no The City, Danny Kortchmar e Charles Larkey, também participaram das gravações; Korchmar tocou violão, conga, guitarra elétrica, vocais de apoio, enquanto Larkey tocou baixo.

James Taylor, Joni Mitchell e Carole King durante as sessões
de gravação do álbum Tapestry.

Lançado em 10 de fevereiro de 1971 através da Ode Records e distribuído pela A&M Records, Tapestry é álbum leve e agradável, que musicalmente, varia entre o pop, o rhythm’n’blues, soul e o folk. É um álbum pop que consegue ser simples e ao mesmo tempo refinado, muito bem-acabado. Embora tenha sido lançado numa época de grandes transformações sociais e políticas, reflexos dos movimentos ocorridos na década anterior, Tapestry não é um álbum de canções engajadas. Mesmo assim, o álbum contém faixas que trazem sutilmente, versos com mensagens conscientes, reflexivas. Os temas das canções giram entorno de amor, amizade e desilusão amorosa.

O álbum começa com o riff de piano executado por Carole King, e que dá início à faixa “I Feel The Earth Move”, canção que trata sobre satisfação e uma excitação sutil de uma garota apaixonada quando está perto do seu amado: ela sente a terra se mover sob os seus pés e o céu desmoronar”. A balada “So Far Away” é uma das faixas mais conhecidas de Tapestry e da carreira de Carole King. A letra da canção trata sobre a dor e a saudade de dois amantes separados pela distância: “It would be so fine to see your face at my door / And it doesn't help to know that you're so far away” (“Seria tão bom ver seu rosto na minha porta / E não ajuda saber que você está tão longe”).

Outra faixa famosa do álbum é “It’s Too Late”, fruto da parceria de Carle King e a poeta Toni Stern. É um exemplo de canção pop perfeita, na medida certa. A letra, escrita por Stern, possui versos simples, diretos, que tratam sobre o fim de um relacionamento, de um amor que acabou, mas abordado sem melancolia, sem traumas. “Home Again” é uma linda balada que versa sobre solidão, em que uma mulher que mora sozinha, sente a falta de alguém para conversar e lhe fazer companhia. Em “Beautiful”, o eu lírico observa a infelicidade e a frustração nos rostos das pessoas ao seu redor. O refrão prega o otimismo e a valorização da autoestima.

Imagem da área interna da capa dupla do álbum Tapestry.

O lado A da versão LP de Tapestry termina com “Way Over Yonder”, uma canção gospel com sabor pop em que Carole King canta sobre a busca da paz de espírito e ressalta o valor que as coisas simples da vida têm. Destaque para a participação da cantora Merry Clayton nos vocais de apoio, a mesma que colaborou com os Rolling Stones na canção “Gimme Shelter” fazendo vocais de apoio sensacionais.

Abrindo o lado B do álbum, uma canção que é considerada um “hino à amizade”: “You’ve Got A Friend”. Carole King teria se inspirado no amigo James Taylor para compor a canção. Seria uma resposta à canção “Fire And Rain”, gravada por Taylor em 1970 para o álbum Sweet Baby James, em que o cantor expressar a sua dor ao saber do suicídio de sua ex-namorada, Suzanne Schnerr. Os versos “I've seen lonely times when I could not find a friend” (“Tenho passado horas solitário quando não consigo encontrar um amigo”), de “Fire and Rain”, motivaram King a compor “You’ve Got A Friend”, em que ela se mostra à disposição para apoiar o amigo num momento tão difícil que ele passava. O cantor travava uma batalha para vencer a depressão e o seu vício em heroína. A forte amizade entre Carole King e James Taylor encantou o público, e levantou suspeitas de que eles tinham um romance.

Quando Carole King apresentou “You’ve Got A Friend” a James Taylor, sentiu vontade de tocá-la, e acabou gravando-a para o seu álbum Mud Slide Slim And The Blue Horizon, que curiosamente estava sendo gravado na mesma época em que Tapestry estava sendo gravado. Embora gravados na mesma época, por volta de janeiro de 1971, o álbum de Carole King foi lançado em fevereiro e o de James Taylor saiu em abril. A versão de Taylor para “You’ve Got A Friend” foi a que ficou mais famosa, ainda que a de King tivesse alcançado uma boa execução em rádio.

Carole King e James Taylor: uma grande amizade para toda a vida. 

“Where You Lead” é outra parceria de Carole King com Toni Stern presente em Tapestry, cuja letra é sobre uma mulher apaixonada, disposta a seguir o seu amado aonde quer que ele vá. Se na sua versão original com as Shirelles, “Will You Love Me Tomorrow?” (composta por Gerry Goffin e Carole King) era um R&B pop adolescente, a versão gravada por King se tornou uma balada lenta e com uma interpretação mais adulta.

“Smackwater Jack” possui um tema que destoa de todo o resto do álbum. A faixa é um rhythm‘n’blue alegre e descontraído, com clima de “velho oeste”, que conta a história de um bandido destemido que acabou capturado e condenado à forca. Segue a faixa “Tapestry”, uma balada lenta à base de voz e piano, e dá nome ao álbum.

O álbum chega ao fim com mais uma canção antiga da parceria Gerry Goffin e Carole King, “(You Make Me Feel Like) A Natural Woman”, originalmente gravada por Aretha Franklin, lançada como single no final de 1967, e incluída no álbum Lady Soul (1968). A canção teria sido uma sugestão do coproprietário da Atlantic Records, Jerry Wexler, que sugeriu a Goffin e King que compusessem uma canção para Aretha com o título “Natural Woman”. Enquanto a versão original de Aretha é mais pomposa, cheio de naipe de cordas, vocais de apoio, vários instrumentos, a versão de Carole vai num sentido contrário: é mais intimista, e conta apenas com a voz de King e seu piano, e discretos vocais de fundo. A letra de “(You Make Me Feel Like) A Natural Woman” é sobre uma mulher com uma autoestima baixa, sem inspiração, mas que ao encontrar uma grande amor, ela descobre a alegria de viver.

Aretha Franklin gravou em 1968 "(You Make Me Feel Like) A Natural Woman",
de Gerry Goffin e Carole King, e regravada pela própria
Carole King em 1971 para Tapestry.

Tapestry foi bem recebido pela crítica. Na época de lançamento do álbum, o jornalista Jon Landau, da edição americana da revista Rolling Stone, afirmou em sua resenha sobre Tapestry que Carole King era uma das artistas mais criativas da música pop e que o álbum era uma “superação pessoal” da cantora.

A julgar pelo desempenho de Tapestry nas paradas, o público aprovou o álbum. Tapestry ficou em 1º lugar na parada da Billboard 200, nos Estados Unidos, durante quinze semanas. No Canadá, o segundo álbum de Carole King permaneceu por nove semanas no topo da parada de álbuns daquele país. O single de “It’s Too Late” alcançou o 1º lugar da Billboard 100, nos Estados Unidos, onde permaneceu cinco semanas no topo.

O desempenho comercial de Tapestry foi magnífico. Foi o álbum mais vendido nos Estados Unidos em 1971. Ao todo, no mercado americano, Tapestry vendeu mais de 10 milhões de cópias, enquanto que em todo o mundo, o álbum chegou à marca de 25 milhões de cópias vendidas, fazendo dele, um dos álbuns mais vendidos em todos tempos.

Carole King no auge da carreira nos anos 1970.

Além dos elogios da crítica e dos ótimos números em vendas, Tapestry foi contemplado com prêmios. Na edição de 1972 da premiação do GrammyTapestry venceu em quatro categorias: “Álbum do Ano”, “Melhor Performance Vocal Pop Feminino”, “Gravação do Ano” (por “It’s Too Late”) e “Canção do Ano” (por “(You Make Me Feel Like) A Natural Woman”.

O megassucesso de Tapestry impulsionou a carreira de Carole King, que a cada disco se tornava uma das cantoras mais populares e queridas da música pop norte-americana, graças às suas canções melódicas e agradáveis, bem como ao seu jeito carismático.

Tapestry teve não apenas um papel importante na carreira de King. O álbum mostrou que as mulheres, assim como os homens, também poderiam ser bem-sucedidas como compositoras e intérpretes de suas próprias canções. Se no futuro, o mundo viu cantoras autoras brilhantes da música pop como Amy Winehouse e Adele, isso só foi possível porque no passado, houve artistas como Carole King e álbuns femininos brilhantes como Tapestry que abriram caminho.

Faixas

Todas as músicas foram escritas por Carole King, exceto onde indicado.

Lado A

  1. “I Feel the Earth Move"
  2. "So Far Away"
  3. "It's Too Late" (letra de Toni Stern)
  4. "Home Again"
  5. "Beautiful"
  6. "Way Over Yonder" 

Lado B

  1. "You've Got a Friend"
  2. "Where You Lead" (letra de Toni Stern)
  3. "Will You Love Me Tomorrow?" (Gerry Goffin – Carole King)
  4. "Smackwater Jack" (Gerry Goffin – Carole King)
  5. "Tapestry"
  6. "(You Make Me Feel Like) A Natural Woman" (Goffin, King, Jerry Wexler) 





Destaque

Carlos do Carmo ‎– Carlos do Carmo (LP 1970)

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