sábado, 4 de maio de 2024

Dez discos com mar e praia na capa

 Aqui ficam hoje dez memórias de capas com sabor… a verão.

1962. Dick Dale & His Del-Tones

Nome de referência no universo do surf rock, Dick Dale (acompanhado pelos Del-Tones) teve neste Surfer’s Choice a sua estreia em álbum em 1962. O disco levou esta música a um público mais vasto que o culto até então atento ao movimento tornou-se numa das peças centrais do surf rock.

1963. The Beach Boys

O surf habitou entre as referências de maior protagonismo em canções dos primeiros álbuns dos Beach Boys. Esta é a capa de Surfin’ USA, o segundo álbum do grupo, editado em março de 1963. A imagem da capa, assinada pelo fotógrafo (e também praticante de surf) John Severson, mostra Leslie Williams sobre uma onda, em Sunset Beach, na ilha de Oahu (Hawai).


1968. Booker T & the MG’s

Toi o oitavo álbum dos Booker T & The MG’s, banda nascida de músicos residentes nos estúdios da Stax Records. Soul Limbo incluía no seu alinhamento, além do tema-título que então foi usado no genérico de alguns programas televisivos da época (um deles Test Match Special) e inclui versões de Eleanor Rigby dos Beatles e Foxy Lady de Jimi Hendrix.


1970. Miles Davis

O álbum Bitches Brew não só desempenhou um papel determinante no rumo criativo da obra musical de Miles Davis como lhe deu uma das suas capas mais icónicas. A pintura do alemão Mati Klarwein, que na verdade revela mais do que um só ambiente, define por si só uma afirmação cultural e estende à dimensão das imagens a abordagem temática do disco.

1975. The Rolling Stones

Editado em 1975, Made in The Shade foi o primeiro best of dos Rolling Stones nos anos 70, reunindo então uma série de temas editados desde Sticky Fingers, o álbum que em 1971 tinha assinalado a sua passagem para o catálogo da Atlantic Records.

1978. Sex Pistols

Editado em Outubro de 1978, Holidays In The Sun foi o quarto single dos Sex Pistols. A canção foi inspirada por uma passagem da banda pela ilha de Jersey (no Canal da Mancha), à qual se sucedeu uma curta temporada em Berlim. O single atingiu considerável sucesso e a canção foi incluída no álbum Never Mind The Bollocks, editado poucos dias depois do single.

1983. Wham!

Editado em 1983 como o quarto e último single do álbum de estreia dos Wham!, Club Tropicana retratava o surgimento de novos hábitos de turismo a preços mais acessíveis em paragens mais solarengas. A capa do single sugere a luz e cor desses destinos (vincando o tom que então acompanhava igualmente o teledisco). 

1991. Erasure

Editado em setembro de 1991, Love To Hate You foi o segundo single extraído do álbum Chorus, um dos mais marcantes (e bem sucedidos) de toda a obra dos Erasure. Apesar de não ser das suas canções mais recordadas no presente, este foi contudo um dos maiores sucessos do duo na altura.

1994. Blur

Editado em 1994, o quarto álbum dos Blur foi aquele que alimentou a “contenda” que nesses dias fazia notícia, sobretudo nas páginas dos jornais musicais ingleses onde o ‘brit pop’ era quem ditava a ordem do dia. O disco nasceu sob descendência do anterior Parklife, mas mesmo sendo dos menos desafiantes do grupo revelou algumas belas canções.

1997. Sven Van Hees

Disco em regime ‘downtempo’, que na altura contribuiu para a definição de novos caminhos em terrirórios lounge, Gemini colocou então no mapa das atenções dos amantes das electrónicas o nome deste DJ e produtor belga cuja carreira começou na rádio, tendo sido o responsável pelo primeiro programa sobre dance music no seu país

Começar uma coleção: dez singles do movimento new romantic

 Um a um aqui vamos sugerir dez singles para quem quiser encontrar primeiras pistas para uma coleção de discos representativos do movimento “new romantic”. Memórias escolhidas e comentadas… a 45 rotações.

As primeiras movimentações (e até mesmo um primeiro single, Tar, dos Visage), datam ainda de 1979. Mas é com a chegada de 1980 que o “culto sem nome” como lhe chamaria nesse mesmo ano uma edição da revista The Face, ganha visibilidade. As suas raízes moravam entre o Billy’s e o Blitz, dois clubes na Londres de então, em noites que contavam com a música dos Kraftwerk, La Dusseldorf, David Bowie, Roxy Music, The Normal ou Ultravox por banda sonora.

Na pista de dança, gerida pelo DJ Rusty Egan, reencontravam-se gestos, poses e vestimentas que evocavam uma ideia de glamour que não se conhecia desde os dias do glam rock, porém segundo novos caminhos.

Apesar de “sem nome” por alguns tempos, o movimento acabaria reconhecido como new-romantic… Fez sobretudo história entre 1979 e 82, revelando nomes como os Visage, Duran Duran, Spandau Ballet, Classix Nouveaux, A Flock Of Seagulls e acolheu, pela música ou pela força da comunicação visual, bandas já com vida anterior, dos Adam and The Ants ou Landscape ou até mesmo, por um instante, os Japan (que não gostavam propriamente desta associação). Ao longo das próximos dias vamos aqui evocar episódios de uma história que marcou o panorama pop/rock há 40 anos. Dez singles para lembrar um movimento… Não necessariamente os mais raros nem os de maior sucesso. Mas dez singles representativos do que então aconteceu.

LANDSCAPE

“Norman Bates” (1981)

“Norman Bates” é na verdade o terceiro single (e o derradeiro) extraído do segundo álbum dos Landscape, mas ao invés das visões de maior protagonismo das eletrónicas que marcavam “Einstein A Go Go”, promove uma viagem sobretudo assombrada e plasticamente mais aproximada dos trilhos mais desafiantes de algumas pistas então igualmente seguidas pelos Visage ou Ultravox. Chegou ao Top 40 no Reino Unido mas acabou algo esquecido pelo tempo. O single representa ainda (mais) um episódio de relação da canção pop com os universos de ficção dos livros e do cinema, tomando como protagonista a figura de Norman Bates, criada por Robert Bloch e que Antony Perkins interpretou depois na adaptação de “Psico” ao cinema feita por Alfred Hitchcock.

A este single juntamos os outros que antes tinham já sido apresentados neste post:

VISAGE

“Visage” (1981) *

A escolha poderia ter recaído por qualquer das canções do álbum de estreia dos Visage, editado em 1980. Tar foi, em 1979, uma canção claramente desenhada para responder ao paradigma da ideia que dominava os DJ sets de Rusty Egan. Fade To Grey seria o êxito global nascido do alinhamento do álbum a que chamaram simplesmente Visage. Mas, editado já em 1981 (depois de Mind of a Toy escolhido como sucessor de Fade to Grey a 45 rotações), o tema que usava o nome da banda por título acabou por representar como que um manifesto das ideias em jogo (tanto na letra como na música), ainda por cima depois ilustrado com um teledisco com imagens captadas entre as noites onde o movimento havia nascido. No Reino Unido o single surgiu com duas capas distintas, uma com uma fotografia de Steve Strange com chapéu, uma outra (na imagem) com o seu rosto maquilhado com caracteres chineses.

* A canção surgiu em single apenas em 1981, mas na verdade data de 1980, ano em que surge como faixa de abertura do álbum “Visage”.

SPANDAU BALLET

“To Cut a Long Story Short” (1980)

A história dos Spandau Ballet remonta aos finais dos anos 70, sob outras designações. O nome surgiu já perto da viragem dos oitentas, numa altura em que, da convivência com a música de uns Kraftwerk e outras novas forças de uma pop que descobria as electrónicas emergiu uma música essencialmente centrada na exploração da percussão, suportada pelas teclas e com espaço para a voz projetada de Tony Hadley, secundarizando o papel da guitarra. Naturais de Londres, os Spandau Ballet tornaram-se frequentadores habituais das noites no Blitz e outros espaços onde emergia um culto ainda “sem nome”. Várias editoras bateram-se pela sua assinatura, tendo a Chrysalis conseguindo chegar a um acordo que logo os levou a estúdio, de lá saindo num ápice o single To Cut a Long Story Short canção que, juntamente com Vienna dos Ultravox e Fade to Grey dos Visage tornou visível (e com apetite mainstream) o que até então fora a aventura localizada e noturna do fenómeno que então emerge sob o rótulo new romantic. Poucos meses depois a canção surgiria no álbum de estreia do grupo, Journeys To Glory.

ULTRAVOX

“Passing Strangers” (1980)

No início de 1979 uma tabuleta de fim de linha parecia levantar-se frente aos Ultravox. Depois do fracasso do seu terceiro álbum, Systems Of Romance, a Island Records rompera o contrato. Auto-financiaram uma digressão americana, mas depois do último concerto John Foxx, o vocalista, partiu para uma carreira a solo. Robert Simon, o guitarrista, juntou-se pouco depois aos Magazine. De um projeto paralelo com qual na altura se envolve o baixista Chris Cross chega um novo frontman. E com Midge Ure à frente de uma nova formação – em quarteto – gravam o álbum Vienna, que imediatamente os projeta para outro patamar de visibilidade. As afinidades com o som que emergia nas Bowie Nights era evidente na linguagem desse primeiro álbum da nova etapa dos Ultravox que teve Sleepwalk como cartão de visita e, depois, um segundo avanço em Passing Strangers, canção em cujo teledisco o par que se junta ao grupo se apresenta com look que certamente lhes daria acesso às noites que tinham Steve Strange a ditar a política (visual) de quem ou não podia entrar.

DURAN DURAN

“Planet Earth” (1981)

Naturais de Birmingham, onde eram já nome de protagonismo evidente no Rum Runner, o clube que localmente traduzia ecos das movimentações que se desenhavam em Londres, os Duran Duram estavam, nos primeiros meses de 1981, a gravar o seu álbum entre sessões nos estúdios Red Bus, Utopia e Chipping Norton. Seis semanas de gravações, sob produção de Colin Thurston, engenheiro de som ligado às sessões de Heroes, de David Bowie e recentemente co-produtor dos Human League. Em Janeiro tinham gravado a sua primeira sessão para a BBC 1, registando em estúdio os temas Sound Of Thunder, Friends Of Mine, Anyone Out There e Careless Memories. A 2 de Fevereiro, com uma capa desenhada por Malcolm Garrett, era editado em single Planet Earth. Além da versão standard em sete polegadas, o grupo editou desde logo uma versão longa destinada às pistas de dança, na qual a matriz rítmica (de genética disco) é valorizada. Outra das novidades (além do máxi-single), foi o facto de desde logo o grupo compreender as potencialidades de uma ferramenta promocional emergente: o teledisco.

CLASSIX NOUVEAUX

“Tokyo” (1981)

Formados depois da separação dos X-Ray Spex, moldados não apenas pela presença da figura e voz do vocalista Sal Solo, mas também por um protagonismo das guitarras sobre os (também presentes) teclados, estabelecendo aí a maior das diferenças para com os Ultravox, Japan ou Visage, bandas que então eram as primeiras a obter reconhecimento entre os então chamados neo-românticos, os Classix Nouveaux entraram discretamente em cena com um primeiro single (Robots Dance) lançado na independente ESP Records em 1980. Apesar do alinhamento visual e musical com outros nomes do movimento, chamaram mais depressa atenções fora do Reino Unido, nomeadamente em Portugal, onde viveram tempos de sucesso maior entre 1981 e 1982. Tokyo foi um dos três singles extraídos do alinhamento de Night People, o álbum de estreia lançado em 1981, e na sua capa fica clara a adesão visual às linhas que definiam o sentido estético que brotara nas noites no Billy’s e no Blitz. O vigor do som e o apelo performativo do grupo na verdade só cativou os apetites britânicos com Is It a Dream, um single do segundo álbum, lançado já em 1982. Mas por essa altura o fulgor deste fenómeno estava já a desvanecer-se.


sexta-feira, 3 de maio de 2024

Yma Sumac, “Voice of the Xtabay”

 


Há listas e listas… E nas mais canónicas são muitos os álbuns que se repetem… E há razões para que assim seja, porque há discos que escreveram episódios maiores na história da música popular. Mas há outros que costumam ficar de fora. E que tiveram também o seu papel e relevância, nem que junto de nichos. Alguns deles serão episódios menos célebres de carreiras que fixaram outros títulos como as suas referências. Outros são peças mais esquecidas mas que vale a pena não deixar perdidas no silêncio… Vamos então fazer uma lista diferente…

Resolvi focar esta a lista em edições posteriores a 1948, o ano em que é apresentado o formato de LP… Tematicamente vai andar pelos universos da música popular, o que abarca de resto uma vasta frente de géneros. Mas por vezes haverá umas espreitadelas ou escapadelas perto das fronteiras…

Aqui fica então o arranque desta lista, que comecei por publicar na Máquina de Escrever e aqui conhece agora nova casa. Chamei-lhe “100 Discos (Daqueles Que Não Costumam Surgir Nas Listas). É pessoal, como todas as listas o são… Até porque quando um dia acharem um algoritmo que as faça, as listas perderão toda a graça…


Voice of the Xtabay assinalou a estreia discográfica de Yma Sumac em nome próprio sete anos antes do disco de Lex Baxter que tornaria oficial o espaço a que se convencionaria chamar “exotica” (mas que aqui tem já clara manifestação).

A construção da personagem que então se revelava com o nome de Yma Sumac juntava mitologias que ora contavam que era descendente do último grande imperador Inca ora diziam que era uma dona de casa nova-iorquina que resolvera, pela música, dar outro rumo à sua vida. Na verdade Zoila Augusta Emperatriz Chávarri del Castillo (1922-2008), o seu nome real, era uma cantora peruana que começara a cantar na rádio em 1942 e chegou a gravar uma série de canções folk de passagem pela Argentina por esses dias. Com a família mudara-se para nova-iorque em finais dos anos 40, começando ali a fazer carreira a bordo do Inka Taky Trio. E foi então que, através da Capitol Records, recebeu um convite para gravar a solo.

Feito de seis composições de Vivanco (com quem estava casada) e duas de Lex Baxter, Voice of the Xtabay é um festim de exotismo que concilia uma interpretação à la Hollywood de um sentido de herança pré-colombiana com a presença da música latina. A invulgar extensão vocal de Yma Sumac (que ultrapassa as quatro oitavas), que lhe permitem não apenas o canto mas também um desenho de vocalizações que se tornariam assinatura sua, os arranjos luxuriantes para orquestra e uma presença variada de instrumentos de percussão, criava um alinhamento tão invulgar quanto sedutor. Diferente. Mas estranhamente intrigante.

“Voice of The Xtabay”, de Yma Sumac, teve a sua primeira edição em formatos de 45 e 78 rotações em 1950, juntando os temas em vários discos numa mesma caixa, com edição pela Capitol Records. Em 1952 os oito temas seriam reunidos num álbum de dez polegadas. Há diversas prensagens em vinil e edições em suporte digital, por vezes acrescentando temas de outros discos, nomeadamente de “Inca Taqui”, de 1953.

Da discografia de Yma Sumac vale a pena descobrir álbuns como:

“Legend of The Sun Virgin” (1952)
“Mambo!” (1954)
“Legend of The Jivaro” (1957)




Les Baxter, “Ritual of The Savage”

 


Se bem que possa caber ao álbum de 1957 Exotica, de Martin Denny, a fixação do seu título como forma de designar uma corrente “lounge” nascida entre ecos do jazz, ambientes tribais e latino-americanos, sugerindo o “exótico” tal e qual o havia feito o cinema de aventuras de Hollywood nos anos 40, a verdade é que houve uma série de títulos que, nos anos anteriores, caminhavam já por esses terrenos e lançavam as bases desse mesmo universo. Natural do Texas, mas com formação terminada e vida profissional iniciada em Los Angeles, Les Baxter tinha começado a editar discos em nome próprio (mais concretamente como bandleader) em finais dos anos 40. Estreou-se em 1947, ainda a 78 rotações, com Music Out of The Moon, que lançava um conjunto de composições de Harry Ravel em cuja interpretação se destacava a presença de um theremin… Promete, não é? Em 1950 assinou dois dos temas do alinhamento do álbum de estreia de Yma Sumac. E pouco depois tocou com Nat King Cole. Mas, e antes ainda de em 1953 encetar um trabalho como compositor para cinema, editou em 1951 o álbum Ritual of The Savage (cuja capa apresentava igualmente o título em francês Le Sacre du Sauvage), que podemos reconhecer entre as mais importantes referências do som exotica e da lounge music.

As notas impressas no verso da capa convidavam desde logo o ouvinte a fazer uma vigem imaginária a um paraíso tropical. Uma ilha tropical… Mas logo ali as geografias se diluíam num espaço de fronteiras difusas, mais de coisa de fantasia que de realismo etnomusicológico, convidando cada um a fechar os olhos e avançar pela aventura. Rituais nativos, fascínio pelas percussões de “selvagens” (termo usado no texto), cerimónias de “povos primitivos”… Descrevendo o disco como um poema sobre os sons e as lutas da selva, Les Baxter propunha em disco uma visão que, de facto, antecipava claramente a afirmação de um autor de música para cinema. 

Percussões tribais dominam o cenário num diálogo fluente com os instrumentos de uma banda de constituição não muito diferente das que então animavam salas de baile com música latino-americana, juntando contudo alguns momentos a dimensão cénica maior que o trabalho com uma orquestra aqui acrescenta… As composições denotam tanto heranças do jazz como da música de dança de então, juntando os arranjos uma dimensão cénica que de facto sugere a noção de viagem e aventura que Les Baxter aqui propunham… E escutem lá o belíssimo Jungle Janopy, dominado por frases repetidas, e imaginem onde estas heranças possam ter ido para anos depois… Se disserem Philip Glass acertaram…

“Ritual of The Savage”, de Les Baxter and His Orchestra teve edição original num LP de dez polegadas em 1950, surgindo com alinhamento aumentado numa reedição em 1955. Está disponível em CD e nas plataformas digitais.

Da discografia de Les Baxter vale a pena descobrir álbuns como:
“Tamboo” (1953)
“Space Escapade” (1958)
“Moog Rock” (1969)




Georges Brassens “Chante Les Chansons Poétiques (… et souvent gaillardes)”

 

Foi um professor de escola o primeiro responsável pelo desafio lançado a um ainda muito jovem Georges Brassens (1921-1981) para que aprofundasse um interesse pela poesia que então partilhava com um outro, pela música. Em Paris, para onde se muda em 1940, aprende por si a tocar piano e passa horas a fio numa biblioteca municipal, a ler. Compôs algumas canções, mas é pela escrita que a sua voz se faz “ouvir” nos anos 40, quer em textos que publica em periódicos libertários quer em livro, estreando-se com Laile Kakamou, romance que depois passa a ser impresso com o título La Lune Écoute Aux Portes. A maior concentração de atenções na música chega já no início da década de 50 quando, animado por palavras de amigos, se apresenta no cabaret da cantora Patachou em Monmartre. Visivelmente surpreendida com a descoberta que ali faz partilha pouco depois o entusiasmo com alguns dos habituais frequentadores da sua casa, um deles o diretor da Phillips, editora pela qual Georges Brassens assina, editando alguns 78 rotações ainda em 1952 e, perto do final do ano, o seu álbum de estreia, uma segunda prensagem surgindo meses depois, em finais de 1953.

Lançado originalmente com o título Georges Brassens chante les chansons poétiques (…et souvent gaillardes) de… Georges Brassens, entretanto rebatizado com o mais curto La Mauvaise Reputation (que é o título da faixa de abertura), o disco apresenta um conjunto de oito canções nas quais Brassens se faz acompanhar apenas pela sua guitarra e pelo contrabaixo de Pierre Nicolas, músico que durante mais de 30 anos tocará a seu lado. As canções, na sua maioria com letra e música do próprio Brassens, valorizam claramente as palavras. E estas não escondem pontos de vista críticos, por vezes sob pontos de vista satíricos, sobre a sociedade do seu tempo. La Mauvaise Reputation, por exemplo, fala de um homem antimilitarista (como Brassens o era) que se recusa a ver as celebrações do dia nacional francês (o 14 de julho). Le Gorille, com música de Eugène Metehen e letra de Brassens, usa um conjunto de personagens e uma situação caricata para, no fundo, criticar a pena de morte (que só seria abolida em França em 1981).

O disco representou o arranque de uma carreira que ajudou a definir uma nova e importante etapa da canção em língua francesa, dando voz a uma geração de vozes que vincaram, tal como Brassens, o poder da palavra no terreno da canção.

“Georges Brassens chante les chansons poétiques (…et souvent gaillardes) de… Georges Brassens” de Georges Brassens teve edição original num LP de 12 polegadas editado pela Phillips em 1952. Há depois toda uma história de reedições em vinil e CD, algumas delas relativamente fáceis de encontrar atualmente. O disco está também disponível em várias plataformas digitais.

Da discografia de Georges Brassens vale a pena descobrir álbuns como:
“Georges Brassens interprète ses dernières compositions” (1953)
“Georges Brassens, sa guitare et ses rythmes” (1954)
“Le Pornographe” (1958)




Odetta, “The Tin Angel”

 

A primeira metade dos anos 50 abraçou o (novo) formato do LP sobretudo entre os terrenos da música clássica, o jazz, a música vinda dos universos do teatro e do cinema, cabendo à canção popular uma relativamente discreta representação, ao invés do que sucedia nos formatos pequenos, com o single a cativar as emergentes revelações sobretudo nas áreas do rhythm’n’blues e o emergente rock’n’roll. Em 1954, o ano em que Elvis Presley se estreia em disco e Bill Halley (com os seus cometas) edita, também em single, uma versão de Rock Around The Clock que em breve faria história, o LP estava ainda relativamente longe dos horizontes dessa nova geração de novos talentos… A canção popular começa então a avançar rumo à exploração do disco de longa duração por outras frentes. E coube então à dupla constituída por Odetta Holmes e Larry Mohr fazer do álbum que então editam em conjunto o assinar de um episódio que teria influência maior em toda uma geração de cantores folk que emergiria pouco depois.

Apesar de hoje habitualmente reeditado com o título The Tin Angel e de ser atribuído a Odetta, o disco na verdade surgiu em 1954 com o título original The Tin Angel Presents Odetta & Larry, sublinhando ali o facto de estas serem gravações efetuadas no clube The Tin Angel, em São Francisco. Juntando gravações de 1953 e 54, algumas delas captadas em atuações ao vivo, o disco cruza os universos da folk, da country, dos blues e do gospel, numa confluência de canções e referências que aqui encontravam um espaço de diálogo e definiam uma nova identidade comum. 

De facto caberia a Odetta a mais firme descendência das ideias aqui lançadas, servindo Larry (que também ali tocava banjo) as contribuições mais próximas das raízes country. Depois de desfeita a dupla muitas destas canções integraram um repertório que de Odetta fez uma referência maior da folk americana e, também, da luta pelos direitos civis então travada nos EUA.

“The Tin Angel conheceu novas edições nos anos 50 e 60, mantendo todavia a identificação original. Uma reedição, em 1993, em suporte de CD, juntava temas extra ao alinhamento e apresentava o álbum sob a designação com a qual, de facto, hoje é conhecido.

Da discografia de Odetta vale a pena descobrir álbuns como:

“Sings Ballads and Blues” (1956)
“My Eyes Have Seen” (1959)
“Odetta Sings Dylan” (1965)




Harry Belafonte, “Calypso”

 

Mais do que apenas cantor, autor e ator, o tempo presente olha para a figura de Harry Belafonte (que neste momento soma belos 90 anos) como uma figura igualmente relevante na história social e política americana. Ativista, militante de diversas causas, foi rosto presente nas lutas pelos direitos civis e em ações de combate à sida e chegou mesmo a ser conselheiro num programa nos tempos da administração Kennedy. Na década de 50, antes de a visibilidade que o sucesso na música e no cinema lhe deram (e pela qual contribuiu para todas estas campanhas), notabilizou-se como um dos primeiros músicos de ascendência jamaicana a alcançar um patamar de visibilidade global.

Nascido em Nova Iorque em 1927, Harry Belafonte (na verdade o seu nome real é Harold George Bellanfanti Jr.) começou a cativar atenções em atuações em clubes da sua cidade no final da década de 40. Chegou aos discos pouco depois, valorizando relações com formas musicais das Caraíbas, ensaiando modelos de diálogo entre essas referências e linguagens pop contemporâneas. Esses diálogos ganharam forma maior em Calypso (1956), o seu terceiro álbum que o catapultou para um plano de popularidade pelo estrondoso volume de vendas que o disco alcançou já que foi o primeiro LP a ultrapassar a fasquia do milhão, tendo permanecido durante 31 semanas no primeiro lugar da lista da revista Billboard.

Apesar de em grande parte caracterizado pela presença de calypsos – como é o caso de Jamaica Farewell, que teria depois edição em single – o álbum ficou sobretudo conhecido por uma canção folk jamaicana tradicional, um canto de trabalho que traduz os ritmos e cansaço daqueles que carregam bananas para barcos num porto, durante a noite. Day-O (Banana Boat Song) tornou-se, inclusivamente, num standard com versões por vozes como as de Sara Vaughan ou do jamaicano Shaggy. E ganhou nova vida na história da cultura pop ao surgir, anos depois, na banda sonora do filme de Tim Burton Beetlejuice.

O disco conheceu novas edições depois de 1956. Há reedições recentes tanto em CD como em novas prensagens em vinil.

Da discografia de Harry Belafonte vale a pena descobrir álbuns como:

“Belafonte at Carnegie Hall” (1959)
“Jump Up Calypso” (1961)
“The Midnight Special” (1962)




Dalida, “Son Nom Est Dalida”

 

O fenómeno em que pouco depois se tornaria estava ainda longe de se poder imaginar, mas quando em 1956 lançou o seu primeiro EP, Iolanda Cristina Gigliotti inscrevia na história da canção popular o nome pelo qual ainda hoje é recordada: Dalida. Nascida no Cairo em 1933, filha de uma família italiana, tinha já conquistado um título de Miss Egito em 1954 e iniciado uma carreira como manequim. Descoberta por Bruno Coquatrix (que desde 54 comandava os destinos artísticos do Olympia), a cantora viu em pouco tempo reconhecida a aposta na música que decidira levar a Paris. O editor Eddie Barclay chamou-a e em 1956 editava um primeiro EP com Bambino, uma versão da canção napolitana Guaglione do italiano Giuseppe Fanciulli.

Bambino seria, no ano seguinte, o tema de abertura do primeiro álbum de estúdio, muitas vezes referido pelo título Son Nom Est Dalida. É um disco que traduz um sentido de encantamento por um certo exotismo mediterrânico e que explora de forma quase cinematográfica os ambientes das canções pelas quais a voz, com sotaque evidente da cantora aborda um conjunto de canções de uma luminosidade aberta a influências de várias geografias culturais tanto do sul da Europa como do magreb, num jogo de elementos que, mesmo sem as ligações mais vincadas ao jazz e à música latina, comum aos terrenos “exótica” de então, acaba por partilhar características em comum. Fechando os olhos, a imaginação, por estes sons, poderia facilmente levar-nos aos ambientes de um qualquer filme musical imaginário com cenário algures numa soalheira Europa do sul…

A música portuguesa tem uma presença curiosa neste primeiro álbum de Dalida. Não só um dos temas do alinhamento, com o título Madona, é uma versão de Barco Negro (internacionalizado por Amália Rodrigues, mas na verdade já de si uma abordagem, também com nova letra, a Mãe Preta, um original brasileiro de 1943), como há, logo na face A, uma canção com o título Fado, pela qual passam ecos, igualmente lidos pelo mesmo prisma de um certo exotismo cinematográfico, de uma ideia do fado (e sem guitarra portuguesa). A ligação a Amália (que Dalida admirava) teria expressão em outros discos seus. Como exemplos podemos recordar do alinhamento de Miguel, de 1957, Aïe ! Mourir pour toi (que Aznavour compôs para a fadista portuguesa) ou, do terceiro álbum, Gondolier (1958), J’écoute chanter la brise, uma versão de Sempre que Lisboa canta.

“Son Nom Est Dalida” teve edição original num álbum de dez polegadas, a 33 rpm. Houve reedições sucessivas, algumas mais tarde apresentando o mesmo alinhamento com o título “Bambino”.

Da discografia de Dalida vale a pena descobrir álbuns como:
“Gondolier” (1957)
“Dalida” (1959)
“Les Enfants du Pirée” (1960)




Ruth Brown “Rock’N’Roll”


 Foi através de algumas sugestões entusiasmadas que Ahmet Ertegun (o fundador da Atlantic Records) aceitou ir ouvir a voz de que tantos estavam a falar. Mas um acidente levou Ruth Brown a uma cama de hospital por alguns meses, sendo aí mesmo que Ertegun a encontrou e… assinou. Consegui sugerir-lhe que se afastasse do terreno essencialmente feito de baladas mais populares que então cantava para se aproximar do R&B… A viragem fez-se com uma sucessão de singles que Ruth Brown começou a gravar ainda em finais dos anos 40 e que lhe valeriam depois o reconhecimento como “rainha do R&B”. Em 1957 juntou a estas visões uma abordagem claramente pop a uma outra canção, fazendo de Lucky Lips (da autoria da dupla clássica Leiber & Stoller) um êxito que subiu ao número 25 da tabela geral de singles… É claro que era chegada a hora de editar um primeiro álbum.

O LP era um formato já com expressão importante no mercado mas nos terrenos do R&B eram ainda relativamente frequentes as carreiras mais focadas na edição de singles do que na construção de alinhamentos mais longos. O álbum de estreia de Ruth Brown tem na verdade um pouco dos dois mundos. Por um lado sugere (pela duração do formato) uma duração mais longa. Mas ao mesmo tempo foi um disco que resultou em parte da reunião de algumas gravações feitas nos anos anteriores, mais concretamente entre 1949 e 1956, em sessões mais curtas, feitas sem um LP na agenda do momento. Singles já com história como So Long (1949), Sentimental Journey (1950), Teardrops From My Eyes (1950) ou (Mama) He Treats Your Daughter Mean (1953) surgem ao lado de gravações mais recentes.

Ruth Brown chamou-lhe simplesmente Ruth Brown (embora com o subtítulo Rock & Roll) e, apesar da diversidade, este é um disco que acaba por definir um caminho. E é um caminho que nos faz notar como aqui se cruzaram as vivências do jazz – trazidas por músicos como o saxofonista Dick Cary os trompetistas Bobby Hacket, Taft Jordan e Ed ‘Tiger’ Lewis, o baixista George Duvivier, os bateristas Sidney Catlett e Connie Kay ou o pianista John Lewis – e outros instrumentistas mais ligados à emergente nova música popular, do boogie woogie, como era o caso de Will Bradley (trombone) a ao rhythm’n’blues, espaço ao qual estava ligado o pianista Harry Van Walls. É contudo claramente marcada por presenças do jazz esta abordagem feita de pontes que, do rhythm’n’blues por vezes piscam o olho à canção pop… Um disco de visões que lançou pistas que abriu muitos caminhos.

O álbum teve a sua edição original no formato de LP de 12 polegadas em 1957 e conheceu várias reedições em anos seguintes. Em CD é frequente o seu acoplamento com outros discos seus, nomeadamente Miss Rhythm, de 1959.

Da discografia de Ruth Brown vale a pena descobrir álbuns como:
“Miss Rhythm” (1959)
“Lata Date With Ruth Brown” (1959)
“Blues on Broadway” (1989)




Martin Denny “Exotica” (1957)

 

Nova iorquino de berço, criado em Los Angeles, Martin Denny (1911-2005) começou a estudar piano e descobriu um fascínio pelos ritmos latinos durante uma digressão por países da América do Sul nos anos 30, tendo desde logo começado a colecionar instrumentos com sonoridades diferentes das mais habituais. A sua identidade como músico ganha forma mais tarde, já nad década de 50, quando, contratado para uma temporada num bar no Hawaii (onde acabaria por fixar residência) dá por si a atuar, com o combo que juntara para o efeito, num espaço dominado por palmeiras, de janelas abertas e com um lago por perto. Durante a atuação o coaxar das rãs fez-se soar durante a primeira música. Mal terminou fez-se silêncio, regressando o som do coaxar mal a segunda peça começou a ser tocada. Às rãs juntava-se, como ambiente, o mais presente som dos pássaros… Aquela sinfonia de instrumentos e sons de animais causou em si uma epifania: porque não explorá-la em disco… E assim foi…

Com uma alusão direta aos ambientes criados nas noites de música ao vivo no Shell Bar (e que mais tarde seriam recriadas em Las Vegas), as sessões que decorreram em 1956 num estúdio em Waikiki (no Hawai) fixaram estes diálogos entre música e ambientes exóticos criados por sonoplastia naquele que foi o primeiro álbum de Martin Denny, ao qual chamou, simplesmente, Exotica. Editado em 1957 o disco conheceu um processo gradual no cativar das atenções, ganhando visibilidade maior com a edição em single de Quiet Village, acabando por conhecer episódios de sucesso maior em 1959, numa altura em que esta ideia de uma música lounge de inspiração jazzy e encenada com elementos de outras geografias e ambientes ganhou uma designação: exótica… E é por isso que hoje, ao referir-se o nome de Martin Denny, é frequente vermos-lhe associado o rótulo de “pai da música exótica”.

O álbum que deu visibilidade a Martin Denny e a esta música não foi, contudo, o primeiro a explorar estas visões de exotismo. E na verdade pelo alinhamento de Exotica surgem várias versões de temas originalmente apresentados em 1951, no visionário Ritual of The Savage, de Les Baxter (que integra esta lista de 100 discos). Entre os créditos dos temas gravados em Exótica figuram ainda compositores de renome no panorama da música americana de meados do século XX como Dimitri Tiomkin (sobretudo célebre pelo seu trabalho de criação de música orquestral para cinema) e Hoagy Carmichael (autor de inúmeras canções e também com trabalho feito no cinema).

“Exotica” teve uma primeira edição, com gravação em mono, lançada em 1957. O disco seria regravado para conhecer, depois, uma versão em estéreo. Conheceu várias reedições, a mais recente das quais, em vinil, tendo recuperado a mistura em mono original.

Da discografia de Martin Denny vale a pena descobrir álbuns como:
“Exotica, Vol. 2” (1957)
“Primitiva” (1958)
“Forbidden Island” (1958)




Destaque

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