quinta-feira, 8 de maio de 2025

Liza Minelli “Results” (1989)

 O final da década de 80 e a alvorada dos 90 assistiu a alguns episódios de reencontros de vozes veteranas com figuras da linha de novas gerações da cultura pop. Mas, ao invés de uma remistura de “Downtown” de Petula Clarke ou de um reencontro pontual com Tammy Wynette (com os KLF), o panorama pop teve com os Pet shop Boys epicentros para colaborações mais frutuosas. E, de facto, depois de um dueto em “What Have I Done to Deserve This” (1987), Dusty Springfield gravou em 1990 um álbum com o duo que, um ano antes, revelava outra nova frente de trabalho com outra voz veterana: Liza Minelli.

A ideia de uma colaboração entre Liza Minelli e os Pet shop Boys partiu da vontade da cantora que, com um novo contrato que a colocava a bordo da Epic Records, deu a saber que gostaria de experimentar um projeto na área da música pop. Tudo acontece numa etapa de consagração mundial dos Pet Shop Boys, então a viver aquela à qual a imprensa britânica chamaria depois a sua “fase imperial”. É por essa altura que Lisa escuta “Rent”, canção incluída no álbum “Actually” dos Pet shop Boys, abrindo-se então uma rota de curiosidade que a ela junta logo depois Neil Tennant e Chris Lowe, que aceitam o desafio não apenas de produzir o disco (na verdade em parceria com Julian Mendelssohn) mas de compor novas canções para a sua voz.

Nasce assim “Results”, disco que cruza de facto os universos de ambos os protagonistas, aliando um saber “clássico” e teatral na interpretação vocal à visão pop luminosa de uma das mais inspiradas forças que a pop viu nascer nos anos 80. Para a voz de Liza Minelli, além de um novo arranjo de “Rent” e também de “Tonight Is Forever” (vindo do álbum de estreia dos Pet shop Boys), Neil Tennant e Chris Lowe criaram de raiz os novos “Don’t Drop Bombs”, “So Sorry I Said”, “I Want You Now”, “If There Was Love” e “I Can’t Say Goodnight”, que fazem o grosso de um alinhamento no qual houve ainda espaço para revistar o mestre Steve Sondheim (em “Losing My Mind”, original do musical “Follies”, de 1971, que de resto deu a “Results” o seu single de apresentação), assim como uma canção recente de Tanita Tikaram (“Twist In My Sobriety”) e o universo do disco sound, neste caso revistando “Love Pains”, originalmente cantada por Yvonne Elliman em 1979 (e entretanto recriada, também em 1989, por Hazell Dean). 

“Results” foi o primeiro álbum de estúdio de Liza Minelli em 12 anos (sucessor, portanto, de “Tropical Nights”, de 1977), surgindo na sua discografia após uma gravação ao vivo, de recorte mais clássico, em “At Carnegie Hall” (1987), onde abordara songbooks sobretudo ligados ao teatro musical. Apesar do seu nome dominar a capa, o álbum não esconde a presença dos Pet Shop Boys, revelando os arranjos uma sintonia para com os caminhos que a dupla então trilhava nos seus próprios discos, inclusivamente nos momentos em que se abre espaço à presença de uma orquestra ou no episódio de travo mais jazzy que fecha o alinhamento, em “I Can’t Say Goodnight”. Apesar do sucesso obtido no Reino Unido (onde três dos quatro singles extraídos do álbum chegaram mesmo a figurar no respetivo top), “Results” foi um episódio pop único na obra de Liza Minelli. Os Pet Shop Boys editaram, depois, como lado B, uma maquete (com a voz de Neil Tennant) de “So Sorry I Said”. 






ROCK ART


 

THELONIOUS MONK WITH JOHN COLTRANE (USA) : Thelonious Monk With John Coltrane : 1961


 

Artist       : THELONIOUS MONK WITH JOHN COLTRANE (USA)

Album     : Thelonious Monk With John Coltrane

Year         : 1961

Genre      : Hard Bop

Tracklist  :

1.Ruby, My Dear 6:17

2.Trinkle, Tinkle 6:37

3.Off Minor 5:10

4.Nutty 6:35

5.Epistrophy 3:07

6.Functional 9:46

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ROBIN TROWER (UK): Come And Fınd Me : 2025


 

Artist       : ROBIN TROWER (UK)

Album     : Come And Fınd Me

Year         : 2025

Genre      : Blues Rock

Tracklist  :

01 – A Little Bit Of Freedom

02 – One Go Round

03 – I Would Lose My Mind

04 – Come & Find Me

05 – Take This Hurt Away

06 – The Future Starts Right Here

07 – Tangled Love

08 – Capture The Life Begun

09 – Without A Trace

10 – I Fly Straight To You

11 – Time Stood Still

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OTIS WAYGOOD BLUES BAND (Zimbabwe): Otis Waygood Blues Band: 1970


 

Artist       : OTIS WAYGOOD BLUES BAND (Zimbabwe)

Album     : Otis Waygood Blues Band

Year         : 1970

Genre      : Blues Rock / Psychedelıc Rock

Tracklist  :

1.You're Late Miss Kate

2.Watch 'N Chain

3.So Many Ways

4.I Can't Keep From Crying

5.Fever

6.Wee Wee Baby

7.Better Off On My Own

8.Help Me

9.I'm Happy

10.Devil Bones

11.You Can Do Part One

12.You Can Do Part Two

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JODY GRIND (UK) : Far Canal : 1970


 

Artist       : JODY GRIND (UK)

Album     : Far Canal

Year         : 1970

Genre      : Psychedelic Rock / Prog Rock

Tracklist  :

1.We've Had It

2.Bath Sister

3.Jump Bed Jed

4.O Paradiso

5.Plastic Shit

6.Vegetable Oblivion

7.Red Worms & Lice

8.Ballad For Bridget

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KENNY BARRON / DAVE HOLLAND (USA/UK) : The Art Of Conversation : 2014


 

Artist       : KENNY BARRON / DAVE HOLLAND (USA/UK)

Album     : The Art Of Conversation

Year         : 2014

Genre      : Contemporary Jazz / Post Bop

Tracklist  :

1.The Oracle

2.The Only One

3.Rain

4.Segment

5.Waltz For Wheeler

6.In Walked Bud

7.In Your Arms

8.Dr. Do Right

9.Seascape

10.Daydream

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Review: Theocracy - Ghost Ship (2016)

 





Duas coisas eu faço questão de esclarecer logo de cara: a primeira é que eu sou ateu. A segunda é que eu torço o nariz para os termos “metal cristão” e “white metal”, pois eles se referem apenas às letras, mas não dizem absolutamente nada sobre o som de uma banda.

Assim, vamos ao tema do texto: o Theocracy é uma banda estadunidense de power metal que veio para provar que o chamado metal cristão não precisa ser piegas e, mais importante ainda, que o power metal de qualidade não está restrito ao eixo América do Sul/Europa/Extremo Oriente. Não por acaso, a banda foi lucrar com seu sucesso nesses lugares, e não no seu país de origem.

Ghost Ship começa com tudo na tríade de abertura “Paper Tiger”, “Ghost Ship” e “The Wonder of It All”. “Wishing Well” e “Around the World and Back” desaceleram um pouco, mas não diminuem o calibre do álbum. A potência volta em “Stir the Embers” e “Call to Arms”. Após o respiro “Currency in a Bankrupt World”, o lançamento encerra com força total com “Castaway” e “Easter”. Esta última é a tal faixa épica que todo disco de power metal que se preze tem, mas não chega a ser superior à média do trabalho.

Resumindo, a parte instrumental é primorosa e uma verdadeira aula de power metal. Até alguns medalhões do gênero poderiam se inspirar neste e em outros bons álbuns recentes (Rabbits’ Hill Pt. 2 do Trick or Treat, por exemplo) para fazerem jus ao passado glorioso do estilo.

Mas eu gostaria de chamar a atenção para as letras. Você pode até achar que, por causa do rótulo de metal cristão, o Theocracy escreve letras pedindo que você aceite Jesus, sinta o toque divino e blá blá blá. Nada poderia estar mais longe da verdade. As letras lidam com temas mais profundos, concretos e universais da sociedade, traçando relações com os ensinamentos de Cristo e passagens bíblicas.

Há peças sobre sentir-se sozinho e diferente dos outros (“Ghost Ship” e “Castaway”), desejar o bem sem agir concretamente para fazê-lo (“Wishing Well”), suicídio (“Currency in a Bankrupt World”) e até uma tentativa de abordar musicalmente as aflições e angústias dos apóstolos de Jesus entre sua crucificação e ressurreição (“Easter”).

Se você for fã de power metal independentemente das letras, vai gostar deste quinteto instantaneamente. Se você se incomoda com letras que não dialogam com sua realidade, a recomendação permanece. O Theocracy não está aqui para te convencer de nada, diferentemente de tantos pastores picaretas mundo afora. Eles querem simplesmente abordar questões das nossas vidas (em escala individual ou social) através de uma ótica cristã – ainda que “eles” remeta 90% ao líder da banda, Matt Smith, que compõe quase tudo sozinho.

Sem dúvidas um dos melhores lançamentos de power metal em 2016 e o melhor disco da banda até hoje. Não importa a sua fé: se você é devoto de Ronnie James Dio, Ghost Ship merece sua audição.





quarta-feira, 7 de maio de 2025

Review: Mano Brown - Boogie Naipe (2016)

 



Mano Brown já faz parte da cultura pop brasileira. Figura central do Racionais MC’s, desde 1988 vem cantando letras afiadas, que denunciam de maneira explícita a violência policial, a desigualdade social, o preconceito racial e outros problemas infelizmente comuns à sociedade brasileira. Com álbuns já clássicos como Raio X Brasil (1993), Sobrevivendo no Inferno (1997) e Nada Como um Dia Após o Outro Dia (2002), a curta discografia do Racionais compensa a oferta limitada com a contundência e a eficiência, tanto no discurso quando no aspecto musical.

Pois bem. Nesse final de um 2016 que parece que nunca irá terminar, Mano Brown lançou o seu primeiro álbum solo. Boogie Naipe é um disco surpreendente, não pela reconhecida capacidade criativa de seu mentor, mas sim por mostrar um outro lado de Brown. O hip-hop pouco aparece no trabalho. Boogie Naipe é um trabalho que bebe na riquíssima fonte da black music brasileira, principalmente aquela produzida durante os anos 1970 e que foi a trilha sonora dos bailes que marcaram uma geração. 

Com influências que vão de Tim Maia a Banda Black Rio, passando por Cassiano, Toni Tornado, Wilson Simonal e toda a turma do funk, soul e groove setentista, Brown entrega um disco cheio de lirismo, com letras que deixam de lado a denúncia social e apostam em temas como o amor, o romantismo e o cotidiano do coração. Musicalmente, o trabalho amplia consideravelmente o espectro sonoro de Mano Brown, deixando as batidas características do rap de lado e trilhando pelo soul, pelo charm, pelo R&B e outras sonoridades mais sutis.

Bonito pra caramba, Boogie Naipe é um tributo a um passado que boa parte do público atual não conhece, mas que está aí para ser redescoberto e adorado como merece. Produzido pelo próprio Mano Brown ao lado de Lino Krizz, o trabalho conta com a participação especial de Leon Ware (parceiro de Marvin Gaye, outra das inspirações de Brown para o disco), Hyldon, Seu Jorge, Du Bronks, Helião, DJ Cia, Don Pixote, Max de Castro e outros, o que ajuda a acentuar a pluralidade de influências do álbum.

Longo, mas recompensador, Boogie Naipe demonstra a maturidade artística atingida por Mano Brown, capaz de levar um dos mais emblemáticos nomes do rap brasileiro por um caminho totalmente novo e inesperado, mas igualmente fascinante como os seus trabalhos ao lado do Racionais MC’s.

Apenas excelente!






Review: Childish Gambino - Awaken, My Love (2016)

 




Childish Gambino é o pseudônimo musical de Daniel Glover, ator e escritor norte-americano cujos trabalhos mais conhecidos são as séries 30 Rock Girls - ah, e ele também faz a voz original do personagem Alpha Dawg em Apenas um Show e a de Miles Morales, o jovem Homem-Aranha, na animação Ultimate Spider-Man.

Awaken, My Love é o terceiro álbum de Gambino, sucedendo seus dois primeiros discos, Camp (2011) e Because the Internet (2013). No entanto, em relação aos anteriores, trata-se de um trabalho com uma sonoridade muito mais orgânica, que se afasta do hip-hop e vai em direção ao funk, ao soul e ao funk rock, explorando principalmente a estética sonora comum a esses gêneros durante a década de 1970.

O que temos aqui é um álbum conceitual, que tem como inspiração o nascimento do seu primeiro filho. Awaken, My Love usa as suas faixas para contar o relacionamento de Gambino com sua namorada, em um disco que traz uma enorme carga de um sentimento bonito e verdadeiro. Influências psicodélicas são encaixadas aqui e ali, e servem como trampolins que conduzem o ouvinte para realidades distintas. Percebe-se a herança de nomes como Funkadelic e Curtis Mayfield em diversas passagens, inspirações que só realçam o alto nível alcançado por Childish Gambino no disco.

As onze faixas contam uma história crescente e cheias de momentos marcantes. A abertura com “Me and Your Mama” já chama a atenção do ouvido, mostrando que algo bastante diferenciado está por vir. Sensual e espiritual, dançante e tocante, o disco é de uma beleza palpável. “Have Some Love” vem na escola do mestre George Clinton, assim como a sacolejante “Boogieman”. Em “Zombies" podemos encontrar referências mais contemporâneas como Maxwell, já “Redbone” é puro Prince.

A tríade final, com “Baby Boy”, “The Night Me and Your Mama Met” e “Stand Tall”, é o ponto mais alto do disco. A primeira é uma linda canção de ninar, e de amor, e de benção e agradecimento, feita por um pai para o seu filho. De arrepiar! A segunda traz um instrumental elegantemente sexy, com um bom gosto elogiável e que soa como se Jimi Hendrix e Eddie Hazel dessem ao mundo um improvável filho. Enquanto a guitarra conduz a canção, um coro celestial produz linhas vocais que harmonizam as melodias e arrepiam até o mais careca dos ouvintes. E “Stand Tall” é conduzida pelo belo vocal de Gambino e com um instrumental econômico, quase minimalista, vindo de um universo imaginativo similar ao habitado por Frank Ocean.

Awaken, My Love é um álbum confortante e ao mesmo tempo forte, que acaricia mas também dá umas espetadas bem-vindas quando necessário. Um disco em forma de relação entre um pai e um filho, cheio de momentos doces e marcantes, mas também com explosões sonoras definidoras. O fato de o álbum caminhar predominantemente por uma sonoridade que bebe muito e profundamente no funk e no rock negro setentista ajuda na degustação dos não familiarizados com a black music contemporânea, e é um convite para que apreciadores de outros gêneros aventurem-se por suas faixas.






Destaque

Wings - Back To The Egg (1979)

  01. Reception 02. Getting Closer 03. We’re Opening Up 04. Spin It On 05. Again and Again and Again 06. Old Siam, Sir 07. Arrow Through Me ...