quinta-feira, 8 de maio de 2025

“Travelling Without Moving” (Sony Soho Square,1996), Jamiroquai

 


Nos anos 1990, enquanto o britpop dominava as paradas do Reino Unido, outra cena ganhava força: o acid jazz, uma fusão vibrante de funk, soul e jazz, guiada por artistas como Brand New Heavies, Incognito e, claro, Jamiroquai. Formada em 1992 por Jason "Jay" Kay, a banda rapidamente se destacou graças à voz singular do vocalista — frequentemente comparada à de Stevie Wonder — e à sua habilidade de canalizar grooves nostálgicos com uma pegada moderna. 

O terceiro álbum da banda, Travelling Without Moving (1996), marcou o ápice desse movimento, elevando o Jamiroquai ao status de fenômeno global. Aproveitando o sucesso dos discos anteriores (Emergency on Planet Earth e The Return of the Space Cowboy), o grupo refinou sua sonoridade, criando um trabalho que celebra a música negra dos anos 1970 — especialmente o soul e o funk —, ao mesmo tempo em que abraça elementos contemporâneos, como beats eletrônicos e uma estética visual futurista. 

Mais do que um álbum de acid jazz, Travelling Without Moving é um manifesto estilístico e sonoro. Hits como "Virtual Insanity" e "Cosmic Girl" tornaram-se hinos de pista de dança, enquanto faixas mais introspectivas revelam a sofisticação musical da banda. Com Travelling Without Moving, o Jamiroquai transcendeu a cena britânica e consolidou seu espaço no pop global, deixando uma marca indelével na cultura dos anos 1990. 

A estrada para Travelling Without Moving 

Antes de Travelling Without Moving, o Jamiroquai já havia estabelecido um sólido alicerce. O álbum de estreia, Emergency on Planet Earth (1993), trouxe mensagens ambientais e sociais embaladas por grooves funky, enquanto The Return of the Space Cowboy (1994) refinou a abordagem com canções mais maduras e experimentais. O sucesso desses discos, especialmente na Europa e no Japão, expandiu a base de fãs da banda, abrindo caminho para que o terceiro álbum alcançasse ainda mais reconhecimento. 

O título Travelling Without Moving reflete um conceito peculiar: a ideia de explorar novos horizontes sem sair do lugar. Para Jay Kay, um aficionado por carros e aviões, isso evocava tanto sua paixão por velocidade quanto uma metáfora para a jornada introspectiva e musical do álbum. Essa dualidade se manifesta nas letras, que exploram temas como escapismo, alienação urbana e conexões humanas, ao mesmo tempo em que mergulham em um caleidoscópio sonoro que mistura soul, funk, acid jazz e eletrônica. 

Nos bastidores, o álbum foi fruto de uma colaboração intensa entre Jay Kay e os membros centrais da banda, especialmente o baixista Stuart Zender e o tecladista Toby Smith. Zender, com suas linhas de baixo precisas e pulsantes, foi crucial para criar a identidade funky do álbum, enquanto Smith contribuiu com harmonias sofisticadas e arranjos complexos, que davam profundidade às faixas. A dinâmica entre eles era quase telepática, resultando em grooves icônicos como os de "Virtual Insanity" e "Cosmic Girl." 

A produção aconteceu em estúdios no Reino Unido, com Jay Kay assumindo o papel de visionário, guiando a direção artística e musical. Cada faixa foi minuciosamente trabalhada para equilibrar elementos retrô com uma estética moderna, refletindo a obsessão de Jay Kay por autenticidade e inovação. O resultado foi um álbum que não apenas consolidou o Jamiroquai no cenário internacional, mas também redefiniu o potencial do acid jazz como um estilo pop global. 

 

Jamiroquai em 1995: período de ascensão.

Análise Faixa a Faixa: Travelling Without Moving

“Virtual Insanity” é a faixa de abertura e um manifesto sonoro e visual. Embalada por um groove cativante e linhas de teclado que remetem a Stevie Wonder, "Virtual Insanity" traz uma crítica contundente à alienação tecnológica e à degradação ambiental. Jay Kay questiona o futuro da humanidade em um mundo cada vez mais desconectado das emoções reais. O videoclipe, dirigido por Jonathan Glazer, tornou-se um marco, com seus efeitos visuais inovadores que criam a ilusão de um piso em constante movimento, capturando perfeitamente a sensação de instabilidade que a música sugere. 

Com seu ritmo contagiante e influências da disco music dos anos 1970, "Cosmic Girl" é uma das faixas mais dançantes do álbum. A linha de baixo de Stuart Zender e os riffs de guitarra de Simon Katz dialogam com os sintetizadores de Toby Smith, criando um som luxuoso e futurista. A letra celebra uma musa cósmica com charme e leveza, enquanto os arranjos sofisticados mostram a habilidade do Jamiroquai em combinar nostalgia com modernidade. 

“Use The Force” destaca a percussão que remete ao samba executado pelo percussionista Sola Akingbola, adicionando uma camada rítmica que eleva a energia do álbum. A música é um hino de empoderamento e motivação, com Jay Kay incentivando os ouvintes a persistirem diante de adversidades. Os grooves complexos e o trabalho de bateria mostram o lado mais orgânico da banda, mantendo a autenticidade de suas raízes funk-jazz. 

O álbum toma um rumo mais introspectivo com a balada “Everyday”, explorando o mundano e a busca por significado. Os vocais emocionantes de Jay Kay e a vibração mais suave da música criam uma atmosfera reflexiva e íntima, contrastando com o som otimista e energético usual da banda. 

“Alright” é uma celebração pura da vida e do amor. O groove contagiante e os ganchos cativantes da música criam uma energia irresistível, tornando impossível não se mover e curtir. É um hino alegre que deixa o ouvinte se sentindo animado e positivo. 

“High Times” é uma jornada psicodélica pelas mentes de Jamiroquai cuja letra traça uma crítica aos danos das drogas, abordando vícios, perda de controle, ciclos destrutivos e a busca por liberdade e equilíbrio. A música mistura grooves funky com paisagens sonoras oníricas, criando uma atmosfera hipnótica e sobrenatural. O videoclipe de “High Times” foi filmado no Rio de Janeiro durante passagem da banda pelo Brasil. 

"Drifting Along" reflete sobre a incerteza da vida, explorando a sensação de estar perdido e a aceitação da jornada sem destino. A faixa serena, com infusão de reggae, mostra os vocais suaves de Jay Kay e a capacidade da banda de criar uma atmosfera relaxada, quase meditativa. O groove descontraído e os versos letras introspectivos da música convidam os ouvintes a simplesmente se deixar levar. 

A instrumental “Didjerama” explora as influências aborígenes australianas com o uso do didgeridoo, tocado pelo próprio Jay Kay. O resultado é um ritmo hipnótico do instrumento combinado com uma linha de baixo groovy e elementos percussivos, criando uma paisagem sonora única e cativante. É uma prova da versatilidade do didgeridoo e sua capacidade de se misturar perfeitamente com estilos musicais modernos. 

Na faixa seguinte, a também instrumental “Didjital Vibrations”, o didgeridoo se faz presente novamente. A faixa é uma paisagem sonora futurista que mistura elementos eletrônicos e orgânicos. “Didjital Vibrations” explora o impacto da era digital, criando uma atmosfera hipnótica e sobrenatural. É uma mistura cativante de sons tradicionais e modernos, mostrando o espírito inovador de Jamiroquai. 

O Jamiroquai retoma o ritmo agitado e dançante do álbum com “Traveling Without Moving”, faixa que dá nome ao álbum. Esta faixa contém traz uma linha de baixo simplesmente demolidora, que em alguns momentos, transita pelo funk  e pela disco music que, juntamente com os vocais emocionantes de Jay Kay criam uma atmosfera reflexiva, capturando perfeitamente o tema do álbum de exploração interior e viagem espiritual. 

Em “You Are My Love”, o Jamiroquai mergulha de corpo e alma no ritmo cheio de balanço da faixa, com direito a uma guitarra cheia de efeitos de wah-wah. Embora dançante, é uma canção de amor sincera que celebra o profundo afeto. Os vocais suaves de Jay Kay e a suave melodia de piano criam uma atmosfera romântica e íntima, tornando-a uma escolha perfeita para dança lenta ou um momento tranquilo de reflexão. 

"Spend A Lifetime" encerra o álbum. É uma declaração de amor intensa, expressando o desejo de conexão, carinho e compromisso duradouro do eu lírico com a pessoa amada. O ritmo lento e os versos sincerao da música criam uma atmosfera reflexiva e emocional, enfatizando a importância da conexão humana. O som de orquestra da base instrumental cria uma dramaticidade à canção e valorizam a entrega apaixonada de Jay Kay ao cantar os versos desta canção apaixonada. 

O álbum ainda trouxe como faixa bônus, “Do You Know Where You're Coming From”, lançada em maio de 1996 como single. A canção alcançou o 12º lugar da parada de singles do Reino Unido. É uma colaboração de M-Beat e Jamiroquai. Combina melodia cativante e mensagem positiva sobre identidade e autodescoberta. 

Além de uma faixa bônus, o álbum contém uma “faixa oculta”, “Funktion”. É uma faixa de dança de alta energia com um groove funky protagonizado pelo som de cow bell que transita do começo ao fim da faixa. A linha de baixo cativante, os metais energéticos e o ritmo otimista criam uma vibração irresistível na pista de dança, tornando-a perfeita para qualquer festa ou celebração. 

Cena do videoclipe de "Virtual Insanity".

Impacto e Recepção de Travelling Without Moving

O lançamento de Travelling Without Moving em 1996 catapultou Jamiroquai para o estrelato global. O álbum vendeu mais de 11 milhões de cópias, consolidando-se como o mais bem-sucedido da banda e entrando para o Guinness World Records como o álbum de funk mais vendido da história. O sucesso comercial foi amplamente impulsionado por hits como "Virtual Insanity" e "Cosmic Girl", que alcançaram alta rotação em rádios e dominaram as paradas ao redor do mundo. 

No campo dos prêmios, Travelling Without Moving foi amplamente reconhecido. O clipe de "Virtual Insanity" ganhou quatro prêmios no MTV Video Music Awards de 1997, incluindo “Melhor Videoclipe do Ano”, enquanto a faixa levou o Grammy de “Melhor Performance Pop por um Duo ou Grupo com Vocais”. Esses reconhecimentos solidificaram o status do Jamiroquai como referência na música dos anos 1990, ampliando sua base de fãs para além da cena acid jazz. 

A recepção crítica foi igualmente positiva. Muitos destacaram a universalidade do álbum, que agradava tanto aos entusiastas do acid jazz quanto ao público pop e amantes do funk setentista. Publicações especializadas elogiaram a habilidade da banda em mesclar influências clássicas e contemporâneas, criando um som sofisticado e acessível. Jay Kay foi comparado a ícones como Stevie Wonder e Curtis Mayfield (1942-1998) por sua abordagem vocal e composicional, enquanto os arranjos de Stuart Zender e Toby Smith foram reconhecidos como essenciais para o caráter distinto do álbum. 

O videoclipe de "Virtual Insanity" teve um impacto cultural profundo, ajudando a definir a estética do Jamiroquai. Com seus movimentos ilusórios e design minimalista, o vídeo não apenas conquistou prêmios, mas também tornou-se uma assinatura visual da banda, imortalizando a imagem de Jay Kay dançando em um espaço em constante mutação. A combinação de inovação visual e musical garantiu ao Jamiroquai um lugar na vanguarda da música pop dos anos 1990, enquanto o álbum continua a ser um marco de fusão musical e criatividade audiovisual. 

Jamiroquai no MTV Video Music Awards de 1997, onde a música 
"Virtual Insanity" levou quatro prêmios, dentre eles "Videoclipe do Ano".

Ruptura no Auge: A Saída de Stuart Zender e a Reinvenção do Jamiroquai

O sucesso de Travelling Without Moving e a turnê de 1997 marcaram o auge do Jamiroquai, mas também trouxeram à tona tensões internas. Divergências entre Jay Kay e o baixista Stuart Zender culminaram na saída do músico durante a criação do próximo álbum, Synkronized (1999). Rumores apontam que Zender estava insatisfeito com a divisão desigual dos ganhos da banda, alegando que Kay recebia mais do que os demais integrantes. 

A saída de Zender foi um golpe significativo para o Jamiroquai, já que ele era considerado fundamental para o groove e a identidade sonora da banda. Isso levou ao descarte de um álbum inteiro gravado, provisoriamente chamado Symphonized, que explorava sons de funk suave e estilos latinos. Jay Kay optou por refazer o projeto, resultando em Synkronized, com uma sonoridade mais moderna, incluindo programação de batidas e novos elementos pop e rock. 

A faixa “King for a Day”, presente no álbum, é amplamente vista como um reflexo das tensões entre Kay e Zender, retratando o ex-colega de banda como ganancioso. O episódio marcou uma virada para o Jamiroquai, encerrando uma fase criativa icônica e redefinindo a trajetória do grupo no final dos anos 1990. 

Legado de Travelling Without Moving

O impacto de Travelling Without Moving transcende seu sucesso comercial e premiações. O álbum desempenhou um papel crucial na popularização do funk e do acid jazz em mercados globais, especialmente nos Estados Unidos, onde o gênero ainda era visto como nicho. Jay Kay e sua banda conseguiram traduzir influências de artistas como Stevie Wonder e Herbie Hancock em um som fresco, acessível e dançante, inspirando uma nova geração de músicos. Bandas e artistas contemporâneos, como Anderson. Paak, Mark Ronson e Jungle, frequentemente mencionam Jamiroquai como uma referência direta na fusão de soul, funk e elementos eletrônicos. 

Culturalmente, o álbum permanece relevante. "Virtual Insanity", com sua crítica à sociedade de consumo e ao impacto ambiental, soa tão atual quanto em 1996, e o icônico videoclipe continua a ser referência em inovações visuais na música. Além disso, Travelling Without Moving ajudou a firmar a identidade visual de Jamiroquai, com o "Buffalo Man" se tornando um símbolo inconfundível da banda. 

No conjunto da obra do Jamiroquai, Travelling Without Moving é amplamente reconhecido como um dos ápices criativos da banda. Ele encapsula o equilíbrio perfeito entre inovação musical, sofisticação técnica e letras com uma mensagem poderosa. Mais de duas décadas após seu lançamento, o álbum ainda é celebrado como um marco de fusão musical e uma prova da capacidade do Jamiroquai de conectar diferentes eras e estilos musicais em algo atemporal.

 

Faixas

  1. "Virtual Insanity" 
  2. "Cosmic Girl"
  3. "Use the Force" 
  4. "Everyday"
  5. "Alright"            
  6. "High Times" 
  7. "Drifting Along" 
  8. "Didjerama" (Instrumental)
  9. "Didjital Vibrations" (Instrumental)       
  10. "Travelling Without Moving"    
  11. "You Are My Love"        
  12. "Spend a Lifetime"

 

Jamiroquai:

Jay Kay – vocais

Wallis Buchanan – didjeridoo

Simon Katz – guitarra elétrica

Toby Smith – teclados

Stuart Zender – baixo

Sola Akingbola - percussão

Derrick McKenzie – bateria



Ouça na íntegra o álbum 
Travelling Without Moving 
(incluindo uma faixa oculta, "Funktion")

"Virtual Insanity" (videoclipe oficial)

"Cosmic Girl" (videoclipe oficial)

"Alright" (videoclipe oficial)

"High Times" (videoclipe oficial)


Souad Massi – Oumniya (2019)

 

A cantora e compositora argelina Souad Massi , uma trovadora norte-africana por excelência (e uma das melhores de todos os tempos), lança seu sexto álbum, Oumniya , uma homenagem às mulheres por meio de emoções, das suas próprias às universais, produzida com Mehdi Dalil.
Nascida na Argélia, Souad Massi mudou-se para Paris quando as mensagens políticas de sua banda Atakor receberam ameaças de morte. Lá ela gravou seu maravilhoso álbum solo de estreia, Raoui (2001), que significa contadora de histórias. "Se eu soubesse contar histórias ", ele cantou, "eu contaria tantas histórias / Até Scheherazade ficaria deslumbrada ." Em seus álbuns subsequentes, ela usou sua mistura melancólica de sons berberes, folk francês e uma pitada de tudo, do reggae ao fado, para explorar a traição, tanto pessoal quanto política, o exílio e a perda.
Depois do seu último álbum, El Mutakallimûn (2015), onde revive uma seleção de textos de grandes poetas árabes, neste novo álbum Souad volta a focar-se em temas baseados na atualidade, na traição, no amor à Argélia, na política, no amor, na liberdade e na emancipação, temas que alimentam este sensível artista.

Oumniya é um álbum intensamente pessoal. Várias das músicas selecionadas refletem momentos e emoções de sua própria vida. Mas elas também refletem seu comprometimento e esforço em resgatar os valores com os quais sempre se comprometeu ao longo de sua carreira e em sua vida pessoal como mulher, manifestando-se para combater a violência sofrida pelas mulheres. E, também, fazer parte daqueles que buscam um novo caminho: um caminho rumo à independência e ao direito à dignidade, repleto de calor humano e integridade, o que a torna uma artista tão singular.
Devido ao seu profundo desejo de conexão, suas escolhas musicais são puras, tentando criar uma ponte entre o chaâbi e a música folclórica. Souad nos convida a vivenciar com ela a fonte de seu crescimento musical, tingido por sua aliança autêntica com a diversidade. Com este novo projeto, ele também busca retornar às suas interpretações musicais: instintivas e livres de qualquer tipo de objetivo. Em Oumniya encontraremos músicas com vida própria, acima de categorias e gêneros impostos.

tracks list:
01. Oumniya
02. Yadra
03. Ban Koulchi
04. Enta Wena
05. Salam
06. Pays Natal
07. Je Veux Apprende
08. Fi Bali
09. Wakfa
10. Je Chante






Asmâa Hamzaoui & Bnat Timbouktou – Oulad Lghaba (2019)

 

Asmâa Hamzaoui, junto com sua banda Bnat Timbouktou (As Filhas de Timbuktu), é o primeiro grupo de música Gnawa tocado exclusivamente por mulheres, desafiando um estilo que até então era dominado exclusivamente por homens e seguindo os passos da grande Hasna el Becharia , uma artista do sul da Argélia que, desde muito jovem, sentiu a necessidade de ir contra a corrente e defender, com sua música e sua atitude corajosa, os direitos das mulheres na Argélia e no Saara.
Asmâa Hamzaoui foi pedida em casamento duas vezes, mas com uma condição: que ela parasse de tocar o guembri, o instrumento sagrado de três cordas característico da música Gnawa, reservado apenas aos homens. "Nunca", ele respondeu. Ela aprendeu a tocar guembri quando criança, quando acompanhava seu pai às lilas , cerimônias privadas que combinam poesia, música e dança. Mas ela logo percebeu que na música Gnawa, originária dos antigos escravos de origem subsaariana trazidos para o Magreb, as mulheres eram relegadas a um papel secundário. Até que um dia sua mãe lhe perguntou: "Por que você não cria um grupo de mulheres?" .
Esta é a outra parte da história que faz de Asmâa uma maâlema : seu pai, Mâalem Rachid Hamzaoui, um maâlem (mestre), levou-a para tocar com ele em um festival quando ela tinha 12 anos, e depois daquele concerto de batismo ele decidiu legar a ela seu próprio guembri e, com ele, seu título.

Então Asmâa acreditou na palavra da mãe. Em 2012, com apenas 16 anos, ela criou o primeiro grupo musical Gnawa tocado exclusivamente por mulheres. Seus nomes são Asmaa Hamzaoui e Bnat Timbouktou e, juntos, eles decidiram quebrar o tabu. "É apenas uma mensagem ", explica Hamzaoui. "As mulheres podem fazer o que quiserem. Elas podem ser pilotos, podem ser musicistas e, certamente, podem tocar guembri ", diz ela.
No palco, Asmâa lidera o caminho. Ele começa a tocar as cordas de seu guembri e canta os primeiros versos de uma canção. Os outros membros do grupo respondem, acompanhados pelo som metálico dos qraqeb (címbalos, as tradicionais castanholas de metal). As letras da música Gnawa falam do sofrimento dos escravos africanos trazidos para o Marrocos. Elas são a lembrança de um passado distante, em que cantavam suas misérias e preocupações cotidianas.
No álbum Oulad Lghaba, a banda permaneceu fiel à tradição estilística, mas introduziu sua própria escolha de temas. Separação, sofrimento e a memória da África são os temas predominantes, um bom exemplo do motivo pelo qual Asmâa e Bnat Timbouktou estão causando tanto rebuliço, tanto no mundo árabe do Norte da África quanto no Ocidente.

Pessoal:
Asmâa Hamzaoui (guembri, voz, qraqeb)
Aicha Hamzaoui (voz, qraqeb)
Soukaina Elmelyjy (voz, qraqeb)
Lamgammah Hind (vocal, qraqeb)
Meriem Ouillane (voz, qraqeb)
Meriem Garrami (voz, qraqeb)

tracks list:
01. Bala Yourki
02. Rebi Ya Moulay
03. Lando
04. Beryandou
05. Soudani Mama
06. Mamariyou
07. Foulani
08. Allal
09. Sandia
10. Interlude
11. Sidi Lafquih (bonus track)



Tiganá Santana - Vida-Código (2020)

 

Tiganá Santana é compositor, cantor, instrumentista, poeta, produtor musical, diretor artístico, pesquisador, professor e tradutor. Seu quarto álbum de estúdio, Vida-Código , é uma obra de doçura desarmante, um verdadeiro elogio à lentidão e à arte de sussurrar.
Graduado em Filosofia, Santana estudou as estruturas linguísticas das línguas Kimbundu e Kikongo, faladas em Angola e no Congo. Sua paixão pela identidade africana faz dele o primeiro artista brasileiro a compor nos dialetos do continente: além do kikongo e do kimbundu, o wolof e o mandinga estão presentes em toda a sua obra.
Seu primeiro álbum, Maçalê ("você é um com sua essência" em iorubá arcaico), foi lançado em 2010. Em 2012, veio The Invention of Colour . Uma bolsa do Departamento de Cultura da Suécia, país onde foi gravado, tornou o projeto possível. No mesmo ano, ela recebeu uma bolsa UNESCO-Aschberg (um programa de bolsas para artistas e profissionais da cultura) para uma residência artística no Senegal (no Espace Sobo Badé, na cidade de Toubab Dialaw). Após uma estadia de 5 meses, gravou, juntamente com músicos da África Ocidental (Senegal, Guiné-Conacri e Mali), o álbum duplo Tempo & Magma (2015). O álbum conta com a participação da cantora CéU e de Maria Stella de Azevedo Santos (conhecida como Mãe Stella de Oxossi), aclamada escritora, pensadora e sacerdotisa da religião africana do Ilê Axé Opô Afonjá, primeira praticante do Candomblé a ingressar na Academia de Letras da Bahia.

Durante esse período, Tiganá Santana também dirigiu a produção artística e musical de outros projetos, entre eles o mais recente álbum da cantora Virgínia Rodrigues ( Mama Kalunga , com o qual ganhou o prêmio de melhor cantora no Prêmio da Música Brasileira em 2016).
Gravado em Salvador da Bahia, Vida-Código é um retorno ao trabalho de Tiganá como compositor. A textura sonora difere bastante dos álbuns anteriores do artista, com uma presença um pouco mais significativa de instrumentos eletrônicos ao lado dos acústicos. Conta com os sons do piano e acordeão de Aline Falcão, os violões e o cavaquinho de Leonardo Mendes e Jorge Solovera, e o baixo de Lédson Galter, parceiro de palco há mais de 10 anos.
Produzido junto com seu parceiro musical Sebastian Notini, o álbum foi lançado pela gravadora sueca ajabu!. As nove músicas do álbum estão em português, francês, kikongo e espanhol e incluem três parcerias: uma com Alzira E ("Palavra de Honra") e duas com Leonardo Mendes ("Flor Destinada" e "Vida-Código"). Foi incluída a música "Ilê, Se Eu Não Gostasse de Você" do bloco afro Ilê Aiyê, composta por Heron, com a participação especial de Arany Santana, sua mãe (que lhe ensinou a música na década de 1980). E, também, encontramos uma nova versão de "Do Fundo", lançada originalmente em Maçalê .

tracks list:
01. Flor Destinada (Effleurer le destin)
02. Palabra de Honra
03. Disu ye Mvula
04. Ilê, Se eu não gostasse de você
05. Meios
06. Vida-Código
07. Aclarate
08. Do Fundo
09. Não vás, Preta



Roberto Fonseca - Yesun (2019)

 

Roberto Fonseca apresenta seu novo álbum Yesun , um trabalho que mistura jazz com música clássica, rap, funk, reggae e música eletrônica.
O artista, santero e neto de uma santera, explica que "Yesun" é o resultado da soma dos nomes de Yemanya (deusa do mar) e Oxum (deus do rio), e ele é "filho das duas águas", seus protetores, embora não saiba "flutuar".
Para as treze músicas do álbum, todas compostas por ele junto com dois coautores, ele conta com sua banda, o baterista Raúl Herrera e o contrabaixista Yandy Martínez . Também participam artistas como o saxofonista americano Joe Lovano, o trompetista franco-libanês Ibrahim Maalouf, o rapper cubano Danay Suarez, a diva do bolero Mercedes Cortés e o quarteto vocal cubano Gema 4.


Todas as músicas do álbum, descreve o músico, que já trabalhou com Carlinhos Brown e Ibrahim Ferrer, entre outros, são "como pequenos filmes, histórias completas, sem que o virtuosismo seja o objetivo ". Por exemplo, ele explica que "The Call" é uma homenagem à amizade, enquanto "I'm Not One of Those" é composta a partir de uma situação em que "alguém esperava que ele fosse de um jeito e ele rompeu com o clichê " .
No álbum, ele leva em conta suas referências: a melodia de "Romeu e Julieta", que sua mãe (a cantora Mercedes Castro) cantava quando ele era pequeno, além de boleros, jazz e música iorubá, a música dos ritos religiosos que aprendeu com a avó, à qual mais tarde se juntariam Bill Evans e Herbie Hancock.
E na sua música "aquática" há também lugar para ritmos urbanos, do funk ao hip hop, passando pelo breakdance e pelo rock. "Sou o fruto de tudo isso", diz este ex-integrante do Buena Vista Social Club , com quem se apresentou em mais de 400 ocasiões ao lado de artistas como Omara Portuondo e Orlando "Cachaíto" López.

tracks list:
01. La llamada (feat. Gema 4)
02. Kachucha (feat. Ibrahim Maalouf)
03. Cadenas
04. Por ti
05. Aggua
06. Motown
07. Stone Of Hope
08. Vivo (feat. Joe Lovano)
09. OO
10. Mambo pa la niña
11. Ocha
12. No soy de esos
13. Clave






Destaque

Wings - Back To The Egg (1979)

  01. Reception 02. Getting Closer 03. We’re Opening Up 04. Spin It On 05. Again and Again and Again 06. Old Siam, Sir 07. Arrow Through Me ...