sexta-feira, 9 de maio de 2025

VA - Ethereal Horizons, Dreamy Country (A Butterboy Compilation) CD1+CD2+CD3+CD4

 

ETHEREAL HORIZONS

VA - Ethereal Horizons, Dreamy Country (A Butterboy Compilation) CD1+CD2+CD3+CD4

A música country dream pop é um gênero único que combina as qualidades etéreas e atmosféricas do dream pop com os elementos narrativos e melódicos da música country. Essa fusão cria um som relaxante e emocionalmente ressonante, frequentemente caracterizado por instrumentação exuberante e repleta de reverberação, além de vocais suaves e assombrosos.

O dream pop, conhecido por suas paisagens sonoras oníricas e ambientais, normalmente apresenta guitarras em camadas, sintetizadores e vocais suaves e ecoantes. Ele cria uma experiência auditiva imersiva, quase sobrenatural. Quando esses elementos são combinados com as letras narrativas e a instrumentação vibrante da música country, o resultado é um gênero que parece familiar e inovador.

A música country, com raízes no folk e no blues, frequentemente conta histórias de amor, perda e vida em ambientes rurais. É conhecida pelo uso marcante de instrumentos como violão, pedal steel guitar e rabeca. Quando esses elementos tradicionais do country são infundidos com as qualidades oníricas e atmosféricas do dream pop, a música assume uma nova dimensão, combinando o melhor dos dois mundos.

O resultado é um gênero que pode evocar uma ampla gama de emoções, da nostalgia e melancolia à esperança e serenidade. A música country dream pop costuma ter um ritmo lento e contemplativo, permitindo que os ouvintes se percam em suas paisagens sonoras exuberantes e letras comoventes. É um gênero que atrai aqueles que apreciam a profundidade emocional da música country e a beleza etérea do dream pop, criando uma experiência auditiva única e cativante. 

Embora existam artistas que combinam elementos do dream pop e da música country, criando um som único e cativante, essa fusão específica não foi formalmente reconhecida como um gênero separado. Em vez disso, representa uma abordagem inovadora à produção musical, na qual os artistas experimentam combinar diferentes estilos para criar algo novo e intrigante.

Portanto, embora você possa não encontrar "dream pop country" como categoria em lojas de música ou serviços de streaming, o conceito existe graças aos esforços criativos de músicos que gostam de misturar esses dois gêneros distintos. É uma prova da natureza em constante evolução da música e das infinitas possibilidades de experimentação de gêneros.

Combinar os sons etéreos do dream pop com a narrativa da música country é uma mistura única. Aqui estão 8 faixas que reúnem essas qualidades. 

MUSICA&SOM ☝

Track lists

CD1

01 Yo La Tengo - Blue-Green Arrow 5:41

02 Daniel Lanois - Still Water 4:29

03 Chris Isaak - Wicked Game 4:46

04 Mazzy Star - Fade Into You 4:57

05 Marissa Nadler - Colorado Girl 3:26

06 The Delines - I Won’t Slip Up 4:12

07 Thayer Sarrano - The Bend 4:08

08 Walkabouts - The Train Leaves At Eight 3:35

09 RF Shannon - Tooth Ache 4:18

10 Azure Ray - Another Week 3:13

11 Cowboy Junkies - Ooh Las Vegas 5:17

12 Mojave 3 - Love Songs On The Radio 5:48

13 Dean Wareham & Britta Phillips - Tracy & Brooke (Mom's Reprise) 1:22

14 Daniel Spaleniak - Why 3:30

15 Cat Power - Moonshiner 4:50

16 Husky Rescue - Sweet Little Kitten 4:45

17 Workhorse - Dreamhorse 4:22

18 First Aid Kit - My Silver Lining 3:35

19 Julee Cruise - Falling 4:12

20 Weyes Blood - Sad Eyed Lady Of The Lowlands 11:12


CD2

21 Spell - Big Red Balloon 4:14

22 Heligoland - String Tree 4:39

23 Emily Jane White - Hole In The Middle 3:26

24 Hope Sandoval & The Warm Inventions - Suzanne 4:54

25 Grouper - A Cover Over 2:48

26 Daniel Spaleniak - Dreamers 3:36

27 Htrk - Kiss Kiss And Rhinestones 2:04

28 Trespassers William - Lie In The Sound 5:42

29 Walkabouts - And She Closed Her Eyes 3:05

30 Holy Motors - Trouble 3:36

31 Jaye Jayle - About Time You Came To Me 4:08

32 Seth Avett & Jessica Lea Mayfield - Angel In The Snow 2:30

33 War On Drugs - Blackwater 5:10

34 Admiral Freebee (Ft Emmylou Harris) - Coming Of The Knight 3:40

35 Kurt Wagner & Cortney Tidwell - Eyes Look Away 3:22

35 Smashing Pumpkins - To Sheila 4:46

36 Suzan Koecher - Blood Red Wine 3:18

38 Cigarettes After Sex - John Wayne 4:18

39 Trentemøller Feat. Marie Fisker & Steen Jorgensen - Blue Hotel 4:32

40 Angel Olsen - Sister 7:44


CD3

41 Boygenius - Me & My Dog 3:26

42 Molly Burch - Please Be Mine 5:03

43 Sharon Van Etten - Joke Or A Lie 4:02

44 Lisa Germano - Into Oblivion 4:10

45 A.A. Bondy - Skull & Bones 3:12

46 Joana Serrat - Solitary Road 3:19

47 Kacey Musgraves - Space Cowboy 3:36

48 Emmylou Harris - She 3:13

49 Tarnation - Listen To The Wind 3:46

50 Lana Del Rey - Mariners Apartment Complex 4:07

51 Helena Deland - Lylz 3:03

52 Wild Pink - Track Mud 4:23

53 Medicine Boy - Time Is A Train 4:11

54 East River Pipe - Stare The Graveyard Down 5:03

55 Dougie Poole - Tripping With The One You Love 4:51

56 Hazel English - Combat 3:48

57 Lera Lynn - Coming Down 3:46

58 Beachwood Sparks - By Your Side 4:58

59 Caitlyn Smith - Before You Called Me Baby 3:45

60 Sam Valdez - Toothache 3:26


CD4

61 Shannon Mcardle - Country Music 3:49

62 Sharkboy - My Star 3:33

63 Innocence Mission - Spring 3:57

64 Jessica Bailiff - Crush 6:27

65 Fog Lake - Dakota 3:34

66 Heligoland - Palomino 3:32

67 Red House Painters - San Geronimo 7:37

68 Lauren O'connell - Rest Easy 4:50

69 Great Grandpa - Rosalie 2:39

70 Neil Halstead - Seasons 5:23

71 Tram - Nothing Left To Say 4:33

72 Belly - Feed The Tree 3:28

73 Workhorse - Ghost In The Clouds 3:51

74 Cactus Blossoms - Please Don’t Call Me Crazy 3:06

75 Thayer Sarrano - Quiet Now Your Bones 4:16

76 Honey Harper - Something Relative 4:02

77 Dean Blunt - The Redeemer 3:32

78 Daniel Spaleniak - Voice In Your Head 3:41

79 Starflyer 59 - West Coast Friendship 3:55

80 Cortney Tidwell - Don't Let Stars Keep Us Tangled Up (Ewan Pearson's All This Has Happened Before Version) 6:08



Françoise Hardy - "Tant De Belles Choses” (2004)

 

"Henri Salvador, que tinha uma gravadora, viu minha apresentação na televisão e telefonou com a intenção de assinar um contrato comigo. A reunião nunca aconteceu, porque eu já estava sob contrato, mas eu sinto tontura toda vez que penso no meu desenvolvimento profissional e o curso que isso tomaria se um artista tão excepcional quanto Henri tivesse me colocado sob sua asa."
Françoise Hardy, em sua autobiografia "The Despair of Monkeys and Other Trifles: A Memoir by Françoise Hardy", de 2018

Ela havia completado 80 anos recentemente, o que foi motivo de celebração para os fãs desta artista cult que somente um país como a França podo gerar. Ela é Françoise Hardy, cantora, compositora, atriz e modelo, que além de linda e talentosa, reúne características daquilo que há de melhor na cultura de sua cidade-natal, Paris: o bom gosto, a delicadeza e a elegância. Mas um câncer a levou em junho deste ano, pouco mais de um mês antes da abertura das Olimpíadas iniciarem na própria Cidade-Luz. Quem sabe ela também não estaria na cerimônia de abertura às margens do Sena tocando?

Surgida como uma das principais figuras do movimento yé-yé nos anos 1960, ela conquistou a Europa com sua voz suave e estilo distinto. Instrumentista desde a adolescência, ela fez faculdade de Ciências Políticas e de Letras na Sorbonne, mas não conclui nenhum dos cursos, pois já havia descoberto sua vocação. Depois de passar em uma seleção de novos talentos da gravadora Vogue, em 1961, passa a cantar na TV francesa e logo foi catapultada ao sucesso com a canção "Tous les Garçons et les Filles", que vendeu milhões de cópias. Hardy não conquistou só o público francês, mas também ganhou notoriedade internacional, gravando versões de suas músicas em italiano, alemão e inglês.

Bela, foi também musa na moda e no cinema. Com o fotógrafo Jean-Marie Périer, com quem se relacionou até 1967, Françoise entrou no mundo da moda atuando como modelo e tornou-se um ícone fashion. Em colaboração com designers renomados como Yves Saint-Laurent e Paco Rabanne, ela influenciou a moda dos anos 1960 com seu estilo característico de minissaias e botas brancas. No cinema, foi dirigida por Jean-Luc Godard, Roger Vadim, Clive Donner e John Frankenheimer, quando contracenou com Peter Sellers e Peter O'Toole no clássico "Grand Prix", de 1966. Françoise era desejada por homens e mulheres, de David Bowie a Mick Jagger, de Brian Jones a John Lennon.

Na música, no entanto, foi onde mais se desenvolveu. Evoluiu do rock inocente e passou a gravar coisas como o folk “Suzanne”, de Leonard Cohen, e, em passagem pelo Brasil, voltou para a França na mala com uma versão francófona de “Sabiá”, de Chico Buarque e Tom Jobim, intitulada “La Mésange”. As fronteiras sonoras de Françoise começavam a se expandir. Entre 1962 e 1973, ela lançou um álbum por ano, consolidando seu status como uma das principais artistas da época. Alguns de seus maiores sucessos incluem "Le Temps de l'Amour" e "Mon Amie la Rose". Ela trabalhou com compositores renomados como Serge Gainsbourg, que escreveu para ela o hit "Comment te Dire Adieu", e Michel Berger, que compôs duas canções para o álbum "Message Personnel" (1973). Com tudo sua voz ligeiramente rouca e afinada e muito bom gosto sonoro, tornou-se uma excelente melodista e letrista admirada por ícones como Henri Salvador, que até quis contratá-la no início da carreira.

Embora a extensa discografia, que adentrou os anos 70, 80 e 90, foi na maturidade que Françoise chegou a seu auge em termos de musicalidade. Ela já havia surpreendido crítica e público com o triunfante retorno aos estúdios depois de 4 anos de pausa com “Clair-Obscur”, de 2000, quando, além de suas excelentes interpretações, composições e versões, canta com gente como Iggy Pop, Olivier Ngog e o ex-marido e eterno parceiro musical Jacques Dutronc. Porém, precisariam mais quatro anos para que viesse, aí sim, com o irretocável “Tant De Belles Choses”, 24º de sua longa trajetória e que completa 20 de lançamento em 2024.

Françoise: ícone também
da moda e do cinema nos
anos 60 e 70
À época com 60 anos, parece que a idade dava a Françoise aquilo que poeticamente Caetano Veloso sentenciou sobre a velhice: “Já tem coragem de saber que é imortal”. A faixa-título e de abertura e encerramento, evidencia esse amadurecimento diante do mundo, diante das coisas, que se tornam graciosamente belas a seu olhar. Na sequência, a sempre presente influência da música brasileira na sonoridade dos franceses está na francesíssima bossa-nova “À L'ombre De La Lune”. Clima parecido tem “Jardinier Bénévole”, mais cadenciada e enigmática, contudo, principalmente pelas programações de ritmo, pelos teclados reverberantes e pelo contracanto de Alain Lubrano.

Balada triste e romântica, “Moments” é uma das duas cantadas em um inglês do álbum juntamente com o pop quase tribal “So Many Things” – ambas não coincidentemente muito parecidas com o som da Everything But the Girl, uma vez que a inglesa Tracey Torn certamente tem em Françoise uma grande inspiração no modo de cantar e compor. Já “Souir de Gala” é um dos belos exemplos da canção pop hardyana, com versos muito melodiosos e visivelmente composta ao violão, embora o piano faça a marcação enquanto a guitarra solta frases pontuais. A voz dela, aliás, sempre suave, bem colocada, sensual. Sem percussão, apenas sob teclados e efeitos, “Sur Quel Volcan?” é outra que merece muita atenção. Interrogativa e não menos reflexiva, a letra diz: “Eu peço emprestado passagens, becos/ Eu pego mensagens, segredos/ Neste espaço de filigrana/ Eu veria um pedaço da sua alma?/ Em qual vulcão/ Vamos dançar/ Você e eu/ A que custo?/ Quem vai queimar lá/ Você ou eu?”.

O jazz com traços franceses, que mestres como Henri Salvador e Francis Lai legaram à música ocidental, vem na gostosa “Grand Hôtel”. A linha jazzística permanece em “La Folie Ordinaire”, que antecipa a potente – e fantasticamente melódica – “Un Air de Guitare”, em que Françoise canta com urgência os versos, os quais fraciona em três instantes bem marcados. O violão, constante e premente, ganha a parceria da dona da música, a “guitare”, tocada pelo filho Thomas Dutronc. Que baita música! Já na tensa “Tard Dans La Nuit…” – que lembra os temas densos de Nico –, Françoise fala das dores e angústias que a noite esconde. “Ela não é quem deve ser culpada/ Tantos sonhos se dissipam/ É melhor se esconder nas sombras/ As ruas não são seguras/ Atrás das portas blindadas/ Cães latem impiedosamente/ Ninguém pôde dizer/ De onde vieram os golpes/ Tarde da noite”.

Finalizando, mais uma preciosidade: “Côté Jardin, Côté Cour”. Lindo refrão: melodioso, elegante, suave e intenso ao mesmo tempo. A faixa se liga diretamente com a segunda versão de “Tant De Belles Choses”, que ressurge para terminar o disco de maneira imponente. E embora Françoise tenha lançado ainda outros quatro bons trabalhos até o fim da vida, este parece melhor representar a si e ao país ao qual trazia o radical no nome. Com 20 anos de antecedência à própria despedida, ela versa, concordando com aquilo que Caetano disse, a seguinte frase: “O amor é mais forte que a morte”. Nada além da mais pura verdade quando se fala de uma artista imortal como Françoise Hardy.

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FAIXAS:
1. "Tant De Belles Choses" (Pascale Daniel/ Alain Lubrano) - 4:02
2. "À L'ombre De La Lune" (Benjamin Biolay) - 3:38
3. "Jardinier Bénévole" (Lubrano) - 4:02
4. "Moments" (Perry Blake/ Marco Sabiu) - 3:31
5. "Soir De Gala" (Thierry Stremler) - 2:46
6. "Sur Quel Volcan?" (Daniel) - 3:08
7. "So Many Things" (Blake/ Sabiu) - 3:29
8. "Grand Hôtel" (Stremler) - 3:13
9. "La Folie Ordinaire" (Ben Christophers) - 2:32
10. "Un Air De Guitare" (Françoise Hardy)  - 3:58
11. "Tard Dans La Nuit…" (Daniel/ Lubrano) - 3:27
12a. "Côté Jardin, Côté Cour" (Lubrano) - 4:10
12b "Tant De Belles Choses (Version)" (Daniel/ Lubrano) - 3:58



Foo Fighters - "Foo Fighters" (1995)


"Foi necessário trazer tudo isso à tona para conseguir fazer esse disco. Não estaria fazendo o que estou fazendo se não fosse pelo Nirvana".
Dave Grohl



Uns dizem que Dave Grohl, medíocre ex-baterista do Nirvana, teria contado com a ajuda do falecido vocalista Kurt Cobain (ainda em vida) para compor as músicas do primeiro álbum do que viria a ser sua futura banda; outros afirmam que o próprio Kurt teria composto quase todas, senão todas, as faixas para Grohl; outros ainda que, na verdade,  o material era de sobras da famosa banda de Seattle; ou ainda, e o mais provável, até que se prove o contrário, que Grohl, oficialmente compositor de todas as faixas, além de co-produtor e executor de praticamente todas, estivesse altamente inspirado. Mas independentemente do que tenha acontecido, o fato é que o Foo Fighters, embora tenha alcançado e mantido o sucesso comercial ao longo de sua carreira, nunca mais produziu um disco como seu primeiro, "Foo Fighters" de 1995 que, senhores, é um discaço!
A comparação com Nirvana é inevitável no início do Foo Fighters. Muito ainda enquadrada na sonoridade que consagrou o legendário grupo do qual Grohl fez parte, as canções soavam ainda muito 'grunge', por assim dizer, e mantinham uma estrutura muito similar ao que fizeram principalmente em "Nevermind".
Contudo, ainda que mostrasse peso, energia, influências de punk-rock e metal, o disco já soava mais pop e acessível que seus contemporâneos, representando neste sentido, um passo à frente no que dizia respeito à aproximação com o grande público, o que viria a se confirmar, sobremaneira com os trabalhos posteriores da banda.
Mas, "Foo Fighters", o álbum, sem analisarmos o que a banda acabaria fazendo futuramente, é um ótimo trabalho. Tem pegada, tem força, tem melodia e se constitui num dos melhores e mais importantes discos dos anos 90.
O início do disco é de tirar o fôlego com três tiros certeiros: "This is a Call" começa o álbum em grande estilo, transitando entre o melodioso e o enérgico com uma levada, ao mesmo tempo doce e forte; já traz na colada, praticamente emendando "I'll Stick Around" que entra com tudo com uma bateria furiosa introduzindo para um riff vibrante e empolgante; "Big Me" baixa a rotação mas não a qualidade e nos apresenta uma balada graciosa com levada mais lenta e pendendo pro acústico.
Aí o caldo engrossa com o peso de "Alone+Easy Target" e com o hardcore furioso de "Good Grief". "Oh, George" volta a dar uma cadenciada e é igualmente um dos destaques do disco; "Weenie Beenie" detona tudo; "For all the Cows" outra das grandes é uma espécie de jazz de cabaré com rompantes ocasionais; "Wattershed" volta a atacar furiosamente num hardcore pesado e distorcido; e o disco fecha espetacularmente com a majestosa "Exhausted" com suas guitarras belas e rascantes de arrepiar, num grand-finale digno de um álbum fundamental.
Não sei o que é verdade ou o que é lenda a respeito deste disco, a respeito de Grohl e do Foo Fighters, o que me interessa é o som, o que fazem, o que produzem e o que ouvi da banda depois deste disco não me agrada muito, aliás muito pouco. Porém, o que se escuta neste álbum de estreia da banda é um avanço técnico e compositivo em relação à própria fonte de inspiração, o Nirvana, com uma sonoridade mais limpa, mais uniforme e que, aqui, ainda não perdia a autenticidade do som e sua a agressividade natural.
Agora, independente do quanto Dave Grohl tenha de parcela de composição, genialidade, de inspiração, mesmo que só o tivesse tocado as músicas, pode-se dizer que o fez muito bem. E se as canções eram de Kurt, do Corgan, da Courtney ou fosse lá de quem, não teria havido demérito algum em, a partir delas ter constituído uma obra de grande qualidade. Quantos artistas não compõe uma nota e consagraram-se, assumidamente, interpretando ou tocando composições de outros?
Agora, o que eu acho? Particularmente acho que algum dedo do falecido Cobain tem por aí. Não me parece por acaso que a inspiração nunca mais tenha batido à porta do sr. Dave Grohl. Mas o que importa?
Se o disco é do Foo Fighters, então vamos curtir um Foo Fighters.
Então... Aperte o play.
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FAIXAS:
1. "This Is a Call" 3:53
2. "I'll Stick Around" 3:52
3. "Big Me" 2:12
4. "Alone+Easy Target" 4:05
5. "Good Grief" 4:01
6. "Floaty" 4:30
7. "Weenie Beenie" 2:45
8. "Oh, George" 3:00
9. "For All the Cows" 3:30
10. "X-Static" 4:13
11. "Wattershed" 2:15
12. "Exhausted"



Fleetwood Mac - "Tusk" (1979)

 

"Para mim, sou uma espécie de culpado por trás desse álbum singular, que foi feito de forma a minar uma espécie de fórmula de fazer apenas uma continuidade de ‘Rumors’.
Nós realmente estávamos prontos para fazer isso, o que poderia ter sido o início de uma autoimagem em termos de viver de acordo com os rótulos que nos estavam sendo colocados como banda.
Você sabe, tem havido vários momentos durante a trajetória da Fleetwood Mac ao longo dos anos em que tivemos que minar quaisquer que fossem as máximas que nos imputassem de maneira a nos mantermos com o espírito de artistas iniciantes,
e o álbum Tusk foi um desses momentos."
Lindsey Buckingham



Essa história começa em 1974. O grupo inglês Fleetwood Mac tava numa pior. O baterista Mick Fleetwood – e a metade do nome da banda, pois a outra é de John McVie, o baixista – foi visitar um estúdio e descobriu um casal de cantores e compositores e os convidou pra integrar o grupo. Eles eram Stevie Nicks e Lindsey Buckingham. Sem querer, tropeçou numa mina de ouro. O primeiro disco com os caras, “Fleetwood Mac”, de 1975, vendeu muito: cinco milhões de cópias. Mas ninguém esperava que o trabalho seguinte, “Rumours” se transformasse num fenômeno: 40 milhões de cópias vendidas e o terceiro disco mais comprado da história da música.
 Superar esta marca era uma tarefa inglória. Depois de excursionar pelo mundo inteiro, chegou a hora de fazer um novo disco. A pressão era muito grande. E, como quem é pressionado acaba fazendo exatamente o contrário, o guitarrista e cabeça musical da banda Lindsey Buckingham resolveu adotar um approach diferente. Trancou-se em casa e gravou metade das músicas do disco sozinho, tocando todos os instrumentos, fazendo vocais no banheiro – porque tinha a melhor reverberação – e detonando com as expectativas de todo mundo. Pra completar, usou as músicas que suas companheiras de banda e compositoras, a cantora Stevie Nicks e a tecladista Christine McVie, tinham na manga e fez um álbum duplo daqueles que parece ser, na verdade, três discos distintos. Mas que, numa ouvida do começo ao fim, apresenta uma coerência maluca. Se eu fosse louco, o compararia ao “Álbum Branco” dos Beatles, pela variedade estilística. Mas eu não sou. E este é “Tusk”, o 15º disco favorito aqui da casa.
Pra começar na manha e não assustar ninguém, Buckingham colocou uma balada romântica de McVie como primeira canção, “Over and Over”, daquelas que a gente ouvia na rádio nos anos 80. Mesmo num clima meloso desses, se ouve o toque LB: os vocais inspirados nos Beach Boys, grandes ídolos do guitarrista, especialmente o líder Brian Wilson. O vocal de Christine é bem característico das canções que ela interpretou no grupo até sua saída, em 1998.
 Em “The Ledge”, começa a viagem sonora do guitarrista. E a mensagem é dirigida diretamente à sua namorada da época, Carol Ann Harris (que, anos depois, escreveu um livro sobre suas aventuras e desventuras ao lado de Buckingham): “Você pode me amar/ mas não pode ir embora/ Alguém tem de te dizer/ o que tudo isso significa”. Os vocais são fantasmagóricos e ele toca todos os instrumentos. Não que tenham muitos nesta faixa: o trio básico de guitarra, baixo e bateria.
 Após o primeiro susto, Lindsey Buckingham amacia de novo com outra composição de McVie, “Think About Me”, essa mais no clima “Rumours” do Fleetwood Mac. Christine faz esta canção pra Dennis Wilson, o baterista dos Beach Boys (sempre eles) que namorava na ocasião. “Tudo que precisou foi um olhar especial/ e eu senti que te conhecia/ não pretendia te amar/ não achava que fosse dar certo... não vou te segurar/ deve ser por isso que você está aqui/ mas se eu for aquela que você ama/ pense em mim”.
 “Save me a Place” é um pedido de ajuda de Lindsey. Os violões e mandolins dão a medida da canção, na qual o guitarrista diz: “Guarde um lugar pra mim/ Eu virei correndo/ se você me amar hoje”. A confusão é uma tônica da música. “Não sei porque devo ir embora/ não sei porque devo ficar/ talvez eu queira ficar sozinho/ eu acho que preciso ser conquistado”.
 “Sara” foi o grande sucesso do disco e a primeira composição de Stevie Nicks no álbum. Dá pra se dizer que é uma clássica canção estilo FM dos anos 70: limpa, clara, pop e direta ao ponto, apesar da letra estranha de Nicks, numa carta à sua amiga - quem mais? - Sara: “Se afogando no mar do amor/ Onde todo mundo gostaria de se afogar/ mas agora se foi/ não interessa mais/ quando você construir sua casa/ me chame... Sara, você é uma poeta no meu coração/ nunca mude, nunca pare”. Estas palavras estranhas são embaladas por uma batida irresistível do baterista Mick Fleetwood, com o baixo seguro de John McVie, os teclados discretos de Christine McVie e pelos violões de Buckingham.
 Por falar no guitarrista, ele volta a se vingar da namorada em “What Makes You Think You're the One”, num título autoexplicativo que abre o Lado 2. Nesta canção, se pode dizer que ele, como baterista, é um ótimo guitar hero e produtor. “O que faz você pensar que é a única?/ Quem pode rir sem chorar... cada pedaço/ está aí/ para ser visto/ cada pedaço/ meu/ e seu”. E a retaliação continua: “O que faz você pensar que eu sou o cara?/ que vai te amar pra sempre?/ tudo o que você fez está feito/ e não vai durar pra sempre”. Tava furioso o moço... No livro, ela conta que as brigas eram diárias. E as reconciliações também.
 “Storms” vem de piano elétrico e guitarra se entrelaçando para criar a cama na qual Stevie Nicks vai cantar uma história de amor não muito bem sucedida. Certamente a que viveu ao lado de Lindsey Buckingham. “E eu não tenho lidado contigo, eu sei/ Apesar do amor ter sempre estado aqui/ Então tento encontrar uma resposta lá/ para que eu possa realmente ganhar”. Ao lavar a própria roupa suja, Nicks consegue ser sincera: “Então eu tento te dizer adeus, meu amigo/ Gostaria de te deixar com algo carinhoso/ mas eu nunca fui um mar calmo e azul/ eu tenho sido sempre uma tempestade”. Admitindo sua personalidade, ela consegue ir em frente.
 “That's All for Everyone” é uma canção de Lindsey Buckingham que tem um quê de folk song com uma wall of sound de vocais, muitos provavelmente feitos no banheiro. Como na maioria das canções do guitarrista, a perplexidade é que domina: “É tudo pra todo mundo/ É tudo pra mim/ última chamada para todo mundo/ deve ser exatamente o que eu preciso”. Durante a gravação de “Tusk”, o guitarrista se envolveu pesado com a cocaína e não se tornou um recluso porque Carol Ann Harris vivia na mesma casa que ele. Ela conta no livro “Storms: my life with Lindsey Buckingham and Fleetwood Mac” que ele se trancava no estúdio caseiro o dia inteiro com uma montanha de pó e ficava gravando infinitas faixas, muitas delas não usadas no disco.
 A barra pesada de Buckingham continua em “Not That Funny”. “Não é tão engraçado/ quando você não sabe o que é/ Mas não consegue o suficiente disso... não me culpe/ por favor/ você está aqui porque eu quis assim”. A impressão é que o músico entrava em seu bunker particular e dizia em música tudo o que não conseguia falar abertamente e ao vivo com sua namorada. Uma briga musical. E quem levou a melhor fomos nós.
 O tão falado misticismo de Nicks aparece em “Sisters of the Moon”. “Silêncio intenso/ quando ela entra no quarto/ suas roupas pretas esvoaçando/ Irmã da Lua”. Outra faixa com bateria marcada de Mick e as guitarras de Lindsey aqui a serviço da canção. Poderia se dizer que esta canção é uma sub-”Rhiannon”, o grande sucesso das canções solo de Stevie. Possui, inclusive, a mesma pegada de guitarra e os backing vocals uivantes, como lobos em lua cheia.
 O Lado 3 do LP inicia com mais uma canção de Nicks. A faixa mais pop de todo o álbum. “Angel”, que é mais uma direcionada ao guitarrista. “Às vezes/ as coisas mais bonitas/ as coisas mais inocentes/ e muitos destes sonhos/ passam pela gente/ e continuam passando/ Você se sente bem/ Eu digo que é engraçado que tu entendas/ Eu sabia que sim/ Quando você era bom/ Você era muito, muito bom”. Lá pelas tantas, Nicks vai direto na couve: “Houve um fim/ mas não houve um encerramento”. O piano elétrico de McVie é que dá o tom.
“That's Enough for Me” é mais um trabalho solo do disco que Buckingham gravou com o Fleetwood Mac. “Toda vez que você me faz sorrir/ é do mesmo jeito que sempre foi/ E isso é o suficiente pra mim/ Toda a vez que eu não consigo dormir/ é a mesma dor que sempre foi/ E isso é o suficiente pra mim”. Para Lindsey Buckingham, amor rima com dor.
 Na sequência, vem a minha preferida de todo o disco, “Brown Eyes”, composição de Christine McVIe e cantada por ela. O baterista Mick Fleetwood faz miséria com uma batida que tem bumbo num tempo, baqueta na ferragem da caixa, prato de condução e chimbau, cada um fazendo uma coisa. E o Fender Rhodes de McVie fazendo as harmonias, juntamente com a guitarra. O baixo de John McVie está totalmente solto. Mas o que chama a atenção são os vocais que parecem vindos de outra galáxia. Lindsey, McVie e Nicks fazem o que uma amiga chamou, um tempo atrás, de “sha-la-lá etéreo”. E é exatamente isso. Esta faixa é a mostra do talento de Lindsey Buckingham como produtor. Com quase nada, ele criou um belo momento do disco. 
“Never Make Me Cry” traz Christine num clima “mulherzinha da antiga”. “Vá e faça o que quiser/ Sei que tu tens tuas vontades/ Você sabe que eu vou esperar, quanto tempo for necessário/ então vá e faça o que quiser/ você nunca vai me fazer chorar... Eu não posso aceitar tudo/ mas fico feliz de ter o seu amor/ Então não se preocupe, eu estarei bem/ e eu nunca vou te fazer chorar”. Misoginia feminina. As feministas devem ter ficado furiosas com Christine.
 Pra fechar este lado do LP, "I Know I'm Not Wrong", mais um rock de Buckingham dizendo que "os sonhos de uma vida inteira/ me mostram que eu estava errado/ Tudo está certo/ E agora se foi/ Não me culpe, por favor seja forte, eu que não estou errado". Um astro pop se queixando da vida que leva. Pobre menino rico.
 O lado 4 começa com "Honey Hi", outra composição de Chrsitine McVie que parece que vai se desmanchar, tamanha a suavidade e a dolência. Novamente o piano elétrico Fender Rhodes comanda as ações, com Fleetwood nas percussões e o violão de Lindsey transformam a canção em uma daquelas músicas que a gente canta num luau ou numa ida à praia no inverno. Esta é a verdadeira “música para acampamento”.
 "Beautiful Child" é outra balada de Nicks, onde ela consegue sua melhor performance vocal em todo o disco. A dificuldade no relacionamento contado na música fica evidente quando Nicks canta: "Eu não sou mais uma criança/ Eu sou alta o suficiente/ para atingir as estrelas/ sou velha o suficiente pra te amar/á distância/ Para confiar?.. sim/ Mas normalmente as mulheres são confiáveis". As pressões de ser uma pop star e viver na estrada detonam qualquer relacionamento. É isso que Nicks quer dizer na canção.
 "Walk a Thin LIne" é uma das "canções de banheiro" de Buckingham que mais funcionam como um artefato pop, se é que vocês me entendem. Uma introdução nos moldes da cartilha, um refrão pegajoso e, desta vez, ele resolve fazer uma música que poderia ser gravada por qualquer um. E foi, pelo baterista Mick Fleetwood em seu disco africano "The Visitor" com direito a guitarra slide de George Harrison. Aqui, o compositor empilha vocais a la Brian Wilson, conseguindo um efeito muito interessante.
 A faixa-título é das mais pretensiosas do disco inteiro, mas, ao mesmo tempo, é das mais bem-sucedidas. Uma batida tribal de Fleetwood começa os trabalhos, com os vocais novamente fantasmagóricos dos três cantores. Aos poucos, vão entrando os outros instrumentos. A letra não poderia ser mais enigmática. tanto que existe no site The Penguin uma página inteira de divagações e possíveis explicações para: "Por que você não pergunta se ele vai ficar?/ Por que você não pergunta se ele vai embora?/ Por que você não me diz o que está acontecendo?/ Por que você não me diz quem está no telefone?/ Porque você não pergunta pra ele o que está acontecendo?/ Por que você não pergunta pra ele quem é o próximo em seu trono?/ Não me diga que me ama/ Apenas diga que me quer". No meio de tudo isso, entra a US Trojan Marching Band, uma banda marcial que começa a tocar um tema sugerido pela guitarra. Uma faixa esquisita, porém muito boa. Um verdadeiro clássico pop.
Pra fechar, mais uma balada de Christine McVie, "Never Forget", que dá o tom final desta grande viagem sonora proposta pelo grupo. “Tusk” começa e termina com canções de Christine McVie para aliviar a pressão imposta por Buckingham. Ao invés de lançar três discos individuais, os compositores da banda, Lindsey Buckingham, Stevie Nicks e Christine McVie resolveram juntar esforços (mais ou menos, né?) para conseguir alguma tipo de coerência musical nesta tentativa de dar prosseguimento à carreira depois do sucesso estrondoso de "Rumours". E receberam a ajuda de John McVIe e de Mick Flçeetwood, uma das cozinhas mais criativas do rock. Musicalmente, estes esforços deram certo. Em termos de vendagens para um álbum duplo até que “Tusk” foi bem: 4 milhões de cópias. Mas o disco custou 1 milhão de dólares e foi considerado, na época, um fracasso de vendas. A recuperação aconteceria só em 1982, com o disco "Mirage", e depois de Stevie Nicks e Lindsey Buckingham lançarem seus primeiros discos solo. Mas isso é outra história.
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FAIXAS:
1. Over & Over (Christine McVie) - 4:34               
2. The Ledge (Lindsey Buckingham) - 2:07          
3. Think About Me (McVie) - 2:44           
4. Save Me a Place (Buckingham)- 2:42
5. Sara (Stevie Nicks) - 6:30        
6. What Makes You Think You're the One (Buckingham) - 3:30 
7. Storms (Nicks) - 5:31
8. That's All for Everyone (Buckingham) - 3:02  
9. Not That Funny (Buckingham) - 3:14
10. Sisters of the Moon (Nicks) - 4:44   
11. Angel (Nicks) - 4:54
12. That's Enough for Me (Buckingham) - 1:50  
13. Brown Eyes (McVie) - 4:27  
14. Never Make Me Cry (McVie) - 2:18
15. I Know I'm Not Wrong (Buckingham) - 3:01
16. Honey Hi (McVie) - 2:45       
17. Beautiful Child (Nicks) - 5:21              
18. Walk a Thin Line (Buckingham) - 3:46             
19. Tusk (Buckingham) - 3:37    
20. Never Forget (McVie) - 3:38



quinta-feira, 8 de maio de 2025

Fellini - "3 Lugares Diferentes" (1987)

 

" A rapaziada tá brincando bastante.
Ninguém ganha nada, não tá vendendo nada,
o disco não tá legal mas a gente
tá dando muita risada 
e tá realmente sendo uma grande curtição,
vamos levar isso pra frente."
Osmar Santos,
trecho do programa "Balancê" com participação do Fellini,
na introdução da música "Rio-Bahia"





Mas o que era aquilo? Legião e Titãs detonando tudo aqui pelo Brasil em vendagens, hits, shows, popularidade e a Bizz insistindo destacar o disco de um tal de Fellini como um dos grandes de 1987? A Bizz, para quem não sabe, era a grande publicação musical do país e todo ano elegia os melhores de crítica e público. É lógico que a galera, na qual me incluía, não tinha dúvidas que o "Que País é Este" da Legião Urbana, embora fosse praticamente uma "coletânea" de material antigo mas cheio de protesto, carisma e hits, como o improvável sucesso radiofônico "Faroeste Caboclo" era um dos favoritos a disco do ano; mas especialmente o ótimo "Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguelas" com suas "Lugar Nenhum", "Comida", Diversão" e "Desordem", até por ser um álbum de inéditas e sucessor à altura do revolucionário "Cabeça Dinossauro" era para o público geral imbatível. Mas os críticos da revista, convidados e músicos que votavam, para minha surpresa, os equivaliam ao quase desconhecido "3 Lugares Diferentes", do tal Fellini, fazendo-o empatar na primeira colocação daquele ano com o discaço dos Titãs. Bom, "quase desconhecido" para mim, uma vez que o projeto da dupla de amigos Cadão Volpato e Thomas Pappon já gozava de uma certa reputação no underground paulistano, vinha de dois discos no mínimo interessantes na bagagem e orgulhava-se, com justiça, de já ter sido tocado no programa do lendário DJ inglês John Peel, que apresentara ao mundo entre outros bandas como Pink FloydJoy DivisionThe Cure, no seu Radio 1 da rádio BBC.
Devo admitir que, naquela época, descobrindo muitos sons novos e com a enxurrada de boas bandas que apareciam naquela metade dos anos 80, ávido por conhecer o máximo de coisas legais que pudesse, diante da premiação da Bizz, fiquei bastante curioso para conhecer o som dos caras, mas não era um som que se encontrasse em qualquer Mesbla da vida e na época isso acabou não cruzando meu caminho o que só veio a acontecer alguns anos depois assitindo a um show que a TV Educativa de Porto Alegre transmitiu, realizado na Reitoria da UFRGS e que já trazia o repertório do disco "Amor Louco", mas o que foi suficiente para fazê-los caírem nas minhas graças e ganharem minha total simpatia a admiração.
O Fellini fazia uma espécie de samba experimental, minimalista, eletrônico, com raízes no punk paulista, admitindo no entanto quaisquer inter-relações musicais que pudessem torná-lo interessante como blues, valsa, funk, reggae, bossa nova, bolero, apresentando letras de enorme sensibilidade poética cantadas muitas vezes com um vocal quase declamatório por seu vocalista, Cadão Volpato, que compensava sua limitação vocal com moderação, inteligência e criatividade interpretativa. 
"3 lugares diferentes", traz todos esses elementos. É um disco, ao mesmo tempo, primário e sofisticado. Se por um lado suas gravações muito básicas, quase artesanais, com condições técnicas mínimas, muitas vezes somente com uma bateria eletrônica e uma guitarra, sua concepção sonora e é avançada com uma leitura ímpar dos ritmos brasileiros numa quase improvável, mas muitíssimo bem sucedida, integração com o rock e suas vertente. O conceito já havia sido explorado no segundo "Fellini Só Vive Duas Vezes", contudo, limitados pelas condições técnicas, seu resultado, embora interessante, mostrava-se ainda muito duro, cru, com pouca plasticidade e flexibilidade. "3 Lugares Diferentes" conseguia o resultado estético mais interessante com canções mais sonoras e marcantes.
Depois de um texto de abertura, um manifesto sobre música (que de certa forma sugere que uma banda como o Fellini, por exemplo, não poderia fazer música), sucedido por uma introdução de gaita harmônica, a programação eletrônica que marca o singular samba felliniano já dá as caras na maravilhosa "Ambos Mundos", canção de uma poesia urbana lindíssima que une cotidiano, sonho, astronomia e surrealismo ("Depois do batente Vênus descansava/ Marte sempre cortês jogava cartas/ preto era o céu/ bom de se olhar/ onde Três Virgos queriam se arrumar"). "Rosas", que a segue, é uma espécie de blues experimental, lento, arrastado e sussurrado;  e "La Paz Song, a seguinte, traz uma sonoridade que, por conta de sua percussão eletrônica e do teclado, sugere algo militar, numa letra que mistura o português com o espanhol de maneira bastante sonora.
O Fellini não tocou nas rádios, não teve um grande hit, mas se tem uma canção que teria esse potencial seria a adorável "Teu Inglês", uma das faixas mais bem acabadas da banda, com a participação do percussionista Silvano Marcelino, de trabalhos com vários artistas da MPB, que combina sua contribuição à batucada eletrônica característica da banda, uma guitarra leve e requintada primorosa em todos os momentos, uma nova aparição oportuna e interessante da harmônica e um refrão absolutamente gostoso e cativante.
Outra das melhores do disco, "Zum Zum Zum Zazoeira", com um mínimo de elementos, uma batida repetida básica, uma base de teclado quase constante, uma linha de guitarra sinuosa e perturbadora e um inteligente e preciso jogo de palavras-chave ("poeira", "lampião", porteira", "boi") consegue sugerir uma atmosfera regionalista, sertaneja, nevoenta, quente e árida. Genial!
A bela "Pai", de andamento meio new-wave, por assim dizer, é mais um exemplo da doce poesia cotidiana de Cadão Volpato ; de letra repleta de enigmas, signos e chaves, mais uma vez mesclando português com espanhol, "Valsa de La Revolución" justifica o nome num valseado minimalista conduzido pela guitarra de Thomas Pappon; e soturna, característica da turma do underground paulistano das noites de Madame Satã, "Massacres da Coletivização" divaga de forma pesada sobre o tempo e memórias.
"Rio-Bahia" apresenta novamente o tal "samba-maluco da rapaziada do grupo Fellini" como definira o falecido Osmar Santos na introdução da própria música, numa gravação do programa de rádio "Balancê" que apresentava e do qual a banda participara em certa ocasião. Além da batucada eletrônica, "Rio-Bahia" e "Lavorare Stanca", que são praticamente emendadas, mostram desta vez alguma intervenção acústica dos próprios integrantes com tamborins e outros elementos percussivos. Sem falar no do tradicional "trompete bucal" do vocalista Cadão, mais um dos muitos improvisos espontâneos da banda que costumava seguir seus instintos musicais e que pela ausência de um instrumento, pela vontade de enriquecer o som, pela sensibilidade de perceber que um determinado som cairia bem, arriscava uma brincadeira, a registrava e tornava seu som ainda mais interessantes e original.
Como um ocaso, a ainda mais esquisita "Onde o Sol se Esconde", minimalista sonoramente, de vocal embriagado e letra non-sense misturando palavras em português, inglês, francês, espanhol, traz o encerramento do álbum não sem ainda uma pequena vinheta da descontração de estúdio da gravação de "Teu Inglês" ao final.
O relançamento em CD traz ainda gravações bem interessantes ao vivo de "Zum Zum Zum Zazoeira", "Ambos Mundos" e "Teu Inglês", além de uma faixa oculta, a canção "Aeroporto", gravada ao vivo no antigo programa "Matéria Prima" de Serginho Groissman na rádio Cultura.
Embora os cabeças da banda tenham restrições técnicas ao álbum e o próprio Thomas Pappon admita uma certa decepção com ele pela ausência de baixo, "3 Lugares Diferentes", reconhecem também, por outro lado, que o disco foi inovador, quase revolucionário, antecipando muitas coisas que só começaram a serem feitas agora no pop-rock nacional, e seu reconhecimento com a premiação da Bizz, embora apenas simbólico, e posteriormente essa aura cult que paira sobra a banda, representam uma espécie de vitória da independência, da liberdade, do idealismo, da arte enquanto senso de seguir o próprio coração e ter prazer no que se faz.
O trabalho do Fellini, seu conceito, sua concepção de música, sua produção, seu conteúdo, seu resultado e seu reconhecimento, atualmente, como uma das bandas mais interessantes do rock nacional fazem com que o texto do gaitista norte-americano "Sugar Blue, sugerido pelo próprio Pappon para a introdução do disco, soe hoje ainda mais curioso, controverso e irônico: “Música não é para preguiçosos, música não é para engraçadinhos, música não é para desmiolados. Música é um negócio sério que reflete esforços humanos para nos tornarmos o que buscamos quando nos manifestamos".
Será mesmo?


FAIXAS:
  1. Ambos Mundos
  2. Rosas
  3. La Paz Song
  4. Teu Inglês
  5. Zum Zum Zum Zazoeira
  6. Pai
  7. Valsa de La Revolución
  8. Massacres da Coletivização
  9. Rio-Bahia
  10. Lavorare Stanca
  11. Onde o Sol se esconde

A versão relançada em 1995 contém as seguintes faixas gravadas ao vivo:
12. Zum Zum Zum Zazoeira
13. Ambos Mundos
14. Teu Inglês




Destaque

Luther Allison Live in Chicago 1995

  DISCO 1 01. Intro 02. Soul Fixin' Man 03. Cherry Red Wine 04. Move From the Hood 05. Bad Love 06. Put Your Money Where Your Mouth Is 0...