sexta-feira, 9 de maio de 2025

Supernaut - Supernaut (1974)

 

 

Atualmente estamos testemunhando uma série de imbróglios judiciais acerca de propriedade intelectual. O advento da internet, das redes sociais e da infinidade de informações contidas na grande rede parece ter aumentado significativamente tudo isso.

No universo da música não tem sido diferente. Músicos e bandas entrando processos seus colegas de profissão, acusando-os de plágio, de roubo de propriedade intelectual.

Presenciamos um dos mais emblemáticos casos envolvendo a gigante banda britânica Led Zeppelin que foi acusada de plagiar trecho de uma música da banda norte americana Spirit, quando a banda de Plant, Gonzo, Jones e Page conceberam o clássico “Stairway to Heaven”.

O Zeppelin teve nas costas outras acusações no passado com as faixas de blues dos seus primeiros álbuns de estúdio, sendo colocado em cheque a sua idoneidade artística e tudo o mais.

No caso da banda Spirit, o Zeppelin foi absolvido de todas as acusações. Mas quando podemos, como fazemos, como analisamos casos de plágio, de apropriação da propriedade intelectual? Quais os critérios?

Quando tais situações chegam na Justiça, alguns vereditos são tomados na internet por alguns juízes escondidos nas redes sociais que, sem nenhum critério técnico, providos apenas de intolerância sonora, definem plágio, cópia ou coisa que o valha.

Mas preciso repetir a pergunta: o que é plágio? O que é influência? Não podemos negligenciar a segunda opção nunca! Como uma banda recente de hard rock, por exemplo, não ter como influência, como inspiração, bandas do naipe do Deep Purple, o próprio Led Zeppelin e o Black Sabbath, tidas como a Santíssima Trindade da música pesada?

Alguma nuance terá, creio que isso seja consenso entre todos, bem como também a cópia, mas discutir isso nos dias de hoje, com uma gama tão diversificada de bandas e músicas, sobretudo no universo, ainda selvagem e inexplorado do rock n’ roll, seria uma total perda de tempo. Discutir e crucificar as bandas, em plena rede social, a troco de nada.

Presenciei algumas homéricas discussões que descambaram para o ódio gratuito e polarizado, esquecendo que a música é para nosso deleite e, se não aprecia determinadas músicas, basta esquecer delas. Não digo que seja um cidadão que não aprecie o debate, mas esse sempre baseado nos preceitos civilizados defendendo, com consistência, os seus posicionamentos.

Disse isso tudo, nesta quilométrica introdução, para ilustrar uma pequena experiência que tive ao conhecer, recentemente, uma banda inglesa que já pelo nome pode acarretar em uma celeuma gigantesca nos dias de hoje. Bem, poderia ter caso ela fosse conhecida, mas para variar, caríssimos leitores, o blog trata de bandas raras e obscuras. E essa parece ser mais do que isso: Falo do SUPERNAUT.

Duvido que, aos que apreciam o bom e velho Black Sabbath, lembrará desse nome, que remete a uma música da banda de Birmingham, do icônico “Vol. 4”, lançado no ano de 1972.

Definitivamente não conseguiria ser taxativo nesse sentido, pois, por se tratar de uma banda pouco conhecida, pouco se tem de informações mais concretas a esse respeito na web. Mas ao ouvir o seu único álbum, homônimo, supostamente lançado em 1974, é inevitável não deixar de lembrar da sonoridade suja, pesada e indulgente dos primórdios do Sabbath.

Assim é “Supernaut”: pesado, guitarra arrastada e suja, riffs de guitarra pegajosos, baixo pulsante e bateria pesada. Uma sonoridade suja, despretensiosa, de uma banda garageira que não estava nem um pouco preocupada com sofisticação e complexidade. Assim era o Black Sabbath nos seus três primeiros álbuns.

Pronto! Um prato cheio para as discussões de plágio, cópia e falsidades afins. Não gostaria de entrar no mérito dessa discussão que confesso ser deveras cansativa, mas tentar focar no mais importante: na sonoridade e na história que envolve essa banda britânica.

E por falar em histórias, vamos a ela, às poucas informações que circulam na grande rede e que geram algumas controvérsias. O Supernaut teria sido formado em Londres no ano de 1973. Teria? Sim, caros leitores, teria! Reza a lenda de que o único álbum que eles lançaram, em Derbyshire, em 1974, o homônimo, seria uma demo gravada nos anos 1980, mas que também carece de maiores informações.

Mas ao ouvi-lo, além do peso que poderia se “adequar” ao heavy metal que estava em voga em meados dos anos 1980, traz também um moog que “destoa” daquela década. Talvez a palavra correta não seria “destoa”, mas não fosse popular em pleno anos 1980, sob o aspecto comercial da coisa.

Então aposto que a tal material, que goza também de uma produção aquém, não teria sido concebido nos 1980. E qual o interesse em gravar um material pouco digerido por uma indústria conservadora e ortodoxa e fingir ser antigo?

E por falar em rejeição há “rumores” de que o Supernaut já tinha praticamente um acordo firmado com a Vertigo Records, mas os seus executivos os recusou porque eram muito pesados e, consequentemente, teriam um baixo potencial vendável.

Em 1975 a Ariola pediu a banda para gravar alguns covers dos Eagles, que estavam no ápice do sucesso à época, para garantir um acordo e a banda fez isso, gravou algumas músicas, mas ficaram tão putos com o resultado, com o que fizeram que se separaram. Essas faixas são da demo original (antes conhecidas como “The Effigy Tapes”) e que teria sido a pá de cal para o Supernaut.

Algumas histórias, envoltas em névoas, faz da banda e sua sonoridade algo muito, mas muito obscuro. E a sua natureza sinistra, as suas histórias indefinidas definitivamente me cativou e, claro, a sua música. Independente de questões cronológicas e protocolares a sua música merece exaltações, sobretudo por aqueles que apreciam heavy rock, occult rock e afins.

“Supernaut” é puramente instrumental, com uma distorção suja, tosca e garageira, além, claro, pesada. Há, como disse, incursões de teclados (Moog Synthesizer) que dão um toque satânico bem vintage, bem retrô que nos remete a Salem Mass, Coven e, óbvio, Black Sabbath. Um álbum estranho com riffs de guitarra contínuos, sem virtuosismos, porém muito legais.

O Supernaut tinha em sua formação, quando gravaram seu único álbum, os seguintes músicos: Glynn Serpell, nos vocais, Brian Took, na guitarra, Peter Oldham, no baixo, Barry Stonehouse na bateria e Mark Hodgkinson nos teclados. Confesso, amigos leitores, que essa aura de incertezas está me excitando! Mas rola as más línguas dizendo que a formação da banda e até mesmo algumas fotos são fictícias. Porém vamos ao que interessa e dissecar faixa a faixa de seu único trabalho.

O álbum é inaugurado pela longa faixa de nove minutos chamada “Keeper of the Keys” que já diz a que veio com riffs de guitarra pesados e pegajosos, sujo como o proto doom, arrastado e tenebroso. O moog também é cheio de energia e o que poderia ser um contraste harmoniza em uma massa densa e pesada que se confirma com a “cozinha” cuja bateria marcada está alinhada com o baixo pulsante.

"Keeper of the Keys"

Na sequência vem “Darkness Falls” com uma pegada tipicamente hard rock, sempre com o moog trazendo uma atmosfera sombria e estranha. Os riffs de guitarra, indispensáveis, surgem a cada momento confirmando peso e algo deliciosamente tosco e garageiro. “Win or Lose” tem uma introdução evidente de doom metal, o que talvez possa ter gerado desconfiança deste álbum ser dos anos 1980. Mas a guitarra, arrastada e suja, riffs densos e pesados, traz à tona o doom metal que ganhou alguma visibilidade no underground do rock n’ roll dos anos 1980. Mas o “clima” ganha contornos estranhos, sombrios, algo como o occult rock dos anos 1970 mesclado ao heavy rock e a música vai ganhando peso. E o vocal finalmente aparece, abafado.

"Win or Lose"

Segue com “The Fog” com a pegada heavy rock pairando. Hard rock, heavy metal de vanguarda em uma mistura explosiva que estranhamente “harmoniza” com os teclados que insistem em trazer a pegada de occult rock com uma textura soturna. Mas arrisco em dizer que “The Fog” entrega algo mais animado ao álbum, apesar de tudo. “Night Watch” é logo dominado por um riff alto e potente de guitarra, nada muito arrastado e sujo com nas faixas anteriores, algo mais voltado para o hard rock. Uma porta de entrada para uma verdadeira hecatombe instrumental, com peso e agressividade. Há algumas viradas rítmicas e o riff potente de guitarra inaugural se apresenta mais para o doom, juntamente com o moog que é, ocasionalmente, tocado com muita energia. Excelente faixa!

"Night Watch"

E fecha com “He Was a Robot” que teimosamente traz o riff de guitarra de um típico e poderoso hard rock setentista travando um “duelo” com o bom e velho moog. O riff é alto, intenso, denso, pesado e a textura do teclado intensifica a sua proposta sombria e soturna, trazendo à tona o occult rock.

As audições podem soar falsas, te lembrar algo que já ouviu em algum momento de sua vida das famosas bandas que conhece de ponta a ponta de sua rica e vasta discografia. As discussões acerca dos plágios e inspirações podem rondar as suas intenções de definir a sonoridade de uma banda e seu álbum, mas se permita, primordialmente, a ouvir e curtir cada nota, cada melodia.

Afinal essa é a nossa razão neste mundo quando se fala na música de que tanto amamos: ouvir e se arrepiar com o que gosta. E quando acontece, teremos o melhor e mais passional dos resultados.

O Supernaut de fato não traz nada de arrojado, de vanguardista, de novo. Mas traz o que há de mais significativo na música pesada: vivacidade, algo orgânico, despretensioso e indulgente. Não sabemos da veracidade das informações que circulam sobre a sua história na grande rede, mas dessa vez as supostas ausências de veracidade trouxeram algo extremamente excitante e solar.




A banda:

Brian Took na guitarra

Barry Stonehouse na bateria

Peter Oldham no baixo

Mark Hodgkinson nos teclados

Glynn, Serpell nos vocais

 

Faixas:

1 – Keeper of the Keys

2 – Darkness Falls

3 – Win or Lose

4 – The Fog

5 – Night Watch

6 – He Was a Robot


"Supernaut" (1974)

Opus Alfa - Opus Alfa (1972)

 

Estamos habituados, por uma questão mercadológica, de marketing, a ouvir bandas e álbuns oriundos da Inglaterra e Estados Unidos, majoritariamente. É fato que são grandes centros que produziram e ainda produzem, bandas e logo a indústria vira seus olhos para esses mercados. Mas não podemos negligenciar os países que, mesmo imersos em uma condição underground de mercado, gozam de uma riqueza cultural musical enorme.

O Uruguai, por exemplo, embora tenha uma pequena extensão territorial tem uma prolífica história no rock n’ roll construindo uma cena excelente, sobretudo nos anos 1970, até mesmo intensificada por um clima político de opressão que certamente, mesmo diante de uma censura, serviu de inspiração para os músicos e bandas marginais e de espírito contestador.

Mas apesar de uma cena rica, naquela época estava em um status de “promissora” e, quando deu os primeiros passos, dependia das pessoas abastadas que traziam da Europa, sobretudo da Inglaterra e também dos Estados Unidos, justamente os mercados mais rentáveis da música, os discos que acabavam compartilhando com os amigos. Esse era o “download” daquela época!

Ao longo dos anos a cena “encorpava” e se fazia aparecer. Alguns músicos, inspirados, além do sistema político, e pelas bandas internacionais, formavam suas primeiras bandas de garagem e esboçavam seus primeiros acordes e assim despertou interesse de alguns selos, muitos deles começando também as suas trajetórias.

E, diante de tantas bandas que surgiram, muitas delas obscuras e undergrounds, uma se destacou por uma sonoridade tão singular, tão exótica, tão forte, que merece uma menção, mesmo que tenha tido uma efêmera história: Falo do OPUS ALFA.

Opus Alfa

O Opus Alfa surgiu na capital Montevidéu, em meados dos anos 1960 e teve, como espinha dorsal, dois caras importantes para a construção sonora da banda e que, no futuro, com os seus diversos projetos musicais, tornaram-se essenciais para o rock uruguaio: Jorge “Flaco” Barral, baixista e guitarrista, e Daniel Bertolone, guitarrista, flautista e vocalista.

Apesar da banda ter sido fundada em 1970, Daniel e Flaco já tinham alguma reputação na música, tocando, cada um deles, pelo menos, em pouco mais de cinco ou seis bandas e levaram para o Opus Alfa o arcabouço musical diverso necessário para a construção da identidade sonora da banda.

Daniel Bertolone

Flaco Barral

Mas os primórdios do Opus Alfa traziam músicas covers de bandas americanas e principalmente inglesas, como Jimi Hendrix, Cream, entre outras que executavam o hard psych, além de um embrionário prog rock que estava ganhando alguma notoriedade na Inglaterra. E a transição para as músicas autorais se deu graças a entrada de Flaco Barral à banda.

Ele entrou para o Opus Alfa quando a banda já existia e a condição que ele impôs ao entrar na banda, além de tocar baixo, era que fizessem as suas próprias músicas. E com isso um novo capítulo da banda foi inaugurada. 

Bertolone, que esteve desde o início do Opus Alfa, começou em uma banda que tinha como baterista o Daniel Crapuccet. Eles tocavam no início músicas dos Beatles e Rolling Stones e depois descobriram o psych rock. Tanto Bertolone quanto Crapuccet passaram a gostar desse tipo de música e formaram juntos o Opus Alfa, que tinha Jose Luis no baixo. Essa foi a primeira formação do Opus Alfa.

Porém essa formação não teve vida longa, tendo a seção rítmica a que mais sofreu mudanças, porque Jose Luis foi para os Estados Unidos e Daniel Crapuccet que decidiu formar a sua própria banda, entrando, por volta de março de 1971, Jorge “Flaco” Barral, no baixo, e Jorge Graf, na bateria e percussão, Atilano Losada, nos teclados e violinos, além de Jesús Figueroa nos vocais. Foi neste ponto da história do Opus Alfa a intenção em gravar músicas autorais e com letras em espanhol.

Opus Alfa em 1971

Mas a formação original se apresentou muito antes dessa reformulação no line up da banda em casas de shows pequenas com seus repertórios covers e quando Flaco Barral e os demais músicos entraram na banda, foi necessário um tempo para ensaiarem com a nova formação, até porque estavam compondo material novo, antes de gravar o seu debut, o único lançado em 1972, homônimo.

E falando em gravação de álbum, o processo, para variar, de contratação do Opus Alfa por um selo foi um pouco demorado. A gravadora “De la Planta” foi a que contratou, no fim das contas, o Opus Alfa e foi uma das mais importantes daquela época no Uruguai, porque reunia as bandas progressivas da cena uruguaia. Um dos sócios foi talvez o maior engenheiro de som do Uruguai, chamado Carlos Piriz e que era engenheiro de som nos estúdios ION, de Buenos Aires, na Argentna, sendo dirigida por Koyo Abuchja, que era guitarrista rítmico de uma banda uruguaia famosa chamada Los Delfines.

Esse se tornou um diferencial, ou seja, essa relação com estúdios argentinos, pois tinham uma infraestrutura muito melhor que a dos estúdios do Uruguai, mas para ter o resultado satisfatório na produção custaria para o Opus Alfa um processo corrido na gravação de seu primeiro trabalho em 1972. Quando foram contratados, receberam de Carlos Piriz as passagens aéreas de ida e volta de Buenos Aires, além de estadias em hotel, para gravar o álbum. Mas os únicos dias que Piriz tinha disponível em estúdio era sábado e domingo, então a banda, que precisava gravar seu álbum, e também de um ótimo engenheiro de som, gravou, em apenas dois dias o seu debut, ou seja, tempo curtíssimo e impensado para os dias atuais. 

O Opus Alfa lançou seu primeiro single, pelo selo “De la Planta”, com as músicas “Song for Kenny and the Children” e “Guest House. No dia 15 de dezembro de 1971 se apresentaram no Teatro Solís, em Montevidéu, algo que até então não era comum entre as bandas da cena rock à época. Tocou também em teatros, festas e salões de dança por todo o Uruguai, participando também do Festival BARock, em Buenos Aires, tudo antes de lançar seu trabalho único, em 1972.

“Opus Alfa” traz um trabalho poderoso de hard rock, com forte influência no blues e psicodelia, com vocais e guitarras lisérgicos, ácidos. Nota-se nuances progressivas também. Era o início da década de 1970 e várias vertentes hoje conhecidas e bem definidas naquela época ainda era embrionária e trafegava muito no experimentalismo, daí a “dificuldade” de classificar a sonoridade de uma banda e Opus Alfa se enquadrava nessa condição.

O álbum é inaugurado com a faixa “Blues de Mi Ciudad” e como nome sugere, o blues rock impera, com a “cozinha” ditando o ritmo e uma camada generosa de teclados que entrega algo mais psicodélico a música, tendo, inclusive, alguns solos chapantes, ácidos. Os vocais, imponentes, traz a cereja do bolo meio bluesy à faixa. O destaque também fica para os solos envolventes, que acalenta e nos faz dançar em um clima mesmerizante.

"Blues de Mi Ciudad"

“Ilusión” começa acústica, ao dedilhado discreto e suave de um violão, com um fundo contemplativo, de orquestra, com um vocal límpido, vivo. Segue uma vibe meio folk, com uma pegada mais psicodélica. Segue com “Vamos Mal. Ah No!” que mete o pé na porta e vem com um petardo, um volumoso hard rock tipicamente dos anos 1970. O vocal, antes límpido e melódico, vem mais rasgado, tendo como base os riffs poderosos de guitarra, bateria marcada em uma batida forte e baixo pulsante. E quando surge o solo da guitarra é que a música ganha em volume, em peso! Os instrumentos se convergem para essa explosiva condição.

"Vamos Mal. Ah No!"

“El Hueco de Mi Soledad” chega sombria, estranha. A guitarra “chora”, melancólica, com solos curtos, e me remete a um blues antigo, triste e ainda traz um violino discreto que entrega uma textura ainda mais soturna. Aos poucos a guitarra fica mais ácida, mais lisérgica, a música vai aumentando o tom, gradativamente, vai ficando mais pesada e drástica, quase dramática. Cheia de nuances, sem dúvida uma das melhores faixas do álbum.

"El Hueco de Mi Soledad"

“Miel y Humo” continua na proposta mais para balada rock, com a pegada meio bluesy, que alterna entre a leveza e o peso, caracterizado pelos riffs de guitarra e a bateria marcada. O solo de guitarra é mais elaborado e complexo e tem como base o blues rock.

"Miel Y Humo"

“Padre” começa com uma abordagem mais prog rock e mais psicodélica, um tanto quanto introspectiva. Os teclados trazem uma textura mais contemplativa. Vocais “rivalizam” com a flauta, a “cozinha”, mais uma vez, dita o ritmo.

"Padre"

“Destino de Mis Pasos” é quase executada à capela. O vocal, mais austero e limpo, parece ainda mais grave e consensual. O violão, ao fundo, traz uma pegada acústica e folk. Logo a bateria e o hammond dão uma versão mais viva da faixa, também psicodélica. Violinos são ouvidos e dão uma sensação mais “viajante” à música.

"Destino de Mis Pasos"

“Tanguez” vem inteiramente psicodélica, carregada nos teclados, com vocais mais dramáticos, melódicos e melancólicos. Não sou adepto das comparações, mas me remete aos primórdios do The Doors, que traz também aquele “tempero” mais sombrio.

"Tanguez"

E fecha com “Calma de um Dia” que retorna à potência do hard rock, com solos iniciais de guitarra que vem pesado e solar. Mas tem uma vibe mais comercial, diria mais radiofônica, mas sem soar ruim e plástico. Pelo contrário: é pesado, é alegre e intenso.

"Calma de um dia"

As palavras, em algumas entrevistas que pude ler de alguns integrantes do Opus Alfa, espalhadas pela grande rede, sintetizam o que é o álbum e o momento do rock n’ roll em todo o mundo: “Queríamos experimentar!" Essa era a razão de ser do Opus Alfa: deixar a criatividade aflorar e fazer de sua curta, mas importante história, algo singular. Foram importantes para a música de seu país, para o Uruguai, em um momento em que tudo era novo, embrionário e que precisava ser desbravado.

Mas quase que imediatamente após o lançamento de seu único álbum, em 1972, a banda decidiria o seu precoce fim, em um comunicado público. Porém antes do derradeiro fim convoca se sus fãs para um último show no Teatro del Círculo em 17 de julho de 1972.

Opus Alfa em 1972

O Opus Alfa traria conotações política, mas indiretamente. Eles queriam tocar e a grande preocupação era se tornar genuíno em sua música. Claro que o cenário político no Uruguai, bem como na América Latina, suscitava um posicionamento mais firme e presente e a banda era afetava, como muitos cidadãos em todas as esferas do pensamento, eram, mas a música para o Opus Alfa era prioridade, bem como o comportamento humano diante do cenário político que, sem sombra de dúvida, afetava a qualquer um que vivia no Uruguai nos anos 1970.

Jorge Barral, Daniel Bertolone e Jorge Graf uniriam forças formando o power trio Días de Blues, com o qual alcançariam um sucesso ainda maior e que iria transcender fronteiras, obtendo sucesso em seu país, na Argentina e em praticamente toda a América Latina.

"Dias de Blues" (1972)

A Logística foi praticamente a mesma do Opus Alfa: o mesmo estúdio e o mesmo engenheiro de som, mas a música e a sua execução, eram distintas em relação ao Opus Alfa. Com o Días de Blues a ênfase estava a forma de tocar. Os caras entraram em estado de transe, em uma dimensão diferente e muito poderosa para conceber os seus primeiros trabalhos.

A banda fez muitos shows e gravou mais álbuns alavancando, ainda mais, a carreira desses músicos, para outros projetos que viriam a participar. Jesús Figueroa desenvolveria uma carreira solo de sucesso gravando dois álbuns pelo selo Sondor: "Jesús con Todos" e "Mágica Fuente".




A banda:

Daniel Bertolone na guitarra, flauta e vocal

Jorge Barral no baixo, violão e guitarra

Jesús Figueroa no vocal

Atilano Losada nos teclados e violino

Jorge Graf na bateria

 

Faixas:

1- Blues de mi Ciudad

2- Ilusión

3- Vamos Mal. Ah no!

4- El Hueco de mi Soledad

5- Miel y Humo

6- Padre

7- Destino de Mis Pasos

8- Tanguez

9- Calma de un Día


"Opus Alfa" (1972)

Aleph - Surface Tension (1977)

 

Sydney, Austrália, 1974. O ano trazia grandes momentos para o rock progressivo. Grandes álbuns, grandes bandas, alguns feitos clássicos que arrebatou o mundo, mas que aconteciam em alguns “polos” tradicionais dessas vertentes, como a Inglaterra, a Itália e a Alemanha, deixando como coadjuvantes vários outros países.

E a Austrália sempre esteve nesse rol de vilipêndio por parte da indústria fonográfica, mas, por mais que o aspecto comercial ofusque esses países, nada que um bom garimpo nos proporcione gratas surpresas, com ótimas e obscuras bandas e a terra do canguru tem sim belas bandas e grandes álbuns.

E um exemplo é o ALEPH. O nome, que pode parecer inusitado e deslocado, mas entrega uma sonoridade extremamente arrojada e diria inédita, pois conseguiu a proeza de fundir o rock progressivo com uma música mais acessível, diria até mais popular.

A concepção do Aleph surge das cinzas de outra banda, baseada na cidade de Armidale, chamada Bogislav. Debandaram do Bogislav o baterista Ron Carpenter, o guitarrista e vocalista Dave Froggatt e o baixista Dave Highet. A banda tinha seis integrantes, juntando-se aos ex-integrantes do Bogislav o vocalista Joe Walmsley, a tecladista e vocalista Mary Jane Carpenter e a tecladista Mary Hansen.

Aleph

E aqui vale uma boa curiosidade histórica: Ron Carpenter, antes de ingressar no Aleph, tocou bateria, nos primórdios, no AC/DC, entre 1973 e parte de 1974, nas diversas formações da clássica banda de hard rock e heavy metal, que esteve baseada em Sydney, mas logo largou a banda dos irmãos Young para formar o Aleph, pelos idos de 1974. E cabe outra curiosidade: o Aleph e o AC/DC se encontrariam mais tarde, Sydney Haymarket, entre 1975 e 1976, em shows, dividindo o palco, inclusive.

As bandas se conheceram no estúdio, no Albert Studios, em Sydney para a gravação dos seus respectivos primeiros álbuns, em 1974, mas o AC/DC gravou e lançou seu primeiro trabalho, chamado “High Voltage”, em 1975, o Aleph demoraria cerca de três anos para lançar seu primeiro e único trabalho, acontecendo em 1977.

Intitulado “Surface Tension”, foi lançado pela Atlantic Records e oferece seis faixas de registros de rock progressivo que oscilam entre 4 e 6 minutos com exceção feita para a música “Mountaineer” que dura pouco mais de 15 minutos. O álbum entrega um esbanjado trabalho centralizado no mellotron, sintetizadores, moogs e tudo o mais, com guitarras pesadas focados em riffs pegajosos e solos enérgicos. Traz uma sonoridade complexa que nos remete ao Yes nos seus primeiros trabalhos, mas, por outro lado, é capaz de fundir uma sonoridade mais acessível, mais radiofônica, algo mais direto.

Nesse aspecto podemos, sem medo ou receio, de incluir o Aleph, mesmo que não tenha gozado de popularidade, ao rol de bandas como o Sebastian Hardie, no pioneirismo do art/prog rock australiano. E isso se confirma com a atmosfera dramática e desencantada que transparece na suíte “Mountaineer”, nela materializa o típico prog rock da Austrália e pesará também sobre o conjunto de “Surface Tension”, mesmo tendo algumas variações, bem discretas.

Não podemos negligenciar a capacidade que o Aleph teve de aliar complexidade e acessibilidade a música, trazendo os teclados e a guitarra em patamares mais alto em sua sonoridade, sendo percebida uma abordagem maior para as teclas em algumas músicas e a guitarra em outras ou ainda o protagonismo de ambos os instrumentos em algumas faixas, simultaneamente. O arranjo e a orquestração parecem, caros amigos leitores, superar o virtuosismo.

Mas o Aleph trabalhou muito antes de lançar seu “Surface Tension” e, no final de 1974, começou a fazer muitos shows em Sydney e, ao longo dos anos seguintes, conquistou alguns seguidores, alguns fãs, devido a exatamente esse nível consistentemente alto de musicalidade, o que rendeu até mesmo um contrato forte com a Warner Brothers.

E, para variar, mesmo com a reputação sendo bem construída, os primeiros anos foram, além de muito trabalho, como também difícil. Tudo parecia conspirar contra a possibilidade de um sucesso nacional. O mais grave evento foi a turnê nacional da banda em 1976, resultando em um prejuízo financeiro significativo. Esse período o seu álbum ainda não tinha sido lançado e quando “Surface Tension” também foi frustrante para a banda, no aspecto da qualidade da gravação.

Tanto que posteriormente o Aleph solicitou à Warner a regravação de seu álbum para aparar as arestas do problema técnico o que foi categoricamente negado, abalando a relação entre a banda e o selo que logo em 1977 viria a se desgastar e findar. Mas antes de chegarmos ao desfecho histórico da banda, vamos dissecar um pouco de “Surface Tension”.

A faixa inaugural é “Banshee” que nada mais é do que um progressivo sinfônico com “chicotadas” bem dadas de um hard rock intenso e enérgico, aquele estilo de prog rock que eu verdadeiramente aprecio. Essa definitivamente seria a essência do álbum, do início ao fim.

"Banshee"

“Man Who Fell” é digno de atenção ao seu piano e moog elétrico muito bem executado, com um timbre vocal exuberante de ótimo alcance. Não podemos negligenciar o mellotron que adorna com extrema elegância, dando uma textura altiva à faixa, sem contar com o hammond que “quebra” a música com a cumplicidade do violão. Excelente!

"Man Who Fell"

A sequência traz a majestosa “Morning”. Uma composição excepcional, mostrando que os caras têm uma capacidade incrível de aliar melodia, harmonia, letras bem encaixadas, tudo em seu devido lugar! “(You Never Were A) Dreamer” também entrega a versatilidade que é “Surface Tension”, uma faixa enérgica, o prog sinfônico se entrelaça com a pegada mais vibrante do hard rock, com pinceladas comerciais que torna mais acessível a faixa aos ouvidos mais exigentes e aqueles mais “despojados”.

"(You Never Were A) Dreamer"

"Mountaineer", a mais longa do álbum, é a síntese do rock progressivo, com viradas rítmicas, com variâncias de sons, com alto nível de complexidade, mas enérgica, com os instrumentos usados a toda prova, mostrando que seus músicos trazem também algo orgânico a sua música. Tudo construído com perspicácia e facilidade natural, afinal, essa é a marca da banda, construída neste álbum. Excelente faixa e ponto alto do álbum.

"Mountaineer"

O álbum fecha com “Heaven's Archaepelago” que traz de volta memórias, com a sua introdução ao piano, de bandas progressivas como Yes e até, em alguns momentos, o Supertramp. Não podemos deixar de lado, nesta música, o domínio do mellotron que oferece uma energia, algo solar, diria sem titubear.

"Heaven's Archaepelago"

Os problemas teimavam em testar o Aleph. Em 1978 a banda perdia o vocalista Joe Walmsley devido a uma grave doença e naquele mesmo ano teve seu PA, seus equipamentos, vendidos como resultado de uma alta dívida de cerca de  US$ 400.000. A banda foi forçada a abandonar sua turnê por vários meses depois que Ron Carpenter foi convidado para ocupar o lugar de baterista temporário do Cold Chisel. Carpenter também passou grande parte de 1979 dedicando suas energias à banda First Light, que gravou e lançou um álbum autofinanciado naquele mesmo ano.

Em 1979, Carpenter convenceu, em uma vã tentativa de salvar o Aleph, os membros restantes, bem como as suas famílias a se mudarem para Byron Bay, onde a banda posteriormente se instalou. Ao longo dos anos a formação foi reduzida de cinco integrantes para quatro integrantes e, finalmente um trio, com Carpenter eventualmente assumindo as funções de vocalista.

O Aleph, para se reerguer, foi forçado a se tornar uma banda cover com a garantia de conseguir casas lotadas e consequentemente bons cachês. Aceitaram! O que outrora fora concebida como original com o lançamento de seu álbum, se viram forçados a tocar covers variando de punk rock a new wave, de música eletrônica a rock clássico. E deu certo, o Aleph conseguiu tocar com alguma frequência e com casas cheias.

Assim foi até 1983! Embora não tenha explorado tão firmemente o seu lado criativo, produzindo músicas autorais, conseguiram lucrar o suficiente para pagar as suas dívidas contraídas em um passado não muito distante. Mas o ano de 1983 marcaria o fim das atividades do Aleph. O fato é que uma banda tão inventiva, que produziu um álbum do naipe de “Surface Tension”, não conseguiria seguir sem o mínimo de estrutura por parte de uma gravadora e reproduzindo músicas de outras bandas.

“Surface Tension” pode não ser uma obra-prima esquecida e vilipendiada, mas sem sombra de dúvida se trata de um álbum valioso, arrojado e interessante para qualquer apreciador de progressivo sinfônico, hard rock e crossover progressivo dos anos 1970. Então, caro amigo leitor, não se deixe levar para questões relacionadas a pioneirismos ou quaisquer “títulos” que esse trabalho deve ou deveria ter recebido, mas apenas ouça com muito respeito e reverência a um álbum solar, divertido. O Aleph merecia um futuro melhor! Certamente entregaria muito ao longo dos anos com uma discografia bem arrojada.



A banda:

Joe Walmsley no vocal

Dave Froggatt na guitarra e vocal

Mary Jane Carpenter nos teclados e vocal

Mary Hansen nos teclados e sintetizadores

David Highet no baixo

Ron Carpenter na bateria e percussão

 

Faixas:

1 - Banshee

2 - Man Who Fell

3 - Morning

4 - (You Never Were A) Dreamer

5 - Mountaineer

6 - Heaven's Archaepelago 


"Surface Tension" (1977)


Morte Macabre - Symphonic Holocaust (1998)

 

Será que podemos guardar uma geração, uma vertente sonora em uma caixa, como um produto velho e carcomido e esquecer? Aquele discurso de que está obsoleto e que deve ficar, no mínimo para a história da música e pouco falar sobre, quanto mais executá-la, trazê-la à tona?

Não sou contrário, nobres e estimados leitores, ao novo, aos “testes” geracionais que a vida nos impõe e, claro, com a música que é o nosso assunto por aqui. A mudança, embora temida por tantos, se faz importante, mas a importância não pode ser comparada à obrigações e/ou posturas conservadoras instituídas.

Os anos 1990 foi a “era do grunge”, de Kurt Cobain, das roupas de flanela, de um rock n’ roll mais direto, a necessidade de simplificar diante da arrogância sonora dos músicos de rock progressivo ou ainda dos excessos do glam metal de meados dos anos 1980.

Evidente que podemos questionar as tais gerações, isso é democrático, salutar, diria, mas tudo, consequentemente, é uma questão de opinião. Sob o aspecto comercial o rock progressivo estava, ainda mais, à margem nos anos 1990. As gigantes do estilo até enchiam arenas, mas estavam descaracterizadas sonoramente falando.

Mas não se enganem o rock progressivo ainda tinha sua carga criativa cheia, forte, contundente, consistente e tinha um público que estava ávida por consumi-la. Alguns países, inclusive, via a sua cena ressurgir, como a Itália, que via, aos borbotões, bandas bem interessantes ganharem vida.

No norte da Europa se testemunhavam o surgimento de bandas muito legais e que traziam, revisitavam, os sons ocultos dos anos 1970, mas com roupagens contemporâneas com o rejeitado metal progressivo, por exemplo. Ouso dizer que muitas dessas bandas que surgiram nos anos 1990 e também na década de 2000, podem figurar na história do prog rock recente.

E não podemos negligenciar o que a Suécia tem feito, nesses últimos trinta anos, a serviço, não apenas ao rock progressivo, mas ao rock n’ roll como um todo. Grandes bandas vêm surgindo enaltecendo, em uma espécie bem-sucedida de homenagem aos seus predecessores, a música dos anos 1970, entregando sons novos e relevantes.

E preciso citar o MORTE MACABRE. Essa banda assumiu um caráter de projeto com início, desenvolvimento e fim efêmero, o que, convenhamos, é uma pena, que uniu duas proeminentes bandas suecas dos anos 1990 que são o Landberk e o Anekdoten. E a formação trazia Nicklas Berg no mellotron, fender rhodes, theremin, sampler, guitarra, baixo, Peter Nordins na bateria e percussão, Reine Fiske na guitarra, violino, mellotron, fender rhodes e Stefan Dimie no baixo e moog. Berg e Nordins tocavam no Anekdoten e Dimie e Fiske eram membros do Landberk.

Morte Macabre

E o resultado dessa fusão veio o único álbum da banda chamado “Symphonic Holocaust”, lançado, pelo selo antigo chamado “Mellotronen”, que pertencia ao baixista Stefan Dimie, em 1998, no formato CD, sendo as sessões de gravação no estúdio Largen, na Suécia. Além de ter sido concebido em uma época avessa ao prog rock, sob o aspecto comercial, trata-se de um álbum desafiador para ouvidos mais conservadores do rock progressivo muito acostumado a ouvir as sonoridades setentistas. É um trabalho extremamente nervoso, temperamental, contundente e tem, ouso dizer, tudo para que, daqui a 50 anos, seja celebrado como um clássico esquecido e que será considerado como “cult”.

É um trabalho complexo, de personalidade, avesso aos estereótipos, que entrega beleza, sombras, um trabalho excepcional de occult rock, de dark progressive, que não se via a tempos, desde bandas como Antonius Rex e Goblin. A propósito os temais musicais são oriundas de trilhas sonoras de filmes de terror, majoritariamente europeus, baseando-se exatamente no que o Goblin fez nos anos 1970, com os filmes do cineasta Dario Argento, além de duas faixas originais, compostas pelos integrantes da banda.

Pode não parecer, diante disso, algo novo ou revolucionário, mas o habitat sonoro em “Symphonic Holocaust” é muito bem definido e principalmente bem delineado: o tema de filmes de terror é muito bem explorado, sobretudo o do occult rock, do progressivo de terror é extremamente orgânico e sofisticado, ao mesmo tempo. É uma ode aos desbravadores Jacula, Goblin, Museo Rosenbach e tantos outros undergrounds que lutaram contra uma onda de conservadorismo que persiste até os dias de hoje.

Filmes como “The Beyond”, “The House by the Cemetery”, “City of the Living Dead”, “Cannibal Holocaust”, “Zombie” e "Rosemary's Babe", do grande diretor Roman Polanski, além de duas faixas escritas pelo Morte Macabre. Os filmes, de baixo orçamento, os famosos “Lado B”, também são marginais como a sonoridade desta banda.

Antes de dissecar cada faixa deste álbum convém ressaltar um detalhe muito interessante e que, de alguma forma corrobora a textura sombria de “Symphonic Holocaust”: o Mellotron. Quase todos os membros da banda tocam o instrumento, colocando-o, obrigatoriamente, como ponto central da estrutura sonora deste álbum. A melancolia, a atmosfera densa e particularmente sombria é a tônica deste trabalho do Morte Macabre. Então vamos a elas!

A faixa inaugural é “Apoteosi del Mistero”, que é do filme “City of the Living Dead” e essa faixa já começa para mim arrebatadora! Ondas de mellotron logo no topo, quando um som mais completo e “cheio” já chega logo, em menos de um minuto. A guitarra tem seu destaque, bem como a “cozinha” rítmica, com baixo e principalmente a bateria, marcada e altiva, dando o tom mais pesado à faixa.

"Apoteosi del Mistero"

Na sequência temos a primeira faixa composta pela banda, “Threats of Stark Reality” que traz uma textura sombria e extremamente experimental que remeteu à psicodelia ácida da cena krautrock, com uma aura de space rock também, diria. Uma faixa assustadora e que poderia adentrar em qualquer filme de terror, facilmente.

"Threats of Stark Reality"

"Sequenza Ritmica e Tema", é do filme “The Beyond”. É inegável dizer que bateria, guitarra e baixa atinge com força os ouvidos e o coração, tendo, evidentemente o mellotron entrando gradativamente no contexto sonoro. Um constraste improvável, mas que harmoniza em um caos oculto e tenebroso e assim a música vai seguindo até seu fim louco, docemente louco. Convém lembrar também que cada músico decidiu empreender com solos de seus instrumentos, mesmo assim tudo conectado.

"Sequenza Ritmica e Tema"

Segue com “Lullaby”, tema do clássico filme “Rosemary’s Baby”, de Roman Polanski. É clássico aos ouvidos e parece te colocar dentro do ambiente da trama horripilante construída por Polanski e quando entra finalmente pela primeira vez no álbum um vocal da Yessica Lindkvist com suas suaves e terrivelmente sedutadora vocalização de “la-la”, pronto! Uma música que verdadeiramente dignifica a proposta sonora de “Symphonic Holocaust”. As linhas de baixo esparsas e descontraídas reforça as sombras que permeiam na música, juntamente com a bateria, sem contar, claro, com o mellotron.

"Lullaby"

“Quiet Drops” é sublime, porque aqui o destaque fica para a guitarra, tão focada e poderosa. Uma faixa contemplativa, viajante, chapante, lisérgica, progressiva, linda! A beleza da introspecção a torna única, singular. A bateria vai encorpando, dando mais vivacidade à música. Sem dúvida uma das mais interessantes faixas do álbum. “Opening Theme” soa como uma improvisação informal, que abre os trabalhos para a faixa seguinte...

"Quiet Drops"

“The Photosession” o arrebentar do mar na costa, nas pedras são acompanhados por uma suave e notas de guitarra que reproduz um momento singular e harmônico e aí vem os toques dos pratos da bateria, as notas incidentais de guitarra e baixo se fundem e logo depois o fender rhodes e o mellotron em seguida. Tudo tão conectados, mas orgânico, típico de músicas instrumentais. 

"The Photosession"

E o grand finale é realmente apoteótico e colossal com a faixa-título “Symphonic Holocaust” que, no auge dos seus quase dezoito minutos revela-se a mais pesada e fantasticamente complexa, trazendo uma miscelânea de vertentes percebidas, ou melhor, ouvidas em todas as faixas anteriores do álbum. O mellotron ganha destaque, trazendo uma textura sombria, mas logo o peso do hard prog se faz presente, com riffs pegajosos de guitarra e bateria marcada e pesada.

"Symphonic Holocaust"

O volumoso arsenal instrumental de “Symphonic Holocaust” faz do Morte Macabre e seu único rebento um trabalho singularmente especial. As faixas são sedutoras, suaves em grande parte, como se fosse ninar os ouvintes, os transportando para um sombrio pesadelo. Um clássico que se perde no tempo da música plastificada e sem vida dos anos 1990. Uma ode à temporalidade da carne e à inevitável passagem do tempo. Um álbum emocional, sombrio e humano.




A banda:

Reine Fiske na guitarra, violin, mellotron, fender Rhodes

Nicklas Berg no mellotron, fender Rhodes, theremin, sampler, guitarra e baixo.

Stefan Dimle no baixo, mellotron e moog

Peter Nordins na bateria, percussão e mellotron/ drums, percussion, Mellotron

 

Com:

Yessica Lindkvist na voz na faixa 4

Janne Hansson no waves Fx na faixa 7

 

Faixas:

1 - Apoteosi del Mistero

2 - Threats of Stark Reality

3 - Sequenza Ritmica e Tema

4 - Lullaby

5 - Quiet Drops

6 - Opening Theme

7 - The Photosession

8 - Symphonic Holocaust




"Symphonic Holocaust" (1998)

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