segunda-feira, 16 de junho de 2025

“Destiny” (Epic Records, 1978), The Jacksons

 


Em 1978, os Jacksons não eram mais os mesmos adolescentes que haviam conquistado o mundo com sucessos como “I Want You Back” e “ABC”. Após a ruptura com a Motown, em 1975, que marcou o fim da era “Jackson 5” e trouxe consigo uma nova identidade sob o selo Epic Records, a banda foi renomeada para The Jacksons e precisou enfrentar os desafios de se desvincular das imposições criativas que haviam definido sua trajetória inicial. Apesar do sucesso moderado dos dois primeiros álbuns pela Epic, The Jacksons (1976) e Goin’ Places (1977), ainda faltava um grande impacto que consolidasse a transição para uma fase mais madura e artisticamente autônoma. 

Foi com o álbum Destiny (1978) que, pela primeira vez, os irmãos Jackson assumiram o controle total sobre sua música, desde a composição até a produção. Com isso, deixaram de ser apenas intérpretes de hits cuidadosamente moldados para se tornarem artistas completos. Essa mudança não apenas reenergizou a banda, mas também mostrou ao mundo a versatilidade criativa que definiria os próximos passos de sua carreira – especialmente o papel central de Michael Jackson (1958-2009), que já começava a despontar como um fenômeno além do grupo. 

Mais do que um álbum de sucesso de público e crítica, Destiny foi um manifesto artístico. Ao fundir elementos da disco music, do funk e do pop com letras mais maduras e introspectivas, o álbum capturou o espírito do final dos anos 1970 e ajudou a moldar o som daquela era. Era o prenúncio de um novo capítulo, não apenas para os Jacksons, mas também para a música pop como um todo. 

O processo de gravação de Destiny ocorreu nos estúdios Cherokee, Total Experience e Record Plant, todos localizados em Los Angeles, Califórnia, nos Estados Unidos. Trabalhando ao lado de engenheiros renomados e influenciados pelas sonoridades da época, os Jacksons buscaram criar um trabalho que equilibrasse o frescor da disco music, a sofisticação do R&B e os elementos do funk. Cada detalhe do processo de produção foi cuidadosamente planejado, refletindo o desejo dos irmãos de estabelecer uma identidade musical própria, longe da sombra do passado. 

Os irmãos quando ainda se chamavam Jackson Five. 

Lançado em 17 de dezembro de 1978, Destiny chegou às lojas com uma bela capa ilustrada pelo artista americano Gary Meyer. Musicalmente, o álbum refletia as tensões da indústria musical do final dos anos 1970. Em um período marcado pela transição do domínio da soul music para a ascensão da disco music e do pop, Destiny conseguiu capturar o espírito do momento, ao mesmo tempo em que antecipava tendências que dominariam a música na década seguinte. 

Ao ser lançado, o álbum simbolizou mais do que um marco na evolução dos Jacksons; era uma prova de que eles podiam não apenas acompanhar as mudanças do mercado, mas também liderá-las, impondo sua própria visão criativa. 

Destiny começa com o clima festivo de “Blame It On The Boogie”. Composta por Mick Jackson (sem nenhum grau de parentesco com a banda), a faixa captura perfeitamente o espírito da era disco, com um groove contagiante e versos que celebram o poder irresistível da música e da dança. O vocal de Michael é puro carisma, conduzindo a melodia com leveza e sofisticação. A combinação do baixo pulsante com os arranjos vocais, em harmonia imediata, torna a faixa um clássico instantâneo e um dos maiores sucessos do álbum. 

“Push Me Away” é uma balada que traz uma atmosfera melódica serena, mas igualmente impactante. Com uma base instrumental suave e um arranjo vocal primoroso, Michael lidera de forma delicada, cantando versos sobre o desejo por um amor verdadeiro, confrontado pela dor da rejeição e pelas barreiras emocionais. 

Com “Things I Do for You”, o álbum retoma o ritmo dançante, misturando funk e R&B em uma explosão de energia. O naipe de metais marcante e o ritmo vibrante da linha de baixo formam a base para uma performance vocal repleta de atitude. A letra explora as temáticas de dedicação e sacrifício em um relacionamento a dois, um tema recorrente em muitas músicas do grupo. 

Fechando o primeiro lado do álbum, “Shake Your Body (Down to the Ground)” é um misto vibrante de funk e disco music, coescrito por Michael e Randy Jackson, que se apresenta como um convite irrecusável para dançar. A introdução com percussão e cordas estabelece o tom antes de explodir em um refrão irresistível. O groove envolvente e os vocais dinâmicos fizeram desta canção um sucesso estrondoso e uma das mais memoráveis da era disco. Além disso, “Shake Your Body (Down to the Ground)” prenuncia o direcionamento musical que Michael Jackson adotaria em Off The Wall, lançado em 1979. 

Detalhe da arte que ilustra a contracapa do álbum Destiny.

O segundo lado abre com a faixa-título, “Destiny”, que começa com uma belíssima melodia de violão acústico, mas logo se transforma em uma composição mais voltada para o R&B. Nesta faixa, os Jacksons cantam sobre o anseio por liberdade e simplicidade, rejeitando os valores materiais da vida urbana em prol de um propósito verdadeiro e pessoal. 

Em “Bless His Soul”, os Jacksons exploram texturas sonoras mais orgânicas e uma estrutura vocal rica em harmonias. A música combina momentos de introspecção com uma pegada rítmica envolvente, criando uma experiência auditiva única que reflete as raízes gospel do grupo. Os versos da letra abordam a dificuldade do indivíduo em equilibrar as expectativas alheias com os desejos pessoais, destacando a importância de buscar autenticidade e felicidade individual. 

Uma das faixas mais dançantes do álbum, “All Night Dancin’” combina a batida marcante da disco music com arranjos vocais cheios de vitalidade e uma guitarra com pegada rock na segunda metade da faixa. O refrão pegajoso e os elementos funk reforçam o caráter festeiro da canção, que parece feita sob medida para as pistas de dança. 

“That’s What You Get (For Being Polite)” encerra o álbum Destiny. A faixa trata de Jack, um homem generoso que busca o amor e a aceitação, mas tem sua bondade explorada pelos outros. A interpretação vocal de Michael é especialmente tocante, transmitindo fragilidade e emoção. 

The Jacksons em 1979, na turnê de Destiny, da esquerda para a direita:
Marlon, Jermaine, Jackie, Michael e Tito.

Décimo terceiro álbum de estúdio lançado pela banda e terceiro sob o nome The Jacksons desde que trocou de gravadora, Destiny foi o primeiro álbum dos Jacksons a conquistar um disco de platina, por ter alcançado a marca de 1 milhão de cópias vendidas nos Estados Unidos, onde ficou em 3º lugar na parada de álbuns pop da Billboard. Mundialmente, Destiny vendeu mais de 4 milhões de cópias. 

O álbum gerou três singles. “Blame It On The Boogie” chegou ao 8º lugar na parada de singles do Reino Unido e ao 11º lugar na Billboard Hot 100, nos Estados Unidos. Já o single de “Shake Your Body (Down to the Ground)” ficou em 7º lugar na Billboard Hot 100 e vendeu mais de 2 milhões de cópias no mercado americano. 

Com o sucesso de faixas como “Shake Your Body (Down to the Ground)”, Destiny catapultou a banda para o topo das paradas internacionais. A música, com seu groove irresistível e energia contagiante, foi um hino nas pistas de dança e um marco na época disco. Esse sucesso reafirmou a habilidade do grupo em criar hits que transcendiam o gênero, enquanto os arranjos sofisticados e a qualidade vocal amadurecida mostravam o lado mais versátil dos Jacksons, sem deixar de lado as raízes no R&B e no soul. 

Além de seu impacto imediato, Destiny desempenhou um papel crucial na evolução de Michael Jackson como artista solo. O álbum foi o palco onde Michael começou a explorar a amplitude de seu talento vocal e sua habilidade de criar músicas que misturavam emoção e inovação. A experiência adquirida na produção e no desempenho vocal durante a gravação deste disco prepararia o terreno para Off the Wall (1979), o álbum que consolidaria sua carreira solo de forma definitiva.

 

Faixas

Lado 1

1."Blame It on the Boogie" (Mick Jackson - David Jackson - Elmar Krohn)             

2."Push Me Away" (The Jacksons)         

3."Things I Do For You" " (The Jacksons)             

4."Shake Your Body (Down to the Ground)" (Michael Jackson - Randy Jackson)            

 

Lado 2

5."Destiny" " (The Jacksons)     

6."Bless Your Soul" " (The Jacksons)

7."All Night Dancin'" (Michael Jackson - Randy Jackson)

8."That's What You Get (For Being Polite)" (Michael Jackson - Randy Jackson)

 

The Jacksons:

Michael Jackson (vocais principais e arranjos vocais)

Jackie Jackson (vocais principais (faixa 6), vocais de apoio e arranjos vocais)

Marlon Jackson (vocais de apoio e arranjos vocais)

Tito Jackson (guitarras, vocais de apoio e arranjos vocais)

Randy Jackson (congas (3, 5–8), arranjos vocais, percussão (3) e vocais de apoio)


Ouça na íntegra o álbum Destiny

 "Blame It On the Boogie" (videoclipe oficial)


“Duplo Sentido” (Warner, 1987), Camisa de Vênus

 


Entre 1986 e 1987, o Camisa de Vênus vivia o auge de sua popularidade. Com o álbum Correndo o Risco batendo a marca de 300 mil cópias vendidas e conquistando um disco de platina, a banda se consolidava como uma das mais emblemáticas do rock brasileiro. O sucesso nos palcos, no entanto, contrastava com o caos nos bastidores. Marcelo Nova, vocalista e principal motor criativo do grupo, encarava com crescente insatisfação o comportamento de seus companheiros de banda. 

O impacto da fama e do dinheiro logo se traduziu em desrespeito mútuo, piadas agressivas e ofensas pessoais, criando um ambiente que, em vez de inspirar a criatividade, tornava-se cada vez mais tóxico. Um dos episódios mais marcantes dessa degradação envolveu o baterista Aldo Machado, que encontrou a maçaneta de seu quarto de hotel emporcalhada com um palito de picolé sujo de fezes. Em outra ocasião, o guitarrista Gustavo Mullem (1952-2024) foi deixado nu no corredor de um hotel, ainda bêbado, após mais uma noite de farra. Embora essas cenas possam parecer piadas de mal gosto, elas revelavam a pressão crescente e a deterioração das relações pessoais. 

O estopim foi uma briga no camarim, quando um integrante empurrou o empresário da banda para dentro do chuveiro de forma agressiva. Foi a "gota d'água" para Marcelo Nova, que decidiu, na volta do show, comunicar à banda que sua permanência não seria mais possível. Apesar do desgaste, ainda havia obrigações contratuais com a gravadora WEA. Marcelo, então, negociou com André Midani (1932-2019), presidente da gravadora, para que um álbum duplo quitasse o contrato pendente. Duplo Sentido foi o segundo álbum duplo de estúdio da história do rock brasileiro. O primeiro foi Saqueando a Cidade, da banda Joelho de Porco, lançado em 1983. 

Último registro da formação clássica do Camisa de Vênus, Duplo Sentido foi lançado em outubro de 1987. O álbum é um reflexo da tensão interna que marcava a banda, misturando crítica social, ironia e um tom sombrio que já prenunciava o fim de uma era. As gravações ocorreram após a turnê de Correndo o Risco, em meados de 1987, já estando acertado que a banda se dissolveria após a turnê do novo álbum, embora Marcelo tivesse proposto ficar na banda até que encontrassem um novo vocalista. Contudo, os companheiros de banda preferiram o fim do grupo, mas, antes, gravariam o álbum e fariam a turnê de despedida. 

As gravações de Duplo Sentido ocorreram nos estúdios RAC, em São Paulo, os mesmos onde a banda havia gravado Correndo o Risco, em 1986. A produção ficou novamente a cargo de Pena Schmidt, o mesmo produtor do álbum anterior. Dentre os convidados ilustres estavam Raul Seixas (1945-1989), que fez um dueto com Marcelo Nova em “Muita Estrela, Pouca Constelação” (composta pelos dois roqueiros baianos), e o saxofonista Manito (1944-2011), que, além de saxofone, tocou flauta e órgão Hammond em algumas faixas. 

Diferente dos álbuns anteriores, o ambiente de gravação de Duplo Sentido foi melancólico, com um clima de fim de banda. Os integrantes raramente se encontravam durante as gravações; cada um gravava sua parte separadamente. O produtor Pena Schmidt ficou encarregado de reunir o material gravado para realizar o processo de mixagem. Sobre Duplo Sentido e sua gravação, em entrevista ao jornalista André Barcinski, Marcelo Nova declarou: “É um disco triste, melancólico, de final de etapa. Ali não tinha mais nada, só um contrato a cumprir.” 

Robério Santana, Karl Hummel, Gustavo Mullem, Marcelo Nova e Aldo Machado,
em sessão de fotos para o álbum Correndo o Risco, de 1986.

Apesar do clima de despedida nas sessões de gravação, Duplo Sentido é um trabalho muito bem cuidado e musicalmente eclético, no qual a banda transita pelo rock and roll, punk rock, blues, balada acústica e até tango. Embora, para alguns, esse ecletismo passe a impressão de se tratar de um álbum pouco coeso, o lado positivo é que ele evidencia a evolução técnica dos músicos da banda. Um dado relevante é que, desde que o Camisa migrou para a WEA, onde encontrou as melhores condições técnicas de gravação, o som da bateria de Aldo Machado e do baixo de Robério Santana foi especialmente valorizado; os timbres de seus instrumentos ficaram mais intensos e encorpados. Isso é perceptível não apenas em Correndo o Risco, mas também em Duplo Sentido. 

Composto por dezessete faixas distribuídas em dois discos, Duplo Sentido traz, além de músicas próprias do Camisa de Vênus, releituras de canções de outros artistas, entre elas “Aluga-se” (Raul Seixas), “Canalha” (Walter Franco, 1945-2019) e "Farinha do Desprezo" (Jards Macalé). 

O primeiro disco abre com um áudio da voz de Al Pacino no filme Scarface (1983), dirigido por Brian De Palma. É a senha para dar início a “Lobo Expiatório,” um rock veloz e vigoroso que, na verdade, é uma manifestação solidária do Camisa de Vênus a Lobão, que estava preso na época por porte de drogas. A prisão de Lobão gerou grande repercussão na mídia. “Lobo Expiatório” aborda a hipocrisia social e política, revelando a tendência de buscar culpados e criar narrativas simplistas para problemas complexos. Por meio de metáforas sobre violência, medo e desejo, a canção expõe a repetição histórica de injustiças e discursos vazios, marcados por um ciclo de opressão e conformismo. Merecem destaque nesta faixa os vocais femininos de apoio, interpretados por duas integrantes do grupo vocal Harmony Cats: Cidinha e Rita Kfoury. 

A faixa seguinte, “O País do Futuro,” começa em um ritmo suingado, com direito a cuíca e Marcelo Nova pronunciando, de forma irônica, o slogan da ditadura militar: “Ninguém segura este país.” Com tom debochado, o Camisa de Vênus critica, nesta música, a corrupção e a desigualdade social no Brasil, que resultaram em desilusão em um país que havia recém-reconquistado a democracia após vinte anos de regime militar. 

Em “Ana Beatriz Jackson,” Marcelo Nova canta versos sarcásticos sobre um relacionamento fracassado, pintando um retrato irônico e crítico de uma mulher materialista e manipuladora. A letra explora temas como decepção amorosa, a futilidade da riqueza e a vingança. Em poucas palavras, a música aborda um relacionamento tóxico e a tentativa do protagonista de se libertar de uma mulher que o enganou. 

“Voo 985” explora a angústia emocional e o vazio existencial, utilizando o voo como metáfora para as incertezas e perdas pessoais. O primeiro lado do disco 1 termina no ritmo veloz de “Após Calipso,” que descreve um cenário apocalíptico, onde o caos e a perda de valores indicam o colapso da civilização e da humanidade. 

Lobão em detalhe da capa do álbum Vida Bandida, de 1987: "Lobo Expiatório"
foi composta pelo Camisa de Vênus e dedicada a Lobão. 

O segundo lado do disco 1 começa com o blues “Me Dê Uma Chance,” a única faixa do álbum gravada ao vivo no estúdio, com todos os músicos tocando juntos, desde os integrantes do Camisa de Vênus até os músicos convidados. Sem sombra de dúvida, é um dos pontos altos de Duplo Sentido. Talvez pelo fato de ter sido gravada ao vivo no estúdio, a música apresenta um som mais espontâneo e transmite ao ouvinte o clima de um bar americano onde se toca blues ao vivo. Nova canta a plenos pulmões e mostra-se completamente à vontade. Além dos integrantes do Camisa, merecem destaque as performances dos músicos convidados, como Manito, nos solos de saxofone, e Sérgio Kaffa, no piano. 

Depois do clima festivo de “Me Dê Uma Chance,” o tom se torna mais introspectivo e romântico com a balada acústica “Deusa da Minha Cama,” que celebra a intensidade de um amor inesperado. Com um tom vibrante e apaixonado, a música explora a experiência sensorial e emocional de um encontro amoroso, revelando a beleza da mulher amada e a transformação que o amor provoca no eu lírico da canção. É curioso pensar que essa canção foi gravada pela mesma banda que, um ano antes de Duplo Sentido, lançou uma música tão sexista e machista como “Sílvia.” 

“Chamam Isso Rock and Roll” é a última faixa do primeiro lado do disco 2. A música reflete a rotina exaustiva e desiludida da vida de uma banda de rock em turnê, desmistificando o glamour associado ao rock’n’roll. Ela começa de forma lenta, segue em um ritmo arrastado e, na reta final, ganha velocidade com uma levada rock’n’roll, encerrando a faixa de maneira apoteótica.

Arte do artista gráfico baiano Miguel Cordeiro presente na parte interna da
capa dupla do álbum Duplo Sentido.

O segundo disco do álbum duplo começa com a debochada “Muita Estrela, Pouca Constelação”, em que Raul Seixas e Marcelo Nova disparam ironia como quem atira garrafas no mar, certos de que alguém as entenderá. É desfile de tribos: punk que protesta por moda, new wave montado no ego, metaleiro barulhento, dark de boutique. A crítica é ácida, mas a gargalhada é sincera — e amarga. Não faltam alfinetadas ao sistema: uma indústria que prefere a cópia bem penteada à arte de verdade. Tudo brilha, mas não ilumina. São Raul e Marcelo, lúcidos no caos, mostrando que estrela demais só ofusca. Constelação que é bom, cadê? Só pose, pouca poesia.

Logo após um rock’n’roll, o Camisa de Vênus adota o ritmo de tango com “O Último Tango.” A letra, carregada de humor ácido, aborda a história de um sujeito que vive um relacionamento conturbado com sua amada, marcado por ironias, frustrações cotidianas e traições, refletindo a banalidade dos dramas humanos em tom irreverente: “Numa noite tão antiga, num barzinho de bordel / Você disse é o inferno; eu lhe prometi o céu / Jurei que lhe cobriria de ouro e diamantes / Você xingou a minha mãe e me chamou de tratante.” 

Para Duplo Sentido, o Camisa de Vênus apresentou uma releitura de uma antiga música sua, “Pronto Pro Suicídio,” originalmente lançada no primeiro e homônimo álbum, em 1983. A banda criou um novo arranjo, completamente diferente do punk rock da versão original, e o resultado é uma canção com um ritmo mais lento, um perfil mais maduro e, ao mesmo tempo, mais sombrio. Apesar de manter a mesma letra da versão original, a nova interpretação foi rebatizada como “O Suicídio Parte II.” 

“Chuva Inflamável” é a única faixa instrumental de Duplo Sentido e é ela quem encerra o primeiro lado do disco 2. Aqui, fica mais evidente a evolução dos integrantes do Camisa de Vênus como músicos. Porém, esta foi a segunda música instrumental gravada pela banda baiana. A primeira foi “Coiote no Cio,” presente no segundo álbum do Camisa, Batalhões de Estranhos, lançado em 1985. 

Duplo Sentido traz uma regravação de "Pronto Pro Suicídio", presente no
primeiro álbum e homônimo álbum do Camisa de Vênus (foto). Porém a releitura foi
batizada como "O Suicídio Parte II", apesar de possui a mesma letra da versão original.

O segundo lado do disco 2 é totalmente dedicado a releituras de canções de outros artistas. A faixa que abre este lado é “Enigma,” composta por Adelino Moreira (1918–2002) e gravada originalmente por Nélson Gonçalves (1919–1998) em ritmo de samba-canção. Para o álbum Duplo Sentido, o Camisa fez uma releitura em um ritmo acelerado de rock. “Enigma” critica a hipocrisia e o julgamento alheio, exaltando a individualidade e desafiando os padrões impostos por uma sociedade moralista. Não era a primeira vez que o Camisa gravava uma música de Adelino. Em 1983, o quinteto fez uma versão irônica e irreverente de “Negue,” parceria de Adelino e Enzo de Almeida Passos (1928–1991), imortalizada na voz de Maria Bethânia. 

Fruto da parceria de José Carlos Capinam e Jards Macalé, “Farinha do Desprezo” foi gravada pela primeira vez pelo próprio Macalé em 1972. “Farinha do Desprezo” simboliza a dor do indivíduo ser ignorado, menosprezado e humilhado. Anteriormente, o Camisa havia gravado outra canção de Capinam e Macalé, “Gotham City”, para o álbum Batalhões de Estranhos, de 1985. 

"A Canção do Martelo" é uma versão em português de “Hammer Song”, da banda Alex Harvey Band, de 1972. Vertida para o português por Marcelo Nova, "A Canção do Martelo" aborda a persistência e a luta diária do trabalhador, simbolizando o esforço humano diante de adversidades constantes. 

Não poderia faltar uma regravação de uma música de Raul Seixas. Para Duplo Sentido, o Camisa regravou “Aluga-se”, originalmente gravada por Raul em 1980, porém censurada pela ditadura militar. “Aluga-se” é uma sátira crítica à entrega das riquezas nacionais ao capital estrangeiro, denunciando a subserviência econômica e política do Brasil. 

O álbum termina com uma releitura de “Canalha”, de Walter Franco, cuja versão original foi gravada por ele em 1980. Enquanto a versão original é um rock de andamento lento, mas com uma sonoridade agressiva, a versão do Camisa manteve a agressividade, porém ganhou uma pegada mais rápida e enérgica. Na letra de "Canalha", o eu lírico expressa toda uma dor intensa e inevitável, usando metáforas de batalha para descrever seu sofrimento emocional e existencial profundo.

Camisa de Vênus revisita em Duplo Sentido canções de Walter Franco,
Jards Macalé e Raul Seixas.

Duplo Sentido foi lançado simultaneamente com o single de “Muita Estrela, Pouca Constelação”, que, aliás, foi o único single gerado pelo álbum. O álbum chegou a ter anúncios nos intervalos de programação das emissoras de TV, destacando que era um trabalho de despedida do Camisa de Vênus. A banda baiana partiu para sua última turnê não apenas para promover o álbum duplo, mas também para se despedir dos fãs. 

“Muita Estrela, Pouca Constelação” teve uma modesta execução nas emissoras de rádio, enquanto “O País do Futuro” ganhou videoclipe exibido no Fantástico, na TV Globo. 

Após o lançamento de Duplo Sentido, o Camisa de Vênus partiu em turnê de despedida, encerrando oficialmente suas atividades no final de 1987. Com o fim do Camisa de Vênus, Marcelo Nova seguiu carreira solo, colaborando com Raul Seixas, com quem gravou o álbum A Panela do Diabo, lançado em 21 de agosto de 1989, dois dias antes de Raul falecer. 

Em 1995, o Camisa fez seu primeiro retorno, e, daí em diante, a banda fez vários retornos, alguns deles resultando em novos álbuns, como Plugado! (1995) e Quem É Você? (1996). Após nova separação em 1996, o grupo se reuniu em 2004, 2007 e 2009, esta última marcando uma fase sem Nova, liderada por Eduardo Scott, com a coletânea Mais Vivo do Que Nunca (2011) e disputas judiciais pelo nome da banda. Em 2015, Nova e Robério Santana celebraram 35 anos com a turnê e o álbum Dançando na Lua. Em 2021, o grupo lançou Agulha no Palheiro, consolidando sua relevância no rock nacional.

 

Faixas

Todas as faixas escritas e compostas por Gustavo Mullem, Karl Hummel e Marcelo Nova, exceto onde indicado.

 

Disco 1

Lado A

  1. "Lobo Espiatório"                 
  2. "O País do Futuro" (Marcelo Nova / Robério Santana)
  3. "Ana Beatriz Jackson"                        
  4. "Vôo 985" (Aldo Machado / Gustavo Mullem / Karl Hummel / Marcelo Nova)            
  5. "Após Calipso"                       

Lado B

  1. "Me Dê uma Chance"                        
  2. "Deusa da Minha Cama"                  
  3. "Chamam Isso Rock and Roll"                    

Disco 2

Lado C

  1. "Muita Estrela, Pouca Constelação" (Marcelo Nova / Raul Seixas)             
  2. "O Último Tango"                 
  3. "O Suicídio Parte II" (Gustavo Mullem / Marcelo Nova)   
  4. "Chuva Inflamável"                            

Lado D

  1. "Enigma" Adelino Moreira 
  2. "Farinha do Desprezo" (José Carlos Capinam / Jards Macalé)      
  3. "A Canção do Martelo (Hammer Song)" (Alex Harvey / Versão: Marcelo Nova)            
  4. "Aluga-se" (Cláudio Roberto / Raul Seixas)
  5. "Canalha" (Walter Franco)

 

Músicos

Camisa de Vênus:

Marcelo Nova: Vocal

Karl Hummel: Guitarra base

Gustavo Mullem: Guitarra solo

Robério Santana: Baixo elétrico

Aldo Machado: Bateria


Ouça na íntegra o álbum Duplo Sentido

"País do Futuro" (videoclipe oficial)


Guns'n Roses - Appetite for Destruction (1987)


A capa original censurada nos Estados Unidos
e abaixo a alternativa que a substituiu.
“Bem-vinda à selva,
nós temos diversões e jogos.
Nós temos tudo o que você quiser, querida,
nós sabemos os nomes.
Nós somos as pessoas
que podem encontrar
tudo o que você precisar.
Se você tiver o dinheiro, querida,
nós temos sua doença
Welcome to the Jungle.



Confesso que a primeira vez que escutei Guns não sabia o que era esse som. Perguntei para um amigo meu sobre uma música do Rush, visto que ele é especialista nessa banda e não encontramos a canção, que era "Sweet Child O´Mine" e estava numa trilha sonora de novela “O Sexo dos Anjos”
Este disco possui uma das melhores músicas “cartão de visita” do rock que é “Welcome to the Jungle”, aquela que abre o disco e apresenta para o ouvinte qual é a o clima que tu vais escutar. Assim de cabeça me lembro de outras músicas “cartão de visitas”, I Saw Her Standing There no primeiro disco dos Beatles, o Smell Like Teen Spirit do Nirvana no "Nevermind", o War Pigs do Sabbath, O Led III com o Immigrant Song e ai por diante.
Mas como bem disse o Cap. Nascimento “Eu vou... retomar o raciocínio”. Pois bem, o "Appetite for Destruction" mantém uma média de canções muito boas, e encontrou um nicho muito pequeno de mercado que ficava espremido entre os rocks poseur americanos de Poison, Skid Rows e Cinderellas da vida, o rock do The CultLed Zeppelin e de bandas de bebedeiras como o Creedence,Thin Lizzy e AC/DC. Na interseção dessas 3 esferas musicais (bonito isso) localizou-se o Guns com este disco.
Bons tempoe de um disco com começo, meio e fim, com músicas que preparam umas às outras. Por exemplo, depois do clássico “Welcome to the Jungle”, vêm 3 músicas boas, que preparam para a maravilhosa “Mr. Brownstone”, que levanta a bola para a “Paradise City” com o seu indefectível apito de início do ferro sonoro.
Depois de uma aliviada com “My Michelle”, a rotação aumenta bastante com “Think About You” e prepara para a “Rushiana” (não sei de onde eu achava parecido com Rush essa música, mas enfim) “Sweet Child O´ Mine”, hit radiofônico que os tornou conhecidos mundialmente, é o “Satisfaction” do Guns. “You´re Crazy” tem uma certa pitada de punk em sua parte inicial, uma quebra com um temperinho blues e segue rápida de novo.
Quase terminando o disco vem uma das minhas preferidas de todas as músicas do Guns que é “Anything Goes” com sua batida de bateria invertida e é uma música bem construída que dá uma derrapada e tu pensa, “Isso não vai engrenar...” mas é como aquele carro V8 que tu acelera e ele te avisa, “Tô derrapando mas tô tranquilo...”.
O disco termina com um clima de “quero ver como vai ser o próximo disco deles” com a mais elaborada “Rocket Queen”.
Resumindo. "Welcome to the Jungle", "It´s so Easy", "Mr. Brownstone", "Paradise City", "Anything Goes". Discaço que merece ser ouvido dentro de um Muscle Car, um Mustang, um Dodge, um Mavericão V8 daqueles que fazem 4 km por litro. A propósito, alguém ai aceita troca de algum desses carros por um Civic?
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FAIXAS:
1. "Welcome to the Jungle"
2. "It's So Easy"
3. "Nightrain"
4. "Out Ta Get Me"
5. "Mr. Brownstone"
6. "Paradise City”
7. "My Michelle"
8. "Think About You"
9. "Sweet Child o' Mine"
10. "You're Crazy"
11. "Anything Goes"
12. "Rocket Queen"


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Ouça:
Guns'n' Roses Appetite fo Destuction



Grinders - "Grinders" ou "Skatepunkmusic" * (1987)

 

"E algum tempo depois,
Um skate eu montei
Ando todos os dias
E feriados também."
trecho de "Minha Vida"

"Ande de skate ou  morra!"
trecho de "Ande de Skate Ou Morra"



Meu primo Lucio Agacê, tradicional colaborador aqui do blog, na época das nossas formações musicais e descobertas sonoras, volta e meia nos apresentava, a mim e ao meu irmão Daniel, alguma novidade dos sons que acabara de conhecer. Recém iniciado no punk e hardcore, empolgado, chegava para nós com aqueles discos esquisitos, barulhentos, com sonoridades agressivas, rascantes, acabamento pobre, não só sonoro mas também gráfico, com artes feitas de colagens muito primárias ou com ilustrações de qualidade bastante deficiente. Eu, na época, ainda muito absorvido pelo rock que tocava nas rádios, na época da explosão do rock nacional, com bandas como Legião UrbanaUltraje a RigorRPM, nem sempre valorizava muito àquelas coisas que meu entusiasmado primo trazia a meu conhecimento e apreciação. Com exceção um que outro que tinha alguma produção um pouco mais caprichada como Inocentes, Cólera, em alguns momentos, e um pouco mais adiante, Ratos de Porão, aquele som do punk nacional me soava excessivamente tosco e mal acabado. No entanto, em meio a esse universo pouco convidativo para meu 'paladar' sonoro, algo me chamou atenção. Uma banda chamada Grinders parecia ter um pouco mais de técnica, seu som era mais limpo, não se limitava aquela chiadeira que mais parecia um vespeiro em polvorosa e, claramente, havia um pouco mais de cuidado, de trato na produção.

Curiosamente, a primeira impressão não foi exatamente positiva pelos motivos certos. Meu primeiro contato com Grinders se deu quando o próprio Lucio me mostrou a coletânea "Ataque Sonoro", na qual a banda tinha duas músicas. Uma delas, "Skate Gralha", para mim estava mais para engraçada do que propriamente para boa, uma vez que, o vocalista, com uma interpretação acelerada, quase indecifrável, depois de esculachar, na letra, um suposto skatista muito ruim, que só atrapalhava na pista, culminava a execração do coitado dando-lhe, no refrão, a sentença definitiva de "animal" ("Pega o skate desse gralha /Sai da pista, animal /Se você quer tesourar /Vai pra casa animal /ANIMAL, ANIMAL, ANIMAL!"). Era engraçado, era divertido, brincávamos imitando aquele refrão mas, para mim, passava longe de ser algo que me agradasse musicalmente e, embora não fosse exclusivamente o que pesasse na minha antipatia, efetivamente, não havia como negar que aquela versão, presente na legendária compilação punk, era bastante precária.

Algum tempo depois, já mais aberto e tolerante, tive a oportunidade de ouvir o disco de estreia dos Grinders e lá estava "Skate Gralha", que, embora ainda totalmente "animal", claramente estava bem mais limpa e mais bem acabada.

Trato mais cuidadoso que, por sinal, todo o disco tinha, até mesmo nas mais ruidosas e selvagens como "Destrua Um Monstro Nazista", "Ande de Skate ou Morra" e "Explorados". Mas não era só a questão do trabalho de estúdio, os Grinders sabiam tocar, tinham bala na agulha, as músicas tinham bons riffs e podia-se até mesmo notar uma pegada meio surf-music e do punk californiano. As duas peças instrumentais, a que leva o nome da banda e abre o disco, "Grinders", e a cover do tema do Homem-Aranha, são exemplares indesmentíveis dessas influências.

Chama atenção também como os gritos da galera punk daquela época, incrivelmente, continuam tão válidos e procedentes ainda hoje, e talvez até mais pertinentes agora do que naquele momento pós-abertura, quando parecia haver uma série de conscientizações em relação a diversos temas e problemas do país por parte da sociedade. "Amém", denunciando os falsos religiosos que se utilizam da ignorância do povo para lucrar, a irônica "Serviço Militar", contra o militarismo, "Destrua Um Monstro Nazista", bem a calhar diante das inúmeras manifestações de extrema-direita que surgem por todo canto, e "Como É Que Pode", que chama atenção para a desigualdade social e a fome, infelizmente, mostram-se extremamente atuais e urgentes. "Ruas de Soweto", uma das melhores, com seu riff vigoroso e sua letra mínima porém sintética ("Os dias são negros pelas Ruas de Soweto"), se hoje não é mais tão atual em relação ao Apartheid sul-africano, não perde a validade, dadas as mostras escancaradas de racismo pelo mundo, e em especial no Brasil, cujo procedimento é apoiado pelo discurso discriminatório do próprio presidente da República.

Mas, em meio a tantos assuntos sérios, há  espaço para o skate, prática muito comum entre o pessoal do punk e hardcore, na época, e que é tema de destaque no disco, não somente com a já destacada, "Skate Gralha", mas também com a ótima "Minha Vida", que relata a satisfação de ter um skate e poder usufruir dele, e a marcante "Ande de Skate ou Morra", lema do pessoal das rodinhas, elevado à condição de hino skatista hardcore pelos Grinders.

O disco ainda tem a pérola, que o finaliza, "Puta Vomitada", que relata o day after de uma noitada, aquela ressaca e os efeitos da bebedeira, numa manhã de domingo em que, tudo que se encontra numa tentativa de assistir TV, é Programa Sílvio Santos, Menudo, RPM , numa crítica à massificação do entretenimento promovido pelas mídias, naqueles idos dos anos 80. Apesar de gostar de RPM, na época e ainda hoje, é um encerramento de disco espetacular que ainda fica melhor com o som de uma descarga de banheiro que joga para o esgoto toda aquela porcaria.

Edições posteriores, em CD, tem alguns extras bem interessantes como uma cover instrumental, ao vivo, de "California Über Alles", dos Dead Kennedy's, que só confirma ainda mais aquela impressão da influência do punk californiano; "Amém" com uma introdução de "oração"; e algumas inéditas, em versão demo, como "Trem Lotado", "Danceteria" e a preconceituosa, porém divertida "Eu Não sou Break".

Ainda que um pouco mais bem produzido que seus contemporâneos, "Grinders" mantém aquela pureza característica punk nacional, na sonoridade, nas composições e nas letras. Aquela crueza, aquela "barulheira" que de início era exatamente o que me incomodava, no fim das contas é o diferencial do punk raiz, do punk proletário, do punk suburbano, e que atesta, sobremaneira, a autenticidade de sua atitude e de seu discurso. 

Dia do Rock e época de Olimpíadas, nada melhor do que trazer toda a força do rock, sua essência, sua atitude, seu caráter contestador, e misturar com esporte, nas mais radicais manobras sobre as quatro rodinhas. E, cá entre nós, poucos esportes têm tanta atitude como o skate.

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FAIXAS:
1. Grinders
2. Skate Gralha
3. Amém
4. Homem-Aranha
5. Minha Vida
6. Destrua Um Monstro Nazista
7. Explorados
8. Serviço Militar
9. Ande De Skate Ou Morra
10. Ruas De Soweto
11 Como É Que Pode
12. Puta Vomitada

Ao Vivo no Woodstock Music Hall(1987)
13. Grinders
14. Skate Gralha
15. Homem-Aranha
16. Amém
17. Como É Que Pode
18. Minha Vida
19. Califórnia (cover instrumental de "California Über Alles", dos Dead Kennedy's)

Demo Tape(1985)
20. É Domingo
21. Grinders
22. Skate Or Die
23. Como É Que Pode?
24. Trem Lotado(TL)
25. Eu Não Sou Break
26. Danceteria

Ao Vivo na Broadway(1985)
27. É Domingo
28. Eu Não Sou Break

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Ouça:




Grant Lee Buffalo – “Fuzzy” (1993)


"O melhor álbum de 1993 folgado".
Michael Stipe



É pura mentira, mas se um dia Elvis Presley refletisse sobre o seu legado para o futuro do rock ‘n’ roll, ele almejaria que se criasse um som de raiz, usando instrumentações e timbres típicos do rock genuíno, porém que se evoluísse naquilo que fizeram precursores como ele, Little RichardJerry Lee LewisJohnny CashChuck Berry e cia.. A música ambicionada pelo Rei haveria de conter, além desses predicados, melodias belas e bem elaboradas, referenciando não apenas a ele e seus companheiros de primeiros anos, mas a outras vertentes que o rock ganharia a partir de então – o country-rock, o punk, o hard-rock, a new wave, o folk-rock, o shoegaze. Ah! E também não abriria mão de ser uma música bem tocada e bem cantada, com um vocal afinado e de timbre apreciável (consciente, dispensaria que fosse necessariamente o vozeirão dele).

Até que, 40 anos depois de inaugurar o estilo mais subversivo, popular e eletrizante da história da música, Elvis, do auge do seu trono em que se senta lá em cima, veria os rapazes da Grant Lee Buffalo lançarem seu primeiro disco: “Fuzzy”. Estava ali o que ele esperava!  Pondo o vinil pra tocar em seu toca-discos celeste, os primeiros sons que Elvis ouviria são de uma introdução ligeira da bateria na caixa com escovinhas, herdada do jazz swing e ao estilo do rock que ele inventara. “Que beleza! É isso aí, rapaziada!”, vibrou. Ele está escutando “The Shining Hour”, um rockabilly matador em que a banda de Los Angeles liderada por Grant Lee Phillips – juntamente com Paul Kimble, baixo, e Joey Peters, nas baquetas – apresenta de cara as qualidades que fazem de “Fuzzy” o disco que é: a influência direta do blues, a prevalência da sonoridade acústica, simplicidade nos arranjos (não há nenhum sopro ou cordas de orquestra) e o espírito desafiador do bom e velho rock ‘n’ roll. Embalada, “The Shining Hour” conta ainda com um piano, como a letra diz, saído de um “salão de bilhar azul de Monterey”, que sola lá pelo meio e ainda a desfecha numa nota grave e impositiva.

Em “Jupiter and Teardrop”, balada lindíssima em que Phillips, se já tinha mostrado suas habilidades vocais na primeira faixa, aqui, ele impressiona. Principalmente nos momentos de maior emotividade, a qual a canção vai ganhando à medida que se desenrola. Esse clima é ampliado pelas guitarras que, rosnantes, aparecem pela primeira vez no disco para comporem junto com a base do violão 12 cordas um clima carregado e melancólico. A letra acompanha a sonoridade, contando a triste história de um casal cujo rapaz, Teardrop, encrencado com a polícia, está prestes a ser preso novamente, forçando a distanciar-se de sua Jupter. ”Apenas uma garota que não pode dizer não/ E seu namorado em liberdade condicional/ Seus pais lhe deram o nome de Jupiter/ Para abençoá-la com uma alma de sorte/ Ele é um garoto que nunca chorou/ Quando eles o prenderam lá dentro/ E ela o apelidou de ‘Lágrima’/ Para fazer uma tatuagem de seu olho.” Ela sonha com filhos e casamento, mas teme que o pior aconteça antes do esperado: “O telefone toca/ É para ela/ ‘Tenho que ver você, Jupiter’/ ‘Estou com problemas com a lei’/ ‘Traga minha calibre 38’.” Uma crônica urbana romântica e de final trágico.

Talvez a melhor da banda, se não, seu maior sucesso – o que para um grupo alternativo como eles é algo considerável –, a faixa-título é outra balada com estrutura semelhante à anterior (base no violão, guitarras intensificando o clima semiacústico, tom tristonho), visto que ganha emotividade conforme avança. “Fuzzy”, no entanto, traz um refrão absolutamente tocante, em que Phillips, mais uma vez explorando suas qualidades de canto, lança falsetes para dizer com sentimento: “I've been lied to/ Now I'm fuzzy” (“Eu tenho mentido/ Agora estou confuso”). Em seguida, “Wish You Well”, com uma base de guitarra bem interessante, é mais pesada mas sem deixar de ser bastante melodiosa. Realce para a interessante linha de bateria, forjada em pequenos rolos no surdo com a caixa.

“The Hook”, totalmente acústica, é uma bela canção em que tudo funciona com perfeição: violão de cordas de aço, baixo acústico, bateria nas escovinhas e a voz ora deslizante ora impregnada de Phillips. Outro destaque do disco é “Soft Wolf Tread”, que inicia só na voz e frases do violão para, em seguida, explodir em peso e fúria. Assim é também “America Snoring”: melodiosa mas permeada pela distorção das guitarras e por uma bateria alta, pericialmente amplificada na produção assinada pelo próprio Kimble.

O piano estilo country volta na excelente “Dixie Drug Store” em que, por óbvio, homenageia o bluesman Willie Dixon mas, igualmente, referencia a ligação intrínseca que o blues tem com a música folk, tal como outro bluesmanMuddy Waters, fizera no clássico “Folk Singer”, de 1959 – disco em que, não coincidentemente, Dixon produz e toca. Aqui, Phillips manda ver mais uma vez nos falsetes, os quais incorpora de forma muito natural ao próprio timbre. Com essa, Elvis deve ter ficado arrepiado. “Stars n' Stripes”, delicada, é talvez a mais fraca do álbum, o que nem de longe tira a graça do trabalho como um todo.

E é justamente essa característica que desfecha “Fuzzy”: graça. Afinal, “Grace”, penúltima faixa, seguindo o mesmo conceito de “The Hook”, que revela a leveza d’”a rocha”, contrariamente, traz agora a densidade da “clemência”. Imagino que para alguém que morava numa mansão chamada Graceland deve ter sido uma feliz surpresa ouvir esse tema. “You Just Have to be Crazy”, baixando novamente os ânimos, finaliza o álbum com a mesma pegada acústica e doce já apresentada em vários momentos. A bela letra que diz: “Você apenas tem que ser louco, não você/ Você apenas tem que estar fora de sua mente/ Você apenas tem que ser louco, não você/ Você apenas tem que ser/ Verdade ou não/ Verdade ou não.”

Com todo respeito que tem a seus súditos Neil YoungBob DylanJohn LennonRaul Seixas, Robbie Robertson, Jimmy PageElton JohnRenato RussoElvis Costello, Johnny Thunders e mais centenas e centenas de roqueiros e não-roqueiros mundo afora, Elvis Presley – na minha invencionice apaixonada –, deu seu troféu para a Grant Lee Buffalo por “Fuzzy”. Foi neste disco que ele identificou aquilo que imaginava que sua música um dia chegaria a ser: sofisticada mas popular e pungente. Dá pra enxergar Elvis tirando dos ouvidos seu fone dourado, recostando-se no trono e dizendo emocionado: “Muito bem, rapazes! Aprenderam direitinho. Obrigado”.
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FAIXAS:
1. The Shining Hour
2. Jupiter and Teardrop
3. Fuzzy
4. Wish You Well
5. The Hook
6. Soft Wolf Tread
7. Stars n' Stripes
8. Dixie Drug Store
9. America Snoring
10. Grace
11. You Just Have to be Crazy
todas as faixas compostas por Grant Lee Phillips




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