segunda-feira, 20 de outubro de 2025

DVORAK

 

Antonín Leopold Dvořák, membro da chamada escola nacionalista do período romântico, consagrou-se como um dos principais nomes da música clássica do século 19, e a figura mais representativa da composição tcheca, aplicou algumas das características da música popular da Morávia e da sua terra natal, a Boêmia (então parte integrante do Império Austro-Húngaro e atualmente parte República Checa).
Casa onde nasceu Dvorak

Filho de uma modesta e numerosa família, Dvorák nasceu no dia 8 de setembro de 1841, em Nelahozeves, um pequeno povoado próximo a Praga.

Foi batizado na igreja católica de St. Andrew na mesma aldeia. Os anos que Dvořák passou em Nelahozeves nutriram a forte fé cristã e o amor pela sua herança boêmia que tão fortemente influenciou a sua música.
Igreja St. Andrew

O mais velho de oito irmãos, desde criança demonstrou interesse pela música, seu pai, Frantisek Dvořák era dono de um açougue e de uma pensão, tocava órgão e piano em uma banda. 

Aos 11 anos, Dvorák foi enviado a uma escola da região para aprender alemão. Foi onde entrou em contato com a viola e logo desenvolveu grande intimidade com o instrumento. No entanto, devido à má situação econômica da família, quando tinha 15 anos teve de interromper os estudos para ajudar o pai nos negócios.

Smetana
Mesmo assim, continuou alimentando a paixão pela música. Fazia apresentações aos hóspedes da pensão, começou a tocar em igrejas e em bandas de vilas vizinhas. Chegou a aprender o ofício de açougueiro, mas, embora o pai quisesse que ele herdasse os estabelecimentos, não pôde deixar que o talento do filho fosse desperdiçado. Em 1859, terminou o curso de órgão em Praga.

as irmãs Josesphina
e Anna
Ao longo da década de 1860, tocou viola na Orquestra Provisória do Teatro da Boêmia, que em 1866 era regida por Bedřich Smetana. Quando tinha dezoito anos, Dvořák era um músico em tempo integral. Recebia cerca de 7,50 dólares por mês. A constante necessidade de complementar sua renda levou-o a ensinar lições de piano. 

Foi através dessas aulas de piano que conheceu sua esposa. A princípio, ele se apaixonou por sua pupila Josefina Čermáková, para quem ele compôs Cypress Trees. No entanto, ela nunca correspondeu a esse amor e acabou casando com outro homem.
Anna

Em 1873, Dvořák casou-se com a irmã de Josefina, Anna. Eles tiveram nove filhos, sendo que três morreram antes de completar cinco anos.
Brahms

Deixou a orquestra para seguir a carreira de organista de igreja. Escreveu várias composições durante este período. A música de Dvořák atraiu o interesse de Johannes Brahms, que o ajudou na sua carreira; também recebeu a ajuda do crítico Eduard Hanslick.

Hanslick
Seu primeiro sucesso foi Hymnus, uma espécie de hino dedicado ao povo tcheco, baseado numa obra de Vítězslav Hálek, famoso poeta de seu país. Assim conseguiu a colocação de organista na Igreja de Saint-Ethelbert, que ocupou até 1877. Datam desses anos Stabat Mater e outras obras sinfónicas, vocais e, sobretudo, de câmara. Em 1875 obteve uma renda do Estado.

A obra de Dvořák conheceu um sucesso cada vez maior: surgiram as Danças eslavas (1878), Quarteto op. 51 (1879) e as primeiras sinfonias. O compositor foi diversas vezes para a Inglaterra, onde recebeu o título de doutor honoris causa da Universidade de Cambridge em 1891. Obteve o mesmo título também da Universidade de Viena e da Universidade de Praga.

Hálek
Em 1892 aceitou o convite para dirigir o Conservatório Nacional de Música de Nova York, onde teve contato com a espiritualidade dos negros e a música típica norte-americana. Foi neste período que compôs duas de suas obras mais famosas: a Sinfonia nº 9 ("Sinfonia do Novo Mundo") e o Quarteto em fá maior, conhecido como "Quarteto americano", ambas em 1893. No entanto, a saudade de seu país fez com que o compositor retornasse para o lugar de professor de composição que obtivera em 1891.

Túmulo de Dvorak
Quando deixou Nova York, voltou a Boêmia, onde foi nomeado diretor do Conservatório de Praga até 1901. Dvorák morreu em 1º de maio de 1904, aos 63 anos, em Praga. A morte do compositor desencadeou uma jornada de luto por toda a região da Boêmia. O corpo de Dvorák está enterrado no cemitério de Vysehrad, em Praga.

As composições de Dvořák têm estilos muito próprios, com grande riqueza melódica e colorido orquestral.

A produção de Dvořák foi numerosa. Ele abordou todos os gêneros, revelando-se um especialista em música de câmara.

As nove sinfonias são obras primas do conjunto sinfônico romântico do século XIX.

Ouça

ALBINONI

 


Tomaso Giovanni Albinoni foi um compositor barroco italiano, nascido na República de Veneza no dia 08 de junho de 1671, filho de Antonio Albinoni, rico comerciante de papel em Veneza.

Pietro Ottoboni
Estudou violino e canto. Sabe-se relativamente pouco de sua vida ao se levar em conta a importância que conquistou como compositor e o fato de que viveu durante um período relativamente bem documentado.

Não pensava em seguir a carreira artística e muito menos em ganhar dinheiro com ela.
Decidiu mais tarde, por dedicar-se às composições musicais para violino, deixando a responsabilidade por gerir a herança do pai e a responsabilidade da fábrica para os seus dois irmãos mais novos.
Alexandre VII

Em 1694 dedicou seu Opus I ao compatriota veneziano Pietro Ottoboni, sobrinho-neto do papa Alexandre VIII e mecenas de outros compositores em Roma como Arcangelo Corelli. É provável que Albinoni tivesse sido contratado em 1700 como violinista por Fernando Carlo, duque de Mântua, a quem dedicou sua coleção de peças instrumentais Opus 2. Em 1701 compôs suas muito populares suítes Opus 3, dedicando tal coleção ao grão-duque Fernando III da Toscana.

Em 1705 contraiu matrimônio. Antonino Biffi, mestre-capela da Basílica de  São Marcos em Veneza foi testemunha de seu casamento, por ser, evidentemente, amigo de Albinoni.

J.S. Bach
Antes de 1705, escreveu, sobretudo, sonatas para trio e concertos para violino, porém entre 1705 e 1719 dedicou-se particularmente a sonatas para instrumento solo e concertos para oboé.

Tomaso Albinoni foi um dos primeiros compositores a escrever concertos para violino solo. Sua música instrumental atraiu a atenção de Johann Sebastian Bach, que escreveu pelo menos duas fugas sobre temas de Albinoni (Fuga sobre um tema de Albinoni em lá, BWV950, Fuga sobre um tema de Albinoni em si menor, BWV951) e constantemente usava seus baixos como exercícios de harmonia para seus pupilos.

Vivaldi
Corelli
Diferentemente da maior parte dos compositores de sua época, parece que jamais buscou um posto na igreja ou na corte, porém é certo que era um homem independente com recursos próprios. Em 1722, Maximiliano II da Baviera, a quem Albinoni havia dedicado um conjunto de doze concertos, o convidou para dirigir duas de suas óperas em Munique.

Conseguiu fama precoce como compositor de ópera em muitas cidades da Itália, incluindo, além de Veneza, Gênova, Bolonha, Mântua, Udine, Piacenza e Nápoles. 

Durante essa época compôs abundante obra instrumental. Tendo sido muito famoso em sua época como compositor de óperas, tendo composto cerca de oitenta peças, destas 28 foram produzidas em Veneza entre 1723 e 1740, aproximadamente setenta dessas partituras foram destruídas na Segunda Grande Guerra Munida, com a destruição da Biblioteca Estadual da Saxônia, durante o bombardeio de Dresden, em Fevereiro de 1945 e atualmente é mais conhecido por sua música instrumental. Ele foi tão popular em sua época quanto Arcangelo Corelli e Antonio Vivaldi.
Dresden bombardeada
Em torno de 1740, uma coleção de sonatas para violino foi publicada na França como obra póstuma. Durante muito tempo, acreditou-se que tivesse morrido perto dessa data. Entretanto parece que continuou vivendo em Veneza, sem que tenha legado para a posteridade nenhuma composição no último período de sua vida. Um arquivo da paróquia de San Bernabé indica que Tomaso Albinoni faleceu em Veneza no dia 17 de janeiro de 1751, de diabetes.

Remo Giazotto
Sua obra mais conhecida pelo grande público, o "Adágio de Albinoni" (Adágio em sol menor para violino, cordas e órgão), não foi escrito por ele, trata-se de uma "reconstrução" de 1945, feita por Remo Giazotto, musicólogo e autor de uma biografia do compositor, a partir de um fragmento manuscrito que recebeu da direção da Biblioteca Estadual da Saxônia que fora encontrado entre as ruínas do prédio após a Segunda Guerra, e que seria parte do movimento Adagio de uma sonata da chiesa (possivelmente a Op.4), composta por Albinoni por volta de 1708.

Cenas finais do filme THE DOORS de 1.991 dirigido por Oliver Stone, antes dos créditos são do túmulo de Jim no cemitério Père Lachaise em Paris, enquanto "The Severed Garden (Adagio)" toca no fundo.



Aprecie

Dinosaur Jr – Give a Glimpse of What Yer Not (2016)

 

Whitney – Light Upon The Lake (2016)

 

Elza Soares – A Mulher do Fim do Mundo (2015)

 

Nick Cave – Skeleton Tree (2016)

 

Não queria nada que olhassem para estas breves linhas convencidos que estão a ler uma crítica ao mais recente disco de Nick Cave. Enfatizo, desde já, a ideia, para que não se esqueçam dela. Nem agora, nem durante o que for escrevendo até ao final deste texto. Preferia antes, até por ser essa a minha maior intenção, que o entendessem como um desabafo sobre a vida, sobre a música, sobre a música que a vida nos obriga, por vezes, a encarar, escutando-a…

Para aqueles que, como eu, encontram na música uma espécie de eco distante dos deuses, o sopro dos anjos e dos diabos do nosso contentamento, encontrarão em Skeleton Tree um imenso festim. O décor da festa, no entanto, é um lustroso e pesado pano negro caído sobre os ombros dos que nela circulam, almas vagueando ao sabor do fel da vida, fantasmas lívidos das feridas que os vão trespassando. É este o cenário, é este o espaço, são assim as quatro paredes claustrofóbicas que edificam todo o álbum: perda, dor, catarse e vingança. Na verdade, pouco ou nada me interessa mais neste Skeleton Tree do que ouvir, por entre instrumentos e vozes, a força do poder do amor. O poder vigoroso de um amor destroçado, e a vitória, por meio dessa mesma tragédia, da vida que permanecerá assente numa qualquer estranha faculdade que não sabemos bem como identificar ou nomear. O padecimento que serviu de base a todas as 9 canções do álbum (direta ou indiretamente relacionadas com o desaparecimento de Arthur) não apaga a chama que ilumina (embora mal se perceba a sua existência) o que o presente obriga a viver. Daí o sabor a elegia, que aos poucos se transforma (ou será melhor dizer transformará?) em fuga, em embrião de um tempo que só poderá ser melhor do que o tempo ainda vivente. Assim, será a vida, e o que resta dela, a derrotar o que o anjo da morte quis decepar. Que bela vingança, de facto!

Skeleton Tree ajuda a perceber algumas coisas sobre as quais não estamos interessados em pensar e muito menos em viver. Como a finitude a que estamos sujeitos, por exemplo (“They told us our gods would outlive us / But they lied”, como se ouve em “Distant Sky”), a nossa finitude e a dos outros, que são tão nossos como nós próprios, ou até ainda mais, uma vez que descendem de nós. Os nossos deuses, os deuses que criamos com o nosso sangue, sobreviverão ao seu próprio desaparecimento. A custo, mas sobreviverão. A razão é simples de entender, e de tão simples parece abjeta: duramos enquanto não passarmos também, e nesse rio de memórias vamos navegando em tempestades que tanto nos destroem, como nos tornam rochedos de deceção ou esperança. Aqui, vivem-se estas duas circunstâncias. Skeleton Tree faz-nos chocar com a ausência que deriva dessa mesma finitude. Por isso, as perguntas não poderão ser outras: como lidar com ela, como lidar com o vazio que anda connosco, de mãos dadas e a reclamar, ao minuto, a sua presença? Quem se pode atrever a dar uma resposta consentânea com a dimensão da tragédia mais íntima e destruidora que se pode viver? Nick Cave deu-a, e essa mesma resposta acaba por me deixar completamente estupefacto e mudo, incapaz de pronunciar algo mais acima destas simples banalidades.


Pixies – Head Carrier (2016)

 

Bruno Pernadas – Worst Summer Ever (2016)

Qual é a orientação musical de Bruno Pernadas? O indie rock de Julie & the Carjackers?  A exotica de How can we be Joyful in a World Full of Knowledge e da sua sequela – Those who Throw Objects to Crocodiles Will Be Asked to Retrieve Them? Ou coisas mais eruditas, que pressentimos correr subterrâneas por debaixo da fachada pop?

Estas interrogações, há muito cochichadas nos bastidores do jornalismo musical, tiveram agora um ponto final. Com uma enorme coragem, enfrentando a barreira do preconceito, Bruno acabou de assumir publicamente as suas mais profundas tendências, lançando um puro disco de jazz: o instrumental, denso e anti-pop Worst Summer Ever.

O anúncio abalou a indústria musical lusitana. Poucos falaram do acontecimento; a maioria optou pelo cobarde silêncio. Fui há dias a uma conhecida loja de discos de Lisboa e, dos dois discos que Pernadas acabara de lançar, só Crocodiles se encontrava nos escaparates. De Worst Summer Ever nem o mais ténue vestígio. É como se nunca tivesse existido.

E contudo ele existe. Vi a sua capa na net e excitei-me a ver aquelas quase pin-ups tagarelando numa nave espacial. Encontrei no mercado negro uma cópia digital e ouvi-o à socapa num beco esconso, sempre com medo de ser apanhado. É maravilhoso. É erudito. É belo. É comovente. É Bruno Pernadas. Mas tudo isto, rogo-vos, que fique entre nós. Se disserem que ouvi e amei um disco de jazz, três vezes vos negarei. Não me julguem. Preciso de continuar a escrever na imprensa pop. Tenho filhos, casa alugada, contas para pagar…

Nos estritos termos do nosso pacto de silêncio, prosseguirei. A melhor forma de compreender Worst Summer Ever é comparando-o com o seu disco irmão. Na sofisticação de ambos, percebemos que só poderiam ser filhos do mesmo pai. Não conheço outro músico português com um gosto tão requintado. Não consigo sequer imaginar Pernadas tratando das coisas do dia-a-dia, como preencher o IRS ou mudar o óleo do carro. Vejo-o como puro espírito, levitando eternamente no mundo das puras formas. Bruno é a sua arte, a sua arte é Bruno; não o distraiam, por amor de Deus, com o Ronaldo e a dívida externa. Deixem o homem criar em paz, sem interferências, o máximo número de obras. A história da arte agradece.

Tudo o resto separa, contudo, os dois discos. Crocodiles é veraneante, acessível, hedonista e orgulhosamente superficial, como uma serigrafia do Warhol; Worst Summer Ever é difícil, profundo, estóico e outonal, como um filme do Bergman. O jazz é assim, não é para meninos; é para ouvintes de barba rija, que gostam de acordes lixados, melodias invulgares e saltos para o desconhecido. Não quero fazer, contudo, qualquer juízo de valor. Amo a leveza de um e o peso do outro, como Adão certamente amou os seus dois filhos – mesmo Caim, o assassino.

Ou talvez haja outra qualidade a unir os dois álbuns: o seu poder cinematográfico. É como se houvesse uma câmara de filmar ligada a cada instrumento, traduzindo cada nota musical para a sua imagem equivalente. Crocodiles evoca idílios tropicais, nativas de flores nos cabelos acolhendo-nos no abrigo dos seus seios redondos. Já Worst Summer Ever não atraca num só porto: “This is not a Folk Song” acontece no mesmo areal branco de Crocodiles; “Before it Gets too Late” é bulício nova-iorquino, com os dois saxofones falando ao mesmo tempo, atropelando-se num nervoso e maravilhoso contraponto; “Love versus Love” tem o travo de uma casa de ópio em Xangai, com a guitarra e o saxofone rodando entre si o mesmo langoroso cachimbo; e “Granado Wire” é film noir dos anos trinta, com o seu saxofone misterioso e fumarento enredando-nos na carnívora teia de uma femme fatale.

Mas, mais do que a imagética, o que mais impressiona em Worst Summer Ever é a sua capacidade de nos comover. Melancolia, serenidade, obsessão, esperança, desamparo, loucura; sentimos tudo de todas as maneiras, como se Álvaro de Campos tocasse contrabaixo dentro na nossa cabeça. Desculpem-me a frontalidade mas quem não se emociona com o saxofone apocalíptico de “Love versus Love” tem uma pedra da calçada onde devia haver um coração.

É possível que Bruno Pernadas não saiba assinar um cheque cruzado, admito-o. Mas, sendo o maior, a isso está desobrigado. A sua senda é outra: descobrir, uma a uma, todas as notas que o nosso coração faz quando cai estatelado no chão. Escreveu-as finalmente numa pauta. Chamou-lhes Worst Summer Ever.


Destaque

QUEEN - QUEEN II (1974)

  Queen II é o segundo álbum de estúdio da banda britânica Queen. Seu lançamento oficial aconteceu em 8 de março de 1974, através dos selos...