Claus Clement Pedersen, mais conhecido como Tømrerclaus, é um multi-instrumentista dinamarquês. Nasceu em 1945 na cidade de Aarhus e começou sua carreira na música ainda na década de 1960, quando tocou em pequenas bandas de beat rock locais, já nos anos 70 participou do Musikpatruljen e várias outras pérolas do rock da Dinamarca até fundar em 1976 sua próprio selo, o Karma Music, onde lançou seus discos e vários outros do rock underground local. Tømrerclaus ainda está na ativa e é dono de longa discografia, solo, bandas ou projetos. Posto aqui um relançamento do seu segundo álbum solo, homônimo original de 1978, mas reeditado em CD na Suécia em 1997 e com 8 faixas bônus. As 20 músicas presentes são curtas, várias na casa de 1 ou 2 minutos, misturando um "caldeirão de estilos", passando pelo rock psicodélico até sons experimentais e sombrios, passando por blues, prog e folk. A maioria dos instrumentos são tocados por Claus, com domínio da guitarra fuzz e wah-wah, mas contando com alguns solos de violão, baixo, violino e violoncelo. Todas as letras são na língua local, dando um toque ainda mais único ao disco. Viagem garantida, mas que pode soar "estranha" na primeira audição. Pérola recomendada para fãs de rock psicodélico, progressivo, acústico, instrumental e experimental.
04 Prisen For At Ryge Cigar 3:24 05 Cellokarma 4:14 06 Kannibalerne Kommer 2:54 07 En Dag Da Jeg Lå I Luften 3:18 08 Mr. Fantastic 2:01 09 Dauu 2:04 10 Sådan Er Den Altid (En Sørgelig Blues) 3:50 11 Koda Er Nedtur 2:11 12 Jeg Vil Gerne Standses 3:03
Bônus: 13 Hepar 2:23 14 Grønbenet Rørhøne 2:37 15 Hønserock 2:54 16 En Lille Stue 1:45 17 Løvesang 3:54 18 Supersound 2:21 19 Gamle Skygger 1:38 20 Guitarstorm 2:18
Os Monkees são donos de uma distinção pouco invejável, de serem a primeira boys band da História. Nasceram para ser um produto televisivo na primeira metade dos anos 60, com um programa acerca de quatro rapazes divertidos e saudáveis que estavam numa banda de rock n roll. À série seguiram-se discos e até digressões. O facto de as músicas não serem feitas por eles não era assunto então. Na verdade, o sucesso foi tanto que, a meio da segunda metade dos anos 60, vendiam mais nos EUA que os Beatles e os Stones. Juntos.
Mas estamos aqui para falar de música, e a verdade é que esses primeiros discos dos Monkees tinham momentos de antologia pop. A sua sonoridade era ligeira, vagamente rockada, mas sempre bem comportada, como uns Beach Boys mais hippies e que não soubessem surfar.
Agora, tantas décadas depois, os três sobreviventes do quarteto original dão mais uma volta na roda da fortuna, e regressam com um disco que, surpreendentemente, é o seu melhor desde os anos 60.
Tal como no passado, também aqui os temas têm origem diversa: há músicas do passado do grupo que nunca tinham sido editadas; há vários temas de produção própria; há o recurso a compositores profissionais que já no passado haviam colaborado com os Monkees; e há fãs de hoje em dia que não perderam a oportunidade de colaborar com estes macacos pop (Paul Weller e Noel Galhagher oferecem a “beatlesca” “Birth of an Accidental Hipster”, Ben Gibbard dos Death Cab For Cutie dá “Me & Magdalena”, por exemplo).
O resultado é um disco pop muito fresco e estranhamente autêntico. Não sentimos aqui o efeito manta-de-retalhos nem notamos demasiado o dedo dos produtores. É um álbum de Verão que parece ter sido, de facto, gravado nos anos 60, com um cheirinho a hippie bem comportado. Na verdade, estamos perante um grupo de septuagenários num último esforço de leveza, ainda que não necessariamente de relevância.
Tal como os Beach Boys regressaram em 2012 com o óptimo mas completamente ignorado That’s Why God Made the Radio, também aqui os Monkees fazem o seu verdadeiro regresso, que fica a léguas dos discos falhados de tentativas anteriores. Uma cambada de velhotes a cantar a inocência e a descoberta? Talvez, e talvez olhando para trás com a saudade de quem por lá passou.
Ouça-se “Good Times”, a rockalhada que abre o disco, ou a pérola de pop solarenga “You Bring the Summer”, e talvez alguém consiga ignorar os preconceitos e perceber que pode ter encontrado aqui a banda sonora ideal para o Verão de 2016.
No passado mais recente tem sido sempre assim. A cada ano que avança, um novo disco dos of Montreal é dado a conhecer ao mundo. Não tem falhado, e este ano volta a ser essa a regra vigente. Em pleno verão, a banda de Kevin Barnes volta ao ataque com mais um longa duração e com novos argumentos sonoros na bagagem. São 12, ao todo, os temas que dão corpo a Innocence Reaches. Depois dos fabulosos Lousy with Sylvianbriar (2013) e Aureate Gloom (2015), o que esperar de mais um disco dos hiperativos americanos de Athens, Georgia? A resposta será sempre a mesma, suponho: tudo, ou melhor, mais uma torrencial e deliciosa amálgama de sons e estilos que fazem parte da sua identidade artística. Sim, é disso que se trata, mais uma vez, embora com uma ou outra interessante nuance digna de registo, o que mostra alguma derivação em relação aos seus dois últimos discos, que por aqui foram bem ouvidos e muito bem considerados.
Innocence Reaches começa por nos colocar uma questão: “How do you identify?”. É este o verso inicial da primeira canção do álbum, e não será inocente a escolha do tema de abertura, até porque “Let’s Relate” (é esse o seu título) opera uma mudança instrumental em relação àquilo a que os of Montreal nos vinham, recentemente, habituando. Teclas, sintetizadores, voz robótica, eletrónica descarada a lembrar décadas passadas. O mesmo acontece no segundo tema (“It’s Different For Girls”, que volta a lidar com a questão inicial do álbum), e é impossível não nos vir à cabeça a banda de Marc Almond e David Ball, os Soft Cell, que no início dos anos 80 davam cartas na new wave synthpopiana que rebentava estrondosamente por essa altura. Mas, no entanto, como é dos of Montreal que falamos, o rumo do álbum vira de forma radical ao terceiro tema (“Gratuitous Abysses”) para um rock cheio de glam, ao melhor estilo de David Bowie (alguma espécie de homenagem?) dos anos de Hunky Dory e The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders From Mars. Depois, ao quarto tema, o melhor do disco. Chama-se “My Fair Lady” e é uma lindíssima e confessional canção. “Because you’ve been so damaged, / I have to give all the love that was meant for you to somebody else / Because you’ve been so abused, / I have to give all the love that was meant for you to some other girl” são os versos que nos ficam no ouvido, terminando a canção com a repetição de “Can’t you change? (a identificação, mais uma vez, embora aqui pela mudança pretendida por quem discursa)”, numa melodia que irradia beleza e tristeza, ao mesmo tempo. Segue-se o rock sujo de “Les Chants de Maldoror”, outro grande momento do álbum, referência óbvia à fantasiosa epopeia de Comte de Lautréamont (pseudónimo de Isidore Lucien Ducasse) e à malévola personagem Maldoror. “A Sport And a Pastime” parece-me uma canção sem grande consequência, e logo chegamos a “Ambassador Bridge”, tema tenso, que vai pairando no ar, ameaçador, até assentar definitivamente ao fim de duas ou três audições. Bonito tema, sem dúvida. Surgem, em seguida, “Def Pacts” e “Chaos Arppegiating”, canções que cumprem sem se meterem em bicos de pés, assim como as restantes “Nursing Slopes”, “Trashed Exes” e a final “Chap Pilot”.
Innocence Reaches é tudo isto, portanto. Mas como se trata de um disco dos of Montreal, é bem capaz de ser mais do que tudo isto, uma vez que estes americanos nunca nos entregam coisas fáceis aos ouvidos, e por isso o tempo prolongado de audição irá, seguramente, aclarando intenções e ideias. Trata-se de um disco que tem o ser feminino em óbvia evidência, algo que se nota até pela espampanante capa, outra das imagens de marca da banda, em que várias mulheres surgem desenhadas. Mulheres, seios, aparelho reprodutivo, vagina. Innocence Reaches não será o melhor álbum dos of Montreal, mas é um valor seguro. Disso ninguém terá grandes dúvidas. Até porque é, também essa, a sua identidade.
Ponto prévio – mea culpa Altamontiana do inaceitável atraso para com a publicação desta análise, de um álbum que já saiu há 3 meses. Posto isto, e acreditando na máxima que mais vale tarde que nunca, aqui ficam algumas linhas sobre Teens of Denial, forte candidato a álbum do ano.
Sabem aqueles discos que se começa a ouvir e a primeira música agarra logo à primeira audição, de tal forma que a meio da segunda, e sem pensar muito, colocamos outra vez no início para ouvir novamente a tal que vos agarrou? Saciada a vontade de repetição, lá atacamos a segunda mais relaxados e acontece o mesmo com a segunda música? E depois a partir daí, a cada audição se descobre um recanto novo, um riff que não te tinhas apercebido, um refrão com uma frase que te põe a pensar? Basicamente foi isto que me aconteceu com este Teens of Denial – um processo de descoberta constante e que ainda hoje continua. Advém daí também o constante adiamento na escrita deste texto, porque é um álbum cheio de momentos, de variações de ritmo, de músicas densas de 11 minutos, e também de explosões de energia, com Will Toledo a gritar a plenos pulmões “I give up!” por exemplo.
Voltando um pouco atrás para contextualizar quem nunca ouviu falar nestes senhores – os Car Seat Headrest são banda de um mentor, de seu nome (referido acima) Will Toledo, um jovem imberbe dos seus 23 anos, mas já com cinco anos de actividade prolífica, tendo lançado através do seu bandcamp 11 (!!) álbuns nesse espaço de tempo.
Após ter sido agarrado pela Matador Records, decidiu-se a lançar um álbum como que em registo best of desses anos – Teens of Style – lançado em Outubro de 2015. E agora sim, com editora, com banda, com condições a sério (ou seja, sem ser no banco de trás do carro dos pais que foi onde gravou grande parte do seu material inicial) conhece a luz do dia o que se pode chamar de primeiro álbum propriamente dito. Que, importa enfatizar, arrasa completamente. É sempre difícil fazer-se comparações com nomes históricos, mas correndo o risco de me atirar para fora de pé, há aqui resquícios de grandes referências da mesma Matador como Stephen Malkmus, Yo La Tengo ou Guided by Voices.
Quem teve a oportunidade de assistir ao seu concerto no Primavera Sound deste ano não pode deixar de se surpreender pela força que advém dum corpo lingrinhas com aparência de nerd deste Will Toledo, que já demonstrou em várias entrevistas uma forte maturidade, de quem já brincou tanto com a sua guitarra que se dá agora a conhecer com uma confiança incrível, pronto a conquistar o mundo.
E num mundo em que o rock alternativo é cada vez mais uma raridade, os Car Seat Headrest colocam a cabeça de fora para ocuparem o lugar de uns Arcade Fire, como que repetindo um ano de 2005 em que conquistaram Paredes de Coura e depois o mundo fora. Não acreditam? Ouçam “Fill in the Blank”, a tal primeira música mais orelhuda que tem aparecido por aí nas rádios e deixem-se conquistar. Para depois ir à ópera rock que é “The Ballad of the Costa Concordia” (parece incrível, mas sim, há americanos que ouviram falar no Costa Concordia o que só por si revela muito sobre este miúdo Toledo), ou a deleitar-se com a catarse de “Vincent” ou ainda ao sensível apelo a uma mudança radical de comportamento causa de muitas vítimas em “Drunk Drivers/Killer Whales”. E no meio disto tudo há crises de fim de adolescência, depressões, questionar o mundo (“I have nothing but questions / I need answers, those would fill me up”), tudo de uma intensidade irrepreensível. Para ouvir, ouvir e ouvir.
Quando o baixista Samuel Rebelo abandonou a banda, os Miss Lava perdiam bem mais que um fiel braço: era o seu líder que partia, o criativo que havia escrito e produzido o grosso dos dois primeiros álbuns. O vazio deixado não seria coisa fácil de preencher. Mas o que não mata engorda, e os sobreviventes não tiveram outro remédio senão sobreviver. Amparando-se uns nos outros, com um espírito de corpo inédito até então, todos fizeram questão de contribuir com o seu quinhão criativo, naquela atitude (tão Guiné 71) de um riff por todos, todos por um. Os resultados não se fizeram esperar: contra todas as expectativas, os Miss Lava acabavam de gravar o seu melhor álbum. Os caminhos do rock’n’roll são sempre insondáveis.
As credenciais stoner rock permanecem intocáveis: continua a ser um regalo saborear a textura vintage do som da guitarra, sempre espessa e com grão como se fosse feita de açúcar mascavado; e os riffs explosivos continuam a deixar nódoas de gasolina nos nossos headphones. Até aí nada de novo. Onde os Lava se fizeram gigantes foi na subtileza emocional: se nos registos anteriores a eucalíptica raiva não deixava nada medrar à sua volta, agora o refinamento é outro, pincelando uma hipnótica transe aqui, uma lúgubre escuridão acolá, e a paleta de cores não há meio de acabar. Dando apenas o exemplo da bonita “In a Sonic We Shall Burn”: quem diria que os Miss Lava iriam fazer um dia uma canção acústica sobre o luto, com deambulações psicadélicas e pinceladas western spaguetti!?
Não há como negar: Miss Lava já não é mais aquela sonhadora gaiata, princesa do reino da sua água-furtada; é agora mulher feita e cosmopolita, com um pé em Lisboa e outro em Detroit, onde a sua Small Stone Records está sediada. Esta editora independente acreditara nos Miss Lava mas faltava ainda um disco à altura desse voto de confiança. Os refrões certeiros e canções memoráveis de Sonic Debris não deixam agora quaisquer equívocos. No seu nicho do heavy rock, os Miss Lava jogam de pleno direito no tabuleiro internacional. E jogam para ganhar.
Tiago Castro é homem de muitas facetas. Radialista de manhã, DJ à noite, músico quando vai dando. Em Acid Acid, o druída que nos agracia semanalmente com Floresta Encantada, o programa psicadélico da rádio Radar, mostra-nos o seu interior. Mostra-nos aquilo que é capaz pela sua própria mão – com os dedos não no play mas em sintetizadores e guitarras. Depois de muitos concertos pelo país, nos mais variados clubes e festivais, chegou em 2016 a altura do seu primeiro disco ver a luz do dia.
Dividido em dois lados, que nem uma rodela de vinil, o trabalho homónimo de Acid Acid – também o primeiro disco a ser editado pela Nariz Entupido – começa em forma de aurora misteriosa. Uma aurora que nos levita sem darmos por isso, desvanece e ascende para um Éden plácido e tremendo que nos assola devagarinho. Camadas e camadas de emoção nos levam por instantâneos de filmes que nunca vimos mas nos dão vontade de vivermos neles. Acid Acid é um disco de contemplação, de um deixarmo-nos levar que não nos liberta de responsabilidades mas nos obriga a olhar cada nota e pormenor, estejam elas ou eles em primeiro plano ou no fundo.
Ao paraíso chegam-nos saltimbancos e ritmos tântricos em wah-wah e percussões que fazem balançar teclados esfumados. Esfumamo-nos com eles, acabando por deixar o plano físico e transformando-nos em pó de estrelas, como se o Big Bang tivesse sido há dois minutos. Estamos prontos para o Espaço, para o Tempo, para a Vida, para a exploração, temos tudo diante de nós, à espera de acção. Galáxias e sistemas, planetas e sóis, cometas e constelações se formam à nossa frente e terminamos a viagem, chegados a Terra Nova. Mas a segunda parte abre corrosiva, qual espelho da mão humana na Terra. Ainda assim, deixa-nos no final com uma centelha de esperança que faz celebrar Vida, ao som de tambores insulares e longínquos, acabando por nos deixar o Destino nas mãos.
A fusão de música ambiental e das paisagens psicadélicas bem apre(e)ndidas leva a um disco que é passaporte, uma Viagem infinita para um número incontável de lugares na qual Castro é guia e xamã. Depois desta primeira viagem percebemos que é homem de confiança. Que ele nos guie por mais Viagens assim.
E ao terceiro disco, Angel Olsen está finalmente mulher. Afinal, Burn Your Fire For No Witness foi apenas um prenúncio brilhante de alguém que já não quer ser só a menina triste e tímida do indie folk. O disco de 2014 surpreendeu e, dois anos depois, volta com My Woman, onde ouvimos Angel Olsen com as mesmas dúvidas existenciais sobre o seu lugar no mundo, mas numa versão mais crescida e segura.
Angel nasceu em 1987 na cidade independente de St. Louis, Missouri. Adoptada aos três anos, era a mais nova de oito irmãos e só sonhava em crescer e ser dona e senhora de uma voz de mulher. Hoje, quase a completar 30 anos, Angel Olsen pode estar orgulhosa: a sua voz é de mulher, mas a forma como a sabe utilizar também. Olsen aprendeu a ser quente ou fria, triste ou revoltada, consoante nos canta as suas histórias por versos de amores malvados – ou outras tragédias que tais. Enquanto compositora e intérprete amadurecida, libertou-se e evoluiu na sua música, agora num indie menos folk e mais rock.
E isso nota-se logo na canção de abertura “Intern”, que nos apresenta os sintetizadores, nunca antes explorados por Olsen, seguindo-se “Shut Up Kiss Me” e “Not Gonna Kill You” com aqueles acordes simples e sonantes, mais viciantes pelo seu ritmo e tom. Três canções que se destacam no lado A (faixas 1 a 5) de My Woman, mais rebelde e atrevido do que o seu lado B (faixas 6 a 10), onde as canções são musicalmente mais exploradas. Espreitemos por exemplo “Sister” ou “Woman” cada uma com quase oito minutos de duração e, por isso, também muito ricas instrumentalmente. Ou aquela saudade presente em “Those Were the Days”, onde acabamos acompanhando Angel Olsen num loop marcado pela bateria e, finalmente,“Pops”a fechar o álbum a voz e piano.
My Woman pode não ser um disco para todos, mas é tudo isto. É fácil não ficar entusiasmado por este álbum, mas a sua qualidade não pode ser ignorada e, mesmo que seja daqueles discos que não vamos ouvir todos os dias, porque não nos vai apetecer, vamos para sempre recordá-lo como parte da boa colheita de 2016. Eu cá desconfio que o vou ouvir mais vezes.
Formado mais de 3 décadas, o Rammstein foi idealizado pelo Richard Z. Kruspe, um fugitivo da miséria imposta pelo comunismo na Alemanha oriental, retornou à sua Berlim natal com a queda do famigerado muro que separava a cidade. Foi então que encontrou os outros 5 integrantes que formariam a banda até hoje: o também guitarrista Heike Paul Hierschie (Paul Landers), o baixista Oliver “Ollie” Riedel, o baterista “Christoph “Doom” Schneider e o tecladista Christian “Flake” Lorenz. Já no ano seguinte o grupo chamou uma boa dose de atenção com seu álbum de estreia, e a partir de então, sua popularidade cresceu a cada lançamento, atingindo níveis estratosféricos em menos de quinze anos
Herzeleid [1995]
O primeiro disco do quarteto já tem qualidades suficientes para inclusive merecer um “rótulo” musical próprio (consequentemente aplicado à todo o som do grupo a partir de então). Chamado de “Neue Deutsche Härte” (Novo Peso Germânico, em uma tradução/adaptação bem chutada), o estilo define muito bem o que está contido no álbum: Guitarras gêmeas cuspindo riffs industriais, cozinha “bate-estaca” e teclados que equilibram sua sonoridade entre efeitos hi-tech e ambientações claustrofóbicas. Tudo isso perfeitamente arrebatado pelo ameaçador vocal de timbre grave e entonação dura do vocalista Till. Destaque para “Asche Zu Asche“, “Du Riecht So Gut”, “Rammstein” e a balada “Seeman”. Um dos melhores discos de estreia da história do rock nas últimas décadas
Sehnsucht [1997]
Se o disco de estreia dos alemães apontava uma carreira de sucesso, o segundo álbum, lançado dois anos depois foi a confirmação. Contendo o maior sucesso do grupo, a canção “Dü Hast“, o disco logo atingiu altíssimas posições nas paradas da Europa, tanto pela qualidade de suas composições, quanto pela performance soberba do sexteto. A banda soa demolidora em números como “Engel”, “Bück Dich“, “Klavier”, “Küss Mich“, a faixa título e a própria “Dü Hast”. Foi nessa época que a banda começou sua dominação em outros territórios, como as américas, graças ao convite do Kiss (através do baixista Gene Simmons) para que os alemães abrissem os shows da reunião do quarteto mascarado no final da década de 90. Quem viu os shows dessa turnê aqui no Brasil, pode conferir o poderio dos Rammstein ao vivo. Muitos inclusive, mantém até hoje a ideia de que o shows dos caras foram superior aos dos anfitriões. Não seria loucura concordar.
Rammstein ao vivo
Mutter [2001]
Foram quatro anos de espera entre o disco anterior e o terceiro disco do Rammstein. A espera valeu… Mutter é o álbum mais bem sucedido do sexteto até agora. De suas onze músicas, seis tornaram-se singles, todos atingindo o topo das paradas pelo mundo todo. Com uma sonoridade de modo geral um pouco mais acessível (embora não “pop”) que seus antecessores, o álbum atingiu em cheio o gosto tanto dos fãs quanto dos iniciantes no som da banda. A base de admiradores do conjunto aumentou substancialmente, refletindo o impacto causado por faixas como “Mein Herz Brennt“, “Links 234″, “Sonne“, “Feuer Frei!”, “Ich Will” e a faixa título. Mutter foi o disco que definitivamente tornou o Rammstein em uma banda do primeiro escalão. O melhor álbum para começar a conhecer a carreira da banda.
Reise, Reise [2004]
Com a popularidade na estratosfera, principalmente em solo europeu e japonês, a banda se torna – ainda que minimamente – a um material menos acessível que seu disco anterior. Mesmo assim o disco agrada em cheio a legião cada vez maior de seguidores do sexteto. Não é pra menos, já que é impossível não se render a pauladas do nível de “Mein Teil”, “Keine Lust“, a irônica “Amerika“, a faixa título ou a bela e melancólica “Ohne Dich“. Resultado: outro disco de sucesso, mais posições altíssimas nas paradas, e outros milhares de fãs para a banda.
Rosenrot [2005]
O sucessor de Reise, Reise é também uma especie de continuação dele, contando com seis canções que sobraram de suas sessões mais cinco músicas compostas para completar o disco. Sendo assim, musicalmente os dois álbuns se complementam, sem no entanto configurarem-se em material óbvio ou repetitivo. Outro belo acerto da banda, Rosenrot tem qualidades de sobra, e novamente foi sucesso de público e crítica. Dentre as músicas do álbum, todas mantendo o alto nível característico da banda, destaque para a faixa título, “Benzin”, e “Mann Gagen Mann“. Mais um ponto pros caras…
Liebe Ist Für Alle Da [2009]
Demorou quatro anos para que o sucessor de Rosenrot chegasse às lojas. E adivinhe? Mais um puta disco dos alemães. A quase meia década de espera se mostrou válida ao se escutar pedradas Neue Deutsche do naipe de “Haifisch”, “Ich Tu Dir Weh“, “Pussy“, “Rammlied” e a faixa que dá nome ao álbum. Todas dignas da carreira construída até aqui pela banda. Em relação aos álbuns anteriores, o disco é sensivelmente mais experimental, mas nada – nem de longe – que transgrida o que o grupo produziu até então. Com esse álbum a banda fechou um capítulo de sua historia, com uma pausa estratégica na banda para recarregar as baterias.
Os alemães do Rammstein
Após o lançamento de Liebe Ist Für Alle Da, a banda se manteve ocupada entre extensas tours e materiais individuais de Till (com o excelente Lindemann, projeto com o sueco Peter Tägtgren, guitarrista e vocalista do Hypocrisy) e Kruspe, (com o interessantíssimo Emmigrate), o que manteve a banda longe dos estúdios por praticamente um década.
(ohne titel) [2019]
Uma década separam o disco de estúdio anterior do Rammstein deste último lançamento que, além de não ter título, é embalado em um material gráfico com uma estética bem minimalista. Musicalmente, entretanto, o álbum apresenta toda a riqueza musical dos alemães, unindo o já tradicional Neue Deutsche Härte ao rock industrial, fusão que caracteriza o som banda desde seus primeiros anos. Fato que pode ser comprovado já na abertura da bolacha, com “Deutchland”, que chegou a render acusações de apologia ao nazismo por parte da banda. Quando, na realidade, tanto a música quanto seu videoclipe são justamente uma crítica à esse tipo de ideologia e – principalmente – da relação ambígua que muitos alemães ainda tem com o tema. “Radio” faixa seguinte justifica ter sido lançada como segundo single do álbum, uma vez que uma daquelas faixas que praticamente definem o lado mais acessível do Rammstein, lembrando bastante a icônica – e espetacular – “Dü Hast” (música que tornou a banda em um fenômeno mundial por volta do final do século passado quando foi incluída em diversas trilhas sonoras). Outra que foi lançada como single foi a contagiante “Ausländer”, com uma melodia mais otimista e um ritmo quase dançante (para os padrões do Rammstein, evidentemente), e uma letra esbanjando sarcasmo. É possível ainda destaques são “Puppe” com seu clima opressor e quase claustrofóbico, a balada “Diamant”, com sua atmosfera pessimista e “Tattoo”, que lembra bastante o material mais direto do início da careira da banda, mas todas as 11 faixas do álbum são excelentes e merecem atenção.
Zeit [2022]
Lançado no primeiro semestre de 2022, Zeit é um disco que poderia sequer ter existido, caso o contexto mundial à época fosse diferente, já que, devido à pandemia de COVID-19, boa parte da tour (que duraria de 3 a 4 anos) do álbum anterior teve que ser adiada. No entanto, a pausa forçada acabou por estimular a criatividade da banda que, mesmo à distância produziu um material digno de seus momentos mais criativos, caso de “Zick Zack” (com uma sonoridade que lembra algumas canções de “Mutter”), da pesada – e debochada – “Dicke Titten” (cujo título dá uma ideia do tema da letra, mesmo pra quem não manja de alemão), “Angst” onde os riffs pesadíssimos dialogam com um clima soturno do teclado e do vocal angustiado de Lindemann. Um dos maiores destaques do disco fica justamente com a faixa título – e primeiro single – da bolacha. Uma semibalada inspiradíssima cuja letra trata de nossa impotência frente à forma de como tempo transforma nossa existência no decorrer de nosso inevitável caminho rumo à morte. Com Zeit novamente o Rammstein entregou um disco coeso e consistente, no qual todas as faixas tem qualidade o suficiente para justificarem sua presença no álbum. Como curiosidade, cite-se a arte da capa, que apresenta uma – bela – foto de autoria do veterano músico canadense Bryan Adams.
Com o fim das restrições referentes à pandemia, o Rammstein voltou à estrada, onde se manteve até o meio de 2024. Nesse meio tempo, Kruspe colocou no mercado o 3º disco do Emmigrate, The Persistence of Menory. Já Lindemann lançou seu primeiro disco solo, Zunge, em 2023. No momento em que essa resenha está sendo publicada, não há nenhum plano previsto por parte banda, mas em se tratando de Rammstein, qualquer coisa é possível!