domingo, 4 de janeiro de 2026

As lendas não se fabricam

 

Lendas e ícones. Adágios tão banalizados que se trata o ouro como pechisbeque e vice-versa. No zénite de Voodooa jóia da coroa de uma frustrante discografia de apenas três álbuns, D’Angelo e o baterista ?uestlove, que se arrependera de ter recusado o convite para produzir o inaugural Brown Sugar, seguiam ao milímetro os passos de um concerto de James Brown em 1964. Nem a aclamação o desviava do estudo intensivo dos mestres - Stevie WonderPrince, Al Green, Aretha Franklin e Marvin Gaye - descreve Jon Blistein, que com ele privou nesse apogeu milenar, nas exéquias escritas para a Rolling Stone.

Venerado como um Deus, Michael Eugene Archer, nascido a 11 de fevereiro de 1974, desprezava as luzes e caminhava longe do altar. No reverso da glória e salvação, efabuladas pelo messianismo, havia depressōes, fugas, alcoolismo (uma das causas comuns do cancro no pâncreas) e outros excessos que o famoso falseto em cama de dossel não transparecia. Cinco anos depois da assombração Voodoo, os boatos alimentados pelo silêncio transformaram-se em facto pelos piores motivos. Fora detido por posse de marijuana, no início de 2005, e as fotos expunham-no obeso e fora de forma. O físico escultural do vídeo icónico de Untitled (How Does It Feel), exibido após cinco anos de treino rígido, tornara-se no pior pesadelo de um anti-ídolo. O músico implodira perante o sex symbol indesejado e o espelho invertera-se. D’Angelo vivia um conflito interno, agudizado por problemas com a indústria, como a rescisão com a editora Virgin, e o mundo reencontrava-o agora através de uma mugshot embaraçosa e redutora. Uma semana depois, antes de se apresentar ao juiz, despistou-se, foi projectado do Hummer onde seguia e partiu as costelas. Não se vergou perante o vexame nem apressou o passo. Continuou, como sempre, a circular sobre linhas turvas.

Julgávamos vê-lo nu, feito de carne doce e testosterona sensível. Um macho sem alfa, vulnerável e penetrante, aprendiz do divino e operário da arte mais profunda, e por isso violenta, mas pouco sabíamos sobre ele. Quando o TMZ noticiou a partida, ficámos a saber que o motivo fora um cancro pancreático - implacável inimigo interno como todos os que o perseguiram sem dó nem piedade. Depois de Untitled (How Does It Feel), deixámos de ver o cantor e passámos a admirar o homem-estátua. Por onde andaria D’Angelo nas últimas estaçōes? Provavelmente no hospital, acompanhado do filho que Michael D’Angelo Archer II, tirado do ventre da também cantora soul Angie Stone (a musa de Brown Sugar), morta num acidente de carro a 1 de março, com quem invertera a ampulheta. Ela 30, ele 19, quando deram a mão.

Deixemos o prefixo neo para as revistas e concentremo-nos no que importa mesmo. O grande livro da música afro-americana. Se Marvin Gaye foi o profeta da soul fundadora - arma pacífica no movimento dos direitos civis -, D’Angelo foi o guia espiritual da soul milenar dos anos 90 e 2000 - consciente do sangue, das lutas e das conquistas, mas também da importância socioartística legitimada pela história de violência dos EUA e da evolução estética desaguada numa homenagem chamada hip-hop. Apesar de todo o disfarce permitido pelas máquinas, D’Angelo, treinado numa Igreja Pentecostal, nunca abdicou do analógico. Génios são aqueles que não descem do castelo e nele o princípio era o da perfeita imperfeição. Tudo parecia um elixir afrodisíaco de luta desgastante e prazer magnético - do inferno ao céu em milésimos de segundos.

A ausência de D’Angelo era fascinante. Entre Voodoo (2000) e Black Messiah (2014) passaram catorze intermináveis anos. Um túnel de avanços, recuos, despistes, boatos, regresso aos palcos e, por fim, a luz. Apesar da devoção, estimulada pelo entusiasmo adolescente de assistir ao renascimento de D’Angelo, o álbum foi tão polido em estúdio que perdeu a espontaneidade e crueza. A entrega ao erro elevara os termómetros do estúdio em Brown Sugar e Voodoo. Compreende-se que de então para cá o peso do reconhecimento e o trauma da expectativa tenha provocado uma relação obsessiva com o detalhe, mas o radicalismo era um rim impossível de arrancar.

Nos últimos anos, deixou pequenos sinais de fumo. Participou em I Want You Forever, com Jay-Z, da banda sonora d’O Livro de Clarence (2024), e em Unshaken, com o produtor Daniel Lanoishabitual co-piloto dos U2, do filme Red Dead Redemption 2 (2018), a que se seguiria uma rara aparição no Tribeca de Nova Iorque. Segundo o músico Raphael Saadiq, em 2024 estava bem e a preparar novo álbum. A fonte é segura mas em que estado de gestação se encontaria? D’Angelo vivia como um eremita. Não gostava de se expor e de acordo com a People, tinha problemas de peso. Não se sentia confortável com a imagem erotizada nem queria admitir a obesidade. Nele, a autenticidade nunca precisou de ser verificada por polígrafos. Sempre veio à tona como pulsão sangrenta de uma alma dorida. E a charada que o envolvia como auréola favorecia-o. Teremos sempre as cançōes para testemunhar pelos poros do desconhecido. As lendas são assim. Basta-lhes ser, não precisam de estar.


De copo meio cheio com Kevin Parker

 

O namoro do rock com as máquinas vem de longe. Clássicos como Screamadelica, dos Primal Scream, o díptico Achtung Baby e Zooropa dos U2 - um trio de filhos bastardos do acid house - os irmãos Kid A e Amnesiac dos Radiohead, ou a renascença dos Arcade Fire em Reflektor, produzido por James “LCD” Murphy, fizeram da colisão uma casa comum de pacto, aliança e arquitectura de novas dialécticas.

Deadbeat, dos Tame Impala, não foi o primeiro nem será o último romance electroacústico, mas convém descodificar a percepção de Kevin Parker em 2025. Dos riffs potentes à Black Sabbath de Innerspeaker, da neo-psicadelia de Lonerism, tangida pela pop em Currents, todos eles electrificados pelo peso das guitarras, apesar do enfarte de parafernália de estúdio, resta o desejo incessante de enfrentar cada obra como espécie autónoma de um mesmo ecossistema.

No anterior e menos brilhante The Slow Rush, a contaminação pop de sessōes com RihannaLady Gaga ou Mark Ronson era latente. Cinco anos depois, o ciclo recomeça quando as luzes se apagam, e depois de ter co-produzido o decepcionante Radical Optimism de Dua Lipa. Confirmam-no as coordenadas de house inteligente à Caribou do cartão de visita End of Summer e o funk lisérgico permeado pelo falsete à Bee Gees de Loser, mas é em Dracula, erguida sobre a arqueologia afro-boogie de Only You de Steve Moniteque Kevin Parker reconcilia a obsessão pelo estúdio com o escritor de cançōes pop vacinadas contra o vírus da normalização.

Logo em My Old Ways, a Feels Like We Only Go Backwards, candidata ao Óscar de actriz secundária, o padrão quatro por quatro do house é introduzido como genética de um álbum sem guitarras para convencer os puristas a ficar. Se Parker trabalhasse por turnos, Deadbeat seria a rede madrugada dos Tame Impala. Se a intenção era perder-se no desconhecido e arregalar os olhos só de manhã, estas cançōes não passam do balcão nem atestam o copo, mas a intenção conta.

Quando Parker se solta de uma auto-consciência determinada pela matemática, e o coração balança para o funk tocado por Nicky Siano, algures numa festa no Studio 54, como em Aftertought, o mercúrio sobe e os espelhos voltam a brilhar. É livre de restriçōes formais que a banda capitaneada pelo predador dos próprios instintos alimenta a fantasia de um caleidoscópio hedonista em que a liberdade comanda os ponteiros e a claridade é parte dessa nova aurora, como na segunda-mão de Enya em Peace of Heaven.

É que até a provocação indieológica de Oblivion - sim, aquele beat de afro-pop podia ter sido ruminado por Drake há uma dezena de anos - soa a subversão calculista. Kevin Parker rejeitou ser fotocópia do original próprio mas as grandes arenas têm um preço e Deadbeat é obra de quem quer mudar por dentro mas aceita as regras do jogo. Ser grande e melhor nem sempre concordam.


Destaque

Ty Segall – $ingle$ 2 (2014)

Numa das últimas edições da sempre boa revista Mojo, Ty Segall afirma, candidamente: «o meu objectivo é fazer merdas esquisitas e ver o que ...