Os Nap Eyes fizeram o primeiro álbum indie rock clássico do ano (2016), diz a revista The Fader, logo no título. Os dois termos são particularmente bem escolhidas: “indie”, se pensarmos no termo não enquanto “atitude” underground dos anos 1990 mas enquanto conceito de leveza — e o álbum, de facto, é matéria rock que se deixa levar, suave mas continuada —; “clássico”, não enquanto álbum com aura de classicismo (embora se note conhecer a tradição da música popular, não estando desligado do passado nem sendo estética de apenas uma época), mas enquanto rock clássico, sem grandes invenções, que nunca perde o sentido de melodia (lembramo-nos aqui, por exemplo, de uma comparação com os Wilco, embora a música das duas bandas seja bem diferente).
Thought Rock Fish Scale não surge do nada nem é estreia alguma, mas a sequência de Whine of the Mystic, o primeiro álbum da banda, que circulou por mais do que uma editora e que foi editado tanto em 2014 como em 2015 (mas que viu, efectivamente, a sua grande implementação quando a editora Paradise of Bachelors o quis mostrar à América e consequentemente ao mundo). E a toada é a mesma: guitarras “limpas”, uma banda que se respeita entre si, num elogio à delicadeza e à suavidade extrema (lá está, o termo “indie”) que, ao contrário de muitos outros, não é tão inocente quanto parece (lembramo-nos elogiosamente de uns Real Estate, por exemplo, e do termo “jangly”, um “jangly” esparso). E, no meio disso, letras profundas (e não pseudo-profundas, a puxar aos clichés) de uma composição exímia (palmas para o guitarrista e vocalista da banda, Nigel Chapman) que pegam na vida e do seu quotidiano para contar coisas, com uma voz cuja beleza e fragilidade é encantadora.
Por baixo da leveza das guitarras, da voz letárgica e cansada, quase exausta, de Nigel Chapman, está o relato de desencantos, nostalgias, abandono e não raras vezes de desespero (oiça-se “Lion in chains”): em suma, um aproveitamento da música para dizer o que ficou por dizer e o que não cabe em conversas amigáveis (cantado assim, percebemos, não é artificial). Recorda-me uma frase que só poderia ser dita por Townes Van Zandt (à data) e que hoje poucos podem dizer. Mas nesses poucos consta, claro, Nigel Chapman (embora o seu lado depressivo tenha também um forte lado individualista, no sentido da importância da identidade individual):
Nem todas as [minhas] canções são tristes. Tenho algumas que não são tristes. São desesperadas. Totalmente desesperadas. Não achas a vida triste?”
E há, depois, algo habitualmente desprezado, mas que está longe de ser de somenos importância: uma atenção cuidada e “verdadeira” que não permite que os temas (e o álbum em geral) se tornem monótonos, com abertura para diferentes tendências, ritmos (às vezes mais rápido, outras vezes lento e minimal, a servir apenas a voz que emerge acima do resto) e formas de cantar: tudo de um bom gosto impecável, que torna, digo eu, a audição de Thought Rock Fish Scale um dos melhores prazeres musicais que os últimos tempos nos deram. Um prazer solitário, como o álbum o é, como nos explica Nigel Chapman numa excelente entrevista ao site (outrora revista) Chart Attack e no excelente tema “Stargazer”:
But if I go down I’m not taking you with me / it’s only myself in the end
Depois de ter passado pelos cinco gigantes do progressivo britânico, começarei hoje a homenagear alguns dos principais nomes do estilo no rock nacional. Mas vamos lá, o que é “esse tal de roque enrow” nacional? Mutantes, Secos & Molhados e Novos Baianos são os nomes mais citados quando falamos das bandas dos anos setenta, lançando álbuns que hoje viraram artigos de luxo nos sebos espalhados pelo país e pelo mundo. Depois destes, temos ainda Bacamarte, Som Imaginário, Módulo 1000, Quintal de Clorofila, Som Nosso de Cada Dia, Recordando O Vale das Maçãs, Bixo da Seda, entre outras bandas que, apesar de muitos de nós conhecermos, sabemos que lançaram poucos discos, ainda mais raros do que o trio acima citado.
Primeiro compacto do grupo
Um grupo que está nos limites de ser o principal nome do rock ou mais uma ótima obscuridade é o carioca O Terço. Suas origens estão no janeiro de 1968, quando os grupos Joint Stock Co. – formado por Vinícius Cantuária (bateria), Jorge Amiden (guitarra), Sérgio Magrão (baixo) e César de Mercês (guitarra) – e Hot Dogs, do qual o guitarrista Sérgio Hinds fazia parte, fundiam-se para dar origem ao conjunto Os Libertos, formado por Sérgio, Vinícius e Mercês, com o último tocando baixo. Em pouco tempo, Os Libertos passaram a se chamar Santíssima Trindade.
No início de 1970, Mercês foi substituído por Amiden, com Sérgio indo para o baixo e, assim, adotaram o nome de O Têrço, com acento circunflexo. Passam a ensaiar e se apresentar em diversos festivais Brasil afora, tais como o Festival de Juiz de Fora, onde ganharam o prêmio principal com a canção “Velhas Histórias”, e o Festival Universitário do Rio de Janeiro, onde ficaram em segundo lugar com “Espaço Branco”.
A estreia, ainda com o ^ no nome
O som folk rock dos garotos, com um vocal bem trabalhado, não demorou a chamar a atenção das gravadoras, dentre elas a Polygram, que colocou o trio para gravar em poucos dias, lançando ainda em 1970 o auto-intitulado álbum O Têrço. Nele, encontramos um disco fortemente influenciado por The Band e Buffalo Springfield, entre outros nomes do folk rock internacional, com destaque para faixas como “Plaxe Voador”, “Velhas Histórias” e “Yes, I Do”.
A banda chegou a causar certa polêmica com a capa do disco, onde aparecem sentados com calças jeans e descalços dentro de uma igreja, com um terço entre o trio. Em outubro de 1970, participam do V Festival Internacional da Canção, classificando “Tributo ao Sorriso” em terceiro lugar, e do espetáculo Aberto para Obras, no Teatro de Arena, ao lado do Módulo 1000 e outros artistas.
Compacto duplo de O Terço, trazendo cinco canções
Sérgio decidiu seguir carreira ao lado de Ivan Lins, abrindo espaço para a volta de Mercês. Porém, o tempo ao lado de Ivan foi curto, fazendo com que Sérgio retornasse para O Têrço, assumindo as guitarras e deixando o trio agora como um quarteto. De cara, lançaram um compacto duplo com as músicas “O Visitante”, “Adormeceu”, “Doze Avisos”, “Meio Ouvinte” e “Teatro da Área Extraída da Suíte em Ré Maior (Bach)”. Influenciados pelo rock progressivo britânico, consideram cada vez mais do experimentalismo em seus ensaios, e além disso, passam a construir seus instrumentos. É aqui que surge a famosa “Tritarra”, uma guitarra de três braços que Amiden empunhava para executar as difíceis peças que a banda começava a criar, bem como o violoncelo elétrico que Sérgio tocava. Esse violoncelo pode ser ouvido, por exemplo, em “Doze Avisos”. Os novos instrumentos foram apresentados ao público no VI Festival Internacional da Canção, em 1971, onde a música “O Visitante” alcançou o quarto lugar.
Sérgio Hinds, Cezar de Mêrces, Vinicius Cantuária e Jorge Amiden
Após a participação no VI FIC, Amiden saiu. Para evitar problemas futuros, os remanescentes registraram o nome da banda, agora como Terço, sem acento, e seguem como um trio, enquanto Amiden montou a banda Karma, ao lado de Luiz Mendes Jr (violões) e Alen Terra (baixo). O Terço passou a acompanhar o cantor Marcos Valle, participando no fantástico álbum Vento Sul, com destaque para a esquisita canção “Democústico”, culminando este projeto com a apresentação da banda ao lado de Valle no Festival do Midem, na cidade de Cannes, França.
A ida à França e a colaboração com Valle deu um contato ainda mais forte do O Terço com o rock progressivo, demonstrado no compacto “Ilusão de Ótica” / “Tempo é Vento” (1971), onde até mesmo as letras estão mais trabalhadas. Sérgio passa a tocar viola e a estudar cada vez mais. Nessa nova fase lançam o fantástico álbum Terço, abrindo assim sua principal fase no cenário nacional.
A estreia progressiva do Terço, sem o ^
Mais pesado e “roqueiro” que O Têrço, os destaques ficam para as faixas “Deus”, a acústica “Estrada Vazia” e a Maravilhosa suíte “Amanhecer Total“, com suas cinco partes (“Cores / Despertar pro Sonho / Sons Flutuantes / Respiração Vegetal / Primeiras Luzes no Final da Estrada – Cores Finais”) e com a participação de Luiz Simas (Módulo 1000) nos teclados, ocupando todo o Lado B do LP em seus quase vinte minutos de muita loucura e viagem.
Vinícius foi parar na banda de Caetano Veloso, sendo substituído por Luiz Moreno. Sérgio Magrão foi convidado para tocar baixo e Mercês assumiu a função única de letrista e compositor. Com a ajuda de Milton Mascimento, conhecem o multi-instrumentista Flávio Venturini, que havia acompanhado o pessoal do Clube da Esquina e tinha um talento incomum no Brasil, assumindo os teclados do agora batizado O Terço. A nova formação participa do álbum Nunca, de Sá & Guarabyra, e torna-se a formação clássica do O Terço, ao lançar, em 1975 o espetacularCriaturas da Noite, que completa portanto 50 anos agora em 2025.
Compacto de “Queimada”
O disco contém no mínimo quatro clássicos do rock nacional, que qualquer brasileiro em qualquer rincão do mundo conhece. “Hey Amigo” é um deles, abrindo com o seu famoso refrão que foi cantado à plenos pulmões pelos jovens na década de setenta. “Queimada”, com seus violões e violas, tornou-se outro grande clássico, e vem na sequência. O talento de Venturini nos teclados aparece em “Pano de Fundo”, e no piano durante a viajante instrumental “Ponto Final”, com vocalizações de Marisa Fossa. Nela, Venturini também se aventura em solos de moog, órgão e piano. O lado A encerra-se com a hard “Volte na Próxima Semana”, com um refrão grudento e muito órgão, e que já torna o álbum essencial.
O lado B então é simplesmente o que os fãs consideram como o mais genial momento da carreira do grupo, abrindo com mais um clássico, “Criaturas da Noite”. O que falar de uma canção que está entre as dez mais conhecidas do rock nacional? Com arranjos do maestro Rogéro Duprat, “Criaturas da Noite” virou uma das peças centrais da banda, sendo pedida nos shows até os dias de hoje. “Jogo das Pedras” retoma o clima de “Queimada”, com os violões tendo maior destaque.
Sérgio Magrão, Sergio Hinds, Luiz Moreno e Flavio Venturini
E por fim, uma das melhores suítes do rock nacional, a Maravilhosa “1974”. Composta por Venturini, essa faixa retrata a importância da entrada do tecladista, dando enfim uma cara de grupo para O Terço. A faixa começa com sua clássica introdução ao piano e com o baixo executando os acordes para Sérgio trazer o tema principal. As marcações se fazem presentes, trazendo o tema principal com as famosas vocalizações de Sérgio (“Na-na-na-na-na-na-na-naaaaaaaaa”) e novamente as marcações, para modificar um pouco o tema principal e também as vocalizações (“Da-ra-ri-ra-tu-ra-raaaaaaa Di-ra-ri-ra-ra-raaaaaaaaaa”) em uma marcação hipnotizante, com a guitarra executando as mesmas notas das vocalizações.
A canção vai sendo desenvolvida suavemente, e então, os riffs mudam, com Venturini solando sobre um segundo tema instrumental, levando a música para um clima embalado, onde Sérgio sola com um efeito de reverb sensacional.
O Terço ao vivo em 75
A parte mais viajante então chega, com Venturini virando uma centopeia nos teclados, enquanto Sérgio emite vocalizações tristes, acompanhadas por notas de guitarra mais tristes ainda. O baixo de Magrão dá o toque suingado para a música, passando um clima de apreensão, onde o ouvinte não consegue imaginar o que vai vir. Sequências de baixo, bateria e guitarra intercalam sobre os longos acordes dos teclados de Venturini, levando ao tema final da canção, com mais um solo de Sérgio e as últimas vocalizações, feitas somente com o acompanhamento do piano.
Guitarra e sintetizador duelam por alguns segundos, para Sérgio solar e encerrar essa faixa que, com certeza, tem que ser ouvida e reouvida com todo o carinho e a atenção que se deve dar a uma obra-prima.
Encarte pôster (acima) e a capa interna gatefold de Criaturas da Noite (abaixo)
Criaturas da Noite foi lançado na Europa em 1976 numa versão rara, com as músicas cantadas em inglês e com o nome de Creatures of the Night. Foi o álbum mais bem sucedido da banda, com o compacto de “Hey Amigo” vendendo milhares de cópias e com direito até a apresentação de “1974” como peça musical coreografada, fato este ocorrido em 1977 através do artista argentino Oscar Araiz. Muitos consideram o melhor álbum de todos os tempos do rock nacional.
Em sua versão original o LP trazia uma arte muito bonita, chamada A Compreensão, obra de Antônio e André Peticov, além de um encarte e pôster gigante do grupo tocando ao vivo. É claro que essa versão, quando encontrada, é disputada a tapa nos sebos, valendo alguns barris de cerveja. Existe também uma outra versão com o pôster sendo a capa do álbum, e que muitos achavam que tratava-se de um álbum ao vivo da banda quando a mesma foi lançada.
Cerveja O Terço
O Terço tornava-se então um expoente do progressivo nacional, ao lado dos Mutantes de Sérgio Dias, participando como um dos headliners dos festivais Águas Claras (1975), Banana Progressiva (1975), Hollywood Rock e Temporada de Verão. Em 1976 a banda isolou-se em uma fazendo no interior de São Paulo, seguindo os passos de Novos Baianos, Mutantes, entre outros. Lá, construíram as canções para o próximo álbum, Casa Encantada, lançado em 1976, e cuja história estará aqui em um mês, quando chegaremos na Maravilhosa “Solaris”.
"Em fevereiro de 1954, pela primeira vez em um tempo, eu me sentia bem de verdade. Minha embocadura estava firme porque eu vinha tocando todas as noites e tinha finalmente me livrado da heroína. Eu me sentia forte, física e musicalmente. Me sentia pronto para tudo."
Miles Davis
Era incrível a capacidade de Miles Davis para compor grandes bandas. O músico, que completaria 95 anos no último mês de maio e cuja prematura morte completará três décadas em setembro, desde que se tornara um jovem band leader, aos 22, no final dos anos 40, estabelecera tal protagonismo. Após alguns anos de “escola” aprendendo teoria musical na Julliard School mas, principalmente, tocando na banda de Charlie Parker, o grande revolucionário do jazz, o homem que pôs o gênero de ponta-cabeça diversas vezes ao longo de meio século, em menos de 10 anos de carreira solo e menos de 30 de idade já era considerado uma lenda no meio jazz nova-iorquino. Além de lançar discos referenciais, como “Birth of the Cool” (1949/50), cujo nome fala por si, e a trilogia hard-bop “Cookin’/ Relaxin’/ Steamin’” (1956), o trompetista tinha um tino especial também para agregar a si outros talentos, formando grupos às vezes tão inesquecíveis quanto seus álbuns. Tanto veteranos, como Charles Mingus, Art Blakey e Max Roach quanto então novatos, como Gerry Mulligan, John Coltrane, Herbie Hancock e Tony Williams, eram recrutados por Miles, um líder natural.
Era tanto prestígio de Miles já à época, que ele mantinha contrato com duas gravadoras, Blue Note e Prestige, e estava em vias de assinar com outra: a Columbia. Toda essa autoridade permitiu que, em “Bags Groove”, de 1957, ele pudesse contar não com uma, mas duas bandas. E, diga-se: bandas de dar inveja a qualquer front man. O disco reúne duas sessões de gravação ocorridas em 1954 no famoso estúdio Van Gelder, em Nova York: a 29 de junho e a 24 de dezembro. Para cada uma, Miles teve escalações estelares. Acompanhando-o na segunda delas estão, além dos velhos parceiros Percy Heath, ao baixo, e Kenny Clarke, na bateria, ninguém menos que Milt 'Bags' Jackson, nos vibrafones, membro da inesquecível Modern Jazz Quartet e a maior referência deste instrumento na história do jazz, e Thelonious Monk ao piano, considerado um dos maiores gênios da música do século XX. Duas referências do jazz bebop e ambos tocando pela primeira vez com o trompetista.
O disco começa com outra característica de Miles fazendo-se presente, que é a de não apenas estar ao lado de músicos de primeira linha como, principalmente, saber tirar o melhor proveito disso. As duas versões da faixa-título, de autoria do próprio Milt, são tão solares que fazem esquentar o frio nova-iorquino daquela véspera de Natal. O estilo solístico de Miles e sua liderança no comando da banda, atributos totalmente recuperados por ele naquele 1954 depois de um longo e tortuoso período de vício em heroína, ficam evidentes em seus improvisos inteligentes, econômicos e altamente expressivos.
Mas não é apenas Miles que brilha, visto que tudo na música “Bags...” abre espaço para diálogos. A elegância característica do estilo de Miles se reflete no soar classudo do vibrafone de Milt. Poder-se-ia dizer tranquilamente que a faixa, por motivos óbvios, além da autoria e da autorreferência, é dele, não fosse estar dividindo os estúdios com Miles e Monk. Este último, por sua vez, conversa tanto com a elegância peculiar dos dois colegas quanto, principalmente, no uso inteligente e econômico das frases sonoras. No caso do pianista, mais que isso: precisão – e uma precisão singular, pois capaz de expressar sentimento.
Capa do disco com Rollins, que corresponde ao lado B de "Bags Groove"
O repertório do álbum se completaria com outra gravação ocorrida meses antes, só que num clima totalmente contrário: em pleno calor do verão junino da Big Apple, Miles entra em estúdio amparado por Clarke novamente, mas agora tendo ao piano outro craque das teclas, Horace Silver. Mas ao invés do vibrafone percussivo de Milt, agora a sonoridade complementar muda para outro sopro: o vigoroso saxofone tenor de Sonny Rollins. Substituições feitas, qualidade mantida. Como um time que não se afeta com a intempéries e sabe mudar as peças mantendo o mesmo esquema vitorioso,
Os quatro números restantes são fruto da sessão feita para “Miles Davis With Sonny Rollins”, de 1954 (este, lançado naquele ano mesmo), quando Miles, que já havia trabalhado rapidamente com o saxofonista três anos antes, apresentava-o, então com 24 anos, como jovem promessa do jazz. E se o lado A de “Bags...” tinha como autor não Miles, mas seu parceiro Milt, a segunda parte também era praticamente toda assinada por Rollins. “Airegin”, um bop clássico, é o resultado do entrosamento dos dois. Miles gostou tanto do tema, que o regravaria no já referido “Cookin’” com Coltrane, no sax, Red Garland, ao piano, Paul Chambers, baixo, e Philly Joe Jones, na bateria. O mesmo acontece com “Oleo”, um gostoso jazz bluesy, que Miles aproveitaria no repertório de outro disco memorável daquela época, “Relaxin’”, e com o qual contou com a mesma “cozinha” de “Cookin’”.
“Bags...” tem ainda outra de Rollins, a inspiradíssima “Doxy” e sua levada balançante, que não muito tempo dali se tornaria um clássico do cancioneiro jazz, interpretada por monstros como Coltrane, Dexter Gordon e Herb Ellis. Completam o repertório dois takes do standart “But Not For Me”, de Gershwin. Classe pouca é bobagem.
Isso tudo, acredite-se, antes de Miles ter lançado aquele que é considerado sua obra-prima, “Kind of Blue”, de 1959, a criação do jazz modal e com o qual contou com Coltrane, Bill Evans, Cannoball Adderley, Jimmy Cobb e Wynton Kelly. Antes de ter tocado com o infalível quarteto Williams, Hancock, Wayne Shorter e Ron Carter, noutro passo fundamental para o jazz. Muito antes de ter feito “In a Silent Way” e “Bitches Brew”, as revoluções do jazz fusion em que teve, além de Hancock, Shorter e Williams, outros coadjuvantes ilustres como Chick Corea, Joe Zawinul e John McLauglin. Como talvez nenhum outro músico do jazz, Miles tinha a capacidade de reunir os diferentes e saber extrair disso o melhor. De unir verão e inverno e torná-los a mesma estação. “Bags...” é uma pontinha de tudo isso que Miles fez e representou para o jazz e a música moderna. E haja bagagem para conter tanta história e tantos talentos orbitando ao redor do planeta Miles Davis!
************ FAIXAS:
1. "Bags' Groove" (Take 1) (Milt Jackson) - 11:16
2. "Bags' Groove" (Take 2) - 9:24
3. "Airegin" (Sonny Rollins) - 5:01
4. "Oleo" (Rollins) - 5:14
5. "But Not for Me" (Take 2) (George Gershwin/ Ira Gershwin) - 4:36
Na Semana de aniversário de um ano da morte de Michael Jackson, mesmo não sendo fãzaço, não posso ignorar um dos discos que mudaram a história da música, e não apenas dela como do comportamento, dos costumes, da moda, da mídia e etc. Como não destacar um álbum que até hoje é o mais vendido de todos os tempos, que fez do artista nada mais nada menos que o rei do pop e que teve a música que revolucionou a linguagem do videoclipe e da exposição de artistas em TV para sempre? É lógico que os méritos não ficam limitados a isso. Sonoramente a obra acaba sendo uma das que melhor aproxima toda a musicalidade de cultura negra tentada, experimentada, inventada até então do grande púbico. Funde-se funk, soul, jazz, disco, R&B de uma maneira tal que acabou por se consolidar como a fórmula certa do pop (digo "certa" no sentido de alcançar-se grandes vendagens, popularidade e público; porque em qualidade, na minha opinião Prince, por exemplo, já havia atingido isso antes e continuou com maior qualidade ainda depois, mas isso, lá, é outra história). Mas criar-se uma "fórmula" para algo tão popular infelizmente tem seu preço, e as as gerações seguintes acabaram vendo então este monte de ccantores de hip-hop, meninas rebolando com vozinhas sensuais, múscas ruins sustentadas apenas por mega-videoclipes e artistas que se baseiam mais em performances coreográficas do que na música. Sou um daqueles que acham que Quincy Jones inventou Michael Jackson e que o dito Rei do Pop sem ele seria somente mais um na cena, mas não posso deixar de valorizar o resultado da acolhida deste brilhante produtor a um, até então, potencial "menino-prodígio". E se o que se deu desta adoção foi "Thriller" há de se reconhecer que acabou sendo uma das uniões mais felizes da história da música.
******************** Recentemente saiu uma versão comemorativa dos 25 anos do álbum com as faixas originais, vídeos, inclusive com o clássico clipe da faixa-titulo, e remixes com versões com alguns desse pessoalzinho aí que eu disse que formam o "legado" do Jacko: Kanye West, Fergie, Akon e will.i.am. Ou seja, as faixas Bônus, são ônus na verdade.
FAIXAS ORIGINAIS 1982: 1. "Wanna Be Startin' Somethin'" M.Jackson 6:03 2. "Baby Be Mine" R.Temperton 4:20 3. "The Girl is Mine" (com Paul McCartney) M.Jackson 3:42 4. "Thriller" R.Temperton 5:58 5. "Beat It" M.Jackson 4:18 6. "Billie Jean" M.Jackson 4:54 7. "Human Nature" J.Bettis, S.Pocaro 4:06 8. "P.Y.T (Pretty Young Thing)" J.Ingram, Q.Jones 3:59 9. "The Lady In My Life" R.Temperton 4:59 *a edição especial de 2008 conta com uma faixa com a locução de Vincent Price, a mesma da música "Thriller"
EXTRAS EDIÇÃO 25 ANOS: 1. "The Girl is Mine" com will.i.am 2. "P.Y.T (Pretty Young Thing)2008" com will.i.am 3. "Wanna Be Startin' Somethin'" com Akon 4. "Billie Jean" com Fergie 5. "Human Nature" com Kanye West 9. "For all Time" unreleased track from original sessions
DVD DA EDIÇÃO DE 25 ANOS: 1. "Billie Jean" (videoclipe) 2. "Beat It" (videoclipe) 3. "Thriller" (videoclipe) 4. "Billie Jean" (apresentação na festa de 25 anos da Motown na qual imortalizou o passo conhecido como "Moonwalk"
Na onda dos shows do Metallica no Brasil, aproveito pra destacar um dos grandes discos da história do rock. O Metallica, depois de já ter mudado o rumo das coisas com “Master of Puppets”, revolucionava novamente o metal em 1991 com um álbum sem título, batizado pelo público de “Black Álbum” em virtude de sua capa toda negra apenas com pequenos detalhes quase invisíveis. O “Álbum Negro” traz um Metallica extrapolando peso mas totalmente aceitável e audível mesmo para ouvidos mais delicados. Esta química sonora obtida no disco fez com que agradasse não só aos fãs como arrebatase de vez o público mais pop colocando a banda no topo das paradas. O primeiro single, “Enter Sandman” era uma bomba pesada, destruidora, com um riff absolutamente marcante e um refrão certeiro, vociferado por Hatfield. Tornou-se logo um grande hit e impulsionou grandes vendas do álbum, ajudado por um clipe que transmitia toda a atmosfera pretendida na música. Um grande pesadelo assustador e sem saída. Serpentes embaixo da cama, quedas de prédios e precipícios, sonho dentro do sonho e a conjugação letra-música-imagem estava completa: “Enter Sandman” era um verdadeiro pesadelo. O disco também traz as ótimas “Sad But True” com suas guitarras estourando e a longa balada “The Unforgiven” que igualmente figuraram nas paradas; além de muitos outros bons momentos menos conhecidos do grande público mas não menos valorosas e interessantes que mantinham a característica pesada do som da banda. A balada “Nothing Else Matters , outra que tocou bastante por aí, e que contou no álbum com acompanhamento orquestrado, ficou tão boa que acabou gerando a idéia de fazerem um álbum ao vivo com a Orquestra Sinfônica de São Francisco . O projeto, chamado “S&M”, vingou e contém diversas músicas do álbum negro, com destaque exatamente, para a já citada ‘Enter Sandman” que ganhou tons monumentais com o acréscimo das cordas de orquestra.
******************** FAIXAS: 1. ENTER SANDMAN 2. SAD BUT TRUE 3. HOLIER THAN THOU 4. THE UNFORGIVEN 5. WHEREVER I MAY ROAM 6. DONT TREAD ON ME 7. THROUGH THE NEVER 8. NOTHING ELSE MATTERS 9. OF WOLF AND MAN 10. THE GOD THAT FAILED 11. MY FRIEND OF MISERY 12. THE STRUGGLE WITHIN
Trench Fever é uma banda de hardcore punk de Hackney, no leste de Londres. Formada em 1987, a banda contava com músicos experientes: o vocalista Neil Singleton havia cantado anteriormente no The Destructors, enquanto a seção rítmica, composta por Paul Condon (baixo) e Jason Cook (bateria), havia tocado no Bad Dress Sense . Dave Soph era o guitarrista. A banda logo foi completada com a entrada de um segundo guitarrista, Paul Lyne, ex-integrante do 16 Guns . Com essa formação, a banda gravou sua primeira demo em 1988, uma das faixas da qual acabou entrando na coletânea "Spleurk!". Os shows da banda aconteciam principalmente em Londres. Frequentemente, os integrantes dividiam o palco com seus amigos do SNUFF . Em 1990, o Trench Fever lançou o EP "Saturday Night Trench Fever" por seu próprio selo, Hedgehog's Revenge Records. Pouco depois da gravação do EP, Paul Condon deixou a banda, sendo rapidamente substituído por Ben Schneider (ex-Go Get Fucked). A banda gravou duas faixas, uma das quais apareceu na coletânea "Floor 81" da Boss Tuneage, e a segunda foi lançada em um split com o Blaggers ITA. Curiosamente, este último contava com Jason Cook, que logo deixou o Trench Fever para se dedicar inteiramente ao Blaggers ITA. Bill Earwaker (ex-Go Get Fucked) assumiu a bateria e, com essa formação, a banda gravou sua demo final em 1992. Em 2012, a Boss Tuneage lançou um CD com todo o legado do Trench Fever .