sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Courtney Barnett – Sometimes I Sit and Think, And Sometimes I Just Sit (2015)

A australiana Courtney Barnett já tinha gravado uns EPs engraçados mas nada nos tinha preparado para a perfeição do seu álbum de estreia, o único este ano capaz de se medir com o luto agridoce de Carrie & Lowell.

Tem-se dito tanto sobre o brilho das suas letras que às vezes se descura o óbvio: fora este disco cantado em finlandês e continuaria a ser um dos melhores. Sometimes I Sit and Think, and Sometimes I Just Sit é um daqueles raros álbuns em que todas as suas canções facilmente enganariam o porteiro numa festa privada só para singles. Fazer isso quase sem cantar – ou cantar à Lou Reed, o que é a mesma coisa – torna a proeza mais assinalável. A referência ao ícone nova-iorquino não é inocente. Por muito descarado que seja o flirt de Courtney com o grunge e demais rock alternativo dos nineties, mais desavergonhado ainda é o piscar de olhos aos Velvet: as guitarras indolentes, o gingar rufia, a elegância do desaprumo, os solos despenteados, a expressividade máxima retirada da máxima inexpressividade, não deixam dúvidas em relação à sua nobre linhagem. Se “Pedestrian at Best” é talvez o “Smells Like Teens Spirit” do século XXI, então “Elevator Operator” será certamente o seu “Waiting For The Man”.

Mas debrucemo-nos sem mais delongas sobre aquilo que de facto torna este disco tão especial: a inteligência das suas letras. Courtney é uma mestre do detalhe e do quotidiano, e como nas coisas da pop o menos é sempre mais, é através de pequenas fotografias do dia-a-dia que Barnett nos faz rir e chorar. Encontramos o modelo desta simplicidade em “Depreston”, talvez a canção mais bonita do disco, e a única que vamos aqui dissecar, para protegermos os outros especímenes do nosso vil bisturi.

Courtney começa por descrever uma banal visita a um imóvel num qualquer cinzento arrabalde. O estilo é mordaz e escorreito, driblando as rimas com mestria, fazendo-nos rir. Mas, velhaca, Barnett não dá ponto sem nó. Tanta leveza e humor têm um ardiloso propósito, o de baixar a nossa guarda para o murro no estômago que virá a seguir. Aos poucos, vamos vislumbrando os vestígios deixados pela anterior proprietária: uma casa de banho adaptada, uma fotografia de um soldado no Vietname, uns bibelots tão kitschs como solitários… Quando damos conta, já uma imensa melancolia tomou conta de nós. Sem recurso a qualquer sentimentalismo, ou mesmo sequer a um fio narrativo, acreditando simplesmente na inteligência e sensibilidade do ouvinte para captar o ausente mas implícito, Courtney consegue trazer para a nossa beira os grandes temas da condição humana- o amor, a perda, a morte.

Esta capacidade para chegar ao profundo através do banal, ao universal através do particular, ao dramático através do risível, ao humano através das simples coisas, a nós próprios através do espelho com os demais, mostra que Courtney Barnett não é apenas o último hype da temporada indie outono/inverno, mas sim uma songwriter que veio para ficar, merecendo desde já começar a ser medida por comparação aos maiores. Dylan, Waits, Cohen, Barnett… Não vos soa bem?

Ao que Courtney, com a sua camisa de flanela amarrotada e os seus grandes olhos desmazelados, retorquirá num bocejo: “põe-me num pedestal e apenas te desapontarei / chama-me excepcional e prometo que te exploro / dá-me todo o teu dinheiro e farei origami com ele/ acho que és uma piada mas não te acho muita graça…”.

É justo.


Revolutionary Army Of The Infant Jesus – Beauty Will Save The World (2015)

 


“There is in all visible things an invisible fecundity, a dimmed light, a meek namelessness, a hidden wholeness.” – Thomas Merton

A sensação de um enorme vazio vai tomando conta de mim, como se de uma coisa física se tratasse. Alastrando-se, aos poucos, muito lentamente, doença que me paralisa até à imobilidade total. E assim, nesse estado, cedo involuntariamente a um estranho sentimento de perda, também ele arrebatador. Assola-me, nesse instante, uma serena tranquilidade, um deserto nascente. Não há lágrimas, nem sequer um esboço delas. Ouço vozes que me dizem qualquer coisa. Vozes distantes, em línguas que todos conhecemos, embora pouco inteligíveis. Depois há silêncios que se acomodam por entre os sons que dão forma a todo este movimento. Nesses silêncios, por vezes gélidos, por vezes mornos, há uma respiração igual à nossa, humana na mecânica dos gestos, mas que parece vir de um outro mundo, de um outro entendimento, de uma outra dimensão. Haverá sempre música para além da que reconhecem os nossos ouvidos. Isso seguramente, mas alguma inquietação começa a manifestar-se de forma quase impercetível. Nas dobras dos sons, na luminosidade sinuosa dos sons que vagueiam no ar que por um triz não se deixam ver, errantes, por entre as paredes brancas desta sala. Como se fossem companhias invisíveis, ao meu lado, fantasmas articulados ao toque instrumental que os desperta. E eu? E nós, que agora pareço vários, que se soltaram de mim? Para onde vão as almas que me pertencem? O que se passa agora, que se avizinha uma sensação anterior a qualquer outra, anterior às palavras que surgem também agora, enquanto lavro este terreno branco do papel, tão límpido, ainda mais límpido que as paredes desta sala? Resta-me ficar assim, quase mudo, sem poder dizer o que poderia, tivesse eu forma de vencer esta dolência instalada, este sofrimento prazeroso, este tímido desassossego de marés que vão e não chegam, e que regressam sem serem notadas. Haverá cais onde aportar todo este encantamento? Se me levantasse agora, veria da janela que se abre ao mundo um outro mundo que não este. Mas aqui tudo é limite, tudo finda, tudo se mede em tamanhos ondulantes… Estou cada vez mais distante de mim mesmo, como se não houvesse outra qualquer realidade, nem lá fora, nem cá dentro. A surdina do silêncio permanece, e há muito que faz eco em mim. Estou só onde me encontro acompanhado, e não sinto a mínima estranheza nisso.

Depois, há uma memória distante. Uma voz que me diz que o que já fui ainda existe. Que tudo o que já ouvi se repete eternamente, sem roupagens, sem disfarces, com a liberdade dos anjos. Depois, há uma memória mais próxima. A minha tia morta a lembrar-me que nasci no dia dos anjos da guarda, eu a correr para ela, sem pressa de chegar aos seus braços abertos, uma nuvem de sonho entre nós dois, eu vivo mas imóvel, ela irrequieta e jazente à minha espera. Finalmente o encontro dos seus braços com o meu corpo, e mesmo assim nem uma lágrima, nem sequer um esboço dela, porque a música nunca nos poderá fazer chorar. Para que serviria, se servisse para lamentos e aflições? O som continua errante, escondido em silêncios  que se acomodam no meu passado, no meu presente, uma vez mais por entre os sons que lhe dão forma (há tanto tempo que não te via, Carlos, há tanto tempo), e de novo as vozes tão estrangeiras e tão nossas a perguntarem-me coisas aos ouvidos como isto: por onde andas, que idade tens quando te perdes, sabes que o sol, quando cai a noite, repousa em ti?

(a citação de Thomas Merton, que podemos ler na abertura deste texto, vem registrada no inlay do disco em causa e foi, como se perceberá, o mote das linhas que redigi enquanto ouvia, em repeat, o disco que nos dá a certeza absoluta de que só a beleza nos poderá salvar a todos.)


King Gizzard & the Lizard Wizard – Paper Mâché Dream Balloon (2015)


Caso seriíssimo de talento e imaginação, os King Gizzard & The Lizard Wizard, são sete rapazes australianos, que editaram em 2012 o primeiro disco, e desde então, têm lançado dois discos por ano. Chegam, por isso, ao fim de 2015 com um total de 7 álbuns e 2 EPs. E pode dizer-se que eles são os legítimos herdeiros dos Doors. Não é por causa do nome, embora pisquem o olho ao Rei Lagarto, mas há ali alguns aspectos na música dos Gizzard que faz deles os verdadeiros carregadores dessa chama, principalmente a harmónica à “la blues” e as teias de bateria e baixo pulsante a nortear toda a restante criação.

Estes garotos também foram buscar para o nome Lagarto e Feiticeiro. E, embora digam que isso aconteceu um bocado aleatoriamente, acaba por encaixar que nem uma luva. Feitiçaria, que cada música é preparada num caldeirão com os mais impensáveis ingredientes, incluindo sangue de galo e dentes humanos. E o lagarto pode ser um camaleão, que em apenas três anos já assumiu inúmeras cores e formas. Não que estejam sempre a mudar de estilo como quem não sabe o que quer, mas de forma natural vão metendo o dedo em variadas estéticas, vão experimentando coisas diferentes, a cada disco vão acrescentando elementos dos anteriores, sub-repticiamente, e acabam por já ter uma linguagem muito própria.

Depois de passar por um rock mais psicadélico, temperado com kraut, abraçaram o blues, em Quarters! cheiraram um pouco de jazz e, em Paper Mâché Dream Balloon, atiraram-se a uma certa folk pastoral. Mas com uma sensibilidade pop extremamente apurada, cada canção é um single pronto a passar em qualquer rádio.

O primeiro disco deste ano, Quarters!, é feito de quatro canções de dez minutos, muito mais dadas ao improviso deambulante. Paper Mâché é um trabalho mais convencional no formato, 12 canções de 3 minutos, verso, verso, refrão, etc, mas isso acaba por surpreender, tendo em conta o historial da banda.

Neste disco quase não se ouve a guitarra eléctrica e a acústica é frequentemente acompanhada pela flauta. Pouco habitual no rock pop de hoje em dia, tal como pouco frequente nestas andanças é a harmónica, mas são instrumentos fulcrais na música dos King Gizzard. Não estamos à espera de ouvir tais sopros, mas eles entram com uma tal naturalidade e suavidade, tornam as canções ainda mais melódicas, ao mesmo tempo que emprestam às canções de Paper Mâché um imaginário quase medieval.

Mas o caldeirão dos Gizzard mistura muitas mais inspirações. No tema de abertura, “Sense”, há um clarinete e piano de cauda a levar-nos para um cabaret fumarento. Os seguintes, “Bone”, “Dirt” e “Paper Mâché Dream Balloon” lembram hippies folk. Como qualquer bom hippie de sessentas, aqui também se pisca o olho à Índia – “Cold Cadaver”, “N.G.R.I. (Bloodstain)” ou “Time=Fate” têm pitadas de sitar, mas não demasiado hipnótica. O blues à la Doors está presente em “Bitter Boogie”. E para fechar o disco, um medley instrumental, em que a flauta canta os refrões de vários temas do disco.

E chegamos ao fim do álbum com sorriso. Paper Mâché Dream Balloon é o disco mais suave destes rapazes. É leve sem ser simplista, é luminoso e jovial, é uma colecção de singles, certeiros tiros pop cheios de cor e incrivelmente bem tocados, e é também o disco mais diferente na carreira da banda, com canções curtas e fechadas em si mesmas.

Paper Mâché vem compor uma já bastante rica discografia, de uma das bandas que devemos seguir com a maior atenção nos próximos tempos. Os King Gizzard ainda são relativamente desconhecidos, mas inteligentemente não correm atrás dessa fama rápida. Estão a trilhar um caminho prudente, cheios de energia e inspiração mas com as ventosas bem assentes na terra, a construir uma identidade camaleónica mas coerente. E sem dúvida vão chegar bem longe. Mesmo se não chegarem, já deixaram marca no grande livro da história da música.


Márcia – Quarto Crescente (2015)


O meu apreço pela Márcia tem meia dúzia de meses de existência. Começou neste último Super Bock Super Rock e surgiu depois de ter assistido ao concerto de apresentação deste Quarto Crescente. Nesse mesmo dia, pouco tempo depois de a ouvir, já tinha quase toda a sua discografia autografada, muito graças ao nosso Duarte Pinto Coelho, conhecedor e grande apreciador da obra da cantora há já algum tempo. Com os discos debaixo do braço e algumas fotos tiradas para a posteridade, ainda tive a sorte de assistir, em sua companhia, ao show que o Rodrigo Amarante ia dar meia hora depois desse nosso encontro. Que belo final de tarde!

Vamos ao disco, então. Quarto Crescente é claramente um passo em frente em relação ao material publicado pela compositora / cantora desde 2009. Devagar, mas sempre de forma segura, Márcia foi ganhando o seu espaço cá dentro, e agora, sobretudo com o disco deste ano, já lá fora, no Brasil, há quem se renda à sua maneira límpida de cantar e de compor. Escolhido Dadi Carvalho como produtor do disco (nome grande da MPB, ligado a bandas importantes como Novos Baianos e A Cor do Som, mas também muitas vezes próximo de Caetano Veloso e Marisa Monte, por exemplo), e também por via dessa esperta opção, o álbum ganhou uma leveza e uma claridade espantosas, o que se revela bem nas canções de maior grandeza poética e musical deste disco. Para estar de acordo com o que digo (estou absolutamente convicto disso) basta que se ouça “A Insatisfação”, “A Urgência”, “Entre Nós” ou “Linha de Ferro”, delicioso dueto com o brasileiro Criolo, que com Márica havia cantado no concerto a que me referi no início destas linhas. A canção “Linha de Ferro”, encaixada mais ou menos a meio de Quarto Crescente, parece-me marcar todo o disco de forma exemplar, sobretudo por ser nela que melhor se nota o que este trabalho traz de novo para a música de Márcia, embora também nela resida o que de mais relevante encontramos nos seus álbuns anteriores. Ou seja: em Quarto Crescente há mais mundo, há maior segurança (talvez menor insegurança seja ainda melhor expressão para o que penso), há maior apuro e detalhe. A melancolia, a solidão, o charme das suas letras e composições estão aqui depuradíssimas, mais até do que em qualquer dos discos anteriores. No entanto, não se julgue que Quarto Crescente se resume a essas quatro belas canções. Antes pelo contrário, uma vez que um dos trunfos do disco reside no coeso lote das onze canções escolhidas para lhe dar corpo, cada uma delas com qualidade suficiente para ser eleita, eventualmente, como a preferida pelos já muitos fãs de Márcia. No meu caso, como se percebeu, “Linha de Ferro” é a escolhida.

A questão que resta é o que fará Márcia a seguir? Isso não poderemos, para já, saber, mas a avaliar pela sua ainda curta mas prazerosa carreira, não seria de admirar que depois de um Quarto Crescente como este, viesse uma lua cheia de muitas outras fantásticas canções. Aguardemos, pois.

 

Protomartyr – The Agent Intellect (2015)


The Agent Intellect é o terceiro álbum da banda de Detroit e segue na senda de Under Color of Official Right com o seu pós-punk com nervo, e que parece saídinho de finais de 70s, início de 80s, na senda de bandas como os Wire, the Fall, Pere Ubu, ou seja marginais mas com reconhecido mérito a longo prazo. Não quero com isto dizer que os Protomartyr são banda ao nível das enunciadas e que terão tal êxito, sou pessoa consciente das inúmeras variáveis que são necessárias conjugarem-se para que tal aconteça. Mas em termos sonoros a aproximação é notória e bem conseguida. Influência não é cópia, e esta é regra de ouro a ser seguida neste caso específico.

Comecemos pelo nome do álbum, que se baseia numa teoria criada há cerca de dois mil anos por Aristóteles sobre a ligação entre a mente e os neurónios, e a forma como o cérebro funciona, coisa que, ainda hoje, é um grande mistério para a maioria (relacionado com isto – ainda há uns dias li uma notícia sobre um caso nos Estados Unidos de uma indivídua que ficou cega há cerca de 10 anos devido a uma suposta lesão na córnea. Entretanto foi-lhe diagnosticada múltipla personalidade, 10 diferentes e uma delas recuperou a visão o que é, no mínimo, perturbante). Joe Casey, vocalista da banda, assume que foi de encontro a esta teoria no meio de alguns estudos que tem feito decorrente do facto da sua mãe ter Alzheimer (a ela é dedicada a muito mesmo muito intensa “Ellen”) e como isso impactou no seu processo de escrita, no tom geral do álbum. Em grande parte, The Agent Intellect explora o conceito da mente, e o impacto de factores externos e internos na sua debilitação.

Logo no arranque, “Devil in His Youth” mostra a perversidade potencial num ser humano desde tenra idade, em frases como “I will make them feel the way I do/ I’ll corrupt them ‘til they think the way I do.” Na que é, a meu ver, o ponto alto do álbum, “Pontiac 87”, recorda um momento na sua juventude quando o Papa João Paulo II esteve perto na cidade desse nome no Michigan, EUA, e ficou incomodado com o negócio que rodeava o evento com vendas de items religiosos que potencialmente ajudam a ascender ao céu. “Dope Cloud” arrasa com as várias hipóteses colocadas com um constante “That’s not gonna save you men!” É portanto de um disco que questiona, questiona o ser humano, os seus comportamentos, a sua postura perante o mundo que o rodeia, cada vez mais submissa. E é um portento de disco.


Grimes – Art Angels (2015)

 


“Laughing and not being normal” é a primeira faixa de Art Angels, o quarto álbum de Claire Boucher, mais conhecida por Grimes. Influenciada por estilos que variam desde o synthpop ao k pop ou música medieval e por artistas como Brooke Candy ou Cocteau Twins, passando por Drake ou Lana del Rey, celebra a sua singularidade da maneira mais maximalista até à data.

Desde o lançamento do seu primeiro álbum, Geidi Primes, até ao muito aclamado Visions, de 2012, fomos habituados a camadas e loops da sua voz suave e frágil, que criava uma atmosfera etérea, melancólica e sombria. Art Angels é diferente. É mais risonho, mais pop, mais exaltado. As influências da pop oriental são ainda mais evidentes. É um enaltecimento à tristeza e ao desgosto amoroso; é um grito feminista e uma crítica ao sexismo na indústria.

Em Art Angels, Grimes ganha uma nova voz. Poucos são os jogos que faz com loops e sobreposições de vozes, quase inexistente é o ambiente encoberto que até então conhecíamos. Porém, esta parece ser a progressão natural do seu trabalho anterior. Boucher continua original: é música inédita segundo os seus padrões e é algo substancial. Deparamo-nos, então, com uma voz poderosa e cristalina, como em “Kill V. Main”. Anunciada via Twitter como uma das faixas favoritas da artista, é uma condenação a um mundo hegemonicamente masculino e, muito provavelmente, a crítica mais direta ao machismo, obviamente sentida por Grimes enquanto artista feminina, como já o demonstrou em entrevistas. Começa com um sample tipicamente 8-bit, assemelhando-se aos primórdios das consolas de jogos dos anos 80 e 90; surpreendemo-nos quando se desprende disso e se torna numa invulgar amálgama de sensualidade e agressividade. Em “Scream”, Boucher grita, Aristophanes rappa numa língua que não entendemos; ainda assim, em menos de dois minutos e meio somos arrebatados pela intensidade das texturas. Grimes tem essa capacidade de nos alevantar os espíritos. O que produz é um convite à dança (“Venus Fly” com Janelle Monaé), à celebração e à indiferença perante a opinião alheia (“And I don’t care anyway”, canta Claire num dos singles, “Flesh Without Blood”). Art Angels é mágico pelos seus pormenores. Há uma certa dinâmica que acentua a discrepância entre os fins e os inícios das faixas. Nunca anteciparíamos que “Venus Fly” fosse explodir até ao segundo 15, momento em que se torna uma das mais dançáveis, mais hiperbólicas do álbum: no fundo, um sumário da perspetiva t.A.T.u que nele ecoa.

“Oh, it’s perfect / it could be anything out there / Butterflies flying in the air!”, canta Grimes na última música do álbum, mais uma vez celebrando a sua peculiaridade. Há harmonia em tudo, canta-nos Boucher agora no seu familiar falsetto, com um beat relaxante, reminiscente de algo que ouviríamos a meio do crepúsculo duma qualquer tarde amena de verão. Há, de facto, mesmo que seja tão inconvencional como Grimes a pintou, ou pelo menos é isso que sentimos ao ouvir Art Angels.


The Doors – Live At London Fog 1966 [2016]

 

The Doors – Live At London Fog 1966 [2016]

Considerado o mais antigo registro do The Doors sobre um palco, o disco Live at London Fog 1966 foi lançado em 2016 para coincidir com as celebrações pelos 50 anos da estreia fonográfica da banda, em uma luxuosa (e limitada) embalagem contendo um vinil de 10″, um CD e vários itens de memorabilia do grupo, sendo que apenas em 2019 foi receber uma nova edição, desta vez em um CD digipack, com um encarte mais simples do que o original e sem os “mimos” da caixa anterior (além, claro, das hoje obrigatórias plataformas digitais). Gravado em maio de 1966 no bar de Los Angeles que lhe dá nome, pelo espectador Nettie Peña, que declara no encarte ser amigo de Jim Morrison (vocais) e Ray Manzarek (teclado e vocais – se alguém ainda não sabe, completavam o grupo o guitarrista Robby Krieger e o baterista John Densmore) desde os tempos da faculdade de cinema (Peña também foi responsável pelas fotos que aparecem no encarte), o álbum mostra, em pouco mais de trinta minutos, um grupo ainda embrionário, se adaptando ao palco (a estreia da banda no local havia sido em fevereiro daquele ano), e longe do “monstro” que se tornaria apenas poucos meses depois.

Curiosamente, nenhuma faixa do autointitulado primeiro álbum (lançado em janeiro de 1967) aparece no repertório, embora Peña escreva no encarte que chegou a gravar, em uma fita de rolo diferente da que deu origem a este disco, uma versão de quinze minutos “épica” para “The End”, considerada por ele “absolutamente genial”, e John Densmore tenha dito em uma entrevista à revista Billboard quando do lançamento de Live at London Fog 1966 que “o que se ouve no disco é apenas metade da apresentação daquela noite”, e que, certamente, uma versão inicial de “Light My Fire” teria sido executada naquele show. Das sete faixas do disco (duas outras são “ajustes de equipamentos” e conversas entre os músicos no intervalo das canções), cinco são covers para standards do blues como “Baby, Please Don’t Go”, de Joe Williams, e “I’m Your Hoochie Coochie Man“, de Willie Dixon (esta com Ray Manzarek no vocal principal e Jim na harmônica), e apenas duas são originais dos conjunto, versões embrionárias para “Strange Days“, que seria a faixa título do segundo registro do quarteto, e “You Make Me Real“, que, curiosamente, só receberia uma versão oficial de estúdio em 1970, no álbum Morrison Hotel.

O Doors no palco do bar London Fog, em foto presente no encarte: Ray Manzarek, John Densmore, Jim Morrison e Robby Krieger

O The Doors surge ainda “verde” nestas gravações, embora o trio instrumental já demonstre o entrosamento e a força que conquistariam milhares de fãs ao longo da curta trajetória do conjunto, e Morrison apareça cantando em um tom um pouco mais agudo que o normal, ainda não apresentando o vocal de barítono que arrebatou multidões antes e depois de sua precoce morte. A gravação está em um nível bastante aceitável, sendo muito melhor que a de um bootleg “comum”, mas longe da qualidade de outros registros oficias do grupo disponíveis por aí (e, claramente, não era esta a intenção de Peña quando fez as gravações), e certamente irão agradar aos fãs do grupo que tiverem acesso ao CD.

E parece ser para estes já convertidos devotos de Morrison e companhia que o álbum é indicado. Aqueles que, porventura, não estejam tão familiarizados com a obra do conjunto, não encontrarão aqui a melhor porta de entrada para a sonoridade do grupo. Já os fãs de longa data certamente terão muito a aproveitar aqui, pela possibilidade de conferirem o quarteto em um estágio ainda inicial, mesmo há poucos meses do lançamento de sua autointitulada estreia (que o transformaria em um dos maiores expoentes musicais da história), demonstrando mais uma vez que poucos gênios nascem prontos, e a maioria, como é o caso aqui, precisa de um período de aperfeiçoamento e evolução para atingir o seu máximo. É exatamente neste período embrionário que Live at London Fog 1966 foi registrado, e o resultado é, após a audição, bastante satisfatório. Confiram!

Contracapa de Live at London Fog 1966

Track List:

Lado A

1. Tuning (I)

2. Rock Me Baby

3. Baby, Please Don’t Go

4. You Make Me Real

Lado B

1. Tuning (II)

2. Don’t Fight It

3. I’m Your Hoochie Coochie Man

4. Strange Days

5. Lucille


Nine Inch Nails - "Broken" (1991)

 

"Este é o primeiro dia dos meus últimos dias"
primeiro verso de "Wish"



O som conhecido como metal industrial, por misturar elementos de metal e hardcore com os de música eletrônica, incluindo samples, bases pré-gravadas e ruídos cotidianos da vida moderna, salvo raras exceções era extremamente barulhento e pouco técnico tirando o prazer ou a apreciação de uma audição, ou às vezes, ao contrário, mostrava-se excessivamente mecânico porém pouco pesado, pedindo mais contundência sonora, mais agrassividade. Mas "Broken" , um EP, dos Nine Inch Nails, de 1991, aparecia como um dos poucos que conseguiam encontrar o meio-termo exato do gênero, e com uma mistura perfeita e planejada de barulho, tecnologia e qualidade produzia então uma das melhores obras da categoria.
A própria banda, na pessoa de seu membro-único, Trent Reznor, multi-instrumentista de formação clássica, recém ganhador do Oscar de trilha original por "A Rede Social", havia se aventurado pela floresta de sintetizadores e máquinas em "Pretty Hate Machine", seu álbum de estreia com um resultado bem interessante porém, para mim, carente de 'pegada'. O disco até tinha peso nas entrelinhas, nas letras, nas interpretações vocais, nas batidas altas e aceleradas mas faltava vida, faltavam guitarras, e foi isto principalmente que ele colocou no segundo trabalho; e como o próprio Sr. NIN definiu na época era 'um disco baseado em guitarras'.
Senhores, e elas explodem!
A introdução crescente da vinheta de abertura, 'Pinion", desemboca direto na demolidora "Wish", uma bomba, um petardo destruidor com uma tempestade de guitarras que vem em resposta aos vocais desesperadores de Reznor, até terminar repentinamente com o ouvinte já provavelmente sem ar. Mas a pausa é curta pra se recuperar e "Last" já chega de sola com uma guitarra alta e pesadíssima. A segue a instrumental sufocante "Help Me I'm in Hell", menos pesada mas não menos impressionante com sua atmosfera densa lembrando uma abertura de filme de terror.
"Happyness in Slavery" que vem a seguir, então, quebra tudo de vez! Entra arrebentando um vocal gritado, um 'confronto' de sintetizadores que  introduzem para uma base bem eletrônica que  lembra muito o disco anterior, mas aqui soando muito mais poderosa ajudada por um eventual baixo distorcidaço que aumenta ainda mais o caos. A música é pesada, a letra a pesada e o vídeo é tão pesado que sua execução pública foi totalmente proibida. Nele, o artista performático, Bob Flanagam aparece se despindo e prende a si próprio numa máquina de torturas que perfura, corta, dilacera seu corpo enquanto seu rosto vai mesclando sensações de dor e prazer. E não é mais ou menos esta a ideia do disco? "Broken" é um misto de deleite musical com uma constante estupefação pela intensidade sonora. Ao mesmo tempo que fica evidente toda a criatividade, técnica e qualidade de Trent Reznor, ele faz questão de nos 'incomodar' com sua estrondosa barulheira.
Nine Inch Nails: Happiness In Slavery (Uncensored) (1992) from Nine Inch Nails on Vimeo.

Depois de "Happyness..." ter deixado quase que apenas destroços, ainda sobra alguma coisa pra "Gave Up" vir com um ritmo alucinado bem hardcore para encerrar a obra.
Não?
Ôpa!
Surpresa! O CD ainda corre silenciosamente até a faixa 98 para nos apresentar mais duas faixas: "Physical", cover interessante de Adam Ant, bem cadenciada mas com bom peso; e "Suck", versão bem eletrônica com levada bem quebrada para a música do Pig Face, banda do excelente batarista Martin Atkins, ex- PIL, que a propósito, empresta sua qualidade, fúria e técnica à excelente "Wish" e à acelerada "Gave Up".
A linguagem de "Broken" daria rumo ao, também, ótimo trabalho posterior, "The Downward Spiral", que é assunto pra outra hora, mas por si só, este 
EP representa um dos marcos do gênero industrial, um dos divisores de águas da estilo e um dos melhores discos dos anos 90.
Pela evolução sonora da proposta do próprio Nine Inch Nails e pelo resultado alcançado até mesmo no âmbito geral da categoria metal-industrial na qual é importantíssimo, "Broken", mesmo sendo um EP não podia ficar de fora aqui dos Álbuns Fundamentais.
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FAIXAS:
1."Pinion" – 1:02
2."Wish" – 3:46
3."Last" – 4:44
4."Help Me I Am in Hell" – 1:56
5."Happiness in Slavery" – 5:21
6."Gave Up" – 4:08
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98."Physical" (Adam Ant) – 5:29 *
99."Suck" (Martin Atkins, Paul Barker, Trent Reznor, Bill Rieflin) – 5:07 *

todas as músicas compostas por Trent Reznor, exceto as indicadas
todas as músicas tocadas integralmente por Trent Reznor, exceto faixas 2 e 6 com bateria de Martin Atkins e Cris Vrenna



Nico - "Chelsea Girl" (1967)



"Tudo o que queria no álbum foi retirado por eles.
Pedi percussão, disseram que não.
Pedi mais guitarras, disseram que não.
Pedi simplicidade, e eles o encheram com flautas!
Trouxeram cordas também; não gostava delas,
porém podia aguentá-las.
Mas a flauta!
A primeira vez que ouvi o álbum,
chorei, e tudo por causa da flauta."


Depois de ter cantado no primeiro e legendário disco do Velvet Underground, a "afilhada artística" de Andy Warhol, Christa Päffgen, conhecida no meio artístico como Nico, partia para uma carreira solo acolhida e abraçada pelos ex-colegas de banda Lou ReedJohn Cale e Sterling Morrisson, que não só participaram das gravações como foram responsáveis por metade das faixas do álbum.
"Chelsea Girl" de 1967, trabalho solo de estreia de Nico, cujo nome é inspirado no filme do mentor Andy Warhol, "Chelsea Girls", é um notável exercício artístico-musical de sonoridade basicamente folk, carregado de cordas, sopros, romantismo e melancolia. Com seu inglês carregado de sotaque bávaro e interpretações inspiradas, Nico transmite sentimentos de maneira absolutamente profunda e envolvente. Tristeza, paixão, sensualidade, delírio, magia, tudo contido na voz peculiar de tom grave da cantora, da qual nunca se soube com exatidão a nacionalidade (para muitos é alemã, para outros seria húngara).
A lenta e ácida "These Days", de Jackson Browne, namorado de Nico na época; a ótima versão para ""I´ll Keep It with Mine" de Bob Dylan; e especialmente a espetacular  e minha favorita "Chelsea Girl", a única em que Nico participa da composição, merecem destaque especial.
"Chelsea Girls", pela participação dos músicos do Velvet Underground e pela semelhança sonora com as músicas mais suaves do primeiro álbum da banda poderia ser considerado um "Velvet Underground and Nico 2", não fosse o fato de á própria artista não ter gostado do resultado final, reclamando inclusive de ter sido traída pelo produtor e pelos colegas de gravação que teriam colocado as cordas e flautas sem a autorização dela. O disco teve má recepção do público num primeiro momento mas permanece vivo como um clássico através do tempos. Outro caso daqueles discos renegados pelo artista mas que tornaram-se objeto de adoração e admiração pelos amantes da música.
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FAIXAS:
1 - The Fairest of The Seasons
2 - These Days
3 - Little Sister
4 - Winter Song
5 - It Was a Pleasure Then
6 - Chelsea Girls
7 - I'll Keep it with Mine
8 - Somewhere There's a Feather
9 - Wrap your Troubles in Dreams
10 - Eulogy to Lenny Bruce





Destaque

Wings - Back To The Egg (1979)

  01. Reception 02. Getting Closer 03. We’re Opening Up 04. Spin It On 05. Again and Again and Again 06. Old Siam, Sir 07. Arrow Through Me ...