Naturais da Foz do Arelho, os cinco elementos dos Modess & Aderentes começaram por ensaiar numa garagem e por tocar nas discotecas da zona. Depois resolveram ir para Lisboa à procura da sorte. É em Lisboa que conhecem aquele que viria a ser o sexto elemento do grupo. O grupo decide mudar de nome para Ena Pá 2000. Os seis elementos eram Lello Vilarinho (Manuel João Vieira)(voz, violoncelo, trompete, bandolim), Pão Diospiro (guitarra sintetizadora), Francis Ferrugem (percussão), Pepito Durex (saxofone, viola, trompa), Manuel Anão (contrabaixo) e Joselito Desirato (bateria). O grupo concorre ao 4º Concurso de Música Moderna do Rock Rendez-Vouz mas acaba por desistir depois de assinar contrato com a CBS. Ainda em 1987 é editado o seu primeiro single com os temas "Telephone Call" e "Pão, Amor e Totobola". As músicas eram do grupo e as letras de Armindo Cerejeira, um poeta popular da sua terra. O álbum de estreia foi gravado em Março de 1989 nos estúdios Tchá Tchá Tchá, com produção do próprio grupo e de Moz Carrapa. As misturas seriam feitas no ano seguinte. Após as recusas da Polygram e da EMI, o disco só seria editado no final de 1991, através da El Tatu. Em Dezembro de 1990 estrearam o palco do Johnny Guitar. Em 1992 é editado "Enapália 2000" que é uma transposição "revista e aumentada" para CD do primeiro álbum do grupo. Manuel João Vieira é entrevistado na 100ª emissão do programa "Pop Off" que foi para o ar duas semanas antes do arranque da SIC e que uma jornalista do DN pensou tratar-se de uma televisão pirata. O álbum "És Muita Linda" é editado em Novembro de 1994. O disco contou com a participação de Vitorino e de Janita Salomé ("Rap Alentejano"), Gimba, João Paulo Feliciano e Bernardo Sassetti. Lançam o single "Doces Penetrações" em 1996. No ano seguinte é editado o álbum "Opus Gay" com uma capa inspirada nos clássicos da editora Deutsch Gramophone. Em 1999 é editado o CD "2001 - Odisseia No Chaço". Em Março de 2004 foi lançado o álbum "A Luta Continua!". No disco aparecem temas como "Mulher do Norte", o velhinho "Rosário", "Pudim" e "Tourada". Como convidado especial aparece o lendário guitarrista Filipe Mendes em virtude do anterior guitarrista ter ido para a China. Em 2005 é editado um DVD.[
Após a saída de Cazuza (1958-1990), em 1985, o Barão Vermelho enfrentou um boicote velado da gravadora Som Livre, que priorizava a carreira solo do ex-vocalista, que lançara seu primeiro álbum no final daquele ano. Declare Guerra, de 1986, o primeiro álbum da banda sem Cazuza, vendeu míseras 15 mil cópias — um fracasso em plena euforia do Plano Cruzado. Os integrantes do Barão Vermelho culparam a Som Livre pelo pouco empenho na divulgação do disco. Isso motivou a banda carioca a deixar a gravadora e assinar com a WEA. Em 1987, o Barão lançou Rock’n’Geral, seu primeiro disco pela WEA, que também foi um fracasso comercial retumbante, apesar de elogiado pela crítica.
Se a vendagem dos discos do Barão era ruim, a situação nos palcos era desesperadora. Guto Goffi lembrou um show em Casimiro de Abreu (cidade litorânea do Rio de Janeiro) sob chuva, para 200 pessoas com guarda-chuvas: "Chegamos ao fundo do poço. Ou a gente reagia, ou acabava ali", disse o baterista em entrevista à revista Bizz, publicada em novembro de 1991.
Foi nesse clima decadente que o tecladista Maurício Barros deixou o Barão Vermelho, ainda em 1987, para formar a banda Buana 4. Com isso, o Barão foi reduzido literalmente a um power trio: baixo, guitarra e bateria. A formação enxuta, porém, deu ao grupo uma nova ferocidade. Sem teclados para suavizar o som, as guitarras de Frejat ganharam um peso stoneano, a bateria de Guto ficou mais violenta, e o baixo de Dé assumiu um groove sujo.
Entre abril e maio de 1988, o trio confinou-se no Estúdio Nas Nuvens, no Rio, para gravar o próximo álbum. Para a nova empreitada, o Barão Vermelho contou com apoios de peso: os então Titãs Arnaldo Antunes e Paulo Miklos (na letra de "Não Me Acabo"), o líder dos Engenheiros do HawaiiHumberto Gessinger (em "O Que Você Faz à Noite?") e até um último verso de Cazuza em "Rock da Descerebração".
Dé Palmeira, Guto Goffi e Roberto Frejat: com a saída do tecladista Maurício Barros, em 1987, o Barão Vermelho foi reduzido a um power trio.
A produção do novo disco ficou nas mãos da própria banda, ao lado de Paulo Junqueiro e do velho parceiro Ezequiel Neves (1935-2010). O clima era de resolução: ou o novo álbum estourava ou a banda acabava. E estourou. Intitulado Carnaval, o sexto álbum de estúdio do Barão Vermelho trouxe de volta o peso, a malícia e a eletricidade urbana típicos da banda, mas agora revestidos de uma urgência quase existencial. Se, por um lado, a ausência dos teclados de Maurício Barros acabou funcionando como um corte radical nas possibilidades melódicas mais suaves, por outro, abriu espaço total para riffs ásperos de guitarra. Para dar corpo às músicas, a banda chamou o percussionista Peninha (1950-2016), que já tocava nos shows, e o guitarrista Fernando Magalhães, além de participações pontuais de um naipe de metais e teclados de estúdio. Mas o núcleo central era um power trio na veia: um soco, um grito, uma guitarra quebrando o silêncio.
Do ponto de vista artístico e conceitual, Carnaval não era apenas um álbum — era um manifesto. Desde a arte da capa, que retrata a máscara da folia carnavalesca, o disco celebra a luta e a resiliência. A sonoridade é explícita: o rock não deixa margem a dúvidas. Frejat brilha nos vocais e nas guitarras, Guto mostra sua evolução como letrista e baterista, e o baixo de Dé pulsa com a energia de quem busca redenção.
Na abertura de Carnaval, “Lente” (Frejat e Arnaldo Antunes) estabelece o clima quase cinematográfico do álbum. A letra usa a metáfora da câmera para falar sobre percepção e exposição, enquanto a guitarra de Frejat surge áspera e urgente. É uma faixa de estrutura simples e impacto direto — perfeita como aviso: este não é um disco para flutuar, é para encarar.
“Pense e Dance” chega com o peso de um clássico urbano. O baixo de Dé pulsa com sensualidade, a bateria de Guto parece marchar sobre o concreto e os backing vocals femininos reforçam a estética de festa suja. A música flerta com o funk rock, mas em nenhum momento abandona o hard rock. É como se o Barão entrasse num salão decadente, acendesse as luzes fluorescentes e, em vez de fugir, resolvesse dançar com as próprias feridas. A letra brinca com o hedonismo, mas o tom é ácido, quase sarcástico: dançar não é alegria, é mecanismo de sobrevivência.
O álbum Carnaval marca a estreia do guitarrista Fernando Magalhães e do percussionista Peninha em gravações de discos do Barão Vermelho. Porém, ainda não nesse disco que se tornariam membros efetivados na banda.
“Não Me Acabo” surge como um dos grandes momentos do disco. Parceria de Paulo Miklos e Arnaldo Antunes, tem um arranjo direto, guitarras em staccato e refrão que borra a fronteira entre hino e ameaça. A voz de Frejat tem uma rusticidade que faz a música soar como um manifesto: não é só sobre resistir — é sobre resistir em pé, desaforadamente.
“O Que Você Faz à Noite?” é outra pancada. Letra de Dé com Humberto Gessinger, linhas de baixo sinuosas, batuques de Peninha, teclados discretos. Essa faixa sintetiza bem a modernização do Barão: ainda é rock de rua, mas agora com texturas de samba-funk, contrapontos de teclados e elementos de groove.
“Nunca Existiu Pecado” encerra o lado A do disco como uma espécie de delírio psicodélico tropical. Há uma cítara tocada por André Gomes, um arranjo carregado de eco e um clima que lembra os Beatles pós-1967, misturados ao humor negro do rock brasileiro. A música estourou nas rádios, ganhou performance no programa Globo de Ouro, da TV Globo, mas carrega uma angústia existencial que a torna mais sombria do que qualquer balada comum.
O lado B abre com “Como um Furacão”, que traz metais arranjados por Ronaldo Barcelos e vocais de apoio que expandem o espectro sonoro da banda. É uma música de viagem, não narrativa: mais sensação do que argumento. Frejat se permite solos mais longos e quase “hendrixianos”.
"Quem Me Escuta" é um rock direto e festivo, cuja letra trata de obsessão amorosa: um sujeito sedento de amor, que insiste em conquistar alguém indiferente, transformando essa paixão em obstinação quase doentia.
Parceria de baixistas: a faixa "O Que Você Faz À Noite" foi composta pelo baixista Dé Palmeira, do Barão Vermelho, e por Humberto Gessinger, baixista e vocalista dos Engenheiros do Hawaii.
Com um riff de guitarra que remete a “(I Can't Get No) Satisfaction”, dos Rolling Stones, "Selvagem" mantém a pegada rock’n’roll da faixa anterior. Frejat canta versos que celebram um personagem urbano, selvagem e hedonista, que se vê como guerreiro moderno: movido por instinto, excessos, energia e perigo, desafiando a cidade e o mundo.
“Carnaval”, faixa-título, mistura rock e latinidade com ecos de Carlos Santana: guitarras sinuosas, percussão tribal e sopros. A letra não descreve o carnaval como festa, mas como ritual de fogo e ruína. É o ponto central do disco em termos de conceito: a festa como purgação do desespero.
Por fim, “Rock da Descerebração”, com letra de Cazuza, traz um humor ácido e desbocado. É o Barão dialogando com o passado — mas de igual para igual, sem nostalgia. Guto Goffi comanda a faixa com uma bateria cheia de breaks e viradas, enquanto Frejat leva a guitarra a um nível de distorção quase punk. É como se o disco se despedisse dizendo: “estamos vivos — e com a cabeça fervendo”.
Após o lançamento, a crítica da época logo percebeu que havia algo de definitivo ali. O disco foi chamado de “a reinvenção do Barão”, uma “volta às guitarras com sangue nos dentes”. Alguns jornalistas apontaram a mistura violenta de influências: Led Zeppelin, Stones, Jeff Beck, Rita Lee, Run-DMC, Paralamas — o rock sujo do início dos anos 1970 temperado com ecos de funk e percussões latinas. Carnaval era a colcha de retalhos assumida, como Frejat explicou numa entrevista: um disco sem vergonha de mexer na ferida e de incorporar tudo o que havia no som urbano daquele final de década.
Quanto ao desempenho comercial, foi o primeiro disco da fase Frejat como vocalista a vender expressivamente. Nada de megahit à la “Pro Dia Nascer Feliz”, mas a banda enfim saiu do segundo escalão para voltar à superfície. “Pense e Dance” foi um hit nacional ao entrar para a trilha sonora da novela Vale Tudo, da TV Globo, como tema das cenas de Maria Fátima (Glória Pires), que arquitetava estratégias ardilosas para alcançar seus objetivos sem esforço.
“Não Me Acabo” virou favorita nas rádios rock, enquanto “Nunca Existiu Pecado” ocupou espaço nas FMs com sua balada pesada, quase psicodélica. As vendas ultrapassaram a marca de 100 mil cópias, superando os dois discos anteriores juntos — algo que o Barão não via desde os tempos de Cazuza. Para uma banda que havia sido dada como morta, aquilo era uma ressurreição.
"Pense e Dance" embalou as cenas das armações ardilosas da vilã Maria de Fátima, vivida por Glória Pires, na versão original da novela Vale Tudo, da TV Globo, em 1988.
Mesmo com erros estratégicos da gravadora — como ter lançado a balada “Nunca Existiu Pecado” como segundo single, em vez da mais explosiva “Não Me Acabo” —, o álbum conseguiu recolocar o Barão na estrada, com casas cheias. E isso talvez tenha sido o maior triunfo: não o número de discos vendidos, mas o barulho do público cantando de novo as músicas de uma banda que se recusava a desaparecer.
O impacto do disco foi imediato. A turnê de Carnaval rendeu o primeiro álbum ao vivo da banda, Barão Ao Vivo, gravado na casa noturna Dama Xoc, em São Paulo. O disco mostrou a força, a crueza e o peso do Barão Vermelho no palco. O prestígio reconquistado levou a banda à segunda edição do festival Hollywood Rock, em janeiro de 1990, com etapas no Rio de Janeiro e em São Paulo.
Mas nem tudo foram flores naquele momento de renascimento do Barão Vermelho. Internamente, o baixista Dé Palmeira mostrava-se insatisfeito por ter pouco espaço na banda como compositor — espaço esse majoritariamente dominado por Frejat e Guto. Em 1990, já no começo das gravações do álbum Na Calada da Noite, Dé decidiu deixar o Barão Vermelho. Em seu lugar, a banda convidou ninguém menos que Dadi Carvalho, ex-baixista dos Novos Baianos e da A Cor do Som. A ironia do destino é que Dadi era um dos ídolos de Dé Palmeira.
Com a saída de Dé, o Barão Vermelho passou por uma nova transformação. Além da chegada de Dadi, os músicos Fernando Guimarães e Peninha foram efetivados como integrantes oficiais do Barão Vermelho, o que levou a banda a voltar a ser um quinteto.
À distância do tempo, a conclusão que se chega é que Carnaval foi muito além de um bom disco de rock. Foi a prova de que a banda tinha uma identidade própria, resiliente e autêntica, capaz de resistir às adversidades e se reinventar. Foi, sobretudo, um disco de superação. Se a saída de Cazuza foi a tempestade, Carnaval foi o porto seguro que ancorou o Barão Vermelho, garantindo sua sobrevivência e solidificando seu lugar na história do rock brasileiro.
Faixas
Lado A
1-"Lente" (Roberto Frejat-Arnaldo Antunes)
2-"Pense e Dance" (Dé Palmeira-Frejat-Guto Goffi)
3-"Não Me Acabo" (Arnaldo Antunes-Paulo Miklos)
4-"O Que Você Faz à Noite" (Dé-Humerto Gessinger)
5-"Nunca Existiu Pecado" (Frejat-Guto Goffi)
Lado B
6-"Como um Furacão" (Frejat-Guto Goffi-Sérgio Serra)