Terceiro álbum solo de Hermeto, um dos que mais gosto. Os adjetivos sublime e provocador ainda são pouco para definir esse LP. Na dúvida, chame "zabelê pra poder te conhecer".
16 - Pinocchio (Viaggio in groppa al tonno) Fiorenzo Carpi 17 - Cahi en la Trampa Fiorenzo Carpi 18 - Clandestino
Manu Chao
19 - Rumba de Barcelona
Manu Chao
20 - La despedida
Manu Chao
21 - Mala vida
22 - Radio Bemba
23 - Que paso que paso
24 - Pinocchio (Viaggio In Groppa Al Tonno) Fiorenzo Carpi 25 - La Primavera
Manu Chao 26 - The monkey La Mano Negra 27 - King Kong Five La Mano Negra 28 - Minha galera
Manu Chao
29 - Promiscuity
Manu Chao
Músicos Manu Chao - Madjid Fahem - Jean Michel Dercourt aka Gambeat - David Bourguignon - Gerard Casajus Gaita - Julio García Lobos - Bidji (Lyricson) - Roy Paci - Gianny Salazar Camacho - B-Roy
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Manu Chao, nascido José Manuel Tomás Arturo Chao Ortega em, 1961, é um músico espanhol nascido na França. Ele canta em diversos idiomas além do espanhol. Chao começou sua carreira musical em Paris, tocando nas ruas pautado pela diversidade musical. Foi fundador da banda Mano Negra, em 1987. Desde 1995, trabalha a sua carreira solo.
Este é um CD gravado de shows realizados em 2001, embora contenha um repertório já conhecido do período no Mano Negra, Radio Bemba Sound System tem arranjos mais calcados pelo reggae, ska e rock. Radio Bemba Sound System também é o nome da banda de apoio de Manu Chao, batizada em homenagem ao sistema de comunicação usado na Sierra Maestra pelos rebeldes liderados por Castro e Guevara na Revolução Cubana. Trata-se de uma festa internacionalista para os "clandestinos" de todo o mundo.
Esperar por cada álbum novo de Deerhunter tornou-se motivo de ansiedade e sofrimento por antecipação, que são das coisas que o meu corpo menos tolera. Neste caso concreto, repercute-se muito rapidamente em queda de cabelo, pruridos vários a percorrerem o corpo, cansaço psicológico. De modos que há que agradecer desde já, aqui e agora, ao senhor que atropelou Bradford Cox enquanto passeava o seu cão no final do ano passado, levando-o a conceber este álbum no seguimento do “acidente”.
Mas este foi apenas um dos pontos de partida para o desenhar de Fading Frontier – o próprio Cox colocou no site oficial da banda um mapa com todas as influências que foram consideradas para o efeito, mapa que aqui partilhamos – Concept Map. No centro está, como relatado acima, o seu cão Faulkner e o acidente. Mas se olharmos para a periferia, ressaltam várias bandas que ficam na fronteira entre o alternativo e o pop, como os R.E.M., INXS, Tom Petty, Caetano Veloso. Será esta a tal fading frontier mencionada no título? Porque de facto é uma fronteira cada vez mais esbatida, menos clara. Basta pensar nuns War on Drugs (uma das bandas mais valorizadas pelos meios alternativos o ano passado) e a sua proximidade sonora com um Bryan Adams. Ou numa massificação latente de bandas com raízes alternativas, Kings of Leon, Killers, Arcade Fire até (estes sem concessões de ideias sonoras). Ou apresentando a discografia dos Deerhunter e encaixar esta mais recente peça do puzzle, no que é claramente o mais acessível álbum de sempre da banda de Atlanta. E no “acessível”, não se entenda um tom depreciativo, é um caminho. Já vamos no sétimo álbum de Deerhunter e neste tempo uma coisa é clara – não existe um som típico dos Deerhunter.
Com uma curta duração, de apenas 37 minutos e 9 músicas, Fading Frontier sabe a pouco. Mas isto pode ser defeito de fabrico, o querer um pouco mais das boas coisas da vida. Qual docinho que se derrete nas nossas bocas, acaba com vontade de se ouvir novamente. “Breaker” é puro prazer, “Leather & Wood” é momento de pausa e reflexão, minimalista, “Ad Astra” é um registo dream pop, para nos transportar para longe por uns minutos, “Carrion” é fim de festa com a força redobrada. What’s wrong with me?, pergunta Bradford. Nós dizemos que nada, Bradford, é continuar o bom serviço público.
“Arabica” tocaria Xerazade se fosse moça dos anos 90, findas as mil e uma escutas pedir-lhe-ia o rei um bis. Faz-se em “Marr” o que fariam os Smiths se se aguentassem até a sua Manchester virar Madchester e o banho-ruído rosa lhes lavasse a cara em 1991; mas destino o quis assim, que os Basset Hounds tocassem isso por eles, 24 anos metaforicamente volvidos. É atrelada aos Crazy Horse que corre a caravana de “Young”, olhe o passageiro pela janela do transporte e só verá as paisagens de Against Perfection e Nothing. Nas águas sónicas tremulosas de “Oscilations” reverbera o grandioso Oshin, epítome da fusão indie rock/shoegaze. Mais que incendiárias revisitações de estilos ou influências, as canções do álbum de estreia dos Basset Hounds são emaranhados pequenos abraços de gente que nunca se abraçaria – imposição geográfica, temporal ou ideológica preponderante.
“Swallow Bliss” lembra a conjugação surf rock/shoegaze dos contemporâneos WESTKUST, porém esta é interpolada por morosa e agressiva “riffalhada” à boa maneira stoner, duelos de guitarra discordantes e desorientados que gradualmente se fundem em canto de sereia, uma explosão de solo histrionicamente jubiloso e efusivo. “Sound” imagina os RIDE como banda da C86. “Take Time” vive de um riff conjurado da mais punk e mal-ventilada das garagens, mas o papá ainda não tinha tirado os pósteres dos Lush antes de os meninos a ocuparem. O rock vive da revitalização destemida, daquele que faz do acorde enciclopédia.
O trio constituído por “Over The Eyes”, “Medley” (delicado e precioso momento acústico, bucólico e singular na forma como se apresenta e dissipa tão oportunamente) e “Take Time” (sendo que a transição entre estes dois últimos temas é de cortar a respiração, tal a tamanha descarga de energia e poderio) põe por terra quaisquer dúvidas que se tenha acerca do talento destes senhores. Gravam estes temas em separado e aparentam estar juntos, em sincronia que dir-se-ia, à falta de melhor termo, perfeita. Entregam-se à imensidão do volume – brincam, exploram, ensurdecem na multiplicação de efeitos e camadas. Alguém falou em Going Blank Again?
Desta matéria são feitos os grandes álbuns rock. Basset Hounds é um marco na história breve do shoegaze português. Sempre Loveless, mas para amar.
Depois de dois discos com o Experimentar, Pedro Lucas cruzou-se com Carlos Medeiros começaram a trabalhar, de raíz, num disco conjunto. Pedro mais dedicado à parte musical, Carlos debruçado na dimensão lírica. Esta lírica é retirada de textos clássicos – de Cervantes e seu Quixote, a poetas açoreanos menos conhecidos no continente, como Armando Côrtes-Rodrigues, passando por ladaínhas insulares transmitidas de boca em boca e sem autor conhecido.
Os poemas são carregados de alma, dor, mar, jornada errante, destino por cumprir, desolação e regresso esventrado à casa de partida – e tudo neste disco decorre literalmente em Mar Aberto. A bordo de um navio de média dimensão vai um simples marujo, jovem, meio iludido e ignorante, pronto para deixar para trás o berço e cruzar os mares, lutando contra moinhos, ou gigantes, que apareçam. Com jeitos de cavaleiro, este marujo é destemido, porque não sabe ao certo ao que vai. Durante a viagem, há marés e ventos desfavoráveis, enjoos e alturas em que coloca tudo em causa, mas também há noites de lua cheia e mar tranquilo, noites silenciosas para escutar as dores do coração.
A jornada que faz é longa, parte de uma ilha perdida no Atlântico, quase esbarra na costa alentejana, desce ao estreito de Gibraltar, aporta no norte de África, prossegue Mediterrâneo adentro até à Mesopotâmia. Depois, tudo de volta para trás, até chegar a casa, totalmente esvaziado de emoções.
Esta viagem, adivinhamos-lhe o trajecto pela pela música que ecoa no navio, com o ribombar constante de tambores, linhas de baixo cheias de nevoeiro, guitarras em fraseados hipnóticos sempre ao despique com a voz, grave, intensa, imponente. Com marimbas e vibrafones ocasionais, percebemos a passagem breve por ilhas tropicais. Mas, quase sempre, em velocidade cruzeiro – há uma tensão constante em todo o disco, mas que raramente chega de facto a rebentar.
Toda esta música sai da cabeça de Pedro Lucas, açoreano radicado em Copenhaga, que já nos havia brindado com um dos projectos mais originais dos últimos anos – o Experimentar foi finalista na primeira edição dos Prémios Megafone – fundados em homenagem a João Aguardela, criador dos Sitiados e A Naifa, exaustivo buscador da tradição musical portuguesa, que fundia à músicalidade do seu tempo (acaso ou talvez não, entre os poucos convidados neste disco está Mitó Mendes, vocalista d’A Naifa)
Com o novo projecto, ao lado de Carlos Medeiros, Pedro Lucas dá menos atenção à experimentação e aprofunda meticulosamente o conceito iniciado com o projecto anterior. Mas onde o Experimentar podia soar a manta de retalhos, bordada a solo num quarto, Medeiros/Lucas cria uma linguagem sem igual no panorama nacional. O contemporâneo está nos sintetizadores ora mais subtis ora mais ostensivos. O ancestral está no canto de Carlos Medeiros. O que acontece no meio é uma construção, orgânica e instrumental, que funde de forma natural o tempo – outrora e agora – e o espaço – Atlântico luso, Ibéria árabe e Médio Oriente das Mil e Uma Noites.
Medeiros/Lucas é, portanto, o projecto mais interessante da actual música portuguesa. Um caldeirão enorme onde cabe um sem número de elementos e ingredientes que remetem para uma portugalidade anterior à nacionalidade, quando esta terra era populada por tribos.
Let Love In foi a primeira tentativa, não admitida, de trazer Nick Cave e os Bad Seeds para a primeira divisão, para o público de massas.
Em 1993, Nick Cave and the Bad Seeds lançam Live Seeds, 13 temas ao vivo que, de certa forma, serviam como uma espécie de best-of dos primeiros anos de vida da banda do ex-Birthday Party, para além de darem um testemunho da sua força ao vivo, até hoje um dos grandes trunfos do conjunto.
Com o passado “arrumado”, o ano seguinte trouxe-nos Cave em mais um período de transformação, mas desta vez um que teria eco na década seguinte. Let Love In, de 1994, foi gravado pelos mesmos músicos que o seu antecessor disco de estúdio, Henry’s Dream. Mas, com Let Love In, o novo caminho para estes arruaceiros do rock estava já traçado. A grande diferença face aos álbuns anteriores, que nos atinge de imediato, é um cuidado na produção ausente até então. Esta era, afinal, a primeira tentativa não admitida de trazer Nick Cave e os Bad Seeds para a primeira divisão, para o público de massas. Aqui, Cave canta sobretudo sobre o amor, embora quase sempre da sua habitual forma algo peculiar e pouco óbvia. É um disco no qual o piano adquire um papel crescente, que viria a tornar-se quase esmagador em álbuns seguintes.
A razão pela qual Let Love In é, na nossa opinião, um dos melhores discos da óptima carreira de Cave é que aqui encontramos uma encruzilhada artística muito interessante, mas que a banda resolve sem problemas, fazendo a ponte entre o passado e o futuro, conseguindo trazer o melhor dos dois mundos. Ouça-se “Loverman”: é uma fusão quase perfeita entre o que Cave foi e para onde se dirigia.
Para além deste cruzamento, é o disco de vários grandes clássicos: a loucura gingona de “Jangling Jack”; a beleza baladeira de “Nobody’s Baby, Now” ou “Ain’t Gonna Rain Anymore”; e acima de tudo o pesadelo calmo e cinematográfico de “Red Right Hand”, como se David Lynch saísse do set de “Wild At Heart” para gravar o tema. Mas diga-se, não há uma música fraca entre as 10 que compõem o álbum.
Depois de Let Love In veio uma impressionante série de grandes discos: Murder Ballads, com estrondoso sucesso (e PJ Harvey e Kylie Minogue a ajudarem); o lindíssimo e pesaroso Boatman’s Call; e No More Shall We Part. Todos estes três discos, juntamente com Let Love In, compõem o quarteto central e mais forte de toda a obra de Nick Cave and The Bad Seeds. E, por falar em raiz, o caminho foi lançado no disco de 1994, que continua a ser a obra-maior de um dos mais relevantes artistas do nosso tempo.
Antes de começar a dissecação, é importante dizer que há uma grande injustiça que pessoas como, por exemplo, Thom Yorke (que tem os Atoms For Peace), conhecem muito bem. Quando um grupo atinge a estratosfera musical, a vontade de experimentar algo novo é uma opção muito frequente. Seja por causa do ar rarefeito que se faz sentir no topo do pedestal onde os pomos, ou simplesmente para brincar um bocadinho, o projecto que nasce depois vem sempre com o peso do que veio antes. Torna-se quase impossível avaliar o novo caminho porque já sabemos de cor o anterior – e isso não é justo. Se a ideia fosse a de manter a imagem de marca, não seria preciso fazer nada de novo, por isso porque é que não conseguimos dividir as coisas? É injusto, mas quase impossível de contornar. Chegou a vez de Berninger sentir isso na pele.
Dotado de uma esquizofrenia musical quase patológica, Return To The Moon devia ter sido uma compilação, não um álbum. Flutua-se entre um synth pop com teclados demasiado confusos, quase a roçar o foleiro (“Return To The Moon”) e outras nuances rockeiras mais aguerridas (“Happiness,Missouri”). Nestes devaneios estilísticos esconde-se um Matt muito confuso, sem saber como pôr tudo a funcionar – a voz pesada com a leveza dos instrumentais. É aqui que entra o apontamento que falei no início. Só nas músicas mais doces, calmas – “à The National”- é que a coisa corre melhor. “Careless” é bonita, assim como “No Time To Crank The Sun” e “Sleeping Light”. Tudo o resto é um somar de baterias molengonas, uma ou outra guitarra tímida e teclados, muitos teclados, demasiados teclados.
Se Matt não fosse o viçoso líder do The National, a avaliação seria a mesma? Nesta situação, ao contrário da atitude preconceituosa que costuma avaliar casos deste género, acho que sim. A falta de orientação na estrutura do disco e os vários momentos quase constrangedores em que vemos Berninger como peixe fora de água deixam a desejar. Que os National nunca padeçam deste mal, é o que eu desejo.
Não passou de uma experiência, Berninger e Knopf já o disseram várias vezes. Esperemos que sim.
“Tentaram me matar com tiros / Tentaram me matar de fome / Tentaram me infectar com muitos tipos de vírus / Mas falharam em me eliminar / Falharam em me destruir” canta Ice T em “Live Forever”, sexta faixa deMerciless, oitavo disco de estúdio do Body Count, lançado em novembro de 2024 (lá fora, pela gravadora Century Media, nos formatos CD, Vinil – em várias cores diferentes – e um “Deluxe Box” com um CD extra com as versões instrumentais das faixas, além de “brindes” como bandana e munhequeira; enquanto, aqui no Brasil, foi lançado pela gravadora Shinigami, apenas no formato CD Digipak), o quarto registro onde a banda é formada, além de Ice nos vocais, por Ernie C. nas guitarras, Sean E. Sean nos samplers e backing vocals (estes dois, os únicos sobreviventes da formação original, ao lado, claro, do “chefão” Ice T), Juan Of The Dead nas guitarras, Vincent Price no baixo, e Ill Will na bateria, além do vocalista de apoio Little Ice e do produtor Will Putney, que também atua como guitarrista adicional e participa da composição em praticamente todas as faixas do registro (ele que também é guitarrista da banda Fit for an Autopsy). Com doze faixas em pouco mais de quarenta e um minutos, Ice e sua turma mantém a mistura de rap com metal que tornou o Body Count famoso lá no começo da década de 1990, mas parecem levar a sonoridade do grupo alguns passos adiante nas direções mais “pesadas” do estilo.
Faixas como a veloz “Psychopath” (primeiro single de divulgação do álbum, e que conta com os vocais do músico convidado Joe Badolato, também do Fit for an Autopsy) e a brutal “The Purge” (com letra inspirada pela série de filmes de mesmo nome, e que conta nos vocais com a participação de George “Corpsegrinder” Fisher, do Cannibal Corpse) parecem saídas de alguns dos álbuns mais extremos do Slayer, enquanto a vinheta de abertura “Interrogation Interlude” aproxima a sonoridade do Body Count ao metal industrial de uma banda como o Ministry, por exemplo. A citada “Live Forever” (com participação nos vocais do cantor Howard Jones, ex-Killswitch Engage, atual Light the Torch) tem, além de um dos melhores refrões do disco, alguns trechos que se aproximam do Death Metal Melódico (apesar dos vocais de Ice não terem nada a ver com o estilo), e a veloz “Drug Lords” (com uma rápida participação de Max Cavalera – vocês sabem quem – em um curto trecho falado em português) parece saída de algum dos primeiros discos do Soulfly (ainda que sem a percussão característica da banda – aliás, o encarte não especifica quem canta nesta faixa, mas eu arriscaria dizer que as vozes ficaram a cargo do baixista Vincent Price, porque, certamente, não é Ice quem está cantando aqui).
Body Count: Ill Will, Vincent Price e Sean E. Sean (atrás), Ernie C., Ice T e Juan Of The Dead (mais à frente)
“Do or Die” tem algumas partes que poderiam ser consideradas como o chamado “pula pula” do nu metal, enquanto “World War” parece saída de algum disco antigo do Biohazard, e composições como a faixa título, “Fuck What You Heard”, “Mic Contract” (todas com bastante destaque para o baixo) ou “Lying Motherfucka” já se aproximam mais do estilo “tradicional” do grupo, apostando no peso em demérito da velocidade, e onde Ice atua mais como rapper do que como cantor.
A parte lírica também sofreu algumas alterações desde os primeiros discos, afinal, se “Mic Contract”, “Do or Die” (que prega contra o crescente armamento da população dos EUA como forma de autodefesa, mas onde Ice diz que “se você vier pra cima de mim com uma automática, eu não vou me defender apenas com uma faca” e que ele não é “nenhum filha da puta pró-armas”, mas sim “pró manter-se vivo”) ou a própria “Merciless” ainda tratam da dificuldade da vida nas cada vez mais violentas ruas da Los Angeles natal do grupo (ou de qualquer outra cidade grande no mundo), “World War” alerta para o fato de que a humanidade está cada vez mais próxima de um conflito mundial em larga escala, tema que também permeia “Drug Lords”, onde Ice fala sobre quem realmente “manda” na política do planeta. “The Purge” e “Psychopath” foram inspiradas por filmes que Ice T assistiu durante a pandemia de Covid 19, enquanto “Lying Motherfucka” é um ataque direto a Donald Trump (“Você tem pessoas que continuam a lhe apoiar / ainda que as merdas que você diz já tenham se provadas falsas / Você mente para o mundo inteiro / e ainda planeja se candidatar novamente para Presidente“), e “Fuck What You Heard” é uma crítica ao sistema político norte americano como um todo (“Esquerda e Direita são asas de uma mesma ave / Eles querem nos separar / Nos manter lutando uns contra os outros /Enquanto roubam o trem“). Já a surpreendente recriação da clássica “Comfortably Numb” (aquela mesma, que, aqui, chega até a contar com a própria participação do compositor David Gilmour na reinvenção de um dos mais emblemáticos solos de guitarra da história do rock, na única faixa do disco que passa dos quatro minutos de duração) trata da alienação da população, que fica imersa nas “redes sociais” o tempo todo, e acaba alienada (ou “confortavelmente entorpecida”, como diz o título da música) do que realmente está acontecendo atualmente no mundo, sendo “informada” constantemente por Fake News e notícias “manipuladas” pelo governo ou pelos verdadeiros donos do poder no planeta.
Contracapa da versão nacional de Merciless
Merciless é um passo adiante na carreira da banda, com músicas fortes e letras ainda mais impactantes e abrangentes do que alguns dos registros anteriores. Como Ice canta em “Fuck What You Heard”, “Body Count’s in tha buildin’ ” mais uma vez, e, ao que parece, não vai sair tão cedo. Ainda bem!
“I refuse to give up / I refuse to shut up / You can try to stop me / You can try to kill me / But my voice will live forever“
Track List:
1. Interrogation Interlude 2. Merciless 3. The Purge 4. Psychopath 5. Fuck What You Heard 6. Live Forever 7. Do or Die 8. Comfortably Numb 9. Lying Motherfucka 10. Drug Lords 11. World War 12. Mic Contract
Headhunter é o sétimo álbum de estúdio da banda suíça Krokus, lançado em abril de 1983, através do selo Arista. O guitarrista principal do Krokus, Tommy Kiefer, foi forçado a deixar a banda no início da turnê de divulgação do álbum Hardware, de 1981, devido ao seu vício em heroína, então sendo substituído pelo estreante Mandy Meyer (ex-BM Smith). Kiefer tirou sua própria vida em 24 de dezembro de 1986, aos 34 anos, após não conseguir vencer seu vício. Meyer também deixa o grupo na sequência, sendo substituído por Mark Kohler, e Mandy se juntou ao baixista Tommy Keiser, da banda suíça Roxane, para formarem seu próprio conjunto. Meyer retornaria ao Krokus anos depois.
Em 1982, sob nova direção nos Estados Unidos, o Krokus gravou One Vice at a Time, o qual incluía os sucessos “Long Stick Goes Boom” e o cover de “American Woman”, do The Guess Who. Na época da gravação deste álbum, a banda já havia se separado do baixista Jürg Naegeli, e o multi-instrumentista Chris von Rohr assumiu também o papel de baixista principal. Este álbum também marcou a estreia em estúdio de Mark Kohler na guitarra base. Chris von Rohr descreveu o álbum na época como “o álbum que o AC/DC nunca fez“, já que a influência da banda australiana é inegável. As comparações, na verdade, lançaram dúvidas sobre a criatividade do grupo, pois muitos ouvintes, apesar do espectro musical muito mais amplo da banda suíça, passaram a considerar o Krokus meramente como imitadores do AC/DC. Ainda assim, o Krokus se tornou cada vez mais popular na Europa e começou a receber atenção e sucesso nos Estados Unidos.
Krokus em 1983: Steve Pace, Mark Kohler, Marc Storace, Fernando Von Arb e Chris Von Rohr
Na sequência, Headhunter foi gravado no Bee Jay Studios, em Orlando, na Flórida e a produção ficou a cargo de Tom Allom. “Screaming in the Night”, o maior sucesso da banda até hoje, ainda é tocada em estações de rádio de rock clássico e está no trabalho. Headhunter também é o único álbum do Krokus com Steve Pace na bateria. A banda era completada por Marc Storace (Vocal), Fernando von Arb (Guitarra solo), Mark Kohler (Guitarra base) e Chris von Rohr (Baixo). Também os vocalistas Rob Halford (Judas Priest) e Jimi Jamison (Survivor) fazem backing vocals no disco, respectivamente em “Ready to Burn” e “Screaming in the Night”.
Single de “Eat the Rich”
“Headhunter” abre o disco com uma pegada glam metal, que lembra bastante os primeiros álbuns do Mötley Crüe. “Eat the Rich” segue a mesma sonoridade da canção anterior, mas com menos peso e menos velocidade. “Screaming in the Night”, um verdadeiro clássico do Krokus, é uma balada poderosa e repleta de feeling, com ótima atuação de Storace. Em “Ready to Burn”, as influências de AC/DC ficam realmente explícitas, com um Hard Rock bem vigoroso.
Já “Night Wolf” é um Hard Rock mais veloz, com bastante potência e aceleração. Uma competente (e pesada) versão para “Stayed Awake All Night”, da Bachman-Turner Overdrive, traz as guitarras bem afiadas. Mais cadenciada, mas sem abrir mão de uma boa dose de peso, “Stand and Be Counted” também empolga. “White Din” é um pequeno interlúdio que antecede a derradeira música do trabalho, “Russian Winter”, a qual encerra o disco com peso e intensidade, em um ótimo Hard Rock.
EP 12″ de “Screaming in the Night”
Headhunter traz o Krokus em seu auge, tanto comercial quanto musicalmente. Se a banda não inventa nada – e realmente não – executa o que se propõe com muita competência. Assim, as guitarras são um ponto fundamental da musicalidade do Krokus. O disco representa bem as fontes em que o grupo bebia: o AC/DC é uma influência inegável em canções como “Ready to Burn” e “Russian Winter”, por exemplo.
Os vocais de Storace me lembram bastante os de Bon Scott em várias passagens. Entretanto, querendo conquistar o mercado dos EUA, o flerte com o Glam Metal também era notório musicalmente (além do visual), em faixas como “Headhunter” e a ótima balada “Screaming in the Night”. Pelo exposto, cabe ressaltar que Headhunter é forte candidato ao posto de melhor álbum do Krokus.
Single de “Stayed in the Night”. O vinil é preto, apesar da capa mostrá-lo em azul
Headhunter foi muito bem-sucedido, atingindo a 25ª posição da principal parada norte-americana e a 74ª de sua correspondente britânica. “Screaming in the Night” e “Stayed Awake All Night” foram singles, sem maiores repercussões nas principais paradas de sucesso. O álbum foi o de maior sucesso do Krokus até então, tanto comercialmente quanto em termos de crítica.
O baixista Chris von Rohr foi demitido do conjunto no final de 1983 por ter escrito um artigo, publicado em um importante jornal suíço, expondo os hábitos rock ‘n’ roll da banda, antes da apresentação do grupo no Festival RockPop, em Dortmund, Alemanha. O guitarrista rítmico Mark Kohler, então, passou para o baixo temporariamente e Patrick Mason, também conhecido como Patrick Mahassen, que havia tocado na banda suíça Crown, assumiu a guitarra rítmica pelo restante da turnê Headhunter.
No entanto, Mahassen deixou a banda antes da gravação do álbum seguinte, The Blitz, um disco no qual o grupo gravou como um quarteto. A turnê deste álbum contou com o retorno de Mark Kohler às guitarras, com Andy Tanas, ex-integrante do Black Oak Arkansas, sendo o baixista.
Enquanto isso, von Rohr produziria o álbum homônimo da banda Headhunter, em 1985, com os futuros membros do Krokus, Peter Tanner e Many Maurer, e lançaria um disco solo em 1987, intitulado Hammer & Tongue, que contou com a participação de seus ex-companheiros de banda do Krokus, Marc Storace e Fernando von Arb. Por fim, resta dizer que Headhunter supera a casa de 500 mil cópias vendidas apenas nos Estados Unidos.
Contra-capa de Headhunter
Faixas: 1. Headhunter 2. Eat the Rich 3. Screaming in the Night 4. Ready to Burn 5. Night Wolf 6. Stayed Awake All Night 7. Stand and Be Counted 8. White Din 9. Russian Winter