A marchinha carnavalesca Chiquita Bacana era uma das músicas mais frequentes nas cantorias domésticas de minha mãe, aliás, seu repertório de canções de carnaval era bastante extenso. Composta por Braguinha, ou João de Barro – como era conhecido o compositor carioca Carlos Alberto Ferreira Braga – e seu parceiro Alberto Ribeiro para o carnaval de 1949.
Interpretada primeiramente por Emilinha Borba, a música foi um sucesso estrondoso no ano em que foi lançada e se tornaria uma das mais cultuadas da prolífica produção musical (mais de 400 canções) de Braguinha.
Ao retratar, de forma divertida, uma mulher que fazia ‘o que lhe desse na telha’ sem se preocupar com a opinião alheia sobre seus atos, Braguinha e Ribeiro se inspiraram no existencialismo de Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir. O que fica explícito nos versos finais:
“Existencialista Com toda razão Só faz o que manda O seu coração”
Chiquita Bacana ganhou inúmeras regravações no Brasil e no exterior, inclusive uma versão em francês cantada por Josephine Baker. Em 1977, Caetano Veloso lançou A Filha da Chiquita Bacana, uma merecida homenagem a Braguinha em ritmo de frevo. A música é sobre a filha feminista da Chiquita, que “puxou à mamãe” e entra para o “Women’s Liberation Front”, movimento político feminista surgido durante a década de 1960.
A música em questão na verdade é um tipo diferente de diálogo musical: o entrelaçamento de duas canções que, à primeira vista, são totalmente díspares e que acabaram casando-se com ótimos resultados.
No álbum homônimo de estreia do cantor brasileiro Edson Cordeiro de 1992 há uma faixa que faz a junção da ária Rainha da Noite da ópera “A Flauta Mágica” do compositor austríaco Wolfgang Amadeus Mozart com Satisfaction, uma das canções mais marcantes dos Rolling Stones, escrita pela dupla Mick Jagger e Keith Richards.
Uma das coisas mais curiosas e divertidas é contraste entre a voz operística e aguda de Edson, ele canta a Rainha da Noite, e a voz roqueira e puxada para grave de Cássia Eller, que interpreta Satisfaction. O resultado é surpreendente e marcante.
Os três elementos do grupo tinham 22 anos quando formaram a banda. Todos nascidos nos subúrbios de Londres, começaram a tocar muito cedo desde rock até blues. Mais tarde se interessaram pela música clássica e pelo jazz. Em 1968 Keith Emerson e Greg Lake se encontraram em São Francisco. Keith tocava no conjunto The Nice e Greg no King Crimson. Na volta pra Inglaterra os dois saem dos seus conjuntos e vão a procura de um baterista. Carl Palmer se juntou em agosto de 1970, e logo após estreavam no Festival da Ilha de Wight. A plateia é tomada de surpresa pelo trio que usa canhões para causar espantosos efeitos.
Neste ano é lançado o primeiro álbum da Banda, chamado “Emerson Lake & Palmer” e conhecido como o disco da pomba de onde sai o hitLucky Man. Em 1971 é a vez do álbum “Tarkus”, um grande sucesso para a banda.
No dia 26 de Março de 1971 eles gravam o show no Newcastle City Hall, que deu origem ao álbum ao vivo “Pictures At An Exhibition”, baseado na obra do compositor russo Modest Mussorgsky e lançado naquele mesmo ano. O disco é uma obra de arte!
Com seu quarto álbum, ”Trilogy”, de 1972, o trio começava a conquistar o mundo. No final de 1973 é lançado “Brain Salad Surgery”, com este disco a banda chega ao topo do sucesso mundial.
Os 6 primeiros álbuns: ELP, Tarkus, Pictures at an Exhibition, Brain Salad Surgery e Welcome Back… Coleção: Derimar de Carvalho
O ELP usou, e ensinou outras bandas a usarem, tudo que a tecnologia contemporânea pôs a serviço da música. Apesar de ser apenas um trio, concebeu e executou obras com a complexidade e a sonoridade de uma orquestra de câmara.
Em 1974 é lançado um álbum triplo gravado ao vivo intitulado ”Welcome back my Friends, to the Show that never ends – Ladies and Gentlemen Emerson Lake & Palmer”.
Após lançamento de quatro álbuns de estúdio e dois gravados ao vivo o trio já começa a sentir aquele peso do desgaste das turnês e a necessidade de parar e procurar outros caminhos musicais, coisa que cada um estava inclinado a buscar.
Depois da turnê mundial “Welcome Back My Friends To The Show That Never Ends”, que incluiu toda a Europa, EUA e chegou até o Japão, de onde foram extraídas as músicas para o famoso álbum triplo em vinil, o trio resolve dar uma parada.
A banda retorna em 1977 com um álbum que mudou os seus rumos musicais: “Works”. Keith Emerson concluiu seu tão sonhado Piano Concerto n. 1, Greg Lake continua, agora mais livre, a compor suas baladas e Carl Palmer se dedica ao jazz que é, segundo ele, a inspiração que fez com que ele se tornasse baterista.
E ainda neste álbum não poderia faltar o carro-chefe do trio que sempre foi fazer versões progressivas de grandes obras clássicas. Aqui eles executam a versão rock para Fanfare For The Common Man do compositor clássico Aaron Copland. O álbum termina com Pirates uma canção com letras de Greg Lake em parceria com Pete Sinfield, que havia colabado nas letras de algumas músicas do “Brain Salad Surgery”.
Works I e II, Love Beach e In Concert. Coleção: Derimar de Carvalho
Ainda no ano de 1977 lançam “Works Vol.2” e as brigas internas começam a ficar mais acirradas. Durante o ano de 1978, o trio saiu em uma turnê pela América do Norte, finalizando-a no Canadá. Em termos financeiros a turnê foi um fracasso. Como levavam junto uma orquestra em cada apresentação, os custos se tornavam cada vez mais altos.
Para cumprir contrato com a gravadora, em 1979, eles produzem o álbum “Love Beach”. Muitos fãs se decepcionaram com o disco, principalmente pela capa onde os três estão fazendo poses a la Bee Gees, segundo a imprensa. Neste trabalho mais uma versão de uma obra clássica: Canario (da “Fantasía para un Geltilhombre”) do espanhol Joaquín Rodrigo.
Em 1986, Emerson e Lake se juntam ao baterista Cozy Powell e lançam o álbum “Emerson Lake & Powell” de onde sai o single Touch and Go. Mais uma vez o trio dá uma parada e continuam com seus trabalhos solos.
“Black Moon” é lançado em 1992 em uma nova tentativa de reunir a banda. No ano de 1994 foi lançado ”In The Hot Seat”, o nono e último álbum de estúdio do trio.
10 de março de 2016, mais uma noticia que abala o cenário da música mundial: Keith Emerson é encontrado morto, com um tiro na cabeça, em sua casa na cidade de Santa Monica – EUA. A perícia realizada concluiu que foi suicídio. 7 de dezembro do mesmo ano, Greg Lake perde sua batalha contra um câncer.
Para os fãs que ainda sonhavam em uma possível reunião do trio o sonho acabou.
Emerson Lake & Palmer foi uma banda que mudou, e muito, vários conceitos de como se fazer música e criou uma arte universal. Foi o fim de uma era grandiosa para o rock!
Segundo John Lennon, em certa ocasião ao escutar Yoko Ono tocar a “Sonata ao Luar”, de Beethoven, ao piano ele pediu a ela para inverter os acordes. Com o resultado da inversão John teve a ideia para escrever a canção Because.
A gravação da música pelos Beatles é um excelente exemplo de como o grupo, e o seu produtor George Martin, usavam os recursos de estúdio para criar verdadeiras obras de arte. George Martin toca a melodia de Lennon, inspirada por Beethoven, em um cravo elétrico e John a executa na guitarra. George Harrison toca um sintetizador Moog e Paul McCartney completa com o baixo. Ringo Starr, fora de cena, marcava o tempo no prato para George Martin, que o escuta por fones de ouvido enquanto dedilha o cravo.
John nas gravações de “Abbey Road”, 1969.
O ponto alto, entretanto, é a harmonia vocal feita por George (registro baixo), John (registro médio) e Paul (registro alto). Em seguida, cada uma das vozes foi multiplicada por três, o que resulta num fantástico “coral” de nove vozes.
Because foi lançada no álbum “Abbey Road”, de 1969, penúltimo a ser lançado pelos Beatles, porém o último a ser gravado.
A Sonata para Piano nº 14 é uma das músicas mais famosas do compositor alemão Ludwig van Beethoven. Ela ganhou o apelido de “ao Luar” cinco anos após a morte do músico. A peça para piano, que recebeu a indicação de “quasi una fantasia”, começa com um belo movimento lento e melancólico. É justamente este o que se tornou mais conhecido do público.
Beethoven ao piano.
A sonata foi dedicada à condessa Julie (Giulietta) Guicciardi, que havia sido aluna de Beethoven e por quem ele nutria uma grande paixão. Especula-se que ela teria sido a destinatária de uma carta que Beethoven escreveu, e nunca a enviou, chamada “À minha Amada Imortal”.
Essenza é o quarto álbum solo de Claudio Rocchi. A primeira faixa apresenta vozes com efeito de phasing, tablas, sintetizadores com drones (semelhantes aos primeiros trabalhos de Battiato) e a voz de um menino recitando algo em italiano. Isso me lembra o álbum de estreia do Picchio dal Pozzo e me arrepia. Outras faixas contam com flauta, saxofone, órgão, piano e bastante violão dedilhado. Rocchi canta de uma maneira muito peculiar, embora não tão diferente de outros artistas do mesmo estilo na cena italiana dos anos 70. Aliás, algumas partes me lembram o álbum de Sergius Golowin, considerando a evidente atmosfera psicodélica. O efeito de phasing contribui bastante para essa percepção.
E 21 anos depois, estou de volta para uma revisita. A resenha acima certamente resume meu ponto de vista atual. Não mencionei que há um elenco de apoio considerável para Rocchi neste trabalho, principalmente a dupla que formou o Albergo Intergalattico Spaziale, além de Elio D'Anna, do Osanna. A música pertence tanto ao folk quanto ao rock progressivo. Como observado na recente resenha de Arturo Stalteri sobre Andre Sulla Luna, a comparação automática é com Franco Battiato, embora não seja totalmente precisa. Alan Sorrenti, da época do Aria, seria outra referência. Algumas das passagens de teclado me lembram Stalteri, aliás.
Demorei um pouco para apreciar o som de Rufus Zuphall. Acho que queria Ohr e acabei recebendo Krautrock, não Kosmische. Sem dúvida, é um som fácil de curtir para quem gosta de rock com guitarra e flauta de 1971. Coloque na mesma categoria de Nosferatu, Ikarus, Os Mundi e Electric Sandwich.
---18/08/2025
É difícil criar uma narrativa a partir de alguns álbuns, e Phallobst é um deles. O álbum é dividido em cerca de metade instrumental e metade vocal, e em sua maior parte, controlado. É um rock progressivo mais tradicional do que o que normalmente se associa ao termo Krautrock. Há até um toque de folk rock. As referências citadas acima são precisas, e se você remover a proeminência da flauta, também poderá ver este álbum como um protótipo de bandas como Thirsty Moon ou Satin Whale. Curiosamente, este álbum seria originalmente lançado pela Ohr. Nas notas do encarte do CD, muito se fala sobre o mellotron, mas seu uso é bastante sutil, aparecendo apenas nas duas últimas faixas.
O CD inclui a primeira metade do concerto de despedida de Aachen de 1972. A segunda metade pode ser encontrada como faixas bônus em Weiss der Teufel, que eu não possuo. O concerto completo foi originalmente lançado como parte do conjunto de 4 LPs da Little Wing em 1993. A gravação do concerto em si não é das melhores, mas é suficiente para um evento de arquivo de 1972. É um show animado com algumas faixas únicas, principalmente a improvisação de nove minutos "Sau Aas". Não o suficiente para eu guardar como um complemento, no entanto.
Weiss der Teufel (1970)
O álbum de estreia de Rufus Zuphall foi lançado numa época em que a cena musical alemã começava a despontar. Seria mais um ano em que centenas de álbuns underground chegariam ao mercado, e o recém-cunhado rótulo Krautrock seria aplicado. Seria impossível até mesmo para o ouvinte mais dedicado acompanhar tudo! Mas, um ano antes, havia apenas um punhado de bandas conseguindo produzir esse novo tipo de som. Variando de experimentações como Electronic Mediation do Tangerine Dream, UFO do Guru Guru e o álbum de estreia do Kraftwerk, a jazzistas como Wolfgang Dauner, e chegando ao rock progressivo/blues britânico de bandas como Nosferatu, Out of Focus e Armageddon. Rufus Zuphall se aproxima mais deste último estilo. Flauta e guitarra desempenham um papel fundamental, e as composições não são particularmente selvagens ou intensas. Sua estrutura permanece livre, e a faixa-título é uma jam improvisada que ocupa um lado inteiro do disco, algo que já era bastante comum nos EUA e no Reino Unido naquela época. Quando ouvi este álbum pela primeira vez, há mais de 30 anos, fiquei um pouco insatisfeito, pois esperava algo mais experimental. Cerca de 10 anos depois, passei a apreciar mais o que a banda havia conquistado. E agora, duas décadas depois, ouço o álbum melhor do que nunca. Claro que tem falhas – mas isso faz parte do fascínio da cena. Nunca se tratou de perfeição clássica. Tratava-se da emoção crua que a juventude alemã havia reprimido e estava pronta para liberar. Weiss der Teufel faz parte dessa fase de construção.Propriedade: 1989 Little Wing (LP). Capa dupla com uma pintura exclusiva. Desde o início, a Little Wing tomou a controversa decisão de não usar capas originais e optar por ilustrações originais. Em geral, discordo dessa abordagem. Mas devo dizer que este álbum, juntamente com o Diluvium do Ainigma, é tão superior que preciso dar o devido crédito.
Este álbum é tão insano quanto Fat Dogs and Danishmen, mas talvez não tão maluco. Eles tendem a ter uma fusão mais leve e descontraída, à la Bacharach, nas melodias, com uma instrumentação de rock poderosa como base. Acho que gostei um pouco mais deste no geral.
Essa foi a minha primeira e única audição até hoje. Se eu tivesse pensado nisso na época, a comparação imediata seria com o álbum de estreia do Nine Days Wonder. Eles dominam o conceito de temas mutáveis. Não é tão radical ou roqueiro quanto o primeiro trabalho do NDW, mas não é um passeio tranquilo no parque de diversões. Além disso, como mencionei na resenha de Fat Dogs and Danishmen abaixo, Frank Zappa é uma comparação essencial. Há muitas ideias musicais ótimas aqui, embora estejam espalhadas por todo o álbum, então não se encaixam tão bem quanto se esperaria. Por causa disso, achei as músicas e suítes mais curtas do lado B mais agradáveis.
Cruisin' at Midnite (1981)
O último trabalho do Dr. Dopo Jam, Cruisin' at Midnite, é um álbum surpreendentemente bom para uma época tão avançada (e considerando o alerta do título). Solos de guitarra, flauta, sintetizador, violino e piano elétrico realmente fortes impulsionam a maioria das músicas. Além disso, há vários arranjos de metais interessantes, também fora de época. E considerando a herança do Dr. Dopo Jam, a dose de irreverência é felizmente menor, embora não tenha sido completamente eliminada. Há também uma pegada funk presente - semelhante a alguns grupos de Krautfusion do final dos anos 70, como Aera ou To Be, talvez. Mais para fãs de fusion do que de prog, eu diria.
Fat Dogs & Danishmen (1974)
O segundo álbum do Dr. Dopo Jam é a história de dois Frank Zappas. A maior parte do Lado 1, e partes do Lado 2, mostram o Zappa descontraído, e o medidor de palhaçada (agora um aplicativo no iPhone) chega ao limite. Tenho certeza de que "Ode to Daddy Meatloaf" e "Surfin' in Sahara" podem ser engraçadas para alguém em algum lugar, mas soam ridículas por aqui. A maior parte do Lado 2 mostra o Frank Zappa sério (bem, sério é um termo relativo, claro). Estamos falando da era Hot Rats. O saxofone com efeitos sonoros é repleto de arranjos musicais complexos e improvisações de jazz rock de primeira linha. O álbum atinge seu ápice nas duas faixas do meio do Lado 2. No geral, um álbum muito bom, que suspeito que poderia ter sido muito melhor. Uma oportunidade perdida.
Tracklist: 01 – Story Of The Yella Rose (Intro) 02 – Sayless 03 – I Know U Eat It 04 – Back Up (feat. Therealmiss Babydee) 05 – Captain Sava 06 – Fuck Em 07 – Sprung (feat. Ro$ama) 08 – Baddies 09 – Commas 10 – Fuck It Up Sis Part 2 11 – Myself (feat. Mont Monclair)