segunda-feira, 4 de maio de 2026

The Stone Roses – Second Coming (1994)

 


A discussão é tão velha como a história da música. Deve esta ser apreciada simplesmente pelo que é, pelo resultado final, pelo que nos faz sentir, ou deve ser analisada, dissecada, incorporada na própria história do autor no momento em que a produzia?

No Altamont, somos todos melómanos em vários graus, uma forma pomposa de dizer que somos loucos por música. E a verdade é que os loucos são assim, obsessivos, e ainda não encontrei um que não levasse mais longe o seu amor a um disco, a uma banda ou a uma música, procurando saber a história por trás dos sons. Consideraríamos de facto Exile on Main St. o melhor disco dos Stones se não conhecêssemos as peripécias excessivas e rocambolescas das gravações em França, no exílio fiscal na cave de Nellcôte? O White Album não deveria ser considerado o melhor disco dos Beatles, não fosse a história de que boa parte foi gravada individualmente, e não em conjunto? Ou é ou não verdade que parte do sucesso duradouro de Rumours, dos Fleetwood Mac, se prende com a mitologia da cocaína e das tensões entre a banda?

Falo disto porque o disco que nos traz aqui, Second Coming, dos Stone Roses, é um daqueles álbuns marcados pelo folclore à volta da sua feitura. E, neste caso, não beneficiou nada com isso.

Para contar bem a história, temos de começar cinco anos antes, com a edição do disco de estreia, homónimo, dos Stone Roses. Nesse momento, o disco foi um enorme sucesso de vendas e de crítica, com a banda a ser – como tantas outras – anunciada como o maior novo grupo do Reino Unido. Tudo parecia, então, ao alcance dos quatro rapazes de Manchester: Ian Brown na voz, John Squire na guitarra, Mani no baixo e Remi na bateria.

O problema foi o que se seguiu. Ao vivo, os Roses eram capazes do melhor e do pior, mas era sobretudo o pior que ficava na memória das pessoas. A banda, que se havia formado em 1983, atinge o sucesso já com bagagem e cansaço em cima, e as elevadas expectativas só tornaram tudo mais difícil. Abuso de drogas e, sobretudo, de álcool, retiravam consistência às actuações. O carismático Ian Brown, uma personagem maior que a vida, não tinha e não tem uma voz por aí além. Em estúdio, o seu timbre agradável e a forma quase monocórdica de cantar iam dando para o gasto, ajudando até à imagem cool da banda, graças a camadas de efeitos. A verdade – e quem viu os Stone Roses no Alive há uns anos nunca se esquecerá – é que Brown tende a desafinar para lá do aceitável. E isso, num vocalista, estraga qualquer concerto. O início dos anos 90 foi marcado por excessos, indulgência, conflitos internos e concertos que oscilavam entre o razoável e o miserável. Chegaram a tocar em Vilar de Mouros, concerto que ficou famoso por ser um dos últimos da primeira encarnação do conjunto e por ter terminado a meio, tal o caos vivido no palco.

Em 1991, os Roses recebem um convite da gigante Geffen, e decidem abandonar a independente Silvertone, que lançara o disco de estreia. Seguiu-se uma dura batalha nos tribunais, que a banda acabaria por ganhar mas que os impediu de lançar nova música durante um período crucial. A Geffen presenteia os rapazes com um adiantamento de um milhão de libras, e isto traz duas coisas: margem para excessos e tempo ilimitado de estúdio. Os anos de 1992 e 1993 foram passados de forma pouco consequente, a que não foi indiferente o facto de tanto Squire como Brown terem sido pais. Foi também o período em que morreram várias pessoas próximas do núcleo duro da banda. O resultado disso foi o crescimento da frustração dos músicos com o rumo dos Stone Roses, e algum esquecimento por parte do público, a embarcar em plena euforia Britpop.

Entretanto, a banda ia compondo novos temas e prometia lançar um disco ainda mais forte que o anterior, determinada a provar que tinha ainda muita vida dentro de si. É assim que chegamos ao habilmente titulado Second Coming, cujo processo de gravação foi tão caótico como a vida dentro da banda.

A Manchester natal foi abandonada, e as gravações foram feitas em vários estúdios no País de Gales, ao longo de inúmeras sessões muito espaçadas. A banda dispensou a ajuda de um produtor, e as inúmeras possibilidade abertas por tempo ilimitado de estúdio – juntamente com a megalomania de Squire – fizeram com que tenham ficado no anedotário inglês as célebres maratonas de gravação de Second Coming. A última versão conhecida fala de 347 dias de estúdio, a trabalhar 10 horas por dia, ao longo de dois anos.

Resultado? Quando o disco sai, é uma de duas coisas: para uns motivo de piada; para outros, apenas irrelevante, dado o hiato decorrido desde o amado disco de estreia. A recepção do público até foi boa. Boas vendas iniciais, tanto do álbum como de singles, mas que se foram diluindo no turbilhão da música britânica de então. O mundo era agora dos Blur, dos Suede, dos Pulp e dos Oasis, e já não queria saber dos Stone Roses. Curiosamente, os Roses foram uma das grandes influências de um jovem Noel Gallagher, e ecos do seu som podem ser claramente ouvidos nos dois primeiros discos dos Blur. A crítica, com dezenas de coqueluches frescas a quem apaparicar, destruiu este regresso dos Stone Roses. A banda que havia sido britpop antes da britpop, pegando no ‘swing baggy’ da Madchester mas elevando o jogo até um pop-rock muito acima dos seus contemporâneos, estava agora do lado errado da história.

E foi este legado, sobretudo crítico, que pesou até hoje sobre este Second Coming, unanimemente considerado “muito pior do que o primeiro”, naturalmente por gente que engoliu a historieta que lhe venderam e não se deu ao trabalho de ouvir este enorme e delicioso segundo capítulo.

Se o primeiro disco é uma pérola pop do princípio ao fim, o segundo dá vários passos em frente. A banda surge narcotizada, relaxada, e muito marcada por um John Squire em extraordinária forma. Se inicialmente a sua composição era muito inspirada pelo dedilhar subtil de Johnny Marr, dos Smiths, aqui temos Squire em versão guitar hero dos anos 70. Mostra aqui ser um dos melhores, se não o melhor, guitarrista britânico da sua geração, taco a taco com Bernard Butler, dos Suede. O disco assenta em alguns eixos fundamentais: na belíssima forma de uma das melhores secções rítmicas de sempre, os gémeos do groove, Reni e Mani (este último que viria a ser fundamental na carreira dos Primal Scream, por exemplo); no fraseado cool e bem coberto de Brown; e sobretudo, na guitarra desbragada e cheia de feeling de Squire, que eleva todo o disco até um patamar de excelência. Quem gosta de rock, particularmente rock de guitarras, devia estudar este disco todos os dias da sua vida.

O disco começa, de forma apropriadamente megalómana, com uma faixa de 11 minutos: “Breaking Into Heaven”. Mais de quatro minutos são passados com ritmos tribais, entrecortados pela guitarra lancinante de Squire, que depois se lança num groove que traz a dança de Madchester para o rock descontraído dos meninos crescidos. “Driving South” é um monstro rock, movido por um poderoso riff e pelos solos enleantes e cristalinos que são a imagem de marca de Squire. Segue-se a primeira balada do disco, “Ten Storey Love Song”, uma das músicas mais bonitas do rock britânico, com um daqueles refrões de encher um estádio.  “Daybreak” é, basicamente, uma das melhores jams de sempre, num estilo ‘baggy’ todo ele feito de funk rock. “Your Star Will Shine” é um dos momentos acústicos, com ecos iniciais de Led Zeppelin e terminando numa ‘campfire song’ de altíssimo nível. “Straight To The Man” mostra, em todo o seu esplendor, os novos Roses: ritmo quase funk, cortesia de Reni e Mani, riffs blues e um ambiente descontraído e “ganzado”. De seguida temos o alien do disco: “Beggin You”, baseado num ritmo frenético de bateria e de um riff repetido e desconstruído de Squire. Hoje, soa a Kasabian em esteroides, e é talvez o tema mais dançável e mais diferente da discografia do grupo. “Tightrope” traz a calma de volta, com mais um belíssimo momento de descontração acústica, com a banda a cantar em coro, num registo quase hippie.  “Good Times” é Stone Roses vintage, num tema de rock clássico movido por Squire. Segue-se “Tears”, que começa num tom acústico que roça perigosamente os Bon Jovi de “Dead or Alive”, para depois ser resgatado quando a canção arranca a sério, acabando por mostrar que os receios iniciais eram infundados, e que a banda continua a recuperar sempre o bom gosto na composição e no arranjo. “How Do You Sleep” é uma canção simples, e provavelmente das coisas mais parecidas com uma música pop feita pela banda. É também um dos temas que mais remete para a sonoridade do disco de estreia. O último tema “assumido” do disco é “Love Spreads”, e aqui temos toda a banda em magnífica forma, com os quatro elementos a trabalharem em conjunto para nos trazerem uma canção em formato jam, que vai crescendo, crescendo, até rebentar num clássico refrão automático de Brown, que quando acerta é insuperável. Há ainda um último tema, conhecido por “Foz”, que pouca gente que tem o cd alguma vez terá ouvido. E ainda bem, porque não passa de alguma cacofonia “a la Captain Beefheart”. Nunca ninguém a ouviu porque a versão cd tem 99 faixas: entre os temas a sério e a faixa escondida há 80 e tal faixas de quatro segundos cada. Qual o objectivo? Ninguém sabe, mas é uma óptima forma de impedir que o disco seja ouvido em modo ‘shuffle’.

Como já relatado, foi a reacção crítica que matou, para sempre, Second Coming, condenando-o a viver com o rótulo de disco maldito. Os groupies excitados da britpop não aceitavam que os inspiradores do movimento, de repente, surgissem com um disco a soar a madchester vs rock americano dos anos 70, longe da simplicidade sonora da pop que então fazia o Reino Unido ser falado em todo o mundo. Junte-se a isto o folclore da gravação do álbum, meia dúzia de concertos desastrosos, e o resto é história. Pouco tempo depois, começaram os verdadeiros problemas dentro da banda, levando à saída de vários membros. Stone Roses não é a mesma coisa sem qualquer um daqueles quatro elementos (a suprema heresia foi tentar continuar a banda sem John Squire). Depois o fim, até ao regresso há poucos anos, mas sem material novo.

Para o mundo, os Roses são um disco e a sua gigantesca sombra. Mas o tempo é bom conselheiro, e Second Coming envelheceu bem. Continua relevante, complexo, fluido, ambicioso, e um compêndio na arte de fazer canções. É altura de os fãs desta enorme banda deixarem de ansiar por nova música ao nível do álbum de estreia. Eles já o fizeram, de forma diferente, há 21 anos.

Vamos sempre a tempo de corrigir uma enorme injustiça feita a um monumento do rock construído em Inglaterra.



Sleater-Kinney – No Cities to Love (2015)


Dez canções, meia hora de rock’n’roll, e eis as Sleater-Kinney de regresso aos discos após um hiato de quase uma década. Primeiro grande elogio: No Cities to Love, álbum número oito para as Sleater-Kinney, é como se o trio nunca se tivesse separado. É rock sujo, direto, com conteúdo. É bom, muito bom, quase sempre inatacável.

Corin Tucker, Carrie Brownstein e Janet Weiss são tipas que sabem o que fazem. As canções das Sleater-Kinney aliam jogos de guitarra a um interligar de vozes – tudo isto é rock, tudo isto é belo, e do simples e despojado se fazem cantigas enérgicas, meio caminho entre a agressividade e a doçura. Sempre com pertinência e vigor.

No Cities to Love foi gravado num ambiente de absoluto secretismo. Surge no mercado vinte anos após a estreia das Sleater-Kinney e dez anos após The Woods, último disco antes da dissolução do trio. Carrie Brownstein, vocalista e guitarrista, diz que a banda estava “possuída” quando compôs e gravou o disco. A química é evidente e a produção do colaborador de longa data John Goodmanson apenas adensa a sensação de que a novidade é como se não partisse de uma paragem.

Destacar canções é tarefa ingrata para um trabalho cujo global é maior que a soma das partes. No Cities to Love agarra-nos à primeira mas vai-nos conquistando ainda mais com o passar do tempo e das audições. Como o amor, o rock dá-nos vida. Bem-vindas de novo, Sleater-Kinney.



Johnny Cash – At San Quentin (1969)


Uma amiga minha sofre horrores desde miúda por causa do problema da comunicação. Segundo ela, cada um de nós é um mistério indecifrável e nenhum diálogo ou sequência de gestos conseguem alguma vez atravessar a parede invisível da nossa solidão. Há muitas circunstâncias em que a minha céptica amiga tem razão mas em 24 de Fevereiro de 1969, na prisão estadual de San Quentin, Johnny Cash entendeu a sua audiência e a sua audiência entendeu Johnny Cash. O milagre da comunicação aconteceu.

Sempre gostei das pessoas perdidas, dos que não se encaixam. Talvez por isso tanto me fascine a personagem Johnny Cash: o devoto viciado no pecado das anfetaminas, o sulista conservador que amava as minorias, o activista político que nunca votou, o bom cristão que sempre cobiçou a mulher alheia, o bom filantropo que tanto magoou os mais perto de si. Desde miúdo que uma sombra maldita pairou sobre os seus passos: a morte do irmão perfeito, a culpa da sobrevivência, um pai que lhe atira à cara “porque não foste tu?”, pegajosos fantasmas que nunca mais deixariam de o atormentar. Na música encontrou sempre um bálsamo para as suas dolorosas feridas. De ouvido sempre colado ao rádio, tanto jurou que um dia seria cantor que em cantor se tornou. E pondo nas canções um pouco da sua dor ela amainou um pouco. Já a rebeldia e a atracção pelo abismo atravessariam toda a sua vida.

Nunca ninguém na música country tinha levado tão longe o tema da escuridão. Uma obsessão perseguiu desde o princípio o seu imaginário artístico: o fora-da-lei e a prisão enquanto seu maldito habitat natural. Uma das suas primeiras músicas chama-se justamente “Folsom Prison Blues”; e um dos seus versos é particularmente inquietante: “I shot a man in Reno just to watch him die.” O vazio e a alienação de um homem levados aos seus chocantes limites.

O fora-da-lei é o protótipo do sujeito que não se encaixa, daí a sua eterna identificação. Quando pela primeira vez tocou numa prisão sentiu-se estranhamente em casa. Nunca antes tinha tido uma reacção tão intensa da sua audiência. Os espectáculos repetiram-se até que em 1968 acabou por captar em fita um desses famigerados concertos. Nasceu assim o álbum At Folsom Prison, muito bem recebido pela crítica e pelo público. Um ano depois surge a “sequela”, desta vez por detrás das grades de San Quentin. Mal sabia ele que este disco seria a sua obra-prima.

A prisão de alta segurança de San Quentin é a única em todo o estado da Califórnia a ter corredor da morte. Homicídio, violação, assalto à mão armada – são algumas das suas sombrias portas de acesso. Aqui ninguém cumpre pena por ter deixado o carro estacionado em cima do passeio. Cerca de mil reclusos aguardam expectantes a chegada do seu herói Johnny Cash. Em seu redor, cem guardas vigiam o local empunhando as suas nervosas espingardas. O ambiente é tenso. Já houve tentativas de fuga, polícias mortos, retaliações na solitária e antecipações na câmara de gás. Não é invulgar ocorrer um motim e, acontecendo-o agora, uma coisa é certa: não haveria armas suficientes para abater tanta gente.

Cash entra, de camisa azul, a mesma cor dos uniformes prisionais. Antes de subir ao palco, faz questão de apertar a mão aos detidos da linha da frente, como quem cumprimenta velhos amigos. Já em cima do estrado, ouvem-se as palavras que ficariam célebres: “Hello, I’m Johnny Cash.”

Se olharmos para o concerto com uma boa dose de paranóia ocultista depressa deciframos uma ordem escondida no alinhamento: amor, crime e redenção, peça em três andamentos. Não o estranhamos. Na obra de Cash há sempre este jogo de contrastes: deus e o diabo jogando às cartas no saloon das suas canções.

Amor, primeiro andamento. Com a sua voz grave e possante (épica mas vulnerável), Cash começa por entoar canções tristes de amor como “Big River” e “I Still Miss Someone”. Estando ali tantos corações destroçados (os muros altos de San Quentin não são os mais lovers friendly da cidade), a ressonância nos seus espectadores não poderia ser maior. Cash parte depois para uma canção de amor feliz, a icónica “Walk The Line”. Mas o tema é mais complexo do que parece. Se à sua superfície irradia a pureza de uma paixão redentora, no seu âmago esconde-se a vertigem da perdição. O seu subtexto reza assim: “porque te amo resisto às tentações: das mulheres, da bebida, dos speeds“. Se é verdade que no início da sua carreira Cash fez das tripas coração para não sucumbir ao “pecado”, também é verdade que a negação é quase sempre uma afirmação. Poucos passos separaram a sua pureza inicial da sua posterior “queda no mal”. A carne é fraca e mais fraca fica ainda na solidão da vida de estrada. Como dizer não ao diabo quando ele se esconde, sumarento, debaixo das saias das mais lindas groupies?

A linguagem moralista não aparece por acaso. Ao contrário da geração rock dos anos sessenta, em aberta confrontação com a moral judaico-cristã, a geração rockabilly dos anos 50 – de Elvis a Carl Perkins, de Jerry Lee Lewis a Johnny Cash – é profundamente cristã, em eterno conflito interior entre os mandamentos de Deus e os ínvios caminhos do rock’n’roll. O pecado, por mais inescapável que seja, tem assim para Cash o travo sempre amargo da culpa. “Que direito tem então o sistema penal de castigar tão severamente aquela gente se no fundo todos nós somos pecadores?”, pergunta Cash às cordas da sua viola. “O fogo da consciência e o chicote do remorso não serão suficientes?”

Mas o clímax do primeiro andamento surge em “Darlin’ Companion”, quando June Carter Cash sobe ao palco para um dueto com o seu marido. June é uma mulher bonita e o número carrega uma evidente tensão sexual, ainda para mais quando dentro das paredes de San Quentin as mulheres são um cruel sonho intangível. June, uma veterana nestes duetos, está invulgarmente tensa. Com todos aqueles olhos voluptuosos a morderem o seu corpo, e sabendo que alguns daqueles homens são perigosos violadores, June apenas anseia que a canção acabe o mais rapidamente possível. A passagem para o andamento seguinte surge com toda a naturalidade.

Crime, segundo andamento. Canções como “I Don’t Know Where I’m Bound”, “Starkville City Jail” e “Wanted Man” são agora disparadas à queima-roupa contra o nosso peito. O jogo de espelhos entre Cash e o seu público atinge agora o seu auge. Cash fala cada vez mais entre as canções. Toda a sua atitude em palco tem uma clara intenção: mostrar-se como um igual, um fora-da-lei por direito próprio. Quando menciona várias prisões faz questão de não se esquecer de “El Paso”, simpático estabelecimento prisional junto ao México onde passou uma vez uma noite por tentar atravessar a fronteira com mais de mil comprimidos de anfetaminas escondidos na sua viola. O escândalo fez manchete em muitos jornais e, se na altura a sua carreira passou um mau bocado, Cash tira agora pleno proveito da sua má fama.

Em “Starkville City Jail”, conta-nos que passou uma noite na dita prisão (mais trinta e seis dólares!) por apanhar flores às duas da manhã. A punch line é irresistível: “nem imagino o que me teriam feito se tivesse apanhado uma maçã”. Naquele contexto, com um público pejado de perigosos ladrões e assassinos, a ironia da inocência do seu crime é ainda mais deliciosa. Cash conquistou inteiramente o seu público. “É um dos nossos”, escutamos nós no calor cúmplice das suas ovações.

Mas o clímax da noite surge com “San Quentin”, uma canção onde Cash se coloca na pele da sua audiência, tentando imaginar o ódio que aquela prisão deve gerar às suas gentes. A aclamação do público é agora transbordante e a inquietação dos guardas-prisionais atinge o seu máximo. Mas de maneira nenhuma Johnny alivia a tensão. Pelo contrário, continua a esticar a corda, anunciando que vai repetir novamente a canção. E para aguçar ainda mais a provocação, Cash pergunta, malicioso: “if any of the guards still speaks to me, can I have a glass of water?” Um guarda entrega-lhe o dito copo de água, visivelmente incomodado, e ainda mais o fica quando centenas de detidos o vaiam em uníssono. A sala está agora ao rubro e, cavalgando a onda de excitação, Johnny canta “San Quentin” pela segunda vez. O concerto está a ser inacreditável mas cada vez mais os guardas receiam que este descambe num motim.

O segundo momento da noite acontece com “The Boy Named Sue”, um hilariante blues falado, com contornos edipianos, em que um durão pretende vingar-se do maldito pai que lhe desgraçou a vida dando-lhe o nome de Sue. A história é de tal forma engraçada, e Cash declama-a de forma tão convincente, que o disco At San Quentin tem finalmente consigo o ingrediente que lhe faltava: um single irresistível para o promover massivamente.

Redenção, terceiro andamento. Canções gospel como “There’ll Be Peace In The Valley” e “He Turned The Water Into Wine” iluminam por fim a escuridão. Ao nosso olhar europeu e secular, há algo de profundamente bizarro em encerrar um concerto para serial killers e demais escuteiros com hinos religiosos. Mas a América é um continente à parte onde ninguém estranha que o psicopata que massacrou cem pessoas no sábado à noite não falte depois à missa de domingo de manhã. Como Cash luta consigo próprio procurando a voz de Deus, impinge a mesma receita aos seus “irmãos”. Estranhamente, funciona. De repente, os criminosos mais perigosos do Estado da Califórnia encontram a paz na luz do senhor.

At San Quentin tornou-se um sucesso retumbante nos Estados Unidos, vendendo mais do que os próprios Beatles. 1969 foi o ano de Woodstock pelo que é natural que a sua mensagem anti-autoritária tenha sido bem acolhida pela contracultura juvenil de então. O curioso é que o álbum vendeu também que nem ginjas nos sectores mais conservadores da sociedade americana. O voyeurismo é uma pulsão muito forte, e talvez ainda mais forte no seio das domingueiras famílias da classe média, que tanto gostam de apimentar as suas vidas com o consumo – via sofá – do exotismo alheio. O disco foi então aclamado sob o signo da mais promíscua mixórdia: jovens e velhos, progressitas e conservadores, sulistas e yankees, democratas e republicanos, hillbillies e rockeiros, todos quiseram dar a sua espreitadela pela fechadura de San Quentin, deleitando-se com o rocambolesco submundo de uma das mais perigosas prisões do mundo.

Gosto de pensar porém que há muito mais em San Quentin do que a mera reportagem à National Geographic, do tipo “saiba todos os segredos da última tribo de índios canibais da Amazónia”. O que me fascina neste grande disco é a sua verdade humana, um instagram que capta a luta obstinada de um homem contra os seus poderosos demónios interiores, tentando ajudar os demais underdogs a fazerem o mesmo. Pouco que me importa que eu esteja nas antípodas das suas mitologias religiosas e moralistas. Acredito no homem por detrás da sua fé e isso basta-me. Um homem sombrio e misterioso, rebelde e corajoso, solidário e verdadeiro. No final, nem deus nem o diabo ganharam o jogo. Ganhou a humanidade.



Tyler, The Creator – Cherry Bomb (2015)


“Eu sou inteligente. Sou brilhante. Sou irritante e desagradável. Sou muito criativo e um génio sem limites. Sou, também, curioso e não tenho medo de explorar e fazer perguntas. E acho que as pessoas estão a começar a ver essas boas coisas em mim, não só o irritante e desagradável; começam a dizer «ele não é, de todo, estúpido.»”

Foi desta forma que Tyler Okonma – a.k.a. Tyler, The Creator – se descreveu, na semana passada, no programa Tavis Smiley.

Aos 24 anos, Tyler conta já com um currículo longo (para a idade que tem) no mundo da música: uma mixtape e, contando com Cherry Bomb, três álbuns de estúdio. Junta a isto a liderança do grupo OFWGKTA (Odd Future Wolf Gang Kill Them All), colaborando em muitos lançamentos do coletivo e com o trio BadBadNotGood.

Claro que não seria Tyler, The Creator se não se dedicasse a outras coisas para além da música. Para além desta nobre arte, também desenvolve trabalho nos campos do audiovisual  já realizou vários videoclips e séries —, da moda e do design — é ele quem cria todo o merchandise da OF e todas as capas para os seus lançamentos —, criou uma aplicação, uma revista e confessou estar também a criar mobília, utensílios de cozinha e carros.

Este criador-provocador, natural da Cidade dos Anjos, tem feito por expandir o leque de convidados nos seus álbuns: de colaborações apenas com os colegas da Odd Future (entre os quais Frank Ocean e Earl Sweatshirt) e pontuais outsiders como Erykah Badu, para, neste último álbum, Kanye West, Lil Wayne, Pharrell Williams, ScHoolboy Q, Charlie Wilson ou a superestrela do jazz e do funk Roy Ayers (que terá aceite a colaboração devido a umas transições de acordes “muito fixes”), entre vários outros.

Dando início à exploração dos tais acordes, a primeira canção de Cherry Bomb prende-nos imediatamente ao mesmo. Com um beat pulsante, um riff elétrico e uma raiva nas palavras que nos dá logo vontade de saltar e saber as letras, “Deathcamp” é uma afirmação do sucesso que ser diferente e pensar “fora da caixa” trouxeram a Tyler (“Them blind niggas used to make fun of my vision/ And now I’m paying mortgage and they’re stuck with tuition”) e é um louvar ao pensamento próprio e independente (“In the meantime brainwashing millions of minions/ Leaders of the new school? Ha, I’m in my own school/ And you would never catch me in none of their fucking shin-digs”). Há, ainda nesta música, um verso essencial para entender a música de Tyler: “In Search Of… [disco de estreia dos N.E.R.D.] did more for me than Illmatic [obrigatório disco de Nas]”. A mistura de funkjazzsoulhip-hop e rock e a produção que se ouve ao longo de todo o álbum refletem uma audição e um estudo exaustivos do álbum dos N.E.R.D., cuja produção deixa a sua marca em várias canções de Cherry Bomb, tanto que “Deathcamp” lembra quase imediatamente “Lapdance” ou “Rock Star” do dito disco.

Segue-se então “Buffalo”, na qual Tyler expressa sem filtros os seus sentimentos face aos acontecimentos negativos que fizeram notícia e provocaram algum escândalo, entre os quais os anúncios que realizou para a marca Mountain Dew ou a sua prisão após um concerto no Texas, onde foi acusado de incentivar um motim. Com uma instrumentação próxima do hip-hop mais clássico, esta faixa mostra algo que, neste álbum, está bastante presente: os sintetizadores brilhantes, cheios de cor, presença e carregados de uma agressividade estridente, que transportam para ondas sonoras a personalidade irrequieta de Tyler, The Creator.

Em “Pilot” ouvimos uma evolução que faz lembrar a de uma flor: com um início fechado e claustrofóbico, em que sufocamos entre a batida, a voz e o baixo pesados, carregados de reverb, a música vai desabrochando para um final limpo, no qual Tyler mostra a sua enorme sensibilidade musical.

Carregada de uma sonoridade jazzy, com claras influências do funk, da soul e até dalguma bossa nova, é em “Find Your Wings” que temos o prazer de ouvir a fantástica contribuição de Roy Ayers, no vibrafone, e é a primeira vez que ouvimos Tyler a cantar. Esta é, sem dúvida, uma das melhores músicas do álbum, que, na sua calma, é capaz de nos transportar para outro lado quase instantaneamente. Junta uma secção musical quase perfeita, uma mensagem simples, mas muito bela. “Find Your Wings” mostra-nos uma das melhores facetas de Tyler enquanto músico: o compositor. A meio, a canção toma um destino nada esperado mas inexplicavelmente certo, como se a transição não pudesse ter ocorrido de outro modo. Aí, entende-se porque razão um colosso como Roy Ayers, sem nada a provar a ninguém, terá aceite esta colaboração com um “miúdo” de 24 anos.

Depois deste momento de paz, somos bombardeados pela retorcida e distorcida “Cherry Bomb”, na qual Tyler segue agressivamente por um rap abafado pela instrumentação pesada, chegando então a “Blow My Load”. Uma canção simples, onde os sintetizadores conduzem a melodia até esta ser interrompida por um orgasmo, que então dá início a uma segunda parte que lembra um pouco “These Walls” de Kendrick Lamar.

Relaxamos e entramos na calma “2Seater”. A construção descontraída da música, que assenta na repetição de dois acordes no piano e do sample, cheio daquele hiss de cassete, de uma bateria simples, leva-nos lentamente, qual simpático 2CV, por uma qualquer estrada costeira fora, ao pôr do sol. Passando por uma belíssima ponte, em que cordas e sopros mantêm a melodia, somos guiados até um local onde apenas as cordas, um baixo e a voz de Tyler (a cantar!) ecoam. Cheios das cores vivas deste final de dia, somos contemplados com a visão hipnotizante dos cabelos da nossa amada a voar e a ondular enquanto o vento flui por entre eles, enquanto o jizz jazz de Mac DeMarco toca nas colunas do carro. Pelo menos, é essa a imagem que Tyler nos transmite nesta hipnotizante segunda parte da música. Este sonho do final de uma tarde de verão é interrompido por um borbulhar estranho e por uma voz zangada. É o início de “The Brown Stains of Darkeese Latifah Part 6-12 (Remix)”, que dá lugar a um beat violento e uma música que faz lembrar os melhores momentos de Goblin, com o contributo de ScHoolboy Q.

Chega, então, um dos momentos mais altos do álbum: “Fucking Young / Perfect”. Com uma sonoridade a piscar um olho a Stevie Wonder, a música cresce a partir de um início em que a voz de Tyler, acompanhada apenas por uma guitarra, canta a história de um amor proibido. É nesta faixa que vemos Tyler a experimentar mais com a sua voz, já que é quase toda cantada por ele, sendo acompanhado por um coro de luxo, composto por Chaz Bundick (Toro Y Moi), Kali Uchis e o grande Charlie Wilson. A secção vocal, muito bem montada, vai-se juntar ao instrumental, acabando por mostrar uma faceta que conhecemos muito pouco a Tyler: a sua enorme sensibilidade pop. Já a tínhamos vislumbrado em músicas mais antigas, como “Blow”, “She” ou “Answer”. Mas nesta música ele agarra-a e mostra-a ao mundo sem medo. E o resultado são as guitarras brilhantes, sintetizadores e teclados que encantam e cores que estão em todo o lado na canção e rebentam a cada nota tocada.

É junto a este excelente momento musical que encontramos a melhor música de Cherry Bomb. O seu nome é “Smuckers”. A receita parece simples: sopros, cordas, teclados a criar texturas que, a cada audição, nos dão a sensação de uma nova experiência e, por fim, versos honestos, com a devida dose de agressividade. Mas montar tudo isto de uma forma não é para qualquer um. A juntar a este talento natural para a orquestração, convidados como Kanye West e Lil Wayne fazem a música tomar outras proporções, catapultando a qualidade desta canção para um nível inatingível neste álbum.

Passando por “Keep da O’s” e “Okaga, CA”, chegamos à última música do álbum, “Yellow”. Com uma estrutura semelhante à faixa que a antecede, esta apresenta-se como um perfeito “até já”, em que a música segue lentamente até desaparecer como o sol que entretanto se vai pondo. É com este clarão de cor, com este sabor a verão infinito, que o álbum, muito bem, termina.

Cherry Bomb é, portanto, um álbum que nos conta muitas histórias e que, sobretudo, marca mais um ponto na constante evolução de Tyler, the Creator. É um álbum original, inteligente, desagradável e criativo, como aquele que o pensou e orquestrou. É mais uma fase na interminável metamorfose deste artista nunca contente consigo próprio e sempre em busca de mais. E só ganha com essa insatisfação: Cherry Bomb é dos seus melhores álbuns até à data, apenas equiparável com o enorme Wolf.



Ratos de Porão – “Brasil” (1989)


“Em ‘Brasil’ a gente fala mal do país o tempo inteiro,
desde a capa até a última música.
Esse disco marcou uma época para nós (...)
Também fizemos uma versão em inglês desse álbum,
mas ficou uma bosta.
Mas era uma bosta bem produzida (risos).”
João Gordo

“Eu comecei a perceber essa aproximação
quando ia na Galeria do Rock e via
os moleques metaleiros com camiseta do Ratos de Porão
e LP’s de hardcore debaixo do braço.
Foi nessa época que começaram
a me chamar de ‘traidor do movimento’,
coisa que só parou quando
eu assumi que sou traidor mesmo.
De movimento que é só baixaria e briga,
sou traidor mesmo.”
João Gordo


Veja bem! Lá por meados dos anos 80, mais especificamente 89, eu vinha ouvindo bastante hardcore. Eu curtia muitas bandas nacionais, mas uma em especial uma sempre me chamou a atenção: Ratos de Porão ou RDP. Para nós fãs, banda conhecida mundialmente pela sua pegada agressiva e letras de cunho político-social, isso sem contar os riffs únicos de seu guitarrista João Carlos (Jão) e a figura por muitos odiada e por outros amada de João Gordo. E é desses caras que venho falar hoje, mais especificamente sobre um álbum que fez com que meu conceito musical mudasse significativamente tanto na percepção quanto artisticamente. Trata-se de “Brasil”, LP lançado pertinentemente numa época na qual o país passava por uma fase quase que como a de hoje: crise política financeira engatinhando, numa democracia maquiada, etc.

Lançado em 1989, esse disco pra mim é sem dúvida o melhor disco da RDP, de uma época em que eles andavam extremamente entrosados e com muito assunto relevante para por pra fora. Gravado em Berlim, “Brasil” foi lançado pela gravadora Roadrunner. Nele, os caras tiraram uma sonoridade monstra. Apesar das peripécias e drogas pelo decorrer do percurso (hehehe), conseguiram dar à luz o que seria um divisor de águas e um ponto final naquela velha máxima de traidores do movimento, pois definitivamente aqueles punks escrachos da periferia cravaram de vez sua bandeira no cenário crossover mundial, abrindo a partir dali portas de extrema importância para sua carreira.

Produzido por Arris Johns, foi lançado em dois idiomas, em inglês e em português, e tendo como a cereja do bolo a mais que perfeita ilustração para essa obra assinada pelo cartunista Marcatti. Além dos já citados Gordo e Jão, Jabá, no baixo, e Spaghetti, bateria, completam a banda, que teria para as gravações a participação de David Pollack e Archi (ambos da banda Happy Hour) e Frank Preece (da Exumer) nos vocais de apoio.

“Brasil”, o disco, é o melhor Brasil tipo exportação.
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FAIXAS:

Português
  1. "Amazônia Nunca Mais" - 1:54
  2. "Retrocesso" - 1:34
  3. "Aids, Pop, Repressão" - 1:18
  4. "Lei Do Silêncio" - 2:14
  5. "S.O.S. País Falido" - 1:27
  6. "Gil Goma" - 0:43
  7. "Beber Até Morrer" - 2:19
  8. "Plano Furado II" - 1:35
  9. "Heroína Suicida" - 2:16
  10. "Crianças Sem Futuro" - 1:41
  11. "Farsa Nacionalista" - 2:30
  12. "Traidor" - 0:50
  13. "Porcos Sanguinários" - 1:51
  14. "Vida Animal" - 1:28
  15. "O Fim" - 0:59
  16. "Máquina Militar" - 1:57
  17. "Terra Do Carnaval" - 2:14
  18. "Herança" - 1:53
Inglês
1.       "Amazon Never More" - 1:54
2.       "Backwards" - 1:34
3.       "Aids, Pop, Repression" - 1:18
4.       "Law Of The Silence" - 2:14
5.       "S.O.S. Broken Country" - 1:27
6.       "Gil Coma" - 0:43
7.       "Drink' Till You Die" - 2:19
8.       "Fucked Plan II" - 1:35
9.       "Suicide Heroin" - 2:16
10.   "Children Without Future" - 1:41
11.   "Nationalist Farse" - 2:30
12.   "Traitor" - 0:50
13.   "Bloody Pigs" - 1:51
14.   "Animal Life" - 1:28
15.   "The End" - 0:59
16.   "Military Machine" - 1:57
17.   "Land Of Carnival" - 2:14
18.   "Will I Receive My Heritage?" - 1:53



O Rappa - "Rappa Mundi" (1996)

 



"O futebol faz parte da cultura nacional não é à toa. 
É um esporte que representa pra caramba
a maneira que a gente vive.
O que é?
Você driblando as atrocidades,
as condições impróprias que a gente tem."
Falcão, vocalista



O rock nacional dos anos 80 já começava a dar sinais de desgaste. Cazuza já tinha morrido, Renato Russo agonizava em público e sua doença refletia nos discos da LegiãoLobão começava a perder o rumo, os Titãs perdiam integrantes e a identidade, os Engenheiros se afastavam do grande público e, só os Paralamas, mesmo com discos um tanto irregulares, tenham conseguido sustentar o sucesso comercial e o interesse do público. Nesse ínterim, naquele início de anos 90, um bom time de novas bandas nacionais começava a dar as caras vindas de diferentes lugares do Brasil e trazendo sonoridades e propostas interessantes: os calangos do Raimundos e seu hardcore irreverente e desbocado; os mineiros do Pato Fu com seu bom humor e criatividade; o pessoal do Skank, também de Minas, apresentando com um pop gostoso e contagiante; também das Gerais o Jota Quest com seu pop-soul, estes já um pouco mais apelativos comercialmente; os recifenses do Mangue-Beat misturando sons regionais com peso e tecnologia; e no Rio, O Rappa, um pessoal que fundia reggae, com hip-hop, com soul, com MPB, utilizando-se de peso de guitarras distorcidas e elementos eletrônicos como samples e batidas programadas. A banda já havia aparecido bem com seu álbum de estreia, de mesmo nome, de 1994, chamando atenção, além da sonoridade, pelas ótimas letras com abordagens de questões sociais de forma lúcida e consciente, veio a conquistar definitivamente público e crítica com seu segundo álbum, "Rappa Mundi" de 1996.
Produzido pelo mestre dos estúdios no Brasil, Liminha, "Rappa Mundi" teve uma série de grandes sucessos com suas faixas sendo executadas incansavelmente nas rádios e na MTV. Contando com as letras sempre críticas e engajadas do então baterista Marcelo Yuka e com o vocal poderoso e versátil do carismático vocalista Falcão, a banda discorria sobre temas como drogas, violência urbana, trabalho infantil, religião, racismo e pobreza, das formas mais criativas, desde a maneira mais incisiva à mais bem-humorada.
Em "A Feira", por exemplo, faixa que abre o disco, num raggae-pop descontraído e embalado, falam sobre a venda de "substâncias ilícitas" e a facilidade de se encontrar os produtos em qualquer esquina; em "Miséria S.A." Falcão interpreta como se recitasse um texto decorado a criativa letra do cantor e compositor Pedro Luís, que imita aqueles bilhetinhos que pedintes entregam aos passageiros nos ônibus, escancarando a realidade da pobreza no Brasil e as situações a que se sujeitam homens, mulheres e muitas vezes crianças; "Vapor Barato", clássico multi-regravado da música brasileira, ganha uma versão competentíssima, mais embalada e de interpretação marcante de Marcelo Falcão, incluindo-se entre as grandes versões que a canção de Waly Salomão e Jards Macalé já recebeu. "Ilê Ayê", conhecida na voz de Gilberto Gil no álbum "Refavela", vai perfeitamente ao encontro do discurso e da proposta dO Rappa e com uma pegada mais elétrica e vibrante, é outra cover que não decepciona. Assim como "Hey Joe", outra versão, esta da canção imortalizada por Jimi Hendrix, que, embora não tenha o brilho daquela do gênio da guitarra, garante uma boa releitura em português e completamente carregada no reggae.
Grande sucesso, a inspiradora "Pescador de Ilusões" é aquele trunfo radiofônico perfeito; "Uma Ajuda" juntamente com "Lei da Sobrevivência" talvez sejam as menos empolgantes do disco; já "O Homem Bomba" e "Tumulto", por sua vez são incendiárias, ambas abordando a indignação do home  comum, do cidadão tão desrespeitado no dia a dia. "Tumulto", em especial, muito a calhar, fala sobre manifestações populares, povo, não o povo da Paulista, mas o povo de comunidades, indo à rua por justiça, por igualdade, por necessidades básicas ou por conta da violência cotidiana. Mais uma porrada dO Raapa!
Altamente ligados a futebol, torcedores e frequentadores de estádios, tendo inclusive participado da coletânea de hinos de clubes brasileiros, da revista Placar, gravando o hino do Flamengo, o esporte, que segundo eles mesmos tem tudo a ver com a música e com a vida do brasileiro, aparece em vários momentos no disco. A ótima "Eu Não Sei Mentir Direito", por exemplo, começa com os versos "No país do futebol/ Eu nunca joguei bem..." revelando alguém que, numa terra de onda a malandragem é a lei, não consegue se adaptar à conduta dominante enraizada na cultura do brasileiro; "O Homem Bomba", fala em "tocar bumbo na garganta do Maracanã"; "Óia o Rappa", música que fecha o disco e que também fala sobre o jeito do cidadão se virar, refere-se a "pênalti" quando a situação fica crítica numa batida da polícia num negócio informal um tanto suspeito. Mas é em "Eu Quero Ver Gol" que a verve futebolística fica totalmente exposta retratando a realidade de um torcedor que enfrenta os perrengues do dia a dia, dá duro durante a manhã na praia, mas que não quer perder de jeito nenhum o jogo do fim da tarde e, mais do que qualquer coisa, ver seu time ganhar ("Tô no rango desdas duas e a lombra bateu/ O jogo é as cinco e eu sou mais o meu/ Tô com a geral no bolso, garanti meu lugar/ Vou torcer, vou xingar pro meu time ganhar"). A versão do especial acústico gravado para a MTV, que posteriormente viraria CD e DVD, gravada em 2005 é ainda mais "boleira" e tem mencionados, em seu final, os nomes de vários jogadores da Seleção Brasileira que estavam prestes a disputar a Copa de 2006, num final apoteótico para aquela apresentação.
Depois de "Rappa Mundi" a banda ainda apresentaria o bom "Lado B, Lado A" mas após um incidente urbano em 2001, infelizmente cada vez mais familiar a todos nós, uma tentativa de assalto que vira a deixar Marcelo Yuka, baterista e principal compositor da banda paraplégico, O Rappa, com sua saída, perdia bastante em qualidade de letras e criatividade mostrando-se irregular e inconsistente, embora ainda conseguisse sustentar um relativo sucesso comercial. Mas "Rappa Mundi" com toda sua atitude, gingado, irreverência e sonoridade já havia garantido o nome dO Rappa em destaque entre os grandes discos da música brasileira e por extensão, para nós, na galeria dos ÁLBUNS FUNDAMENTAIS 
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FAIXAS:
1. "A Feira" - Marcelo Yuka (3:59)
2. "Miséria S.A." - Pedro Luís (4:01)
3. "Vapor Barato" - Waly Salomão, Jards Macalé 4:23)
4. "Ilê Ayê" - Paulinho Camafeu (3:50)
5. "Hey Joe" (participação de Marcelo D2)  - Bill Roberts, versão: Ivo Meirelles, Marcelo Yuka (4:25)
6. "Pescador de Ilusões" -  Marcelo Yuka (4:29)
7. "Uma Ajuda" - Marcelo Yuka (4:29)
8. "Eu Quero Ver Gol" - Falcão, Xandão (3:41)
9. "Eu Não Sei Mentir Direito" -  Marcelo Yuka 4:03
10. "O Homem Bomba" - Marcelo Yuka (3:14)
11. "Tumulto" - Marcelo Yuka (3:14)
12. "Lei Da Sobrevivência (Palha de Cana)" - Falcão (3:05)
13. "Óia O Rapa" - Lenine, Sérgio Natureza (6:00)

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Ouça:
O Rappa - Rappa Mundi




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