sexta-feira, 12 de junho de 2026

Bruna Lucchesi - Bandoleira (2026)




“Bandoleiro”, segundo o dicionário Michaelis, é aquele que “não tem paradeiro, errante”. O verbete ainda se expande para adjetivos como “ocioso, vadio”. É diferente do flâneur francês, que caminha pelas ruas com lenço, documento e cep próprio para voltar. Mais diferente ainda é quando se inverte o substantivo para o feminino: ao homem, era permitido flanar e bandolear, para a mulher, é sempre mais difícil. 

Talvez, para experimentar e comprovar a própria liberdade, a cantora Bruna Lucchesi escolheu este termo para dar título ao terceiro álbum, Bandoleira (2026). A cantora transita — ou bandoleia — entre o folk e o rock mais rasgado, sempre acompanhada de seu violão. A primeira faixa, “Sei Voar”, já mostra para o que veio: “Sigo arisca, levando pedaços de mim”, ela canta.

De fato, o disco foi criado na estrada: passa pelo interior do Paraná, reflete passeios a cavalo e andanças que vão de São Paulo a West Virginia. Sonoramente, ecoa Bob Dylan, Paul Simon e um tanto de música brasileira como Gal Costa, tudo amarrado com a voz e o violão inconfundíveis de Bruna. Topam caminhar com ela Helio Flanders, do Vanguart, que influencia diretamente a sonoridade deste disco, além de Mariko Reid e Sissy Dinkle, que assinam feats.

Bandoleira mostra uma cantora ainda mais amadurecida nas letras e arranjos do que o também interessante Quem Faz Amor Faz Barulho (2023), diretamente inspirado por Paulo Leminski e indicado ao Prêmio APCA. Com forte apego literário, neste trabalho, Bruna se inspira em outros autores, como o japonês Nanao Sakaki (cujos versos aparecem traduzidos em “Fade Away”) e o poeta brasileiro Fabrício Corsaletti, que assina com ela a faixa “No Lombo de Um Cavalo”.

O foco do disco, para ela, é ressaltar a arte feita por gente de verdade em tempos de inteligência artificial. “Em toda a produção do álbum, enaltecer a música pensada por pessoas foi um dos nossos focos”, conta.


“Sei Voar”: Para mim, essa canção representa o próprio salto que é lançar esse meu primeiro trabalho autoral. Compus essa melodia num momento em que os caminhos pareciam travados, eu estava numa noite frustrada e desmarquei um encontro de composição com a amiga Lia Biserra, por conta justamente dessa angústia. Na época eu estava mergulhada num álbum da compositora folk Hazel Dickens (“Hard Hitting Songs For Hard Hit People”), cujo jeito de cantar reverberava fortemente dentro de mim. Estudando as suas quebras vocais, bem típicas desse folk dos apalaches, me propus então a compor algo para minha amiga naquela mesma noite, já que eu tinha melado nosso encontro.

Enviei uma melodia doída para ela e recebi, na manhã seguinte, o primeiro verso pronto: “sei voar além do mar, sopro solto a me sustentar”. Ela me abriu todo um outro universo de possibilidades pra música e pra vida. Depois, juntas, terminamos de compor a canção.

“Sono dos Peixes”: Poema de Arruda musicado por Alzira E, ambos grandes referências no universo da canção como suporte para a poesia. Enquanto montávamos o repertório, Ivan Gomes, meu produto

r musical, sugeriu que fizéssemos uma releitura desta canção — que foi gravada originalmente no projeto dos amigos Arruda e Peri Pane “Canções Velhas Para Embalar Peixes”—no meu álbum. Lembro de olhar o poema no papel,depois  cantá-lo algumas vezes e me surpreender por achá-lo tão curto para uma canção que soa tão grande.

Na versão que fizemos em Bandoleira,  os dois momentos da melodia cantada — primeiro bem grave, depois agudo — demarcam as profundas águas que eu ouço na canção. A imagem do sono dos peixes me faz imaginá-los no âmago mais escuro e macio das caldas azuis do universo. Enquanto isso, uma terceira voz é cantada pela guitarra, uma voz que não para de falar, revelando segredos mesmo que sem palavras.

Gravar “Alzira e Arruda” é também uma forma de homenagear meus queridos mestres na arte de transportar poemas do papel para a voz.

“Fundo”:  Me senti muito lida pela Alice Coutinho no nosso processo de composição dessa canção. A gente mal se conhecia quando Alice me provocou, perguntando se eu não tinha algo que ela pudesse letrar para o meu disco. Eu respondi imediatamente que sim, e enviei logo uma gravação experimentando algumas ideias melódicas em cima desse ostinato do violão (o padrãozinho que se repete). Quando Alice me enviou a letra, fiquei surpresa com a precisão das palavras que ela tinha escrito para minha voz; não só pelo contorno da melodia, mas porque ela leu e transcreveu aquilo que eu ainda não tinha palavras pra dizer.

Feita toda a primeira parte, concordamos que a canção merecia um B que saísse do buraco, que viesse para cima, que viesse além. Então fomos, bem bandoleiras, deixamos pra trás o “não”, o “sei”, fomos além da lei, num crescendo com a banda inteira, como um bando. 

“Cavalo 21”: Essa canção é um trecho da carta revolucionária 21 da Diane di Prima traduzido por Gustavo Galo e musicado por Peri Pane —ambos queridos amigos e parceiros de sons. Um presente que recebi para integrar o repertório deste disco. A introdução de bateria é uma ideia emprestada de Paul Simon em “50 Ways to Leave Your Lover”, canção do disco que,com certeza, foi o que mais ouvi nos últimos 3 anos. 

A imagem do cavalo vem aparecendo desde o meu trabalho anterior, Quem Faz Amor Faz Barulho, em cuja capa apareço montada num cavalo azul no centro de São Paulo. Os cavalos continuam aparecendo como símbolos de movimento e de viagem, são personagens afetivos que se relacionam com a minha história, mas que também contam a história do mundo, das disputas por poder e propriedade.

No ambiente rural, esses corpos passam a carregar outras camadas: atravessam territórios, cercas, caminhos antigos e futuros possíveis. Ao olhar para essas paisagens, me interessa pensar quem pode se mover, quem pode permanecer, e quais histórias ficam impressas em terra herdadas, ocupadas ou que ainda sonhamos transformar.

“No Lombo de um Cavalo”: Parece que a música mais “crua” do trabalho é a mais carregada de encontros e símbolos. Essa letra foi um presente que recebi do Fabricio Corsaletti depois de um café na padaria e um papo sobre livros, planos para o verão, família e as crises existenciais de sempre.

Musiquei o texto alguns meses depois, durante uma travessia a cavalo no interior do Paraná. Passei uma semana lá trabalhando no que viria a ser Bandoleira, e ao longo daqueles dias me propus a me deslocar apenas a cavalo. Foi em uma das minhas idas ao Distrito Maravilha, influenciada por “Blood On The Tracks” (Bob Dylan), que eu descobri a melodia que daria vida aos versos do Fabricio.

Foi num trabalho em homenagem ao Bob Dylan que eu tive a chance de conhecer tanto o Fabricio quanto Helio Flanders, meus amigos da estrada. O Gustavo Galo, citado na canção, também estava nessa turnê.

O encontro com o Helio foi um desses grandes, com muita identificação, apesar de sermos tão diferentes. A sensação é de reencontro. Ele esteve muito perto ao longo de todo o processo de Bandoleira e a sua participação nessa faixa (que eu fiz muita questão de gravar da forma mais crua possível) é um resumo de uma parceria que atravessa o trabalho inteiro.

A escolha por fazer essa faixa sem banda foi justamente para sublinhar que o trabalho todo foi gravado ao vivo, com performances reais e com muito espaço para espontaneidade — um risco bonito que topamos assumir. A presença do Helio também puxa a música para uma linguagem folk muito própria, atravessada por influências das nossas trajetórias, sem compromisso com um rigor importado lá do outro lado: é um folk feito à nossa maneira.



“Reforma”: Um dos primeiros eventos que eu fui logo que me mudei pra São Paulo foi um show do Minchoni, acompanhado da saudosa banda Meia-Dúzia de 3 ou 4. Ele vestia um colete com pedaços de tijolo que despencavam dramaticamente ao longo da apresentação no então Centro Cultural Rio Verde. Uma cena que me marcou muito. 

Desde que lancei meu trabalho cantando Leminski, Minchoni me conta que quer ser compositor. Altos papos nas internets e ele me mandou esse poema já com um esboço da melodia. Como qualquer reforma, os versos são um convite à confusão, mas com um objetivo muito específico: uma janela com quintal para todo mundo. A partir da gravação dele, selecionei os versos (as combinações possíveis são tantas!) e arrematei a melodia. Nossa primeira parceria. 

“Distrito Maravilha”: Distrito Maravilha é um subdistrito da cidade de Londrina, no interior do Paraná, onde a terra é vermelha e que eu tenho a alegria de frequentar desde muito pequena. O Felipe Blanco me enviou um texto fantasiando sobre os cavalos reais e imaginários do Distrito Maravilha e atritos que esse ambiente rural pode proporcionar. 

Eu preciso encarnar uma certa bandidagem pra entoar esse texto com a ousadia que ele pede. Percebo que sai da minha boca com um gostinho da Gal Costa de 1969 que eu tanto ouvi, amei e imitei. Nessa gravação, fomos ao extremo do que é uma banda tocando junto. Propus a eles que improvisassem esse texto comigo e nos arriscássemos juntos. 

“Cavalinhos”: É minha tradução livre para a cantiga folk “Pretty Little Horses”, que conheci durante uma viagem ao estado de West Virginia alguns anos atrás, bem na mesma época em que começou a nascer uma bela leva de crianças muito próximas a mim.

Como outras desse trabalho, nasceu na estrada. 

“Aurora”: A única canção que fiz durante a pandemia. Na época, recém-chegada a São Paulo, vivia num apartamento na Rua Aurora, na altura da praça da República. Em casa há muitas semanas, com a noção de tempo já um tanto confusa, me apeguei ao ciclo do sol para demarcar os meus dias. Dormia propositalmente com a veneziana aberta pra que um raio de sol me acordasse. Raio esse que não batia diretamente na minha janela, mas era um reflexo do sol que batia num prédio espelhado do outro lado da praça e então era refletido na minha janela.

Na gravação, quis gravar um coro de várias vozes minhas, explorando inclusive a região grave da voz.

“Desaparecer”: Composta nos primeiros dias do ano, com os pés mergulhados no Rio Paraná, esse é um poema de Nanao Sakaki, traduzido pelo amigo Felipe Melhado e musicado por mim junto com o Vitor Wutzki.

Wutzki, junto com o restante da banda, fez parte de todo o processo de criação do álbum. Ele gravou todas as guitarras de “Bandoleira” e também integrou toda a trajetória do meu projeto tocando Paulo Leminski. Ele tem uma relação íntima com a poesia e foi alguém que me influenciou e incentivou a musicar poemas.

Curiosamente, musicamos o poema enquanto estávamos em um passeio por uma ilha fluvial do Rio Paraná, onde as águas são barradas durante o dia para que as pessoas aproveitem as faixas de areia que formam pequenas e belas praias fluviais. Lá, ao final de cada dia, precisamente às 18h30, as barragens são abertas para escoar a água, e as ilhas desaparecem, ficando submersas durante a noite.

“On The Very Day I’m Gone”: Uma saudação às compositoras que abriram caminhos para mim e tantas outras mulheres escreverem suas próprias histórias. Uma canção que não exatamente se despede, mas anuncia a iminência da partida. Sua beleza me atravessou de primeira e fiquei cantando sem parar.

Essa é minha versão da cantiga de Addie Graham, compositora da tradição folk cuja vida e obra espelham, ao mesmo tempo, uma tradição cultural profunda e um período de transformações sociais. As vozes que cercam a minha são de Mariko Reid (PA) e Sissy Dinkle (TN), amigas queridas que conheci em 2014 no curso de mestrado da Berklee Valencia e convidei para cantar comigo à distância.

Num álbum com tantos deslocamentos, essa despedida faz muito sentido para mim. Também me emociona a singeleza e a proximidade que a canção traz diante da larga distância entre nós (Mariko, Sissy e eu) e do alto volume de treta no ar do mundo neste momento.


SILK – Auralux

 

Desde o início de sua trajetória musical, o Silk rapidamente ganhou reputação por criar uma sonoridade estrondosa e impactante. Sua admiração pelos pioneiros do My Bloody Valentine logo se tornou evidente para todos, mas em seus primeiros singles, essa banda irlandesa de shoegaze capturou energia e força suficientes para levar um som clássico ao grande público de uma forma verdadeiramente impressionante.

Na faixa principal do mini-álbum de 2026, 'Auralux', a paixão por um som denso é levada ao extremo. A música ostenta um som de guitarra tão grandioso que suas distorções engolem tudo – inclusive o vocal limpo, com uma pegada indie. O riff principal, com sua sonoridade densa, leva as melodias do extremo do shoegaze a um clima quase grunge. É uma abordagem que funciona muito bem, especialmente quando equilibrada por uma guitarra solo mais brilhante e sons distorcidos que reciclam um elemento-chave da assinatura do My Bloody Valentine, além de alguns momentos mais tranquilos que sugerem uma influência dream-gaze. Embora inicialmente pareça priorizar a força em detrimento da melodia, o tempo de audição da faixa também revela um maravilhoso timbre do início dos anos 90 no vocal que, apesar de muitas vezes ficar em segundo plano, se esforça bastante para marcar presença. É uma música que não poupa ninguém, exibindo a maioria das principais influências do My Bloody Valentine em um único hit de seis minutos. É uma maneira mais do que excelente de dar início a este lançamento.

As coisas não se acalmam muito depois disso. O Silk definitivamente não está relaxando, e "Clementine" – lançada anteriormente como single digital – oferece uma tempestade musical quase tão grande. Começando com bateria estrondosa e um som de guitarra vibrante, a performance mergulha imediatamente em uma vibe shoegaze clássica. Ouvir isso pela primeira vez é como descobrir um tesouro inédito dos primeiros anos do ataque sonoro do A Place To Bury Strangers, de Nova York. Dando um tempinho para os ouvidos se ajustarem, melodias começam a surgir através da parede de ruído, primeiro através de um vocal relativamente limpo com tons indie retrô, depois através de uma mudança para um refrão mais acessível onde uma voz se destaca contra alguns sons de guitarra estridentes. As mudanças tonais são sempre sutis, nunca quebrando o clima, mas proporcionam uma mudança suficiente para dar à música uma sensação de movimento.

Quem espera um toque melódico a mais terá seu desejo atendido em "July", quando as guitarras limpas optam por um som mais dream pop/jangle pop através de uma introdução brilhantemente atmosférica. No entanto, não demora muito para que o Silk retorne ao seu estilo característico, permitindo que um tom muito mais estrondoso domine através de uma profusão de guitarras distorcidas. Como era de se esperar, isso não vai muito além dos limites esperados do shoegaze clássico, mas entre um som enorme – tão grande que inicialmente encobre metade do vocal – e um vocal decente (dentro do gênero), o resultado é ótimo. Ao permitir que um pouco mais de melodia se infiltre no verso, surge eventualmente uma boa sensação de equilíbrio musical, e por volta da terceira ou quarta vez que se ouve a música – o vocal fluido que preenche o refrão começa a soar como um gancho melódico. Tudo aqui explora seus próprios pontos fortes, mas aqueles que prestarem mais atenção provavelmente se apaixonarão por uma breve ponte onde os timbres característicos do My Bloody Valentine dão lugar a um som grave e profundo e a uma melodia mais fria, com influências góticas, claramente inspirada no maravilhoso e sombrio álbum "Pornography" do The Cure. "August", uma faixa complementar, começa com um uivo de guitarra antes de mergulhar em um riff esmagador que soa como um clássico antigo do Smashing Pumpkins afogado em distorção. Apesar de apresentar um dos riffs mais pesados ​​deste disco, o verso da música oferece algo muito mais acessível, com um riff melódico de dreamgaze e vocais com eco, criando algo que soa como uma faixa irmã da banda irlandesa de shoegaze KEELEY, da época de "Girl On The Edge of The World". Com um toque a mais de leveza e nuances, essa música tem potencial para se tornar uma das favoritas dos fãs. Mesmo na primeira audição, é definitivamente o destaque de "Auralux".

Em outras faixas, você encontrará mais material ostentando um enorme amor pelo My Bloody Valentine, com "Pleasures" preenchendo quatro minutos com um riff de guitarra maravilhosamente denso, contrastando com timbres leves de guitarra solo e versos transbordando promessas sombrias e sons de baixo marcantes, e a épica "Slide Away" explorando sonoridades mais no estilo de Keeley, e destacando de forma brilhante um solo de guitarra etéreo e ligeiramente atonal. Embora nenhuma das faixas se aventure além dos limites estabelecidos pelo shoegaze mais ruidoso, ambas soam absolutamente imensas com o volume no máximo, entregando sons que os fãs do gênero vão adorar instantaneamente.

A maior parte do material de 'Auralux' pode ser considerada bastante genérica, mas, neste caso, isso certamente não o torna ruim. O multi-instrumentista Michael Smyth – responsável por quase tudo o que se ouve neste lançamento, com exceção da participação especial de Taylor Wright em 'Slide Away' – é alguém que obviamente entende o valor de pegar um som testado e aprovado e reproduzi-lo bem, e, neste caso, o resultado é algo genuinamente impactante. A faixa-título é um destaque claro, mas, honestamente, não há pontos fracos aqui. Aqueles que não se convenceram com o shoegaze certamente continuarão sem se convencer, mas aqueles que procuram emoções musicais sólidas entre os álbuns do My Bloody Valentine, ainda lamentando a ausência da banda escandinava Spielbergs e esperando por um sucesso mais agressivo que complemente a cultuada banda irlandesa Keeley, provavelmente vão se divertir muito.


Ash Ra Tempel - Schwingungen (1972)

 Studio Album, released in 1972


Songs / Tracks Listing

Light And Darkness
1. Light: Look at your Sun (6:34)
2. Darkness: Flowers must die (12:22)

Schwingungen
3. Suche & Liebe (19:23)

Total Time: 38:19





Line-up / Musicians

- Manuel Göttsching / Guitar, organ, electronics
- Hartmut Enke / Guitar, bass, electronics
- Wolfgang Mueller / Drums, vibes

- Guests:
- John L / Vocals
- Jew Harp / Percusssion
- Matthias Wehler / Alto Sax
- Uli Popp / Bongos

"Schwingungen" é o poderoso sucessor do álbum de estreia do ASH RA, que permanece até hoje um verdadeiro clássico espacial para este amante da música. Duas grandes diferenças em "Schwingungen" – a saída de Klaus Schulze e a introdução dos vocais – marcam este álbum sob uma perspectiva diferente do seu primeiro trabalho. Dito isso, este álbum é simplesmente incrível, com interlúdios bastante espaciais e longas faixas épicas que vão te deixar de boca aberta. O som geral de "Schwingungen" lembra muito a era "Meddle" do "PINK FLOYD", com ótimos momentos hipnóticos e influências analógicas de space rock. Com doses generosas de hinos espaciais e o trabalho inspirador de guitarra de Manuel Göttsching, este álbum certamente levará sua mente e seus ouvidos para outra dimensão. O álbum é composto essencialmente por três faixas longas, sendo que as duas primeiras apresentam os vocais psicodélicos e misteriosos de John L. A formação completa era composta por Manuel Göttsching (guitarra), Hartmut Enke (baixo), Wolfgang Mueller (bateria) e os convidados: John L (vocal, harpa de boca, percussão), Matthias Wehler (saxofone alto) e Uli Popp (bongôs). Adoro os solos de guitarra frenéticos e a mistura de seções rítmicas com influência da Costa Oeste, com uma base que remete ao R&B. No geral, um ótimo álbum.


Um pouco diferente do álbum de estreia devido à presença dos vocais. Klaus Schulze também saiu, em busca de sua famosa carreira solo. O novo baterista, Wolfgang Müller, entrou para a banda, juntamente com, é claro, o guitarrista Manuel Göttsching e o baixista Hartmut Enke. E para vocalista, escolheram um cara chamado John L., ex-integrante do AGITATION FREE (que foi expulso da banda por ser considerado muito desequilibrado; aparentemente, o ASH RA TEMPEL teve a mesma opinião, já que ele também foi expulso após este álbum). Falando em gosto peculiar, a voz de John L. tende a ser áspera e sempre soava desafinada (ele me lembrou o "Malcolm Mooney" do CAN, então você já tem uma ideia do que esperar).

O álbum começa com a faixa "Look at Your Sun", com uma pegada blues e o vocal desafinado de John L. A próxima música, "Flowers Must Die", é basicamente John L. berrando sob uma base rítmica intensa de guitarra e bateria, e a presença do saxofone dá um toque jazzístico. Definitivamente, música para esvaziar qualquer festa, para dizer o mínimo. A segunda metade do álbum consiste em "Suche" e "Liebe". "Suche" é uma peça espacial e sinistra, composta principalmente por vibrafone e órgão. "Liebe" é mais guitarra e voz (desta vez por Göttsching) e soa como uma mistura de PINK FLOYD com o álbum de estreia do ASH RA TEMPEL. Álbum incrível...





The Original American Folk Blues Festival (1963)

 O American Folk Blues Festival (também conhecido como American Folk-Blues Festival e AFBF) foi um festival de música que percorreu a Europa a partir de 1962.


O publicitário de jazz alemão Joachim-Ernst Berendt teve a ideia de trazer artistas afro-americanos de blues originais para a Europa. O jazz havia se tornado muito popular e o rock and roll estava apenas começando a ganhar espaço, e ambos os gêneros recebiam influências diretas do blues. Berendt acreditava que o público europeu lotaria as salas de concerto para vê-los ao vivo.

Os promotores Horst Lippmann e Fritz Rau concretizaram essa ideia. Ao contatarem Willie Dixon, um influente compositor e baixista de blues de Chicago, eles tiveram acesso à cultura do blues do sul dos Estados Unidos. O primeiro festival aconteceu em 1962 e continuou quase anualmente até 1972, após um hiato de oito anos, sendo retomado em 1980 e realizado até sua última edição em 1985.

Os concertos contaram com alguns dos principais artistas de blues da década de 1960, como Muddy Waters, Howlin' Wolf, Willie Dixon, John Lee Hooker e Sonny Boy Williamson, alguns tocando em combinações únicas, como T-Bone Walker tocando guitarra para o pianista.
Memphis Slim, Otis Rush com Junior Wells, Sonny Boy Williamson com Muddy Waters. Os DVDs do festival incluem a única filmagem conhecida de Little Walter e gravações raras de John Lee Hooker tocando gaita.

Acredita-se que entre os participantes dos primeiros festivais de Londres estavam músicos influentes como Mick Jagger, Eric Burdon, Eric Clapton e Steve Winwood, que foram os principais impulsionadores da explosão do blues que levaria à Invasão Britânica.

A visita de Sonny Boy Williamson a Londres para o festival de 1963 o levou a passar um ano na Europa, incluindo a gravação do álbum Sonny Boy Williamson and The Yardbirds [1] (lançado pela primeira vez pela Star-Club Records em 1965) e gravações com The Animals.

O festival aconteceu em diversas cidades, incluindo Londres, Hamburgo, Paris e outras.

Entre os músicos de blues que se apresentaram, estavam: Muddy Waters, Sonny Boy Williamson, John Lee Hooker, Sippie Wallace, T-Bone Walker, Sonny Terry & Brownie McGhee, Memphis Slim, Otis Rush, Lonnie Johnson, Eddie Boyd, Big Walter Horton, Junior Wells, Big Joe Williams, Mississippi Fred McDowell, Willie Dixon, Otis Spann, Big Mama Thornton, Bukka White, Howlin' Wolf (com uma banda formada por Sunnyland Slim, Hubert Sumlin, Willie Dixon e o baterista Clifton James), Champion Jack Dupree, Son House, Skip James, Sleepy John Estes, Little Brother Montgomery, Victoria Spivey, JB Lenoir, Little Walter, Carey Bell, Louisiana Red, Lightnin' Hopkins, Joe Turner, Buddy Guy, Magic Sam, Lee Jackson, Roosevelt Sykes, Doctor Ross, Koko Taylor, Hound Dog Taylor e Helen Humes.


Memphis Slim
- We're Gonna Rock
T-Bone Walker
- I Wanna See My Baby
- I'm In Love *
Sonny Terry
- I'm Crazy 'Bout You Baby
Memphis Slim & Willie Dixon
- Stewball
John Lee Hooker
- Let's Make It Baby
- Shake It Baby
- The Right Time
- Need Your Love So Bad
Shakey Jake
- Hey, Baby
- Love My Baby
Brownie McGhee
- Crying At The Station
Memphis Slim & Willie Dixon
- Bye Bye Baby




Roberta Flack - Killing me Softly (1973)

 Roberta Flack - Killing me Softly (1973) [RemasterCA835]


Música apaixonada e quase profissional depois de vários anos atrás, Roberta Flack passou por esta audição, um repertório pessoal de cerca de 600 músicas. Em 3 horas, ela foi interpretada 42 para o produtor da Atlantic Joel Dorn, que foi subjugado. O primeiro álbum de Roberta, First take, sort donc au mois de novembre suivant. Ele é um pouco mais tarde do Capítulo Dois, que contém algumas composições de Bob Dylan (Just Like A Woman) e Buffy Sainte-Marie. Mais esses álbuns, embora saudados pela crítica, não tiveram sucesso exatamente quando um evento desatendido não impulsionou Roberta Flack no início da cena: em 1971,
Clint Eastwood, seu estreante estreante, escolheu uma música do primeiro álbum de Roberta, The First Time Ever I Saw Your Face, para a banda original de seu thriller Un frisson dans la nuit. O sucesso é imediato, e o único recurso para a ocasião atinge a estreia no lugar das paradas americanas, seguindo pelo álbum quatrième da cantora, Roberta Flack e Donny Hathaway.

Pelo menos, Roberta Flack acumula sucessos, discos de ouro e recompensas. Filho do álbum Killing Me Softly, que contém a música do mesmo nome, ele ganhou em 1974 o Grammy Awards do melhor álbum, da melhor música e da melhor canção do ano. O single Killing Me Softly with His Song permanece no topo das paradas de mais de um mês[precisão necessária][réf. nécessaire] durant, todos os gêneros musicais confondus.

Roberta Flack continuou a sortear seus álbuns, que foram produzidos ao mesmo tempo, durante todos os anos de 1970, 80 e 90, com muitos sucessos. Sa vision de la musique soul, qu'elle mêle à la fois au folk et à la musique classique, a eu une grand influence sur de nombreux artistes au fil des années. Símbolo da luta dos Noirs para o reconhecimento de seus direitos, nos Estados Unidos e na África do Sul, onde ela cantou o presidente Nelson Mandela em 1999, Roberta Flack foi classificada entre as «100 mulheres mais importantes do Rock and Roll»} pela cadeia de televisão americana VH1, e possivelmente filho étoile na Allée des stars de Hollywood.[réf. necessário]

Membro ativo da AEC (Artist Empowerment Coalition), associação que luta para controlar os artistas de propriedade intelectual de suas obras, Roberta Flack continua a gravar e produzir álbuns.


A faixa-título foi mais um sucesso estrondoso para Roberta Flack, e o álbum seguiu a mesma tradição de Chapter Two e A Quiet Fire. Ela apresentou baladas envolventes, canções com mensagens impactantes e números animados acima da média, e na época estava entre as vocalistas femininas mais vendidas em todos os estilos.
Faixas

: 1 Killing Me Softly With His Song 4:49
2 Jesse 4:03
3 No Tears (In the End) 4:56
4 I'm the Girl 4:55
5 River 5:03
6 Conversation Love 3:43
7 When You Smile 3:44
8 Suzanne 9:43




Igra Staklenih Perli ~ Serbia

 


Soft Explosion Ao Vivo (1978 / 1991)

O próximo álbum que não ouvia há décadas é o primeiro do Igra Staklenih Perli a ser lançado para um público mais amplo. Aliás, este foi o meu primeiro contato pessoal com esta grande banda da Sérvia. Quando este álbum de arquivo foi lançado, a reputação do Igra Staklenih Perli já havia conquistado o público underground de colecionadores de discos. E encontrar cópias originais naquela época era aparentemente impossível (hoje em dia é bem mais fácil).

Soft Explosion é um concerto ao vivo lançado um ano antes do álbum de estreia da banda, e a música tem uma forte ligação com esse álbum. Cerca de metade do álbum é composta inteiramente de material inédito, enquanto a outra metade é em grande parte improvisada e, ainda assim, soa única. Deve ter sido emocionante assistir a esse concerto ao vivo em Belgrado, embora, como descobriríamos durante os anos 90, a cena do rock iugoslavo fosse mais avançada do que a maior parte da Europa Oriental nos anos 70. A qualidade da fita cassete original é excelente. Se você não soubesse, poderia pensar que encontrou uma gravação inédita do Pink Floyd de 1969, feita no Paradiso, em Amsterdã.

Só hoje, ao ouvir este álbum novamente mais de 30 anos depois, me dei conta de que eles relançaram o disco dois anos depois com uma ordem de faixas diferente e cinco minutos adicionais de material. Em ambos os casos, usaram a mesma capa, que tem a ordem das faixas incorreta.


Igra Staklenih Perli (1979)


Junto com o Grupo 1850, o Igra Staklenih Perli foi o melhor grupo a emular e expandir o som do Pink Floyd desde a época de "Careful with That Axe Eugene" / "Set the Controls for the Heart of the Sun". Alucinante, espacial... um sonho psicodélico. Para mim, o ápice da produção musical da antiga Iugoslávia.

Sim. Isso mesmo. Um álbum muito interessante, pois a banda realmente estudou e absorveu o primeiro álbum do Ummagumma. Algumas pessoas citam Hawkwind e até King Crimson, mas eu pessoalmente não percebo. Talvez a primeira faixa tenha um pouco de Hawkwind. De resto, é Pink Floyd ao vivo de 1968 a 1970 do começo ao fim. Curiosamente, eles cantam em inglês. Seria de se esperar que as autoridades não gostassem nada disso. Talvez estivessem todos chapados enquanto ouviam e não perceberam? Enfim, entre este álbum, o próximo álbum de estúdio e os três lançamentos de arquivo, o ISP provou ser uma maravilha para a época e o local. Atemporal como poucos.


Vrt Svetlosti (1980)


O segundo álbum do Igra Staklenih Perli, "Garden Light", leva o som da banda de "Set the Controls for the Heart of the Sun" até... "Echoes". Ou seja, eles estavam uma década atrasados ​​– exatamente como gostamos!

A música aqui é mais concisa e animada, mas essencialmente ainda é alucinante. Poderíamos considerá-la um legítimo lançamento de Krautrock de 1971, sem precisar de mais informações. Guitarra psicodélica, vocais cósmicos – e às vezes insanos – e um órgão com muito efeito de fase definem esta obra psicótica. Sem dúvida, o melhor grupo de rock da Sérvia da era iugoslava




BIOGRAFIA DOS The Pogues

The Pogues

The Pogues é uma banda de rock anglo-irlandesa formada em King's Cross, norte de Londres, em 1982. Seu estilo é baseado na música tradicional irlandesa com influências de punk rock e jazz.

Após o aparecimento do movimento musical punk rock a banda emerge empregando uma mistura entre musica punk e música tradicional irlandesa. Originalmente, o nome do grupo era Pogue Mahone (Pog mo Thoin em irlandês, o que significa "beije o meu traseiro"), tendo sido formado por Jem Finer, Spider Stacy e liderada por Shane MacGowan.[1] Os três tinham um fascínio pela música irlandesa, o que os impulsionou à tomada de decisão em principiarem as suas próprias versões das músicas tradicionais. Quando finalmente lançaram o seu primeiro disco, "Red Roses for Me" em 1984, a editora havia exigido para modificar o nome para o atual "The Pogues".

Um famoso grupo de farristas e alcoólatras, capazes de transformarem um espaço em admiráveis ambientes musicais, não só pela música mas pelos distúrbios nos seus concertos assim como pelas desafinações em relação à discografia. Os problemas do cantor e compositor Shane MacGowan com o álcool levaram-no a sujeitar-se a frequentes tratamentos de desintoxicação de álcool, na época em que editaram as suas célebres músicas presentes no disco "Hell´s Bitch" (1990).

Em 1991, a banda parte para uma digressão nos Estados Unidos com a ausência de Shane MacGowan, que havia sido expulso do grupo. Este teria continuado a sua carreira com uma nova banda chamada Shane Macgowan & The Popes. Contanto, a banda The Pogues seria constituida por Joe Strummer, o ex-vocalista do The Clash. Durante a década de 90 a banda grava um disco a par de Spider Stacy enquanto vocalista, no entanto, em meados da década, o grupo ter-se-ia desfeito.[2]

Em 2001 a banda voltou à ativa, e permaneceu fazendo turnês até 2014, meses após a morte do guitarrista Philip Chevron em outubro de 2013. O baixista Darryl Hunt e Shane MacGowan morreram em agosto de 2022 e novembro de 2023, respectivamente. Em novembro de 2024, os três membros remanescentes, Spider Stacy, James Fearnley e Jem Finer, anunciaram uma nova reunião e turnê no Reino Unido em 2025 para celebrar 40 anos do álbum Rum Sodomy & the Lash.[3]

Membros

Atuais

  • Spider Stacy: 1982–1996, 2001–
  • James Fearnley: 1982–1993, 2001–
  • Jem Finer: 1982–1996, 2001–

Outros

  • Shane MacGowan: 1982–1991, 2001–2014
  • Andrew Ranken: 1982–1996, 2001–2014
  • Cait O'Riordan: 1982–1986, 2004
  • Philip Chevron: 1985–1994, 2001–2013
  • Darryl Hunt: 1986–1996, 2001–2014
  • Terry Woods: 1986–1994, 2001–2014
  • Joe Strummer: 1991 (também substituto de Phil Chevron no tour de 1987)
  • Jamie Clarke: 1993–1996
  • Dave Coulter: 1993–1996
  • James McNally: 1993–1996
  • Ella Finer (Membro semioficial) 2005– (Vocalista em Fairytale of New York)

Discografia

Álbuns de estúdio

  • Red Roses for Me (1984)
  • Rum Sodomy & the Lash (1985)
  • If I Should Fall From Grace With God (1988)
  • Peace and Love (1989)
  • Hell's Ditch (1990)
  • Waiting for Herb (1993)
  • Pogue Mahone (1996)

Outros

  • Poguetry in Motion (EP, 1986)
  • Yeah Yeah Yeah Yeah Yeah (EP, 1990)
  • Streams of Whiskey: Live in Leysin, Switzerland 1991 (2002) (ao vivo)
  • The Ultimate Collection Including Live at the Brixton Academy 2001 (2005) (compilação/ao vivo)
  • The Pogues in Paris: 30th Anniversary Concert at the Olympia (2012) (ao vivo)
  • Live in London (2013) (compilação; com Joe Strummer)
  • BBC Sessions 1984-1986 (2020) (ao vivo; arquivo)



D’Angelo and the Vanguard – Black Messiah (2014)

 


O regresso de D’Angelo aos discos é uma das grandes notícias dos últimos meses – e, se o disco já não é tão fresco quanto isso (saiu a meio de Dezembro de 2014, ao passo que ultrapassámos já as primeiras semanas de 2015), é inevitável, mesmo que tardiamente, falar dele.

A um imaginário musical construído com Brown Sugar (1995) mas sobretudo com o fantástico Voodoo (2000) seguiu-se uma pausa de catorze anos – intercalada com um acidente quase fatal (logo no ano em que Voodoo foi lançado) e uma detenção policial por sugestões menos próprias a uma agente de autoridade. Essa pausa foi quebrada agora com Black Messiah (termo que D’Angelo tenta associar a um imaginário colectivo e social, por mais que pareça condizer na perfeição com o misticismo envolto no seu regresso aos discos, que honra aqui sem mácula) – um título reminescente de Black Moses de Isaac Hayes, talvez.

Black Messiah tem sido amplamente aclamado, e creio que o merece inteiramente: é um álbum marcante e brilhante (adjectivo que não utilizo de ânimo leve), que vem mais uma vez «baralhar as cartas» da música americana. É, sobretudo, um disco que se atira de frente contra o simplismo e a banalidade, chamando a si um imaginário repleto de uma diversidade enorme de influências que vão sendo re-construídas, ao longo do disco, sempre com um cunho profundamente pessoal – D’Angeliano, se quisermos (porque a sua identidade tão demarcada já permite utilizar o termo, que poderíamos traduzir como «música que na lascividade encontra a subtileza e na festa, a seriedade»).

É difícil comentar os pontos altos, não só porque Black Messiah funciona perfeitamente como um todo (com as constantes ligeiras mudanças de direcção a não soarem nada forçadas) mas também porque seria bem mais fácil destacar as canções que não mantêm o altíssimo nível disco – uma, eventualmente duas -; o que, por razões lógicas, seria injusto fazer. A maioria é de um bom gosto inatacável: à impressionante «1000 deaths» (com momentos ora calmos e descontraídos, ora desviantes – do discurso religioso inicial à confusões de vozes que se misturam, culminando no ruidoso final) segue-se uma doce-quase-melosa (em bom) «The Charade». Encontra-se de seguida uma jazzística «Sugah Daddy» (que é também single) que antecede a delicadeza – aqui quase melancólica – de «Really Love» (fosse português e no início a voz que sussurra coresponderia ao belíssimo dedilhado com um portentoso fado, o que, felizmente, não é o caso, com D’Angelo a levar o tema novamente para a simplicidade amorosa).

Vai-se ainda nesta jornada, por exemplo, a «Back to the Future (part I)» (título como elegia à forma como Voodoo moldou a posteridade?) e à sujidade delicada de «Till It’s Done», da qual se parte para «Prayer» (que tem por lá uma guitarra surdamente estridente em modo blues) e  para «The Door» (novamente com a belíssima subtileza instrumental da guitarra e com melódicos assobios).

«Another Life» fecha o disco em grande nível, numa espécie de bonito embalo baladeiro que antecede um sono profundo – e que funciona aqui como o silêncio e a sentido de fim que se instaura após a audição de um disco imaculado.

Quer nos momentos mais lascivos e festivos quer nos momentos mais relaxantes e baladeiros, há uma subtileza e um bom gosto inatacável nos arranjos (interpretados com mestria, entre guitarras, baixo – honra a Pino Palladino -, bateria – o mesmo a James Gadson – e teclados), que tornam o diálogo entre os instrumentos sempre agradável, criando um caldeirão primorosamente cozinhado (e do qual é difícil sair) que vai do jazz ao blues, da soul à electrónica, dos beats de hip-hop (pense-se DJ Premier ou J Dilla) até a momentos desviantes que no limite podem ser associados ao psicadelismo.

Desenganem-se os que julgam D’Angelo pelo estilo, registo criminal, rudeza ou falta de sobriedade: Black Messiah marcará a segunda década do Século XXI como Voodoo marcou a primeira.



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