segunda-feira, 15 de junho de 2026
Quando os xutos & Pontapés fizeram 25 anos, editaram a caixa 25 Singles
Ron Carter - "Third Plane" (1977)
É inegável a magia dos trios de jazz. The Lester Young & Buddy Rich Trio, The Oscar Peterson Trio e Keith Jarrett Trio fizeram história ao longo das décadas, destacando-se invariavelmente pela união de três músicos afiados e entrosados entre si. Casando a proximidade pessoal e artística com a habilidade instrumental, outro estelar trio juntou-se, em 1977, para um célebre (re)encontro. Ron Carter, um dos baixistas mais aclamados e requisitados tanto do jazz quanto da música moderna – tendo gravado com centenas de músicos de primeira linha, como Miles Davis, Tom Jobim, Thelonius Monk, Gil Scott-Heron e Alice Coltrane – projetava seu nono álbum como band leader. Para tanto, convidou dois velhos conhecidos, ambos lendas da música assim como ele próprio: Herbie Hancock, piano, e Tony Williams, bateria. Acostumado com todos os tipos de formação, Carter havia experimentado de grandes bandas a duo em seus álbuns solo anteriores, mas, por incrível que pareça, ainda não com apenas outros dois acompanhando-o. Não deu outra: a mística do power trio se fez presente e o resultado é um dos mais emblemáticos discos de sua carreira: “Third Plane”.
A influência do Brasil mostra-se tão inegável quanto legítima para quem gravara discos históricos da MPB como “Wave”, de Tom (1967), “Hermeto” (1972), com Hermeto Pascoal, e “Seeds of the Ground”, de Airto Moreira (1971), dentre outros. Hancock e Williams, entretanto, não ficam para trás, haja vista a versatilidade de ambos e, principalmente, a proximidade de Hancock com a música brasileira. Desde 1968, ele já convivia de perto com Milton Nascimento, com quem, um ano antes de "Third...", inclusive, gravara o clássico “Raça”. Com essas influências, a faixa-título inicia o disco, que tem o contrabaixo de Carter comandando as ações. Williams engendra um ritmo sambado elegante, bossa novístico e bluesy ao mesmo tempo. De seu lado, Hancock é capaz de realçar linhas harmônicas que se põem no limite do erudito e da tradição pianística do jazz. Genial. Carter, por sua vez, justifica toda a herança do samba que tão bem aprendeu a carregar. Seu estilo único e expressivo de tocar enche a música de personalidade, o que, para ouvidos minimamente atentos, é impossível não perceber que é o baixista quem está tocando aquele que pode ser considerado um dos sons mais característicos do jazz mundial.
A classe permanece, mas agora para uma balada romântica vaporosa e, literalmente, aquietadora. A atmosfera sensual de “Quiet Times”, um convite a uma noite de amor ao som de um jazz que parece bater ao ritmo dos corações, ganha ainda mais intensidade no dedilhado ondulante de Carter, que faz o ouvinte sentir cada nota, cada deslizar dos dedos pelo corpo do instrumento. O piano, inebriado, pontua notas e acordes ora dissonantes, ora extremamente oníricos. Tudo isso, enquanto Williams se esmera no acompanhamento das escovinhas sobre a caixa e os pratos.
O entrosamento entre Carter e sua pequena banda é visível e vinha de muito tempo. Eles já haviam se topado quase 15 anos antes, em 1963, quando integraram a banda de Miles Davis que excursionou com o trompetista e o saxofonista George Coleman pelos Estados Unidos e pela Europa. Com Miles, aliás, formariam, com a adição de Wayne Shorter ao sax, aquele que é considerado o melhor grupo de quatro músicos de jazz depois do "quarteto clássico" de Coltrane, responsável por obras memoráveis da segunda metade dos anos 60 como “Smiles”, “E.S.P.” e “Miles in the Sky”. Mais ou menos nesta época protagonizariam, ao lado de mais um craque, Freddie Hubbard, à corneta, outro ícone do jazz: “Empyrean Isles”, de Hancock. Tal química é o que se vê muito bem resolvida no bop moderno “Lawra” e em "United Blues", quando os três aproveitam o tema para lançar sua verve groove.
Novamente a alma brasileira de Carter surge, agora numa bossa nova romântica e classuda no melhor estilo Tom Jobim. É uma original versão para o standart “Stella by Starlight”. Não à toa, o piano de Hancock é que se destaca, reverenciando o "maestro soberano" como ele e Carter fariam em solo brasileiro juntamente com outros vários músicos no show “Tribute to Jobim” do Free Jazz Festival de 1993. Notam-se reminiscências das melodias de “Lígia” e “Ana Luiza”, emblemas da bossa nova jobiniana, mas agora para tematizar outra musa: tom melancólico e lírico e harmonia complexa num tema de paixão desenfreada. Areias de Copacabana na baía de San Francisco.
O final é tão assertivo quanto juntar em um trio Carter, Hancock e Williams: “Dolphin Dance”, clássico do repertório de Hancock em que repetem o feito de “Maiden Voyage”, de 1965, quando a tocaram acompanhados de Coleman e Hubbard. A escolha do tema passa longe de soar como uma garantia de um bom encerramento, visto que se dedicam a interpretá-la com uma energia e paixão tão tocantes, que a diferenciam da original ou de qualquer outra versão que o tema tenha recebido. Blues, modal, cool, hard. Transformações rítmicas, conjunções harmônicas criativas... tudo se escuta na faixa derradeira de “Third...”, o qual tem como último acorde o sinuoso toque do tão referencial baixo de Carter. Um final perfeito para um disco igualmente irretocável.
Uma das qualidades dos trios de jazz está na superação de uma suposta deficiência: a ausência de um solista. Sem pelo menos um quarto membro, que equilibraria a formação com as três bases mais comuns – piano, baixo e bateria – mais um solo, a banda, com somente três integrantes, geralmente restringe-se apenas a estes instrumentos-base. Quando muito, um sopro, o que implicará, necessariamente, na supressão de algum daqueles três. Ou seja: é mais difícil de se compor a arquitetura sonora. Dessa “dificuldade”, entretanto, sai o trunfo dos grandes trios, que é justamente aproveitar-se desta composição mínima, atribuindo a todos a liberdade de preenchimento do espaço harmônico e solístico. Carter e seus parceiros mostram o quanto isso é possível quando se tem talento e paixão. A seis mãos, o que se escuta é mais do que três músicos dividindo o estúdio: é o atingimento de algo maior, imaterial. Um terceiro plano.
The Rolling Stones - "Some Girls" (1978)
Saiu recentemente uma reedição bacanérrima do álbum "Some Girls" de 1978, com disco original na íntegra mais um disco extra com material inédito. "Some Girls" é dos meus prediletos da banda ainda que seja seja um Stones-tardio, e devemos admitir, que quanto mais recente, menor a qualidade do trabalho dos velhinhos, infelizmente. Mas não é o caso deste. Em meio à onda punk do final dos '70 e às tendências disco-music que estavam em alta, Jagger e cia. não ficavam indiferentes ao que acontecia no mundo musical e injetavam doses de energia e embalo ao seu som.
Coisas como "Lies", "Respectable", "Shattered" e "When the Whip Comes Down" tem toda uma pegada mais pesada, mais forte e mais crua até, entendendo a sonoridade da época, de um som mais sujo, mais básico, sem contudo fazer concessões excessivas que viessem a descaracterizar seu som. Por sua vez, a clássica "I Miss You" é um excelente exemplo de levada disco aplicada ao rock-blues característico do grupo numa composição primorosa que de tão sofisticada adquiriu um caráter naturalmente atemporal.
Destaques também para a ótima regravação de "Just My Imagination" dos Tempatations, permanecendo uma balada porém ganhando mais guitarras; para os vocal principal de Richards em "Before They Make Me Run"; para o excelente trabalho de guitarras de "Beast of Burden"; para o lamento country "Far Away Eyes" e para a que empresta nome ao disco, "Some Girls", com aquele ar debochado do vocal de Jagger descrevendo as mais variadas garotas, seus tipos e manias.
O CD extra desta nova edição especial também não fica atrás e seria certamente um bom álbum de carreira, com destaques especiais para o rock-caipira "Claudine", "When You're Gone" de Ron Wood e para o bluesaço "Keep Up Blues". E daí, ouvindo extras como estes, o que dá pra concluir é que a exemplo das 'sobras' do outro álbum clássico, "Exile on Main Street", que também teve um relançamento de luxo, o que é 'resto' de uma banda como os RS ainda é bem melhor do que muito material que um monte de bandinhas por aí que suam pra conseguir fazer num disquinho que no fim das contas sai bem mais-ou-menos.
Ah, e só pra não deixar passar: a capa e toda arte do álbum são um grande barato. Melhor no LP, com a capa vazada e os rostos dos integrantes da banda, do encarte, preenchendo os vãos das formas femininas da capa. Mas não deixa de ser muito legal a parte gráfica nesta edição também, sobretudo pelo encarte mais completo e detalhado.
Bom, particularmente devo dizer que, agora tendo adquirido este duplo em CD, tenho os dois formatos, sendo que o LP é um original de 1978.
Aham...
(Não me levem a mal)
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FAIXAS:
1. "Miss You" 4:48
2. "When the Whip Comes Down" 4:20
3. "Imagination"* (Norman Whitfield / Barrett Strong) 4:38
4. "Some Girls" 4:36
5. "Lies" 3:11
6. "Far Away Eyes" 4:24
7. "Respectable" 3:06
8. "Before They Make Me Run" 3:25
9. "Beast of Burden" 4:25
10. "Shattered" 3:48
Faixas adicionais - CD Bônus reedição 2011:
1. "Claudine" 3:42
2. "So Young" 3:18
3. "Do You Think I Really Care?" 4:22
4. "When You’re Gone"* (Ronnie Wood) 3:51
5. "No Spare Parts" 4:30
6. "Don’t Be a Stranger" 4:06
7. "We Had It All"* (Troy Seals/Donnie Fritts) 2:54
8. "Tallahassee Lassie"* (Bob Crewe/Frank C. Slay Jr./Frederick A. Picariello) 2:37
9. "I Love You Too Much" 3:10
10. "Keep Up Blues" 4:20
11. "You Win Again"* (Hank Williams) 3:00
12. "Petrol Blues" 1:35
todas as faixas Jagger/Richards, exceto as indicadas*
The Rolling Stones "Let It Bleed" (1969)

Independente da qualidade da contribuição musical dos Beatles ao mundo da música através dos tempos, inegável e fundamental, sempre tive para mim a impressão de que os Garotos de Liverpool eram os bons moços e os Rolling Stones os maus. Ainda que os Beatles também possuam polêmicas, episódios com mulheres e tal, a conduta de Mick Jagger e companhia sempre me pareceu muito mais roqueira. Até o jeito de cantar, de vestir, da postura do palco, tudo. Talvez por tudo isso sempre tenha gostado mais dos Stones.
E verdadeiramente o disco é TUDO ISSO. Uma obra admirável e grandiosa quase que sem igual na história do rock.
Pra começar, abre com “Gimme Shelter” que na minha opinião é a melhor canção de rock de todos os tempos. Jagger com um vocal impetuoso, quase agressivo; os vocais femininos de arrepiar, a guitarra precisa de Richards e aquele tom apocalítico da letra fazem de “Gimme Shelter” algo mágico e superior.
“Love in Vain” que vem na seqüência é demonstração evidente de uma das influências mais fundamentais da banda, o blues, e particularmente, Robert Johnson, que imortalizou a canção. A propósito, os chatos (mas bons) irmãos Reid do Jesus and Mary Chain, chegaram a afirmar que os Stones eram apenas “a melhor banda de blues do mundo”, e quando dizem APENAS de blues, quer dizer que não consideram uma banda de rock. Mas tirando essa antipatia dos Reid, eu compreendo a afirmação, pois no fim das contas os Rolling Stones incrementaram seu rock com muito blues e deram ao blues traços mais roqueiros e fizeram isso como ninguém.
O blues se faz presente em vários momentos no disco e outros bons exemplos no disco são a ótima “Midnight Rambler”, mais agitada, forte e vibrante, e a faixa título “Let It Bleed”, mais melancólica.
O álbum fecha com a grandiosa “You Can’t Always Get What You Want” pontuada por um belíssimo coral gospel, num crescendo mejestoso que confere um final digno a uma obra fantástica como esta. Se eu até posso não ter sempre o que quero, não sei, mas a sensação que se tem ao ouvir “Let It Bleed” é de que não se precisa de mais nada.
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FAIXAS:
- "Gimme Shelter" – 4:32
- "Love in Vain" (Robert Johnson) – 4:22
- "Country Honk" – 3:10
- "Live with Me" – 3:36
- "Let It Bleed" – 5:34
- "Midnight Rambler" – 6:57
- "You Got the Silver" – 2:54
- "Monkey Man" – 4:15
- "You Can't Always Get What You Want" – 7:30
The Rolling Stones "Exile on Main St." (1972)
Entre muitas drogas, álcool, discussões, brigas e polêmicas, os Rolling Stones em 1972 lançavam aquele que seria o único álbum duplo de sua discografia e ainda hoje considerado por grande parte da crítica, o melhor da banda. “Exile on Main St.” curiosamente, apesar das boas vendas, causou algum estranhamento no público e desagrado à gravadora pelo tratamento diferente dado a cada música, o que, além do resultado fonográfico considerado irregular, saíra muito caro por conta do longo período que a banda permanecera em estúdio. Este é outro detalhe importante deste disco que, sem falar na grande qualidade da obra, é envolvido por grandes curiosidades: a maioria das músicas eram sobras dos dois álbuns anteriores e foram levadas para terem um “tratamento” diferente e aí então comporem um álbum e o interessante é que mesmo com origens diferentes e não tendo sido pensadas para uma obra ou conceito específico conseguem ter uma unidade e coesão a ponto de receberem até hoje tamanho destaque. A banda foi gravá-lo na França e alugou uma antiga casa que tinha servido na 2° guerra como quartel-general da Gestapo. Consta que a própria banda diz ter sido afetada pelas vibrações do lugar o que teria contribuído em parte para (um dos) quase fim da banda por conta das freqüentes brigas de Jagger e Richards. Daí já vem outra curiosidade: Jagger, insatisfeito com o resultado que estava se apresentando, meio que largou de mão o material gravado e aí que Richards achou de dar o tratamento que bem entendia, enchendo a sonoridade de metais e vocais gospel. O fato de estar insatisfeito com o que vinha sendo feito talvez tenha servido de estímulo a Mick Jagger que acaba tendo uma performance vocal incrível no disco. Pra completar, a capa cheia de bizarrices, esquisitices, absurdos e abominações já era uma mostra do que estava contido ali dentro, refletindo, em parte, o que se passara com a banda, o ambiente e a atmosfera das gravações. O resultado de tudo isso é o disco mais chapado, criativo e experimental dos Stones e um dos melhores de todos os tempos.****************************
FAIXAS:
1. Rocks Off
2. Rip This Joint
3. Shake Your Hips
4. Casino Boogie
5. Tumbling Dice
6. Sweet Virginia
7. Torn and Frayed
8. Sweet Black Angel
9. Loving Cup
10. Happy
11. Turd on the Run
12. Ventilator Blues
13. I Just Want to See His Face
14. Let It Loose
15. All Down the Line
16. Stop Breaking Down
17. Shine a Light
18. Soul Survivor
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Ouça:
The Rolling Stones Exile On Main Street
Em 15/06/1966: The Beatles lança o álbum Yesterday and Today
Em 15/06/1946: Nascia Demis Roussos, vocalista do Aphrodite's Child
Em 15/06/1993: Pete Townshend lança o álbum Psychoderelict
Em 15/06/1978: Bob Dylan lança o álbum Street-Legal
Destaque
Alvin Lee - Pump Iron! (1998)
1. One More Chance (3:53) 2. Try To Be Righteous (4:03) 3. You Told Me (3:53) 4. Have Mercy (2:48) 5. Julian Rice (4:52) 6. Time And Sp...
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A linhagem de guitarristas slide de blues de Chicago vai de Elmore James a Hound Dog Taylor, passando por JB Hutto, até Lil' Ed Willia...
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