quinta-feira, 2 de julho de 2026

Circus "Surface Tension" (1993)

 "A atmosfera cultural da cidade sempre foi propícia ao desenvolvimento da música eclética." Essa afirmação foi feita em 2010 por Ellis Rich, chefe da empresa inglesa PRS For Music, após analisar os resultados de 

um minucioso estudo sociológico. E, neste caso, estamos falando de Bristol. É aqui que nasceu o maior número de músicos em relação à população (no Reino Unido). No entanto, no contexto da matéria de hoje, estamos interessados ​​em apenas um dos muitos grupos musicais de Bristol. Senhoras e senhores, permitam-me apresentar: Circus . Um grupo com um nome assumidamente pouco original e uma abordagem única à criatividade. Em 1992, cinco jovens lançaram seu álbum de estreia, "Flashback", pelo selo President Records LTD. Os críticos logo notaram o saudável conservadorismo dos novatos, que herdaram as ideias do Van der Graaf Generator e do Genesis da primeira fase . E, comparado às "obras-primas" batidas do círculo fechado do neoprogressismo, o coquetel efervescente oferecido pelo Circus soava muito bem. Guiados pelo princípio de "aproveitar a oportunidade enquanto ela está quente", o quinteto logo lançou seu segundo álbum completo. Vamos falar sobre ele.
Apesar de sua pronunciada ambição conceitual, "Surface Tension", com suas estruturas composicionais díspares, assemelha-se a uma colcha de retalhos. Por exemplo, a introdução "Relove" e a terceira faixa "Interview" lembram as composições dos extraordinários canadenses do Terraced Garden : há os vocais estilizados de David Braley com as entonações de Ian Anderson , as partes de violino do guitarrista Patrick Case e ecos sintéticos de pós-punk misturados com new wave. Na peça folk acústica "Sanctuary", o cantor camaleônico faz uma inesperada referência a Peter Hammill . E então algo completamente fora deste mundo acontece. Da rica e musical arte pop de "Falling", os cavalheiros "artistas circenses" se voltam com ousadia para a neo-psicodelia ("Sometimes"); Em "Reunion", um grupo de jovens brilha com o glamour do rock progressivo cósmico ; e novamente com o folk (" I Need a Drink") - motivado e comovente. Em "Awake", o microfone do vocalista David passa para a doce Lisa ; a própria música é acompanhada por dedilhados aconchegantes de violão de seis cordas.Em seguida, desabrocha com tapetes de teclado à la Tony Banks (pelo qual agradecemos ao organista Colin Smith), e, mais perto do estágio final, mergulha em um mar monotemático minimalista, inspirado nos "projetos" de Michael Nyman.Após percorrer os recantos elétricos e complexos da rítmica "Stationary Traveller", o Circus impressiona o público com um som robusto de blues-pop, com toques de Joe Cocker e do inesquecível Chris Rea . A apresentação termina com um instrumental new age de qualidade clássica ("Child's Play").
O resultado: uma incursão multigenérica e envolvente que agradará não só aos fãs mais fervorosos do rock progressivo, mas também a membros de outras comunidades amantes da música. Altamente recomendado.



Dave Cousins "Two Weeks Last Summer" (1972)

 Em outras circunstâncias, este álbum dificilmente teria visto a luz do dia. No entanto, o acaso decide tudo. Assim, ao recrutar o baixista John Ford e o baterista Richard Hudson para os Strawbs , o líder da banda, Dave Cousins, 

automaticamente adquiriu colaboradores capazes de criar canções envolventes em pouco tempo. Os recém-chegados se puseram a trabalhar com entusiasmo. Enquanto isso, o acervo criativo de Cousins ​​havia acumulado material que ele próprio apreciava muito. E os tons pessoais da maioria das composições foram cruciais. Resumindo, o dedicado Dave conseguiu encontrar tempo, energia e dinheiro, e em um dia quente de junho no The Manor Studios em Oxford, nosso humilde multi-instrumentista, com o apoio de amigos, deu vida a um álbum verdadeiramente maravilhoso. Ele foi auxiliado por titãs do palco: Miller Anderson (guitarra solo e slide), Rick Wakeman (piano, órgão), Dave Lambert (guitarra, vocais), Roger Glover (baixo) e Jon Hiseman (bateria). E, como mencionei acima, o resultado correspondeu plenamente às expectativas.
Cousins ​​(voz, guitarra, piano, sinos), em colaboração com Glover e o organista Tom Allom, transformou a pastoral mística que dá título à obra em um espetacular raga de menestrel; sim, as tradições do folclore musical inglês se entrelaçam aqui de uma maneira bastante peculiar com tendências meditativas hindus, dando vida a uma composição extremamente vibrante. A curta peça a cappella "October to May" (Dave and the Kidlington Kossacks ) é arrepiante: parece que essa vocalização pitoresca emana de um coro de antigos guerreiros normandos, deixando temporariamente os salões de Valhalla. A peça épica "Blue Angel" mostra Cousins ​​em seu melhor como compositor: fragmentos acústicos melodiosos, solos de guitarra elétrica apaixonados, tom dramático e passagens clássicas de teclado — tudo apresentado de uma maneira ideal para o Strawbs no início dos anos 1970. No breve instrumental "The World" e em sua significativa continuação, "That's the Way It Ends", o gênio toca piano, acompanhado pelo septeto de metais de Robert Kirby . O enérgico esboço "The Actor" representa uma virada emocional para um folk-rock delicioso. No entanto, a explosão de rock não dura muito, e já no episódio solo intimista "When You Were a Child", Dave se mostra cavalheiro. "Ways and Means" é meticulosamente construída no estilo característico do Strawbs : na verdade, não é surpreendente, já que a peça foi originalmente escrita para uma banda. A idílica imagem "rural" de "We'll Meet Again Sometime", apresentada por Cousins ​​e Anderson em dois violões, é imbuída de um charme antiquado. A faixa final, "Going Home", é difícil de levar a sério, e provavelmente não deveria.porque apresenta Dave na companhia dos roqueiros LampoonEle manda muito bem no boogie-woogie, se divertindo e fazendo palhaçadas. Mas não posso criticá-lo por isso. O importante é que o álbum é maravilhoso, só um pouco inferior ao álbum "Grave New World" dos Strawbs , lançado simultaneamente. Aproveite.




Sandra Sá - "Vale Tudo" (1983)

 

"Alô, Sandra Sá! Aqui é o Tim Maia. Eu fiz essa música pra você. Já tenho a ideia do arranjo, que eu vou falar com o Lincoln (Olivetti). E tem mais: eu vou gravar ela contigo no teu LP!" 
Tim Maia, em ligação telefônica para Sandra Sá, sobre a música “Vale Tudo”

O chamado Black Rio foi o grande movimento cultural próprio do Rio de Janeiro depois da bossa nova. Se não teve a mesma influência ou projeção internacional que as notas dissonantes ou que a Garota de Ipanema, a cena, movida à música soul importada dos states mas com tempero bem tupiniquim, cumpria uma função social corajosa ao exaltar algo inédito naquele Brasil ditatorial dos anos 60 e 70: a cultura negra. Influenciado pelo Black is Beautiful dos Estados Unidos, o movimento Black Rio conseguia levar a pistas brasileiras aquilo que o perseguido samba, o mais brasileiro dos ritmos, nunca havia alcançado, que era a valorização uma raça preponderante em população, mas marginalizada, violentada e desumanizada pelo histórico e estrutural racismo.

As danças, as roupas, os pisantes, os cabelos, a pele, os gestos. Tudo compunha o cenário de deslumbramento e descoberta dos bailes black, que tomavam a Zona Norte carioca. Equipes de som como Furacão 2000, Soul Grand Prix, Modelo, Sua Mente numa Boa, Rick e Revolução na Mente garantiam a festa, frequentada por milhares de pretos e pretas. E claro: a música exercia um papel fundamental nesta inédita onda de autovalorização e resistência. E se a Banda Black Rio tinha a autoridade sonora e onomática de grande grupo da cena, Gerson King Combo o de astro central e Carlos Café o de principal cantor, havia a necessidade de responder também ao público feminino. Sandra Sá, então, naturalmente veio tomar este espaço.

Nascida em Pilares, na Zona Norte carioca, a neta de africanos Sandra Cristina Frederico de Sá levou sua voz rouca e cheia de groove das festas black direto para as rádios, um salto inédito na indústria musical brasileira até então para uma artista negra de música pop. Depois de um celebrado álbum de estreia, em 1980, com direito a música inédita de Gilberto Gil ("É"), Sandra é adotada de vez pela turma da soul brasileira. O sucesso comercial de "Lábios Coloridos", do segundo disco, de 1982, já contava com Lincoln Olivetti nos teclados e arranjos, Robson Jorge nas guitarras, o Azimuth Ivan Conti "Mamão" na bateria e a cozinha da própria Banda Black Rio, a se ver pelas participações ativas de Oberdan Magalhães, Jamil Joanes e Cláudio Stevenson. Em "Vale Tudo", terceiro e último trabalho pela gravadora RGE, Sandra repetia as parcerias e já estava pronta para sua grande obra, a qual completa 40 anos de lançamento em 2023.

O precioso repertório de "Vale Tudo" une músicas de autores consagrados e da nova geração, que passava a se firmar. A começar pela faixa-título: o sucesso instantâneo de Tim Maia dado de presente por ele a Sandra. Não é difícil entender o porquê: em duo com o próprio Síndico, Sandra solta a voz numa animada disco engendrada pelo próprio autor em parceria com Lincoln e executada pela banda Vitória Régia. Ouvir os dois maiores cantores da soul brasileira juntos foi tão estrondoso, que a faixa ganhou videoclipe do Fantástico e virou hit em todo o Brasil, figurando na 28ª de posição entre as 100 músicas mais tocadas do ano de 1983.

videoclipe de "Vale Tudo", com Sandra Sá e Tim Maia

Mas se tinha Tim, tinha Cassiano também. É dele a autoria do funk suingado "Candura", em preciosa parceria com Denny King, das melhores do disco. E se havia Tim e Cassiano, também aparecia Guilherme Arantes, na romântica "Só as Estrelas", que encerra o álbum. Com o samba-funk brasilianista "Terra Azul", a dupla veterana Júnior Mendes e Gastão Lamounier eram outros que não resistiram ao talento da cantora, sendo fisgados por seu carisma e seu timbre, que não deixava nada a desejar a grandes cantoras internacionais da época. Se os norte-americanos tinham Donna Summer, Roberta Flack e Chaka Khan, o Brasil tinha Sandra Sá.

De fato, ninguém queria ficar de fora do bonde de Sandra. Tanto é que músicos de primeira linha como Serginho Trombone e Reinaldo Árias também tocam e assinam arranjos. Igualmente presente, seja na caprichada produção quanto em arranjos, é o tarimbado violonista Durval Ferreira, cujo currículo inclui trabalhos com Leny Andrade, Sérgio Mendes e o lendário saxofonista de jazz norte-americano Cannonball Adderley. Ferreira também assina duas composições: o tema de abertura, a excelente "Trem da Central", ao lado de Sandra e Macau (este, o autor de “Lábios Coloridos”), e o funk dançante “Pela Cidade”. Ambas as músicas trazem um olhar diferente da Rio de Janeiro idílica da Zona Sul, evidenciando uma cidade preta e periférica que começava a pedir passagem.

Fotos das gravações no encarte
original de "Vale Tudo"
Outras duas delícias emitidas pelo aveludado vocal de Sandra: “Gamação”, soul de muito suingue e romantismo, e a brilhante "Guarde Minha Voz", do craque Ton Saga, tranquilamente uma das mais belas canções pop-soul já gravadas no Brasil. Uma joia equiparável a outros “clássicos B” do AOR brasileiro, como “Débora”, de Altay Veloso, “Joia Rara”, da Banda Brylho, ou “Lábios de Mel”, de Tim. Como diz a letra: para se guardar no coração.

Embora a maioria das músicas seja de compositores masculinos, o disco de Sandra traz uma outra pequena revolução, que é o papel de mulheres como autoras. Além dela própria, que assina a balada “Musa” e coassina “Trem...”, a carioca abre espaço para compositoras no seu repertório já tão disputado. Rose Marinho divide a autoria da já citada “Pela Cidade” com Durval e outro veterano, Paulo César Pinheiro, enquanto Irineia Maria revela outro destaque do disco: a apaixonada “Onda Negra”. Balada soul deliciosa, com a arranjo de Oberdan, contém em sua letra vários elementos representativos da figura de Sandra para o movimento Black Rio, que é um filtro de olhar feminino para aquela “onda negra de amor” que se presenciava: “Nessa forma de beleza/ Vou seguindo a te levitar/ E o som me envolve me fascina/ Não consigo mais parar/ Mas é sempre uma dose certa/ De alegria, paz de luz e cor/ E a certeza de poder criar/ Uma onda negra de amor”. Mais visto na MPB de então por conta da geração de compositoras como Joice Moreno, Leila Pinheiro e Sueli Costa, no meio pop Sandra prenunciava aquilo que se tornaria comum anos depois para Cássia Eller, Adriana Calcanhoto, Vange Leonel e outras, bem como, especialmente, para as cantoras pretas brasileiras da atualidade, tal Xênia França, Larissa Luz, Luedji Luna, Iza e outras.

Depois de “Vale Tudo”, Sandra - que adicionaria definitivamente dali a alguns anos a preposição “de” original de batismo ao nome artístico - ainda alcançou sucessos esporadicamente, principalmente com “Bye Bye, Tristeza”, de 1988. Numa viragem mais pop e comercial para a carreira, hits como este, embora a tenham ajudado a se consolidar no cenário musical brasileiro, denotavam, por outro lado, que a fase áurea havia terminado. Porém, ninguém tira de Sandra o nome gravado na história da música brasileira, haja vista que sua credibilidade como artista e seu legado permanecem inalterados. Mais do que isso: renovados. Um disco como este, mesmo ouvido quatro décadas depois de seu lançamento, soa como um agradável compêndio do que de melhor havia na soul music brasileira àquela época e, porque não dizer, na história da música preta no Brasil. Está tudo lá: intacto. Assim como a voz de Sandra, que o público a atendeu e guardou no coração.

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FAIXAS:
1. “Trem Da Central” (Durval Ferreira, Macau, Sandra Sá) - 4:03
2. “Candura” (Cassiano, Denny King) - 3:03
3. “Pela Cidade” (Durval Ferreira, Paulo César Pinheiro, Rose Marinho) - 3:21
4. “Onda Negra” (Irinéia Maria) - 3:40
5. “Gamação” (Pi, Ronaldo) - 3:14
6. “Vale Tudo” (Tim Maia) - 4:07
7. “Guarde Minha Voz” (Ton Saga) - 3:11
8. “Terra Azul” (Gastão Lamounier, Junior Mendes) - 3:33
9. “Musa” (Sandra Sá) - 2:46
10. “Só As Estrelas” (Guilherme Arantes) - 3:26


Sá & Guarabyra - “Pirão de Peixe com Pimenta” (1977)

 


“Apesar de carioca,
sempre tive uma ‘visão exterior’
ligada ao resto do Brasil.
Meus pais viajavam muito
pelos interiores de Minas, São Paulo e Rio,
e isso, junto com as viagens que fiz com Guarabyra
ao então ignoto e isolado sertão do São Francisco,
me deram o necessário banho-Brasil.
Hoje sou um anel carioca folheado a sertão.”

“Concordo.
E concordo também com a crítica
que acha que outros é que são (risos)."
Guarabyra,
sobre a crítica considerar “Pirão de Peixe com Pimenta”
o melhor disco da dupla


Era começo de 1978, eu recém tinha passado no vestibular. Estava feliz porque tinha entrado no Jornalismo de primeira depois de “matar” o cursinho no sentido de que ia às aulas, mas sentava na última fila, onde se juntavam os malucos, baderneiros e afins. O mês era janeiro, tava um calorão e fui no Zaffari Ipiranga comprar uns discos (é, na época tinha discos pra vender no Zaffari: “economizar é comprar bem”). Dei de cara com um que tinha ouvido no rádio – 1120 Continental, por supuesto – e tinha gostado da música. Se chamava “Pirão de Peixe com Pimenta”, da dupla Sá & Guarabyra. Acompanhava os caras desde os tempos do rock rural que tinha eles mais o Zé Rodrix e do lendário jingle da Pepsi (“Hoje existe tanta gente que quer nos modificar...”). Dei uma ouvida e comprei sem pestanejar. Pois este disco me acompanha desde aquele tempo e é um dos meus discos favoritos.

A aventura musical começa com “Sobradinho”, música deles, talvez uma das primeiras a falar dos desmandos do poder público quando resolve que destruir a natureza é mais importante do que preservá-la. E a letra é explícita desde o começo: “O homem chega/ já desfaz a natureza/ tira gente põe represa/ diz que tudo vai mudar... E passo a passo vai cumprindo a profecia do beato/ que dizia que o sertão ia alagar/ O sertão vai virar mar/ dá no coração/O medo que algum dia o Mar também vire sertão... Remanso, Casa Nova, Sento Sé, Pilão Arcado, Sobradinho, Adeus, Adeus”. Preocupações ecológicas numa roupagem rock rural e a harmônica do mestre Maurício Einhorn percorrendo a canção. Grande sucesso na época, que só foi ofuscado na fase “Roque Santeiro” da dupla.

“Marimbondo”, uma parceria de Xico Sá com Marlui Miranda, bem ao estilo onomatopaico da cantora. “Marimbondo vem fazer sua casa/ em minha asa, za za/Sai azar marimbondo”. A banda base composta por Sérgio Caffa ao piano, Sérgio Magrão (Ex-O Terço, atual 14 Bis) no baixo, Luis Moreno na bateria e Chico Batera na percussão segura todas, enquanto os violões e as violas caipiras de Sá e Guarabyra encontram o bandolim de Quinintinho de Pirapora. No final, o narrador diz ao marimbondo que não pode fazer sua casa lá porque “Eu já sou torto e solto/ e não posso te morar/ ou vai curtir a bananeira/ que tem eira, eira, eira e eu/ não tenho eira nem beira não/ tenho eira nem beira”. Viagens de Xico e Marlui que S&G tornam palatáveis e, especialmente, audíveis.

Nesta fase, Sá e Guarabyra andavam muito curtindo o interior de Minas Gerais e da Bahia, e isso se reflete nas canções. “Trem de Pirapora” faz a defesa da vida interiorana: “O trem de Pirapora já passou por essa pont / perdido em Montes Claros/ achado em Belo Horizonte/ pirapora preta, preta barranqueira/ luz acesa até altas horas da noite... cadeira na calçada fugiu pra dentro de casa/ da porta entreaberta espreita a cara zangada...”. O arranjo de Nelson Ângelo valoriza as flautas de Paulo Jobim, Danilo Caymmi, Franklin e Paulo Guimarães e as cordas no final.

“João Sem Terra” toca no drama dos imigrantes e dos sem-terra numa levada sertanejo roqueira. “Desde pequeno me chamam/ desde pequeno me chamam/ João Sem Terra/ Filho de um sol estrangeiro/ que acabou me renegando/ fico onde chego primeiro/ João Sem Terra”. A questão de quem chega numa terra desconhecida é bem explorada pela dupla sem cair num rame-rame político-ideológico. Lá pelas tantas, a letra diz: “ter de se andar para frente/ sem olhar atrás o que se deixou/ não se deseja o pior inimigo/ tão sujo presente... ter de lembrar todo o dia/ o medo que te fez deixar teu chão/ nem ao pior inimigo/ se quer tão amarga recordação”. A dupla diz tudo e capta bem o sentimento do imigrante e do sem terra. Grande música.

Pra fechar o lado 1 do LP, vem a faixa-título, que dá água na boca só de ouvir: “Carne de Sol, pirão de peixe com pimenta/ e uma boa Januária completando a refeição/ dizendo assim até parece que é mentira/ de Sá & Guarabyra / coisa da imaginação...”. Com um arranjo do mestre Rogério Duprat, a canção vira uma grande celebração num coreto qualquer do interior do Brasil, com direito a bandinha. E esta comilança toda fica lá. Tanto que S&G ficam muito saudosos e dizem: “Eh parada em Carinhanha/ Eh Zé Sales nosso irmão/ Eh Ranchão de CorrentinA/ Eh paizinho de alemão/ vamos voltar no próximo verão/ O Quincas nos espera pra inauguração”. Uma delícia de canção.

Abrindo o Lado 2, tem “Coração de Maçã”, uma metáfora da busca do amor. “Coração de maçã/ uma fruta aqui dentro do peito/ que vive não fala/ tomada de horror/ pelos mistérios do mundo exterior”. Nela, se destaca o piano de Caffa, que percorre a canção enquanto os violões da dupla se misturam com as flautas de Paulo Guimarães e do lendário Copinha, arranjadas por Guarabyra e Duprat. E este coração vive um amor ardente: “Coração de maçã/ lutando contra o verão que queima este corpo/ febre equatorial/ bicho de amor/ Coração de maçã/ fechado e guardado espera/ o sangue vermelho e novo/ da primavera/ pra que possa dar sua flor”. Pelo jeito, tanto Sá quanto Guarabyra tiveram problemas com as garotas com coração de maçã.

O experimento musical mais ousado do disco vem com “Cinamomo”, que tem o baixo de Sérgio Magrão dando o tom e a flauta de Paulo Guimarães e as marimbas de Chico Batera ajudando a criar um clima. A experimentação também se dá na letra, uma poesia com jeito concretista, brincando com as sílabas: “Farta fumaceira/ faz este vapor/ moça marinheira/ quem é teu amor/ nos cabelos belos bibelôs/ nos cabelos bibelôs/ E um cinamo ci ci cinamomo/ E um cinamomo”. Deve se destacar também o piano elétrico de Caffa, que faz harmonias dissonantes.

Depois, vem outro sucesso do disco, a popular “Espanhola”, gravada por eles antes de estourar com Flávio Venturini, o autor da música junto com Guarabyra. Esta versão traz uma banda completamente diferente: Cartier no viola elétrica de 12 cordas; Burnier no violão; Gilson ao piano; Fernando Leporace no baixo; e Nonato na bateria mais o arranjo maravilhoso de cordas de Eduardo Souto Neto. A dupla só canta nesta linda canção que muita gente conhece, mas deveria ouvir esta linda versão. “Por quantas vezes/ eu andei mentindo/ só por não poder/ te ver chorando/ te amo espanhola/ te amo espanhola/ se vais chorar/ Te amo”. Vale a pena conferir.

O momento mais divertido do disco vem a seguir com “Canção dos Piratas”. O arranjo de Eduardo Souto Neto agora se utiliza dos metais com trompas, trombones e tuba pra dar um ar de trilha sonora de filme de pirata. E a letra é divertida: “Hoje o tempo parece tranquilo/uma brisa soprada de leve/ ahey, ahey/ Hoje o mar mais parece um espelho/ refletindo bonecos de neve/ ahey, ahey/ Diz o capitão que amanhã de manhã/ se continuar esta viração/ nós vamos chegar no mar do Japão”. Os backing vocals de Lizzie Bravo, Rosana, Ismail, Betinho e Didito ajudam S&G a dar o recado na canção, que tem o arranjo mais rebuscado de todo o disco.

“Pirão de Peixe com Pimenta” termina com uma canção linda que remete aos passeios no interior do Brasil, onde se pode ver a “Água Corrente”, pura e cristalina (ou pelo menos se podia naquela época). A banda está reduzida ao máximo com Sá na viola caipira, bandolim e guitarra slide; Guarabyra no violão; Sérgio Caffa ao piano; Sergio Magrão no baixo e Moreno na bateria. A letra é tão bonita que foi reproduzi-la inteira: “Água corrente, pedra rolante/ desce contigo o meu coração/ leito de rio, esconderijo e doce, doce prisão/ Deixa eu molhar minha voz e repetir a canção/ Água corrente, pedra redonda/ Onde os segredos se vão afogar/ Leva a saudade pra quem te espera longe/junto do mar/ Que nenhum desvio te possa deter/ por entre os barrancos/ palavras de amor/ lá se vão na corrente”. Linda canção, que encerra este disco e que tem um quê de country rock, o irmão americano do rock rural brasileiro.

Sou fã desta dupla e dois anos depois eles lançaram mais um disco muito bom e que, em breve vai estar aqui chamado “Quatro”. Mas isso é outra história.
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FAIXAS:
1. Sobradinho  
2. Marimbondo (Xico Sá/Marlui Miranda)
3. Trem De Pirapora      
4. João-Sem-Terra         
5. Pirão De Peixe Com Pimenta               
6. Coração De Maçã      
7.  Cinamomo   
8. Espanhola (Flávio Venturini/Guarabyra)
9. Canção Dos Piratas   
10. Água Corrente

todas as composições de autoria de Sá/Guarabyra, exceto indicadas.
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OUÇA O DISCO




Ryuichi Sakamoto – "Neo Geo" (1987)


"Eu ainda penso e me pergunto 'o que é música'. É claro que essa pergunta não tem resposta. Hoje, músicos ou compositores se interessam pelas novas tecnologias, como por exemplo Beethoven em seu tempo. Eu acredito que se Beethoven estivesse vivo agora, ele estaria muito interessado em usar novas tecnologias."
Ryuichi Sakamoto


Quando se fala na contribuição que países deram à indústria fonográfica, é normal se associar o Japão muito mais à aptidão científica do que pela produção artística em si. Afinal, quem não tem ou teve ao menos um aparelho Sony, Hitachi, Mitsubishi, JVC, Toshiba, Panasonic ou de alguma outra marca? A alta competência e a disciplina do povo japonês, capaz de erguer um país destroçado pela bomba atômica ao final da Segunda Guerra e levá-lo a uma potência tecnológica mundial, faz tender-se facilmente a esta percepção. Porém, ao contrário do que possa se pensar, foi justamente esse desenvolvimento científico que promoveu o surgimento nas artes dos filhos desse fenômeno social. Na música, o principal nome dessa geração certamente é Ryuichi Sakamoto

Compositor, maestro, tecladista, produtor, arranjador, professor – e às vezes cantor e até ator –, Sakamoto surgiu para o mundo da música nos anos 70 ao compor o revolucionário mas pouco creditado pelos ocidentais Yellow Magic Orchestra, grupo synthpop que deu os primeiros ensinamentos a toda a turma britânica e norte-americana do gênero – que entrariam anos 80 adentro fazendo sucesso muito por conta do que a banda japonesa inventou. Ali, Sakamoto já trazia parte da essência de sua música, que une sofisticação à alta modernidade e a uma visão globalizada da arte, bem como a música clássica e a tradição da cultura milenar da Terra do Sol Nascente.

Precisaram alguns anos, no entanto, para que o exigente Sakamoto calibrasse essa difícil química, cuja fórmula somente o cadinho de alguém muito talentoso como ele poderia misturar sem que resultasse desastroso. Gravou discos solo, compôs trilhas sonoras brilhantes, venceu Oscar, Bafta e Globo de Ouro de Trilha Sonora e, como ator, foi dirigido por cineastas do calibre de Bernardo Bertolucci e Nagisa Oshima, além de colaborar com projetos de diversos outros artistas, como P.I.L. David Sylvian, Bill Laswell e Thomas Dolby. Mas ainda era pouco. Como bom oriental, Sakamoto mantinha uma incessante busca pelo “kodawari”, o “caminho da perfeição”. Passada uma década após sua estreia na YMO, só então o músico pode dizer-se, enfim, minimamente maduro. A materialização desta caminhada perseverante está em “Neo Geo”, nono disco de carreira em que tanto Sakamoto definiu o seu estilo quanto, além disso, ajudou a estabelecer padrões de toda a música pop a partir de então.

Afora a obstinação nipônica, outra característica de Sakamoto é a de, chegado ao ponto que almejava, saber valorizar o que construiu. Os anos de lapidação de sua obra trouxeram, como um ideograma, o poder de síntese. A começar pelo título do álbum em questão, que propositalmente faz referência a uma nova arquitetura geográfica mundial visto que já se percebiam os últimos suspiros da Guerra Fria. Através dos sons, ele recupera a world music, a new age, o pop, a soul, o rap e o jazz fusion e posiciona sua música num ponto certeiro deste mapa. Os sons da África e das Américas (com uma boa dose de harmonias bossa novistas, aliás) convivem em perfeita composição com elementos eruditos e étnicos. Sakamoto adiciona a isso também sempre um ingrediente muito bem preparado de cultura da sua terra, seja num riff, num acorde de teclado, num sample, num canto ou num detalhe em meio a arranjos invariavelmente preciosos. Uma fórmula tão improvável cuja melhor classificação é, justamente, “Neo Geo”.

Os primeiros acordes vêm com toda essa carga de síntese e musicalidade. “Before Long”, como é de praxe nos discos de Sakamoto, ele abre com um tema instrumental. Emotiva e de ares clássicos, é baseada no piano, seu instrumento-base, usando com maestria notas agudas típicas da sonoridade oriental. Ele repete o expediente climático que já havia usado na abertura de “Marry Christimas Mr. Lawrence”, de 1984, na faixa-título, ou "Calling from Tokyo", do álbum exatamente posterior a “Neo...”, “Beauty”, de 1989. Uma pequena obra-prima de pouco mais de 1 minuto. O que já muda bruscamente na segunda faixa – que não desavisadamente dá título ao disco – quando começa um ethnic-funk, adaptação de um tema tradicional japonês, com a timbrística com a qual Sakamoto, alinhado aos modernistas do jazz de então, coloriria a música pop a partir dali: programação eletrônica, recortes, guitarras afro-beat, vozes étnicas e um baixo marcado em slap tocado pelo baixista e produtor norte-americano Laswell. Aliás, outra marca de “Neo...” é o encontro de Sakamoto com uma turma de alquimistas arrojados como ele. Ao lado de Laswell, figura essencial para a fusão do rap na música nos anos 70/80, ele recruta tanto músicos conterrâneos, como o guitarrista Harry Kubota, a cantora Misako Koja e o DJ Hiroaki Sugawara, quanto agrega participantes de outras nacionalidades, seja da música, das artes cênicas ou do cinema.

Fazendo do estúdio o seu laboratório, Sakamoto permite-se experimentar as mais diferentes formulações, mostrando que havia valido a pena acumular conhecimentos e vivências até ali. Um dos pontos altos do disco, “Risky”, não deixa dúvida disso: um pop funkeado e sensual que conta com a voz de Iggy Pop, que empresta seu barítono, um dos mais inconfundíveis da música pop, para deixar a música ainda mais elegante. A pertinência da participação de Iguana está no cerne da própria canção, que lembra o padrão estilístico que ele e o parceiro David Bowie ajudaram a dar à música pop dos anos 80.

Se “Risky” continha toques orientais, “Free Trading” os combina com o Brasil e com os Estados Unidos. Impossível não associar o riff de teclados com a música brasileira, da mesma forma que este soa igualmente muito nipônico. Afora isso, Sakamoto, fervoroso amante de MPB e de jazz, promove neste histórico momento o encontro de dois ícones da música norte-americana: um da soul, o baixista “P-Funk” Bootsy Collins, e outro do jazz, ninguém menos que o lendário baterista Tony Williams

Outra de elegância ímpar é a marcial “Parata”, mais uma instrumental e ao estilo de suas trilhas para cinema. Novamente, Williams empresta suas baquetas mágicas, aqui juntamente com a percussão do jamaicano Sly Dunbar. Quanta delicadeza e bom gosto! Voltando ao synth pop de origem, no entanto, Sakamoto o combina agora a diversas outras propriedades de seu conceito “Neo Ge” num tema para homenagear a histórica ilha de Okinawa. Ritmo dançante, percussões africanas e orientais, vozes sampleadas, teclados marcantes e um indefectível som de uma pipa chinesa, tocada pela instrumentista nipo-americana Lucia Hwong. Mais uma vez, fica evidente a essência sintetizadora do músico: a extração do erudito de um tema folclórico e a transformação em uma invenção moderna. 

Um disco primoroso como este não poderia desfechar de forma diferente. Assim como a faixa inicial, “After All”, sua derradeira, é um breve tema instrumental em que o admirador de Beethoven, Ravel e Tom Jobim denota sua infinita sensibilidade ao reprocessar o lirismo da obra de seus ídolos e compõe algo seu, original. Enfim, nem Japão e nem lugar nenhum especificamente: sua música é do mundo todo. Talvez por isso sua influência seja tamanha nos trabalhos de artistas da música como Sinéad O’Connor, Towa Tei, Madonna, New Order, Cornelius e Deep Forest, além de Caetano Veloso, Ambitious Lovers, Jaques Morelenbaum e Marisa Monte, com quem passaria a contribuir diretamente nos anos 90. Vivo e ativo, Sakamoto prova que talento e sensibilidade estão no coração independentemente do contexto ou da cultura. Como um cientista da música, ele foi capaz de condensar todas as suas referências e trazê-las para dentro de seu núcleo afetivo, que muito bem pode ser representado por uma esfera vermelha tal qual a da bandeira do Japão.

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FAIXAS:
1. “Before Long” - 1:20
2. “Neo Geo” - 5:05
3. “Risky” – com Iggy Pop (Bill Laswell, Iggy Pop/ Ruychi Sakamoto) - 5:25
4. “Free Trading” (Y. Hagiwara, Y. Nomi) - 5:25
5. “Shogunade” (Laswell/ Sakamoto) - 4:33
6. “Parata” - 4:18
7. “Okinawa Song” - Chin Nuku Juushii (H. As/ S. Mita) - 5:15
8. “After All” – 3:08
Todas as faixas de autoria de Ryuichi Sakamoto, exceto indicadas

Veja o clipe de "Risky", com Ryuichi Sakamoto e Iggy Pop



MAYU繭 – Orpheus

 

Acaba por se tornar redundante elogiar ou vangloriar regiões que produzem e ajudam a criar bandas de tão elevada qualidade, como a região de Braga. A Ruído Sonoro tem dado destaque a tais grupos musicais devido a novos lançamentos, mas sobretudo à qualidade na produção de música rock, psicadélica e vanguardista.

Ora, os MAYU繭, a não serem confundidos com os vários colectivos japoneses existentes, são um trio de Braga que produz um dos mais intensos e originais trabalhos que a indústria portuguesa teve a sorte de acolher. Os três detêm origens diferentes em dois grupos também eles bracarenses, os Omie Wise e TheVaults, que fomentam a cena minhota a brotar de talento e criatividade.

Os MAYU繭 são Miguel Santos, Fábio Pinto e João Araújo, tendo aqui o seu primeiro lançamento de originais com um polémico Orpheus, que nutre fundamentalmente a importância do silêncio aqui representado quase como se de uma tela cheia de cor se tratasse. Apesar da inexperiência como grupo, tendo-se formado em 2020, em plena pandemia e como um grito de socorro para escapar à letargia e a apatia do momento criativo, os MAYU繭 expandiram-se e sobressaíram-se com um conjunto de oito faixas que nasceram de um desafio dos laboratórios de Verão do Gnration. Com a voz emprestada de José Costa – que lhe acrescenta misticismo e mistério – os bracarenses levam-nos numa jornada quase sôfrega pela solidão e o silêncio, em forma de esperança e rebeldia.

Orpheus é repleto de ambiente e de produções atmosféricas, contendo oito faixas puramente instrumentais, à excepção das introduções ou interrupções necessárias de José Costa. Como disco instrumental que é, esta estreia pode e deve ser interpretado de forma mais aberta do que habitual e não apenas como uma série de trejeitos instrumentais e de arranjos complexos que se complementam. Orpheus é muito mais do que isso, pois consegue criar uma narrativa densa e emotiva, com um quê de alegre, mas sem ser rejubilante ou demasiado feliz. Ora, esta é a maravilha do álbum, o poder unir interpretações, opiniões e pensamentos, que poderão entrar em conflito quanto à narrativa, mas nunca quanto à qualidade musical de um longa-duração cheio e esperançoso, mas também triste e sombrio, em alguns momentos. Notoriamente, esta estreia abre as portas ao experimentalismo e ao psicadélico, excluindo mais e mais o progressivo, o que pode indicar a direcção criativa do trio, doravante.

Com a chancela da gig.ROCKS! na edição e direcção, os MAYU繭 têm tudo para singrar, apesar da complexidade qualitativa que o álbum apresenta. Contudo, estes jovens já nos habituaram a escrever para eles e para os seus fãs, sem desprimor para os restantes, mas respeitando as suas origens e fazendo aquilo que mais lhes agrada. Tanto Omie Wise como TheVaults nos deram isso, portanto, MAYU繭 apenas poderá seguir um caminho ainda mais cheio de texturas e camadas que podem não ser entendidas por todos os fãs convencionais de música. Orpheus é um excelente disco, sobretudo para uma estreia, entreabrindo as portas para o progressivo com “Mnemosine” e “Eureka”, mas mantendo a imagem atmosférica e psicadélica com “Zoi”, “Safíneia”, “Koinonía” e “Profítis”, que explanam mais esta mescla de estilos. Para estreia, tem muito que se lhe diga, já que nos apresenta a estilos inovadores e raros, aqui em Portugal, introduzindo o ouvinte a uma narrativa sombria, mas positiva sem exagerar, e a arranjos muito desenvoltos e complexos sem esquecerem os seus princípios musicais e narrativos.



Omie Wise – Wind and Blue

 

Omie Wise voltam à carga com mais um álbum, após o estrondo de To Know Thyself, lançado em 2019. Depois de um primeiro LP intenso, altamente psicadélico e progressivo, os bracarenses apresentam neste Wind and Blue uma sonoridade mais intimista, mística e com menos intensidade, apresentando ao público, mais uma vez, a rebeldia tão bracarense que se tem tornado tão habitual. Num exercício narrativo e sonoro de claro rompimento com a normalidade, este Wind and Blue explora os confins da relação entre o Homem e a Natureza, quase que antecipando um catastrofismo evidente de que quem semeia ventos, colhe tempestades. 

Num brilhante pano de fundo que tem o vento como tema central, com diversas passagens artísticas que magnificam a sonoridade quase jazzística e alternativa de um ‘rock’ verdadeiramente diferente, o segundo álbum de originais apresenta-se como um presságio em oito faixas de um futuro não muito distante e, infelizmente, realista de um mundo num precipício emocional, mas com toques de esperança. A verdadeira imagem é de obscuridade com um início de longa-duração a fazer perdurar os ideais mais tremendos de um futuro que será colhido por humanos que semearam da pior forma, com os temas “Arroyo”, “Crown Flash” e “The Boy and The Wind” a transmitirem uma mensagem mais pessimista.

No entanto, os Omie Wise têm mostrado ser brilhantes na criação de narrativas com ideias místicas e concretas, mas conseguindo, ainda assim, criar uma profunda antítese conceptual que nos lança num turbilhão de desgosto e esperança. A banda não quis terminar o álbum sem uma mensagem de boa-nova, “Pyre” e “Aurora” descrevem um mundo novo, uma esperança idealizada e, possivelmente, alcançável. Contudo, a explicação acima é muito subjectiva, pois Wind and Blue cria em nós esta vontade de descrever e explicar algo que nem sempre pode ser explicado. A brisa e a rajada são ideias opostas, mas tão presentes num álbum de cariz narrativo muito forte. O novo disco de estúdio não é rock, mas também não o deixa de ser, e presenteia-nos com vários elementos de densidade e de origem portuguesa, o que ainda magnifica mais estas oito faixas. Contém muitas das componentes dos anos 70 de bandas portuguesas e internacionais, saltando à memória o bom e velho José Cid ou Quarteto 1111, nos velhos tempos do rock progressivo português e nas suas transições instrumentais e pontes sonoras magistrais.

É um álbum conceptual que abandona os ideais do álbum conceptual anterior, o que, para uma banda tão jovem, é extraordinário pela sua polivalência. É um álbum sobre reflexão, intemporalidade e teatralidade, com uma densidade intensa, mas discreta. Wind and Blue surpreende pela sua intensidade, acalmia, negatividade e positividade, tudo num só disco que rompe com a tradição, ainda que a mantenha e respeite na sua sonoridade de rock clandestino e independente.



MEN AT WORK

 





Os Men at Work é mais conhecido pelo seu sucesso de 1982, "Down Under"[1], uma canção alegre e cômica sobre australianos viajando pelo mundo confiantes das virtudes de seu país e sobre a imposição da cultura norte-americana e européia às belezas naturais de seu país. A canção foi um sucesso de vendas em vários países, incluindo o Reino Unido, onde alcançou o primeiro lugar nas paradas, sendo a única canção deles a entrar nos "Top 20" daquele país. Ela tornou-se um hino extra-oficial para a Austrália para vários movimentos underground ou musicais de seu país.[porquê?]


Seu primeiro álbum, Business as Usual (1981) marcou um recorde de maior tempo para um álbum de estreia como primeiro nas paradas dos Estados Unidos. Além de "Down Under", os hits "Who Can It Be Now?" e "Be Good Johnny" tornaram-se videoclipes de sucesso durante os primeiros anos da MTV americana. "Who Can It Be Now?" e "Down Under" atingiram o primeiro lugar nas paradas americanas.[2] Sendo um dos álbuns mais famosos do início da década de 1980, Business As Usual teve seis milhões de cópias vendidas nos Estados Unidos, e estimam-se mais de quinze milhões vendidas mundo afora.[carece de fontes]


A banda ganhou o Grammy Award de melhor artista iniciante no ano de 1983.[3]

O segundo álbum da banda, Cargo (1983), alcançou menos sucesso que o primeiro, atingindo apenas a terceira posição e três milhões de cópias vendidas nos Estados Unidos.[carece de fontes] Três singles foram lançados, "Overkill" (3° nos Estados Unidos), "It's A Mistake" (6° nos Estados Unidos), e "Dr. Heckyll And Mr. Jive" (28° nos Estados Unidos).



No ano seguinte a banda demitiu o baixista John Rees e o baterista Jerry Speiser. Quando seu terceiro álbum Two Hearts foi lançado em 1985 com quase nenhum sucesso (apenas 500 mil cópias vendidas nos Estados Unidos) o guitarrista Ron Strykert também deixou a banda, e logo em seguida o tecladista e saxofonista Greg Ham também seguiu o mesmo caminho. O único remanescente da banda original, o vocalista Colin Hay, continuou a fazer apresentações com músicos contratados até o final de 1985 quando o Men at Work finalmente se dissolveu. Two Hearts só conseguiu uma canção de sucesso mediano, "Everything I Need", que não chegou nem mesmo aos 40 primeiros nas paradas norte-americanas.


Em 1996 os membros originais Colin Hay e Greg Ham se reagruparam e fizeram turnê mundial também com músicos contratados. Em 1998 produziram um álbum ao vivo, Brazil, gravado ao vivo em sua turnê brasileira.[4]

Em 2000 a banda tocou no fechamento dos Jogos Olímpicos de Sydney naquela cidade, cantando em coro com o público a canção "Down Under".[5]



Em 19 de abril de 2012, Greg Ham foi encontrado morto em uma casa no subúrbio de Melbourne por um grupo de amigos. As causas da morte ainda estão sendo investigadas. [6]





Men At Work The Live Concert 1982x264 AC3



00:00 - I Can See It In Your Eyes 03:30 - People Just Love To Play With Words 07:40 - Touching The Untouchable 11:20 - Down By The Sea 17:35 - F-19 21:21 - Shintaro 24:33 - Down Under 29:38 - Underground 32:32 - Helpless Automaton 36:00 - Who Can It Be Now 40:36 - Mr.Entertainer 53:33 - I Like To 58:20 - Be Good Johnny

I BENJAHMAN - Fraction Of Jah Action (Expanded Edition - 2017)

 



CD 1 - Original Album (1983)
01 I Benjahman – Sweet Reggae Music
02 I Benjahman – Give Love A Try
03 I Benjahman – She Got To Know
04 I Benjahman – Natural Forces
05 I Benjahman – Jah Nation
06 I Benjahman – Family Affar
07 I Benjahman – Jah World Will Keep On Turning
 
Bonus Tracks
08 I Benjahman & Earthman Tune In– Give Love A Try (12" Version)
09 I Benjahman & Zabandis– Family Affair (12" Version)
10 I Benjahman – Family Affair (Dub Plate Vocal) 
11 I Benjahman – Hold Me Tight

CD 2 - The Dubs
01 I Benjahman – Mind Blowing Dub (Part One)
02 I Benjahman – Mind Blowing Dub (Part Two)
03 Tan Tan* & Earthman Tune In– Lion Kingdom Dub Flash
04 Earthman Tune In– Prosperous Dub
05 I Benjahman – Lion Affair (Part One)
06 I Benjahman – Lion Affair (Part Two)
07 I Benjahman – Family Affair (Dub Plate Version)
08 I Benjahman – Father’s Instructions (Vox Dub)
09 I Benjahman – Father’s Instructions (Organ Dub)
10 I Benjahman – Father’s Instructions (Dubwize 1)
21 I Benjahman – Father’s Instructions (Dubwize 2)
12 I Benjahman – Being In Dub





Destaque

Action (1972) - Discografia

    Action foi uma das muitas bandas de rock alemãs obscuras dos anos 70 não documentadas na época. Action veio da cidade de Zweibrücken e e...