segunda-feira, 10 de agosto de 2026

A Little Respect: Tom Jobim – The Man From Ipanema [1995]

 

A Little Respect: Tom Jobim – The Man From Ipanema [1995]

Há 30 anos, o mundo perdia um de seus maiores compositores, Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim, ou simplesmente Tom Jobim. O carioca e multi-instrumentista (exibiu domínio amplo no violão, piano e flauta) se consagrou mundialmente como arranjador, compositor e intérprete, e faleceu por conta de duas paradas cardíacas, causadas por uma embolia pulmoar, após uma operação de emergência, por conta de problemas urinários, aos 67 anos. Mesmo que em um período de vida relativamente curto, comparado com outros artistas, Tom deixou um legado gigante para a música brasileira, e por que não, mundial. Lembro de assistir Tom tocando na Globo, quando pequeno, por diversas vezes, e toda a comoção que sua morte gerou na empresa de televisão, mas confesso que nunca fui um apreciador da música dele, principalmente por sua forma arrastada de cantar.

Porém, com o passar dos anos, e influenciado por obras de (principalmente) Elis Regina e Gal Costa, bem como Tim Maia e Caetano Veloso (em proporção menor), acabei conhecendo as músicas de Tom com um outro ouvido, assim como ir atrás da vasta obra do carioca me abriu os horizontes para entender por que do enaltecimento do cara pelo mundo, e todo o sucesso que ele fez nos Estados Unidos, Japão e Europa no geral.

Parte do livreto que acompanha o álbum aqui resenhado, apresentando Tom ao lado de Baden Powell, Lucia Proença e Vinicius de Moraes

Tom é um dos pais da bossa nova, adaptando a música francesa e o jazz americano junto ao samba carioca, criando um estilo único, complexo, e que só foi sendo aprimorado com o passar dos anos. Com letras que flertam com amor e relacionamentos, indo para tons políticos, principalmente sobre o meio-ambiente, apreciar a obra de Tom na sua totalidade exige uma audição dedicada. Mas, para quem quer se iniciar e não tem ideia de onde ir, vá atrás de The Man From Ipanema, coletânea lançada (somente lá fora) em 1995, e que resgata muitos dos pontos altos de artistas e do próprio Tom interpretando suas canções.

São 3 CDs, dividos em Vocals, Instrumentals e Side By Side, e que apresentam Tom para aqueles que desconhecem seus discos, ou até mesmo para os já iniciados em sua obra, de uma forma bastante plural. No total, canções de 10 discos aparecem nas três mídias, sendo eles quatro de Tom (Antonio Carlos Jobim – The Composer Of Desafinado, Plays – 1964; Wave – 1967; Tide – 1970; e Passarim – 1987), a famosa parceria com Elis Regina, Elis & Tom (1974), mais os álbuns Jazz Samba Encore!, parceria do saxofonista Stan Getz com o violonista e compositor brasileiro Luiz Bonfá (1963), Getz/Gilberto, projeto fantástico que uniu Getz ao violão de João Gilberto, em 1964, e do qual Tom contribui com o piano e/ou violão, The Astrud Gilberto Album (1965), da esposa de João Gilberto, Astrud Gilberto, Elis Especial (1979), coletânea não autorizada de Elis Regina, e o espetacular The Carnegie Hall Salutes The Jazz Masters (1994), trazendo Tom Jobim e outros convidados na apresentação realizada em 6 de abril de 1994 em homenagem aos 50 anos da gravadora Verve.

CD 1, acondicionado em um envelope no formato de peixes

Começando pelo CD 1, com quase 80 minutos de música, passeamos pela nata da obra de Tom em nada mais nada menos que 23 canções. Pegando aquelas gravadas pelo próprio Tom, temos a bela “Lamento” (de Wave) e nada mais nada menos que sete faixas de Elis & Tom (sendo que o álbum original possui 14 canções), a saber a mega-clássica “Águas De Março”, “Chovendo Na Roseira”, “Modinha”, “Soneto Da Separação”, “Retrato Em Branco E Preto”, “Inútil Paisagem” e “O Que Tinha De Ser”. O timaço que acompanha a dupla aqui é César Camargo Mariano (piano), Luizão Maia (baixo), Paulinho Braga (bateria), Chico Batera (percussão), Oscar Castro Neves (violão) e Helio Delmiro (violão, guitarras). Quem assistiu o documentário Elis & Tom, Só Tinha De Ser Com Você (2022) percebe o clima de tensão que acompanha a gravação deste que é sem sombra de dúvidas um dos álbuns fundamentais da MPB, e ao ouvir as faixas aqui escolhidas para representar este grande encontro, o quão grande era o talento de Elis Regina para interpretar, como só ela sabia fazer, letras tão belas e pessoais de outros compositores, principalmente nas doloridas “Modinha”, somente Elis e cordas (arrepiante e assustador), “Retrato Em Branco E Preto” e “O Que Tinha de Ser”, essa para cortar os pulsos! Elis também contribui com “Bonita”, do álbum Elis Especial, que é apenas mais um pequeno grande acréscimo do talento da gauchinha de voz mais espetacular que o Brasil já teve.

Por fim, de Passarim saem “Borzeguim”, “Passarim”, “Luiza”, “Anos Dourados (Looks Like December)”, “Gabriela” e “Chansong”. A line-up aqui conta com um timaço de vozes (Ana Lontra Jobim, Danilo Caymmi, Elizabeth Jobim, Maucha Adnet, Paula Morelenbaum, Paulo Jobim e Simone Caymmi) que enaltecem a inquestionável qualidade de criação e composição de Tom, pois os arranjos e harmonias vocais, mesclados com instrumental aguçadíssimo e uma orquestra em perfeita combinação com os demais músicos, fazem deste não à toa um dos meus álbuns preferidos de Tom. Poderia ter entrado a excelente “Borzeguim”, uma letra forte e atemporal (não parece que faz mais de 40 anos que Tom escreveu algo tão poderoso) na versão que Gal Costa lançou em Minha Voz (1982), e também a épica “Matita Perê”, uma de suas obras mais belas e complexas. Mas ok, para quem está conhecendo Tom, foram ótimas escolhas.

Só que não acabou o CD 1, já que ainda temos, de Getz/Gilberto as excepcionais e exclusivas versões para “Só Danço Samba” e “O Grande Amor”, com o destacado Getz no saxofone, além de uma bandaça formada por Tommy Williams (baixo), Milton Banana (percussão) e Tom ao piano, e a delicadíssima voz de Astrud Gilberto com 6 das 11 faixas de The Astrud Gilberto Album em “Amor Em Paz”, “Água De Beber”, “Dindi”, “Photograph”, “Meditation” e “O Morro Não Tem Vez”. Vale ressaltar o trabalho de tradução das letras de Tom para o inglês, feitas por Ray Gilbert, e a bela banda que acompanha Astrud em seu álbum, a saber Joe Mondragon (baixo), Bud Shank (flauta), João Donato (piano), Milt Bernhart (trombone) e Tom no violão/piano. Difícil saber qual a melhor faixa dessas citadas, mas o fato é que toda a audição do CD 1 é uma experiência fantástica.

O CD 2, acondicionado em um envelope no formato de flor

Passamos para o CD 2, com as faixas instrumentais, onde destacam-se os álbuns Wave e Tide, que juntos entregam 7 das 15 canções do CD. Do primeiro saem “Wave”, “Mojave”, “Triste” e “Captain Bacardi”. Aos perdidos, são faixas nas quais Tom une o jazz americano ao samba brasileiro, essencialmente por conta dos músicos estadunidenses que o acompanham aqui (Ron Carter no baixo, Claudio Slon na bateria, Jimmy Cleveland e Urbie Green no trombone, mais um naipe de metais e cordas, bem como a percussão de Dom Um Romão). Músicas de arranjos complexos, belos, e que facilmente se apresentam como o ápice da criatividade de Tom, assim como as três faixas de Tide, a saber a faixa-título, “Sue Ann” e “Tema Jazz”. Se Wave é um grande álbum de jazz/samba, Tide já é um álbum mais conservador, com Tom acompanhado por uma orquestra, Ron Carter ao baixo e Hermeto Paschoal na flauta, sendo este o principal nome nos improvisos de “Tema Jazz”, fácil candidata a melhor deste álbum em especial. Mas se você quer realmente saber de onde vem as origens de Tom, concentre-se nas 7 faixas de Antonio Carlos Jobim, The Composer of Desafinado, Plays. Este é o primeiro álbum solo de Tom, gravado em Nova Iorque no ano de 1963, e nas faixas escolhidas para esta coletânea, estão “Amor Em Paz”, “Chega De Saudade”, “Samba De Uma Nota Só”, “O Morro Não Tem Vez”, “Meditation”, “Água De Beber” e “Só Danço Samba”. Fica claro aqui que Tom era um músico exímio, e que suas canções, mesmo tendo belas letras, funcionam melhor com ele somente no piano, acompanhado pelos exímios arranjos orquestrais, e deixando então as interpretações vocais para outros artistas. Fecha o CD dois a versão de “O Morro Não Tem Vez (Favela)” retirada do álbum Jazz Samba Encore!, e que por si só já vale toda a audição do CD, afinal, Getz e Bonfá simplesmente estraçalham aqui.

O CD 3, acondicionado em um envelope no formato de folha

O CD 3 ataca com diferentes versões para as mesmas canções, destacando as faixas de Antonio Carlos Jobim – The Composer of Desafinado, Plays, as quais, instrumentais, são “Desafinado”, “The Girl From Ipanema”, “Corcovado”, “Insensatez” e “Vivo Sonhando”, fechando portanto as 12 canções originais deste disco todas na coletânea aqui representada. Porém, estas cinco faixas em especial surgem com outras versões. “Desafinado”, que com Jobim é privilegia o piano do músico, aparece também na interpretação de Getz/Gilberto, já com a voz manhosa de Gilberto, e com a exímia versão registrada no citado show do Carnegie Hall, tendo Tom ao lado de Joe Henderson (saxofone), Charlie Haden (baixo) e Al Foster (bateria), na qual Henderson dá um espetáculo a parte. A dupla Getz/Gilberto também manda ver na versão definitiva de “The Girl from Ipanema”, com João dividindo os vocais com a esposa Astrud (ele em português, ela em inglês), que na versão de The Composer of Desafinado … possui um grandioso arranjo orquestral, “Corcovado” (outra com os vocais de João e Astrud, e um banho de Getz) e “Vivo Sonhando (Dreamer)”, esta com os vocais de João e tipicamente bossa-novista, totalizando 6 das 8 faixas originais deste discaço. Complementam o CD a versão de Tide para “The Girl From Ipanema”, totalmente instrumental, que lembra bastante a versão de The Composer of Desafinado … a espetacular interpretação de Elis para “Corcovado”, e as inebriantes interpretações de Astrud Gilberto para “Insensatez” e “Vivo Sonhando”, fechando 8 das 11 faixas originais daquele disco, assim como o Getz e Bonfá acompanhando os vocais de Maria Toledo em “Insensatez”, e as performances no Carnegie Hall para “Insensatez”, com Tom ao piano e vocais e Pat Metheny arransando no violão, e “The Girl From Ipanema”, esta última retirada do raro VHS lançado no mesmo nome, e que até então nunca havia sido lançada em CD ou LP somente com Tom no vocal e piano.

Um pouco mais do livreto, agora destacando Elis Regina e Tom

A grande surpresa deste CD 3 é que ao acabar a décima sétima faixa, no caso a versão de “Vivo Sonhando” feita por Astrud Gilberto, temos alguns segundos de puro silêncio, para então, em uma faixa escondida, comerçamos a ouvir as vozes de Elis e Tom em estúdio, criando “Águas De Março” entre muitas risadas e conversas. A discussão de quem canta “é o pé, e o chão” é hilária, com Elis falando “nossa senhora, please …” e Tom dizendo “não, eu tô errado, que sacanagem hein“, seguindo por mais erros, risadas e Tom brincando com Elis dizendo “vamos prestar atenção nesta bosta!“. São pouco mais de 4 minutos de uma audição até então inédita, demonstrando a parceria que surgiu entre estes dois gigantes, e que depois acabou sendo uma das grandes atrações do lançamento No Céu Da Vibração – Parte 2 (1974-1980) da Folha de São Paulo (2014)

No recheado livreto de 60 (!) páginas, fotos diversas e entrevistas com o próprio Antonio Carlos Jobim, Oscar Castro-Neves, Gene Lees e Creed Taylor, assim como a biografia de Tom por Sergio Cabral, track list comentado por Oscar Castro-Neves e Liner Notes por Gene Lees, relatando como conheceu Tom e foi o responsável por traduzir e adaptar diversas de suas canções para o inglês. A entrevista de Oscar Castro-Neves, conduzida por Richard Seidel, foi feita em agosto de 1995, pouco antes do lançamento do álbum, assim como a de Creed Taylor, essa conduzida por Gene Lees. A primeira concentra no fato de como Oscar e Tom se conheceram, e como surgiu a amizade entre eles, realizando diversos projetos (Elis & Tom, o filme Gabriela, entre outros), com destaque para a criação da palavra bossa-nova por outro grande nome da música nacional, Newton Mendonça, na canção “Desafinado”. Já na segunda, temos Creed trazendo o processo de gravação do ábum Getz/Gilberto e de sua vinda ao Brasil para gravar outros álbuns de Tom. Na parte dos textos, com certeza a atração maior vai para a entrevista de Tom conduzida por Gene Lees, feita em 1974, na qual o carioca faz uma ampla retrospectiva de sua vida e carreira.

Outra imagem do livreto, destacando a super Banda Nova que acompanhou Tom nos anos 80

A arte de The Man From Ipanema também é muito bela. Os 3 CDs vêm em um livreto encadernado, cada um em um “envelope” especial que remetem à natureza, sendo o CD 1 no envelope em formato de peixe, o CD 2 no formato de flor e o terceiro CD em formato de folha, bastante caprichado. Um álbum mais que especial, que celebra a grande obra de um grande artista, e que se você tiver a sorte de encontrar em algum Mercado Livre ou Shopee da vida, e esteja afim de conhecer quem foi Tom Jobim, pegue sem medo!

Contra-capa do CD

Track list

Vocals

1-01 Antonio Carlos Jobim– Passarim

1-02 Stan Getz / João Gilberto Featuring Antonio Carlos Jobim– Só Danço Samba (Jazz Samba)

1-03 Elis & Tom – Águas De Março (Waters Of March)

1-04 Astrud Gilberto – Amor Em Paz (Once I Loved)

1-05 Antonio Carlos Jobim – Lamento

1-06 Antonio Carlos Jobim – Luiza

1-07 Elis & Tom – Chovendo Na Roseira (“Double Rainbow” And “Children’s Games”)

1-08 Antonio Carlos Jobim – Anos Dourados (Looks Like December)

1-09 Stan Getz / João Gilberto Featuring Antonio Carlos Jobim – O Grande Amor

1-10 Astrud Gilberto – Água De Beber

1-11 Elis & Tom – Modinha

1-12 Antonio Carlos Jobim – Borzeguim

1-13 Elis & Tom – Soneto Da Separação

1-14 Antonio Carlos Jobim – Gabriela (From The Film Gabriela)

1-15 Elis & Tom – Retrato Em Branco E Preto (Portrait In Black And White) (“Zingaro”)

1-16 Astrud Gilberto – Dindi

1-17 Elis & Tom – Inútil Paisagem (Useless Landscape)

1-18 Astrud Gilberto – Photograph

1-19 Antonio Carlos Jobim – Chansong

1-20 Astrud Gilberto – Meditation

1-21 Elis & Tom – O Que Tinha De Ser

1-22 Astrud Gilberto – O Morro Não Tem Vez (Aka “Favela”)

1-23 Elis Regina – Bonita

Instrumentals

2-01 Antonio Carlos Jobim – Wave

2-02 Antonio Carlos Jobim – Tide

2-03 Antonio Carlos Jobim – Amor Em Paz (Once I Loved)

2-04 Antonio Carlos Jobim – Chega De Saudade (No More Blues)

2-05 Antonio Carlos Jobim – Sue Ann

2-06 Antonio Carlos Jobim – Samba De Uma Nota Só (One Note Samba)

2-07 Antonio Carlos Jobim – Mojave

2-08 Antonio Carlos Jobim – O Morro Não Tem Vez (aka “Favela”)

2-09 Antonio Carlos Jobim – Tema Jazz

2-10 Antonio Carlos Jobim – Meditation

2-11 Antonio Carlos Jobim – Triste

2-12 Antonio Carlos Jobim – Água De Beber

2-13 Antonio Carlos Jobim – Só Danço Samba (Jazz Samba)

2-14 Antonio Carlos Jobim – Captain Bacardi

2-15 Stan Getz / Luiz Bonfá – O Morro Não Tem Vez (aka “Favela”)

Side By Side

3-01 Antonio Carlos Jobim – Desafinado (Off Key)

3-02 Stan Getz / João Gilberto Featuring Antonio Carlos Jobim – Desafinado

3-03 The Carnegie Hall Jazz Band – Desafinado

3-04 Antonio Carlos Jobim – The Girl From Ipanema

3-05 Stan Getz / João Gilberto Featuring Antonio Carlos Jobim – The Girl From Ipanema

3-06 Antonio Carlos Jobim – The Girl From Ipanema

3-07 The Carnegie Hall Jazz Band – The Girl From Ipanema

3-08 Antonio Carlos Jobim – Corcovado (Quiet Nights Of Quiet Stars)

3-09 Stan Getz / João Gilberto Featuring Antonio Carlos Jobim – Corcovado

3-10 Elis & Tom – Corcovado

3-11 Antonio Carlos Jobim – Insensatez (How Insensitive)

3-12 Astrud Gilberto – Insensatez

3-13 Stan Getz / Luiz Bonfá – Insensatez (Instrumental, 1963)

3-14 The Carnegie Hall Jazz Band – Insensatez

3-15 Antonio Carlos Jobim – Vivo Sonhando (Dreamer)

3-16 Stan Getz / João Gilberto Featuring Antonio Carlos Jobim – Vivo Sonhando

3-17Astrud Gilberto – Vivo Sonhando

Hidden Track

3-18 Elis & Tom – Águas De Março (Studio Outakes)



Cassidy Paris – New Sensation [2023]

 Cassidy Paris – New Sensation [2023]

Tenho escutado alguns artistas mais novos, mas não tenho como negar que meu gosto musical é bem old school. Portanto, quando comentar de alguns artistas novatos, não esperem que eu venha com sonoridades modernas. Pode até acontecer, mas esse não é meu foco. Meu foco, na verdade, sempre foi artistas com canções fortes, cativantes, e essas características estão presentes em New Sensation, debut da cantora Cassidy Paris.

Para quem nunca ouviu falar na garota, Cassidy Paris é uma cantora de hard rock australiana. Nascida em Melbourne, em Novembro de 2002, a garota começou na cena ainda jovem, tendo lançado seu primeiro trabalho com apenas 15 anos de idade. Seus 2 primeiros EPS – Broken Hearted e Flirt – foram lançados de forma independente. Procurei os discos para ouvir e confesso que não encontrei. Tudo que encontrei foram alguns videoclipes da época que, sendo bem honestos, não me empolgaram. “Walking On Fire”, mesclava rock com eletrônica, enquanto “Talk About It” soava como uma Avril Lavigne subnutrida. Apesar da boa vontade, tudo soava meio embrionário ainda.

O mesmo não acontece em New Sensation. Aqui, está tudo na dose certa. Contando com as mãos de Alessandro Del Vecchio (nome de confiança da Frontiers), o álbum aposta em um hard rock com acento pop. Há momentos bem 80´s, há momentos que contam com uma sonoridade mais atual, mas sem ser pegajoso demais e sem ter guitarra de menos.

 

Há de se comentar, contudo, que embora apareça empunhando uma guitarra na capa e costume aparecer tocando o instrumento nos clipes, a garota não gravou as guitarras desse disco, tendo ficado responsável unicamente pelas linhas vocais. Dave Graham e Stevie Janevski foram os responsáveis por gravar o instrumento, ambos vindos diretamente do grupo Wicked Smile. Aliás, vale lembra que Stevie é pai da garota.

“Eu sou uma guitarrista rítmica. Não sou de fazer solos, não sou uma virtuose. Prefiro usar a guitarra como um instrumento para compor”, reconhece em entrevista ao Grande Rock Webzine. A garota, contudo, não deve ter dificuldades para tocar nos shows, já que as linhas de guitarra são bem simples. Verdade seja dita, o grande destaque aqui são os refrãos e o trabalho vocal, que está bem resolvido e infinitamente superior aos registrados nas gravações antigas. 

Um parênteses… A Frontiers havia lançado, recentemente, a cantora britânica Chez Kane. E além da influência da década de 80 no som de ambas, há mais uma coincidência no trabalho das artistas. Ambas, possuem um mentor por trás de seu trabalho. Chez conta com a ajuda de Danny Rexon (Crazy Lixx), enquanto Cassidy conta com as mãos de Paul Laine (Danger Danger), músico que faz parte do cast da gravadora com o projeto The Defiants. Contudo, a parceira deles vem de antes do contrato.

“Meu pai tocava guitarra na banda de Paul Laine e quando eles excursionaram na Australia, ele dormiu em casa”, comenta Cassidy Paris. “Meu pai tem um vídeo, onde canto junto com ele (Laine) uma canção da Taylor Swift, quando tinha apenas 12 anos. Ele me encorajou e foi um mentor, para mim, tanto em relação à voz, quanto à composição”. O cantor já havia colaborado com os álbuns independentes de Cassidy e aqui não foi diferente. Ele ajudou nos backings de 3 faixas (o single “Danger”, além dos rocks “Like I Never Loved You” e “Midnight Desire”), além de dividir os créditos em 5 canções. Foi dele também a sacada de transformar “Walking On Fire” – que aqui aparece regravada – em um rock.

 

O disco tem faixas bem bacanas como “Rock n Roll Hearts”, “Song For The Broken Hearted” (essa é uma daquelas que tem uma sonoridade mais moderna, meio Paramore, meio Avril Lavigne), “Addicted”, “Midnight Desire”, além das já citadas “Like I Never Loved You” e “Danger”, faixa escolhida acertadamente como primeiro single.

“Escrevi ‘Danger’ quando estava me encontrando com alguém que não era boa companhia. Todos que estavam em minha volta sabiam que ele não era o cara certo para mim. Todos conseguiam ver isso, exceto eu. ‘Danger’ é sobre esse sentimento. O sentimento de quando você sabe que algo é perigoso, que não é o ideal para você, mas que parte do seu corpo diz que você precisa descobrir aquilo por você mesma”, explicou a cantora ao site Just Listen To This.

New Sensation mescla regravação de algumas músicas de seus EPs (com novos arranjos) com novas canções. Outra canção que foi regravada foi “Stand”, faixa que fala sobre acreditar em si mesmo. Essa foi uma de suas primeiras composições e foi inspirada nos bullyings que sofria nos tempos de colégio. Os temas das canções não trazem grandes novidades. São temas comuns dentro da cena hard rock: relacionamentos, desejo, amor não correspondido… E, sim, todas as músicas contam com as mãos de Cassidy Paris.

Como já é comum nos álbuns do selo, o disco foi feito à distância com a parte vocal e as guitarras sendo registradas na Austrália e a parte de baixo, teclado e bateria sendo registrado na Itália, tendo como tutor o produtor Alessandro Del Vecchio. O resultado final, contudo, é assertivo e está dentro do padrão do cast. Resumindo… New Sensation é um trabalho bacana, divertido e mostra que a garota tem lenha para queimar. Agora é esperar o segundo álbum para ver se o nível mantém.

Faixas:

  • Danger
  • Rock n Roll Hearts
  • Here I Am
  • Walking On Fire
  • On The Bright Side
  • Song For The Broken Hearted
  • Searching For a Hero
  • Like I Never Loved You
  • Stand
  • Addicted
  • Midnight Desire


O Erê (Epic Records, 1996), Cidade Negra

 



Em 1996, o Cidade Negra alcançava um ponto de virada. O reggae, até então um território alternativo na música brasileira, já não era mais visto como curiosidade exótica ou “som de nicho”. Com o sucesso de SobreTodas as Forças (1994), o grupo carioca tinha levado as vibrações jamaicanas às rádios, aos programas de TV, aos grandes palcos. O Brasil inteiro passou a cantar “A Sombra da Maldade” e “Onde Você Mora?”. Agora, com O Erê, a banda não buscava mais provar nada. Queria apenas expandir — o som, as ideias, o horizonte, as vibrações positivas. 

O Erê, palavra de origem iorubá que significa “criança”, nascia como um álbum de celebração e amadurecimento. A criança do título é símbolo de pureza, mas também de continuidade — o futuro que cresce à sombra de uma herança cultural negra e mestiça. O clima familiar atravessa o disco, do conceito à sonoridade. Havia ali um espírito comunitário, de banda que não mais precisava correr atrás do sucesso, mas sim administrá-lo. E o fazia com serenidade, fé e leveza. 

Produzido novamente por Liminha, o quarto álbum do Cidade Negra marcou a consolidação definitiva do grupo formado por Toni Garrido (voz), Da Gama (guitarra), Bino (baixo) e Lazão (bateria). Gravado no auge da confiança artística da banda, O Erê é o retrato de um som em equilíbrio entre a praia e o asfalto, entre o soul e o roots, entre a fé e a festa. Se Sobre Todas as Forças havia apresentado o Cidade Negra ao grande público, O Erê o transformou em instituição. 

Desde o primeiro acorde, percebe-se que o grupo buscava um passo além. O reggae tradicional ainda é a espinha dorsal do disco, mas agora ele vem pontuado por texturas eletrônicas, samplers e scratches discretos. Em cada faixa do disco, a produção de Liminha soa limpa, equilibrada, luminosa. O groove é preciso, o baixo de Bino pulsa com elegância e o vocal de Toni desliza entre a doçura e o protesto com a segurança de quem sabe exatamente onde pisa. 

Esse flerte com a modernidade não é gratuito. O Erê nasce num momento em que o reggae brasileiro — após anos de visibilidade modesta nos anos 1980 e efervescência nos primeiros anos 1990 — já se encontrava estabelecido. O Cidade Negra, nesse contexto, representava uma síntese perfeita: fiel às raízes jamaicanas, mas profundamente brasileiro em seu balanço, sua poesia e sua musicalidade solar. 

A ponte com a Jamaica nunca foi tão evidente. O álbum contou com participações de peso: a cantora Patra, estrela do dancehall, emprestou sua voz à dançante “Realidade Virtual”, enquanto os veteranos do Inner Circle apareceram em “Free”. Essa última, aliás, nasceu de um encontro fortuito em Miami, quando os jamaicanos ofereceram ao grupo a faixa de presente — um gesto simbólico de legitimação. 

Além disso, o Cidade Negra manteve viva a tradição das versões: “Firmamento” é uma recriação luminosa de “Wrong Girl to Play With”, de Yellowman, e “Simples Viagem” vem de “Sitting and Watching”, de Dennis Brown. Essas releituras revelam uma banda consciente de suas origens, mas disposta a reescrever as referências com sotaque próprio. 

A mistura de Jamaica e Rio de Janeiro nunca soou tão natural. A percussão urbana, as linhas de teclado sutis e a cadência vocal de Toni formam um idioma único, um “reggae carioca” que respira o mesmo ar da Lapa, de Ipanema e de Trenchtown.

Cidade Negra em 1996, da esquerda para a direita: Lazão, Da Gama,
Bino e Tony Garrido.

"O Erê" abre o disco como uma declaração de princípios. Antes mesmo de qualquer preocupação com refrões radiofônicos, o Cidade Negra apresenta a essência do álbum: um reggae de consciência, mas despido de qualquer rigidez. A figura do erê, associada à pureza e à espiritualidade, conduz uma canção luminosa, onde o baixo de Bino Farias estabelece um groove sereno e a voz de Toni Garrido transmite calma e convicção. É uma abertura que define o espírito do trabalho, apostando na paz como força transformadora.

"Firmamento" surge logo em seguida para consolidar essa proposta e, ao mesmo tempo, tornar-se um dos maiores clássicos da música brasileira dos anos 1990. É uma versão em português de "Wrong Girl To Play With", gravada por Yellowman em 1984. A melodia é irresistível, a interpretação de Toni é delicada e segura, enquanto a banda alcança um raro equilíbrio entre o reggae jamaicano e a vocação pop nacional. Não é difícil entender por que a faixa atravessou gerações: ela transforma simplicidade em grandeza, evocando esperança sem recorrer ao sentimentalismo exagerado.

Com "Luz dos Olhos", o clima desacelera. A composição de Nando Reis ganha uma leitura elegante, marcada por arranjos leves e atmosfera contemplativa. O Cidade Negra respeita a delicadeza da canção, valorizando o vazio deixado pela ausência e convertendo a melancolia em algo acolhedor. O resultado é uma das interpretações mais sensíveis do repertório da banda.

"Realidade Virtual" representa a face mais ousada do álbum. Misturando reggae, dancehall, rap e elementos eletrônicos, a faixa dialoga diretamente com a modernidade da segunda metade dos anos 1990. A participação de Patra acrescenta autenticidade à proposta, enquanto scratches e batidas reforçam a sensação de movimento constante. Mesmo experimentando novas linguagens, a banda preserva sua identidade.

A internacionalização do disco fica evidente em "Free". A parceria com o Inner Circle amplia o alcance sonoro do álbum sem parecer um movimento calculado. A canção flui naturalmente, sustentada por um refrão simples e eficiente que transforma a liberdade em um mantra. É uma música que reforça os laços históricos entre Brasil e Jamaica através de uma linguagem universal.

Em "Simples Viagem", o grupo volta ao terreno da contemplação. Inspirada na obra de Dennis Brown, a faixa privilegia a atmosfera em vez do impacto imediato. O baixo conduz cada compasso com elegância, enquanto guitarras discretas e teclados envolventes criam uma sensação quase cinematográfica. Toni Garrido canta como quem observa o tempo passar, sem ansiedade, apenas permitindo que a música respire.

"Jah Vai Providenciar" reafirma a dimensão espiritual que atravessa todo o álbum. A fé aparece como instrumento de serenidade, nunca como imposição. O reggae roots conduz uma mensagem direta, sustentada por uma produção refinada que aproxima o discurso religioso de um público amplo. A força da faixa está justamente nessa simplicidade despretensiosa.

As demais canções, como "Downtown" e "Mensagem", completam o mosaico sonoro com equilíbrio, alternando momentos urbanos e reflexivos sem romper a unidade do conjunto. O mérito de O Erê está justamente em transformar diferentes influências em uma obra coesa, onde cada faixa contribui para um mesmo sentimento de leveza, consciência e esperança. Mais do que reunir sucessos, o álbum consolidou o Cidade Negra como a principal referência do reggae brasileiro naquele período, mostrando que era possível dialogar com o mercado sem abrir mão da identidade artística. Ainda hoje, permanece como um trabalho que envelheceu com dignidade, sustentado por boas composições, excelentes interpretações e uma mensagem que continua atual.

Convidados ilustres: o álbum O Erê conta com participações especiais de Patra em
"Realidade Virtual" e Inner Circle em "Free".

Quando O Erê chegou às lojas, em maio de 1996, o Cidade Negra já era uma banda de massas. Ainda assim, o álbum superou expectativas: vendeu mais de 600 mil cópias, consolidando o grupo como um dos maiores nomes da música brasileira. “Firmamento” se tornou onipresente nas rádios e programas de TV, enquanto o clipe da faixa-título reforçava o discurso afetivo e social do grupo. 

A crítica destacou a produção refinada e o equilíbrio entre modernidade e autenticidade. O jornal Folha de S.Paulo chamou atenção para os “flertes com o rap” e o uso inteligente de recursos eletrônicos sem perda de identidade. Já o Jornal do Brasil sublinhou a “maturidade artística” e o “espírito de comunhão” do disco. 

Em termos de popularidade, O Erê colocou o Cidade Negra em disputa direta com o Skank, então no auge de O Samba Poconé. Essa rivalidade amistosa representava, na verdade, duas faces de uma mesma tendência: o pop brasileiro se abrindo a ritmos negros e caribenhos, sem medo de ser solar, dançante e acessível. 

O brilho de O Erê não está apenas na sonoridade, mas também na coerência simbólica. O álbum gira em torno de um eixo espiritual — o erê como arquétipo de pureza e resistência — que se traduz em letras que falam de fé, amor, família e positividade. O Cidade Negra reafirma, aqui, seu papel de ponte entre a religiosidade afro-brasileira e o mainstream pop. 

Há um gesto político silencioso em cada faixa do disco. Ao naturalizar a presença da cultura negra nas rádios, o grupo contribuiu para uma transformação cultural mais ampla. O Erê é um álbum que fala de esperança sem ingenuidade, que exalta a vida sem ignorar o peso da realidade. Sua espiritualidade é cotidiana, feita de pequenas luzes, de gestos simples. 

O título, que evoca a criança interior, também sugere a passagem do tempo. O Cidade Negra, ao lançar O Erê, deixava de ser a banda jovem que estourou nas rádios e se tornava um grupo com discurso, estética e legado. Era a maturidade sem perda da ternura — um gesto raro. 

Por outro lado, o reggae brasileiro encontrou ali sua forma definitiva: urbana, mestiça, melodiosa, solar. E o Cidade Negra provou que podia cantar sobre amor, fé e resistência com a mesma força de quem faz revolução dançando. 

Em última instância, O Erê é um disco sobre o encontro entre o homem e a criança que o habita. Um convite a olhar o mundo com olhos limpos, a acreditar na beleza possível mesmo quando o céu parece pesado. E, talvez por isso, siga soando tão necessário: porque lembra que há sempre um firmamento por detrás das nuvens.

 

Lista de faixas

1."SOS Brasil" (Da Gama, Bernardo Vilhena)  

2."Cidade em Movimento" (Rodrigo Sadd, Roberto Valente)

3."Realidade Virtual" (Da Gama, Toni Garrido)

4."Luz dos Olhos" (Nando Reis)          

5."Simples Viagem" (Dennis Brown, Toni Garrido, Liminha, Bernardo Vilhena)      

6."Firmamento" (Winston Foster, Henry Lawes; versão Da Gama, Toni Garrido, Bino, Lazão)       

7."O Guarda" (Da Gama, Toni Garrido, Bernardo Vilhena)   

8."Jah Vai Providenciar" (Caca Franklin, Toni Garrido)         

9."O Erê" (Da Gama, Toni Garrido, Bernardo Vilhena)          

10."Página de Jornal" (Da Gama, Toni Garrido)         

11."Negro É Lindo" (Jorge Ben Jor)     

12."Free" (Felipe Abreu, Eduardo Costa, Toni Garrido, Ian Lewis)   

13."Free" (Faixa Bônus) (Felipe Abreu, Eduardo Costa, Toni Garrido, Ian Lewis)

 

Cidade Negra:

Toni Garrido - voz

Da Gama - guitarra (menos em "Free")

Bino Farias - baixo (menos em "Free")

Lazão - bateria (menos em "Free")


“SOS Brasil”

“Cidade Em Movimento”

“Realidade Virtual”

“Luz Dos Olhos”

“Simples Viagem”

“Firmamento”

“O Guarda”

“Jah Vai Providenciar”

“O Erê”

“Página De Jornal”

“Negro É Lindo”

“Free”

“Free” (Bonus Track)

Rádio Pirata ao Vivo (Epic, 1986), RPM

 



Em 1985, o Brasil ainda tateava sua recém-conquistada liberdade. O álbum de estreia, Revoluções por Minuto, lançado em maio daquele ano, já havia estabelecido o RPM como a ponta de lança de uma modernidade sombria e dançante. Mas foi o encontro com o empresário Manoel Poladian que mudou as regras do jogo. Poladian, acostumado ao gigantismo de Roberto Carlos, não queria apenas uma banda de danceteria; ele projetou um espetáculo de arena.

A infraestrutura era imperial: carretas, cenários móveis e uma equipe de 27 pessoas. Paulo Ricardo definiu o momento como o "Plano Real do rock brasileiro", uma tentativa deliberada de entrar no primeiro mundo estético, equiparando o RPM a titãs como o Genesis. Sob a direção artística de Ney Matogrosso, o show tornou-se uma experiência audiovisual cyberpunk inspirada em Blade Runner, onde o gelo seco e os tons gélidos de azul e branco criavam uma aura de frieza sensual e ineditismo.

O álbum não foi planejado como um passo artístico tradicional, mas como uma manobra estratégica e, de certa forma, "caça-níquel". A versão do RPM para "London, London", de Caetano Veloso, havia sido "pirateada" das ondas de rádio a partir de gravações amadoras dos shows, tornando-se o hit mais pedido do país antes mesmo de existir em estúdio.

Para estancar a perda de receita e atender ao clamor do público, o diretor-artístico da CBS, Marcos Maynard, e Poladian decidiram registrar o show. Gravado em 26 e 27 de maio de 1986 no Pavilhão do Anhembi, em São Paulo, com uma unidade móvel de ponta, o disco capturou não apenas a música, mas o som do "grito histérico das moças", um elemento essencial daquela atmosfera.

RPM durante a turnê de Revoluções por Minuto e que resultou no
álbum Radio Pirata Ao Vivo.

Rádio Pirata / Ao Vivo é a síntese perfeita do tecnopop britânico filtrado pelo calor tropical. A musicalidade emanava dos sintetizadores de Luiz Schiavon, um tecladista com a capacidade de criar texturas que variavam do dark ao rock ensolarado. Junte-se a isso o baixo pulsante e o vocal rasgado de Paulo Ricardo, a guitarra precisa de Fernando Deluqui e a bateria enérgica de P.A. Pagni (1958-2019), e o que se tem é uma máquina pop perfeita. 

Abrindo o álbum, “Revoluções Por Minuto” não pede licença. Surge como um manifesto sonoro, com sintetizadores cortantes e uma sensação de urgência quase industrial. Faixa-título do álbum de estreia do RPM, “Revoluções Por Minuto” ganhou peso apocalíptico na sua introdução através dos teclados de Luíz Schiavon. A letra sobre vigilância e paranoia ressoava fortemente em um país que acabava de enterrar a ditadura.

“Alvorada Voraz” é uma das inéditas do álbum e um dos maiores trunfos do disco. Com uma letra ácida composta durante a turnê, a canção aborda a corrupção e a violência urbana com uma urgência quase punk, apesar do polimento pop. Uma das grandes novidades do disco, é também uma de suas faixas mais sombrias. É o RPM em sua forma mais crítica.

Sucesso no álbum de estreia do quarteto paulista, a balada “A Cruz e a Espada” ganha contornos dramáticos na sua versão ao vivo. É o momento em que a influência new romantic europeia se funde à tradição da canção brasileira, destacando o conflito entre razão e fé. Aqui, a banda desacelera — mas não perde intensidade.

Outra faixa inédita no álbum foi “Naja”, uma peça instrumental ousada para um disco de tamanha popularidade. Schiavon demonstra seu virtuosismo técnico em um arranjo hipnótico que servia de vitrine sonora para a sofisticação da banda. “Naja” funciona como vitrine para o talento de Schiavon. Os teclados conduzem a narrativa, enquanto guitarra e bateria orbitam em torno deles. É um momento de respiração — mas também de afirmação técnica.

Fernando Deluqui, Paulo Ricardo, Luiz Schiavon e Paulo Pagni.

Um dos principais hits do álbum de estreia do RPM, “Olhar 43” vira uma catarse coletiva ao vivo. Aqui, esse rock contagiante atinge seu ápice como experiência coletiva. A plateia participa ativamente, transformando a faixa em um ritual pop. Sensual, direta, irresistível.

Mais sombria e densa, com referências literárias a Rimbaud, “Estação do Inferno” foi um dos destaques no álbum Revoluções Por Minuto. Sua A versão ao vivo abre o lado B do disco, acentua a atmosfera pós-punk e o deslocamento urbano presente na poesia de Paulo Ricardo.

“London, London” é o ponto de inflexão do disco. O RPM transformou a melancolia do exílio de Caetano Veloso na época da ditadura militar em uma balada luminosa. A performance de piano e voz é, até hoje, uma das mais belas atualizações da MPB para o contexto do rock. A releitura que o RPM presta à canção de Caetano conecta duas gerações: a MPB do exílio e o rock da abertura política. É, ao mesmo tempo, homenagem e reinvenção.

A faixa seguinte, é mais uma releitura presente no álbum ao vivo do RPM. Desta vez é de um sucesso dos Secos & Molhados, grupo que revelou Ney Matogrosso, e que além de grande artista, foi o diretor do show do RPM. O quarteto paulista injetou peso e um tom instrumental apocalíptico a esta joia do rock brasileiro dos anos 1970.

Com mais de 7 minutos, a faixa que dá título a este álbum funde o manifesto juvenil do RPM com “Light My Fire”, o clássico do The Doors. É o momento dos lasers e da consagração da banda como os novos donos do mercado fonográfico daqueles meados dos anos 1980. Encerrando o disco de forma apoteótica, a versão ao vivo de “Rádio Pirata” sintetiza a proposta da banda: rebeldia, comunicação alternativa, ruptura com o sistema. É o clímax — e também a assinatura definitiva do álbum.

Em Rádio Pirata Ao Vivo, o RPM fez releituras de "London, London"(Caetano Veloso)
e "Flores Astrais" (Secos & Molhados).

Lançado em 28 de julho de 1986, Rádio Pirata Ao Vivo foi um terremoto comercial no mercado fonográfico brasileiro. Vendeu 500 mil cópias em pré-venda e logo atingiu a marca de 2,2 milhões de exemplares (chegando a 3,7 milhões em registros posteriores), tornando-se o álbum mais vendido da história da música brasileira até então. A gravadora CBS precisou contratar fábricas adicionais para suprir a demanda, algo que só ocorria com Roberto Carlos.

A imprensa, contudo, reagiu com desconfiança. Críticos como José Emílio Rondeau, na revista Bizz, apontaram o "oportunismo excessivo" de lançar um disco ao vivo tão cedo na carreira, alertando para o risco de que a sede de lucro pudesse prejudicar o futuro artístico do grupo.

O sucesso de Rádio Pirata / Ao Vivo foi tão colossal que se tornou incontrolável. Em 1986, o RPM era onipresente: de álbuns de figurinhas a reportagens exclusivas no Globo Repórter, da TV Globo. No entanto, os bastidores eram marcados por abusos de substâncias e conflitos de ego. A tensão entre o "crooner gatíssimo" e o "mestre dos teclados" transformou a parceria em competitividade nociva.

O legado do álbum é duplo. Por um lado, provou que o rock brasileiro podia ter a mesma estatura e profissionalismo das grandes turnês internacionais, abrindo caminho para toda a indústria fonográfica nacional. Por outro, serviu de alerta sobre a fragilidade da arte diante do consumo desenfreado de imagem.

Quarenta anos depois, as luzes de neon podem ter se apagado, mas as ondas do rádio ainda carregam a urgência de Rádio Pirata Ao Vivo. O álbum permanece não apenas como um registro de sucessos, mas como o testamento de uma banda que, por um breve e fulminante momento, fez o Brasil inteiro acreditar que a revolução estava, de fato, no ar.

Faixas

 

Lado 1

1."Revoluções por Minuto"   

2."Alvorada Voraz"    

3."A Cruz e a Espada"            

4."Naja"         

5."Olhar 43"

 

Lado 2            

6."Estação no Inferno"          

7."London, London" (versão cover de Caetano Veloso)      

8."Flores Astrais" (versão cover de Secos & Molhados)      

9."Rádio Pirata / Light My Fire" (música incidental)

  

RPM:   Paulo Ricardo (vocal e baixo), Fernando Deluqui (guitarra e vocal de apoio), Luiz Schiavon(teclados e piano) e Paulo Pagni (bateria, sintetizador e vocal de apoio).


Ouça na íntegra o álbum 
Rádio Pirata ao Vivo

"Revoluções por Minuto"(ao vivo 1986)


"Louras Geladas" (ao vivo 1986)

"Alvorada Voraz" (ao vivo 1986)

"A Cruz e a Espada" (ao vivo 1986)

"London, London" (ao vivo 1986)

"Flores Astrais" (ao vivo 1986)

"Naja" (ao vivo 1986)

"Rádio Pirata" (ao vivo 1986)

Destaque

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