quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Do Pior Ao Melhor: Paralamas Do Sucesso

 

Do Pior Ao Melhor: Paralamas Do Sucesso

A produção dos Paralamas do Sucesso, ao longo de 40 anos de carreira, é considerável: contém treze álbuns de estúdio, sete álbuns ao vivo, dois álbuns em espanhol, quatro coletâneas, dois box sets e nove DVD’s. Centrarei esforços em ordenar, conforme suas qualidades, somente os álbuns de estúdio, mas já faço uma ressalva: não deixe de apreciar os álbuns ao vivo, todos acima da média, pois a banda no palco é praticamente imbatível e os shows têm, tranquilamente, 2 horas só de sucessos, com destaque para os excelentes Vamo Batê Lata (1995, que trazia 4 músicas de estúdio inéditas), D (1987) e o Uns Dias Ao Vivo (2004), além do obrigatório em qualquer boa discoteca Acústico MTV (1999). Também chamo a atenção para as coletâneas intituladas Arquivo (1990), e Arquivo II: 1991-2000 (2000), que possuem músicas inéditas. Confesso que foi difícil classificar a produção da década de 80 da banda, porém a coluna pede que tenhamos um olhar crítico, então ouvir novamente a discografia completa do grupo procurando o que é mais fraco, ao invés do que mais gosto, foi um bom exercício de distanciamento (que fica evidente nas posições de Cinema Mudo e de Big Bang). Espero que, nos comentários, também coloquem suas próprias listas, caso divirjam da minha. 


13º. Sinais do Sim [2017]

Na discografia da banda, todos os discos são acima da média e consistentes, exceto o seu último lançamento, que apresenta dificuldades para emplacar. “Escutamos coisas que escutávamos antes mesmo de começarmos a banda, principalmente rock dos anos 1960 e 1970”, disse Barone em entrevista à época do lançamento. A novidade fica por conta de Mário Caldato Jr., produtor com quem os músicos nunca haviam trabalhado. “Nos identificamos de cara e demos uma carta branca pra ele fazer tudo o que quisesse. Ele sentiu firmeza no repertório e potencializou nossa força com um acabamento fantástico”, complementa Barone. Entre as surpresas de Caldato está Rodrigo Amarante, ex-Los Hermanos. “Ele convidou o Rodrigo para fazer alguns vocais pontuais, algo meio escondido, muito sutil. Tanto que ele não fez questão de ser creditado, mas mesmo assim nós quisemos agradecê-lo”, disse Herbert. Realmente, o propósito buscado pela banda, de um disco leve, se cumpre. O trio parece revisitar suas várias fases e repertório, porém parece que tudo ficou polido demais, limpo demais e sem a pegada típica deles. A sensação ao ouvir cada uma das músicas é a de que há outra na discografia deles que soa melhor. Todas as vezes em que o ouço, fico com a sensação de que poderia ter sido um álbum mais roqueiro se a direção de arte e a produção apontassem para outro lado. Os vocais de Herbert parecem mais inseguros, mais fracos – o que confere emotividade, é verdade, mas destoa dos demais discos do grupo. Um álbum bom de se ouvir, sem dúvida, se esta coluna tivesse como premissa darmos notas, ele seria nota 8,0 numa boa, sobretudo pelos ótimos timbres de guitarra e pelas sempre boas ideias de canções de Herbert Vianna, mas só o adquira se for um completista, caso contrário invista primeiro sua grana nos discos anteriores. Tomara que não seja o último lançamento dos Paralamas, pois seria uma despedida melancólica.


12º. Brasil Afora [2009]

O álbum foi gravado no estúdio de Carlinhos Brown (que participa da faixa “Sem Mais Adeus”) e teve Liminha como produtor (e autor, juntamente com Arnaldo Antunes, da faixa “A Lhe Esperar”) – o que realmente reflete em uma qualidade excelente de gravação, mas parece que falta algo para ele voar mais alto. Segundo álbum de composições feitas após o acidente de Herbet Vianna, Brasil Afora carece do que sempre foi um diferencial nos álbuns dos Paralamas: ao menos um hit matador. Herbert Vianna é da estirpe dos maiores hitmakers do mundo e, aqui no Brasil, está no páreo com Lulu Santos, Roberto Carlos e Erasmo Carlos, Tim Maia, Michael Sullivan e Paulo Massadas e César Augusto (que tem cerca de 950 composições no mundo sertanejo). Antes de atirarem pedras, não confundam um grande hitmaker com um grande compositor (por nossas terras, Caetano Veloso, Chico Buarque, Tom Jobim e Gilberto Gil são nossos melhores exemplos), e é aí que Herbert se destaca, pois ele também tem faro para grandes composições (tal qual Renato Russo e Paul McCartney, por exemplo), daí esse álbum carecer de composições mais ganchudas e isso ser um tipo de expectativa não cumprida. Além das duas citadas, “Meu sonho” e “Aposte em mim” (que são as melhores canções do álbum) talvez sejam as que cheguem mais perto de serem um grande hit, pois tratam-se de duas ótimas faixas, da melhor safra de composições de Herbert Vianna, e estariam tranquilamente, juntamente com “Sem mais adeus” e “A lhe esperar”, nos ótimos álbuns 9 Luas (1996) ou Hey Na Na (1998). A bela “Palhaço” e a estradeira “Tempero zen” também merecem destaque, são faixas interessantes, porém não ao ponto de fazerem o disco decolar e voar na altura dos demais. Outro aspecto peculiar do álbum são os metais, que aqui são utilizados de modo mais discreto e com bastante bom gosto. Não se trata de um álbum ruim, daqueles que lamentamos terem sido lançados, longe disso: é um disco que merece estar na sua coleção, coloque-o para tocar e verá que é bastante agradável e equilibrado, não pulará nenhuma faixa, coisa que acontece, por exemplo, com Cinema Mudo (1983), em que você tem que descartar ao menos duas ou três faixas, bem como no Big Bang (1989), que também não dá para ouvir por inteiro. Caso você seja fã da banda (se tem 6 ou 7 discos deles na prateleira pelo menos) e ainda não o tem, pode comprá-lo numa boa, terá uma banda mais melódica e com levadas mais suaves do que o usual na carreira deles. Parece um contrassenso, em um ranking de discos, o penúltimo colocado receber mais elogios do que críticas, mas basta emparelhá-lo com os demais e verá que deve ficar somente à frente de Sinais do Sim (2017), o que corrobora a qualidade da discografia da banda. 


11º. Hoje [2005]

Contando com o bom trabalho de Liminha (que produz 6 faixas) e o sempre eficiente Carlo Bartolini (responsável pelas outras 7), o décimo primeiro álbum de estúdio dos Paralamas é o primeiro com canções compostas após o acidente de Herbert Vianna sofrido em 2001, ao contrário do disco de estúdio anterior Longo Caminho (lançado um ano depois do acidente com músicas compostas na leva de Hey Na Na de 1998), e conta com participações especiais de Mano Chao em “Soledad Cidadão” (composta em parceria com Pedro Luís), Marcelinho da Lua na boa “Ao acaso” e Andreas Kisser em “Fora do lugar” (composição de Leoni) e “Ponto de vista”, além de Nando Reis, parceiro de composição em “Pétalas”, e Apollo 9 em “Deus Lhe pague” do Chico Buarque, que garantem a posição do álbum à frente de Brasil Afora (2009) e Sinais do Sim (2017). É um disco doído, pois, obviamente, as inevitáveis marcas do acidente aparecem ao longo das faixas. Em “2A”, faixa de abertura, Herbert canta uma dolorosa declaração decorrente das mudanças que o acidente causou em sua vida: “Meu destino não me deixa em paz / De coração, não sei se eu posso amar / Amei tanto há tanto tempo atrás / Mas sofri, chorei, cansei de soluçar / Nem sei se é o fim, / Mas a luz da vida ainda brilha pra mim. / Pra uma princesa eu entreguei meu coração / Ela me fez cantar, sorrir, sonhar, sentir tesão / Me entreguei, fiz tudo que ela quis / Mas o destino me deixou na mão / Se é assim, que não seja o fim / Pois a luz da vida ainda brilha pra mim. // Então xinga / Com dois “a” de caatinga / Ou então para / Sejam dois “a” de Saara”. A princesa da letra é a esposa de Herbert, Lucy Needham-Vianna, que faleceu no acidente de 4 de fevereiro de 2001, perto da costa de Mangaratiba, no Rio de Janeiro, quando o ultraleve em que ambos estavam caiu no mar após uma tentativa de looping por parte de Herbert, que era quem pilotava. O guitarrista foi internado por 44 dias, parte deles em coma, sofreu perda parcial da memória e ficou paraplégico. Como não se emocionar depois de tudo isso ao ouvir “2A”!? A verdade é que todo fã dos Paralamas estava à espera do que Herbert Vianna, um dos melhores e maiores músicos brasileiros, apresentaria após tudo o que aconteceu – e como estaria, se ainda seria o mesmo guitarrista de mão cheia, como cantaria, o que comporia… “2A” é o que falta em Brasil Afora (2009): o hit matador e que, nesse caso, já vale o álbum, pois trata-se de uma das melhores canções da banda, entra no top 10 fácil. Ouça também a sombria “Passo Lento”: “Te peço calma para que eu absorva tudo / que eu aprenda enquanto sofra / te peço um tempo pra / concatenar cada elemento / em passo lento”. Em “Ponto de Vista”, a música mais pesada em termos roqueiros da discografia da banda, Herbert canta com indignação que “Você aí em pé / você não deve saber / como é o mundo aos olhos de quem sofre / ao se mover”. Passados 20 anos do lançamento, temos aqui um disco menos ouvido do que merecia ser. 


10º. Severino [1994]

O sétimo disco dos Paralamas do Sucesso entregava suas influências já no nome: paraibano de nascença, Herbert Vianna mirou a saga do retirante nordestino escrita pelo poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto para mostrar que muito pouco, ou quase nada, havia mudado desde o lançamento do poema Morte e vida severina em 1955. Herbert e seus parceiros, Bi Ribeiro e João Barone, ousaram na produção musical com um trabalho sofisticado que abria mão de melodias e refrões mais palatáveis — o que não foi bem recebido por parte da crítica e do público da época, mas contribui, ano após ano, com a aura cult que o trabalho vem recebendo. O conceito do álbum já era apresentado na capa, certamente a mais bela da discografia da banda, que reproduz um manto bordado pelo artista plástico Arthur Bispo do Rosário, representando um homem cercado por nomes de órgãos e partes constituintes do corpo humano e, abaixo, a frase “Eu preciso destas palavras ‘escrita’”. Interno da antiga Colônia Juliano Moreira, onde viveu por mais de 50 anos, o sergipano Bispo do Rosário também era um retirante, um “severino”. Na distância da terra pátria, tal qual Gonçalves Dias em sua Canção do Eexílio (escrita em Lisboa em 1843), Oswald de Andrade em seu Manifesto Antropófago (escrito em Paris em 1924), Caetano Veloso no exílio em Londres com seu Transa de 1972 e Gilberto Gil, também em Londres e igualmente exilado, com seu disco homônimo de 1971, os Paralamas gravam seu registro mais brasileiro em Cherstey, na Inglaterra, com produção de Phil Manzanera (ex-Roxy Music). O disco representou uma guinada estética ainda mais radical que a de Selvagem? (1986), gravado oito anos antes, pois avançou na trilha do experimentalismo e da crítica social, como nos versos contundentes da pequena pérola do disco O Rio Severino: “És tu Brasil, ó pátria amada, idolatrada por quem tem / Acesso fácil a todo os teus bens / Enquanto o resto se agarra no rosário / E sofre, e reza / À espera de um deus que não vem”, música originalmente gravada por Herbert em seu primeiro disco solo Ê Batumaré (1992). E é aqui que está a chave de interpretação do disco mais diferente de todos da banda: egressos de um álbum mal compreendido (Os Grãos, de 1991) e um disco solo do vocalista e guitarrista Herbert Vianna (Ê Batumaré, de 1992), os Paralamas precisavam dizer algo para o público e o disco de Herbert foi o fio condutor para Severino. Era um tempo em que o país vivia o erro de ter dado a Fernando Collor a chance de presidir a nação e promover medidas que fizeram mal a quase todos os brasileiros. Tudo isso estava no ar, essa tristeza, esse gosto amargo. Para o artista inquieto Hebert Vianna, era necessário olhar para quem éramos e para o que queríamos fazer da vida, já que a arte, ainda mais a popular, é uma forma de absorção em relação a essas experiências e vivências sociais. Logo, o contexto histórico promoveu as condições para Severino existir. Confessamente influenciado pela leitura de autores nordestinos e imerso num processo de redescoberta de sua própria origem paraibana, referências de Ê Batumaré (1992), Herbert estava ciente de que o próximo álbum do grupo passaria por semelhante processo. Bi e Barone sabiam que a banda tinha muito a dizer a partir dessa imersão no Nordeste do parceiro. Entregues ao experimentalismo e, como diz Barone hoje em dia sobre o álbum, “à vontade para esticar seu potencial artístico”, os Paralamas deram asas a uma imaginação compartilhada com aquele momento do país. Severino é a obra mais ousada e instigante da banda. Apesar de não ter gerado grandes hits comerciais, é um álbum que conquista pela sua coerência interna e pela coragem de romper com fórmulas estabelecidas. O repertório traz faixas que exploram temas profundos e até melancólicos, com letras que refletem um olhar mais introspectivo e maduro sobre a vida e as relações humanas neste país (“Nada justifica essa dor / É tua alma brasileira que ainda veste essa cor / Nada justifica essa dor / É tua alma posta à venda sem achar comprador”, canta e declama Herbet em “Nada justifica essa dor”). Embora fique na décima posição deste ranking, Severino merece atenção especial por sua contribuição para a diversidade e o enriquecimento da obra dos Paralamas do Sucesso — e tem duas das melhores músicas da banda ao vivo: as praticamente imbatíveis “Dos Margaritas” e “Vamo Batê Lata”, dois dos melhores hits matadores que já compuseram. É um convite à redescoberta e à apreciação de uma fase menos convencional, porém fundamental, para compreender a versatilidade e o espírito inquieto do trio. 


9º. Cinema Mudo [1983]

Nenhum disco da carreira dos Paralamas do Sucesso tem um lugar tão especial na memória afetiva de tanta gente quanto Cinema Mudo. Lançado em 1983, em um Brasil que ainda estava sob o regime militar, instaurado em 1964 e que duraria até 1985, mas que já vivenciava fortes tensões sociais e políticas, com o movimento pelas “Diretas Já” ganhando força e culminando em greves gerais contra o regime imerso em crises econômicas e com a inflação em alta. Nesse caldeirão, o álbum foi o primeiro contato oficial do público com o trio brasiliense/carioca que viria a se tornar uma das maiores bandas do Brasil. Para muitos fãs da geração que hoje está na casa dos 50 anos, Cinema Mudo não é apenas um álbum — é uma trilha sonora de descobertas, rebeldia e sonhos juvenis de uma época muito, muito diferente da de hoje. Com uma pegada punk-reggae-crua e uma energia juvenil incontestável, o disco carrega um frescor que ainda hoje soa genuíno e contagiante. Faixas como “Patrulha Noturna”, “Vital e Sua Moto” e “Química” (essa de Renato Russo) são autênticos hinos de uma geração que buscava novas formas de expressão, identidade e pertencimento. A produção simples, quase artesanal, de Marcelo Sussekind (que a banda renega e considera ruim até hoje, nunca esconderam isso pois, de acordo com Herbert Vianna, a banda sofreu “manipulação” da gravadora, por ter acrescentado teclados, solos, ecos e efeitos que eles não queriam), reforça a sensação de que estávamos diante de uma banda que ainda procurava seu som, mas que já trazia em seu DNA a ousadia, a inventividade e a qualidade técnica de cada um em seus intrumentos que seriam suas marcas registradas ao longo da carreira. Cinema Mudo é o registro de um momento de efervescência cultural e musical, quando o rock nacional começava a ganhar voz forte nas rádios e nas ruas. Mais que isso, é um testemunho da coragem e da paixão de Herbert Vianna, Bi Ribeiro e João Barone — jovens artistas que, com poucos recursos, conquistaram corações e mentes ao oferecer uma proposta autêntica e vibrante. Ao revisitar este álbum, quarenta e dois anos depois, não se trata apenas de ouvir música; é mergulhar em uma época, sentir a pulsação de um tempo em que tudo parecia possível. Por isso, mesmo na nona posição neste ranking — fruto do olhar crítico que esta coluna propõe —, Cinema Mudo tem um lugar privilegiado, pois foi o ponto de partida de uma jornada inesquecível. 


8º. Big Bang [1989]

Esse foi o disco mais difícil de posicionar da lista — ora ele estava na 10ª posição, ora ele pulava para a 6ª —, Big Bang repete a fórmula do álbum anterior, o primoroso Bora-Bora (1988), com a mesma variedade de ritmos, porém está muitos degraus abaixo. A produção do álbum é ruim, o que destoa do nível elevadíssimo do antecessor; embora Carlos Savalla fosse o engenheiro de som da banda e já os conhecesse, aqui ele erra a mão (ou erram, já que os Paralamas também produziram o disco) — ouça “Dos restos” (parceria de Herbet com Liminha, que poderia ter ficado para ajudar na produção) e veja como o volume dos instrumentos está equivocado, a guitarra do Herbert some por detrás dos metais muito altos, que se sobrepõem à já altíssima bateria, estragando o que poderia ter sido um dos maiores rocks da banda. Outro ponto: o repertório do disco, no geral, é fraco. Sei que comprarei inimizades com os fãs mais ardorosos, mas “Rabicho do cachorro rabugento” e “Cachorro na feira” são muito ruins, além de serem basicamente a mesma canção. “Se você me quer” e “Lá em algum lugar” também são fraquíssimas — inclusive, essa faixa é a mais horrorosa em termos de gravação, será que não havia uma alma iluminada no estúdio para dizer que a faixa deveria ser gravada com uma sonoridade mais suave?! Nem “Nebulosa do amor”, querida por muitos, consegue se destacar. Enfim, nada disso é o problema em termos de classificação do disco, pois se parássemos por aqui, ele estaria de modo incontestável em último lugar; o verdadeiro dilema para a sua classificação é o fato de que o álbum contém, simplesmente, três petardos da carreira do grupo que estão, seguramente, em qualquer boa lista de suas 10 melhores músicas: “Perplexo”, “Pólvora” e “Lanterna dos afogados”. Como deixar nos últimos lugares um lançamento com essas maravilhas? Até pensei em considerar com outros olhos e ouvidos as ótimas “Vulcão Dub” e “Esqueça o que te disseram sobre o Amor (vai ser diferente)”, para ver se ele subiria ao menos 2, 3 casas para chegar em 6º lugar (mais que isso também não dá), mas não teve jeito… “Perplexo” tem um dos melhores trabalhos de bateria de Barone, nem mesmo no Bora-Bora (1988) ele conseguiu essa levada tão boa e certeira, meio embolada, meio lambada — sem falar do verso genial “Eu vou lutar, eu vou lutar / Eu sou Maguila, não sou Tyson”. “Pólvora” é uma das melhores músicas da banda, fica entre as 5 melhores tranquilamente. Aqui, sim, a gravação favoreceu o arranjo. E a letra? Hermética, misteriosa, difícil, daqueles milagres que somente os grandes compositores conseguem engendrar — afinal, quem em sã consciência conseguiria cantar com tanto molejo coisas como “As teorias que explicam o universo / Os versos que vasculham o coração / Os garis, estivadores e arquitetos / A fé manipulada dos cristãos // As alegrias, alergias, os afetos / Os fatos, frases, a simulação / O país ajoelhado, a morte, o sexo / A culpa e o olhar de acusação // O que é tudo isso diante da pólvora / Dessa paixão que se renova?”. Parece coisa da safra dos letristas dos Titãs. E aí temos “Lanterna dos afogados”, séria candidata a melhor música dos Paralamas — no mínimo, ela é pódio. Tudo nessa música é bom (nem a produção ruim consegue estragá-la): letra, arranjo, melodia, além de ter um dos três melhores solos de guitarra de Herbet Vianna, juntamente com “Mensagem de amor” e “Romance ideal”, ou seja, que música, meu Deus! Na disputa com Big Bang (1989) Cinema Mudo (1983) e Severino (1994), essas três pérolas, verdadeiras aulas de como se compõe um hit matador, fizeram a diferença, e fico feliz em não ter deixado a minha memória afetiva colocá-lo algumas posições acima. 


7º. Os Grãos [1991]

Lançado em um período de transição para o rock nacional, Os Grãos representa um momento em que Os Paralamas do Sucesso começam a explorar novas sonoridades sem perder a essência que conquistou fãs ao longo dos anos 80. O álbum chega em uma fase em que a banda já desfrutava de sólida maturidade artística, mas que ainda buscava renovar seu repertório para se manter relevante e criativa. Com produção caprichada de Liminha e Carlos Savalla (que aqui acerta a mão), o disco traz uma mistura equilibrada entre faixas animadas e outras mais introspectivas, divididas segundo esse critério no lado A e no lado B. A pegada rock permanece firme, mas os arranjos estão mais elaborados, com influências que vão do reggae ao pop, passando por nuances de MPB mais tradicional. Essa diversidade reflete a vontade do trio de expandir seus horizontes musicais sem se distanciar do que os tornava únicos — vide a melhor música do disco, “Sábado”, meio ska, meio reggae, com levada insinuante num ótimo arrasa-quarteirão, carregada de sopros, mas que, ao mesmo tempo, contém sampler de “Good Times Bad Times” do Led Zeppelin, além de uma guitarra mais ardida que o de costume, deixando-a bem roqueira — sem contar que possui versos belíssimos: “Gotas de amor sobre as feridas / Como um bálsamo / Ondas de amor pelas cortinas / Como um sábado de sol // Eu só queria te dizer / Que aquela dor já passou / Fingir que não, passar por cima / Nunca me ajudou // Onda de amor me contamina / Como um sábado de sol”. “Sábado” é uma das primeiras faixas que aborda a relação com Lucy Needham. Aliás, em termos de beleza (e de relacionamentos), o disco traz “Tendo a Lua”, linda, linda, linda canção que é, ao mesmo tempo, de um amor perdido e de um novo amor: versos como “Eu hoje joguei tanta coisa fora / Eu vi o meu passado passar por mim / Cartas e fotografias, gente que foi embora / A casa fica bem melhor assim” refletem tanto sobre o fim do relacionamento com Paula Toller quanto sobre o início de um novo amor com Lucy. O grunge tomando conta das paradas do mundo todo e a banda mandando essa pedrada amorosa. Faixas como “Os Grãos” e “Vai Valer” mostram a banda segura em seus novos domínios entre grooves e levadas mais harmoniosas, enquanto “Nada por Mim” e “Vamos Compor” revelam um mergulho de vez em um lado mais sensível e melódico. A produção, embora polida, consegue preservar o calor e a espontaneidade que marcam a identidade da banda. O trabalho instrumental é primoroso, com destaque para a guitarra de Herbert Vianna, que equilibra técnica e emoção de forma exemplar. Os Grãos é um disco consistente, com um bom equilíbrio entre experimentalismo e o jogo ganho da fórmula que a banda já dominava da canção de sucesso (caso de “Carro Velho”, com a percussão de Carlinhos Brown e a bateria gravada no bloco Vai que Vem, de Salvador, e que lembra bastante canções de discos anteriores), o que demonstrou a evolução natural dos Paralamas e sua capacidade de se reinventar sem perder a essência. Aliás, já que mencionei tanto algumas referências à Lucy Needham quanto ao Carlinhos Brown, vai mais uma: a canção “Uma Brasileira”, lançada como música de estúdio no ao vivo Vamo Batê Lata de 1995, composta por Hebert em parceria com Carlinhos Brown e que conta com a participação especialíssima de Djavan, foi feita em homenagem à sua então esposa, Lucy. Herbert contou, em uma das edições do programa da Globo Caldeirão do Mion, que Lucy era inglesa e tinha um grande interesse pela cultura brasileira. Ele quis que a letra da música homenageasse a “alma brasileira” da esposa, com o refrão em inglês e o restante da letra falando sobre o interesse dela pelo Brasil. Voltando ao Os Grãos, se você, como eu, já leu ou viu críticas ruins a esse trabalho, colocando-o na rabeira da discografia da banda, ouça com cuidado “Vai Valer” e “O Rouxinol e a Rosa” e me diga que outra banda conseguiria tamanha leveza sem perder a vitalidade que lhe era peculiar? Enquanto isso, na linda balada “A Outra Rota“, Herbert Vianna parece pedir perdão a alguém por um erro cometido no passado e, ao mesmo tempo, apontando para outras possibilidade no futuro (em mais uma ótima letra na qual Herbert equilibra relacionamentos passado e presente): “Eu vou fechar as contas e me mandar / Me ajoelhar, pedir perdão / Depois te perdoar // Você não merece o que eu te fiz / Só pra te machucar / Como se forte fosse eu // Eu tô em outra rota pra outro lugar / Eu quero as coisas certas / Eu quero te falar”. Nela, merece destaque o desempenho do piano de João Fera, o “quarto paralama”. Ou seja, são três pequenas joias de um trabalho que merece ser redescoberto por fãs antigos e novos, pois guarda vários tesouros escondidos que só a audição atenta (sugiro que com bons fones de ouvidos) pode revelar (a faixa “Não Adianta” é um deles, mais uma em que Herbert deixa claro que o negócio é esquecer o passado e seguir adiante) e que, seguramente, deixam o disco à frente do mais experimental Severino (1994), que viria logo depois, do antecessor Big Bang (1989) e da estreia Cinema Mudo (1983). 

Herbert Vianna, João Barone e Bi Ribeiro. Os Paralamas na década de 80

6º. 9 Luas [1996]

Se até aqui os álbuns oscilam entre notas de 8 a 9, a partir de agora são todos irrepreensíveis, com notas de 9 a 10, e demonstram o quanto os Paralamas eram capazes de enfileirar grandes hits com apurada qualidade técnica e ao longo de 3 décadas diferentes (pois os 6 primeiros colocados são lançamentos das décadas de 1980, 1990 e 2000). Lançado em 2 de julho de 1996, dois anos após o incompreendido e complexo Severino (1994) e num momento em que a música brasileira respirava novos ares e se reconfigurava diante da força do pop-rock dos anos 90, 9 Luas é um ponto de equilíbrio raro entre a maturidade de canções mais suaves, baladas e momentos mais delicados e o frescor das canções mais pegadas e agitadas da banda. A Legião Urbana lançaria A Tempestade ou O Livro dos Dias em 20 de setembro de 1996 e encerraria suas atividades onze dias após o falecimento de Renato Russo, ocorrido em 11 de outubro de 1996. Com isso, a nossa geração, que cresceu nos anos 80, buscava novos referenciais. Os Paralamas, atentos e inquietos, criaram aqui um trabalho que preserva a essência do grupo — a união de melodias acessíveis e arranjos elaborados — ao mesmo tempo em que absorve timbres mais limpos, batidas mais sutis e um clima mais contemplativo. Produzido pela própria banda e por Carlos Savalla (que enfim conseguem o que não alcançaram no Big Bang em 1989), há um refinamento sonoro evidente: guitarras menos distorcidas, baixo pulsante mas econômico e bateria precisa, quase minimalista em alguns momentos. É um disco que respira compenetração, dialogando com a MPB sem perder o DNA roqueiro da banda, embora a maioria das faixas seja mais suave — e esse é o ponto de virada que garante a 6º colocação a esse álbum, já que Herbert Vianna, em plena forma, entrega interpretações carregadas de calor humano, enquanto as letras transitam entre a poesia romântica e observações de um mundo em transformação — sem contar as ótimas versões de “De Música Ligeira”, da banda argentina Soda Stereo, e “Capitão de Indústria”, obra-prima de Paulo Sérgio Valle e Marcos Valle (“Eu às vezes fico a pensar / Em outra vida ou lugar / Estou cansado demais / Eu não tenho tempo de ter / Tempo livre de ser / De nada ter que fazer / É quando eu me encontro perdido / Nas coisas que eu criei / E eu não sei / Eu não vejo além da fumaça / O amor e as coisas livres, coloridas / Nada poluídas / Eu acordo pra trabalhar / Eu durmo pra trabalhar / Eu corro pra trabalhar”). O álbum marca, portanto, a consolidação de uma fase em que os Paralamas pareciam interessados tanto em criar paisagens sonoras quanto em produzirem seus potentes hits matadores — e, paradoxalmente, foi exatamente essa mescla que rendeu alguns de seus grandes sucessos da década. Amigo, o disco abre com “Lourinha Bombril”! Lá na década de 90, 8 em cada 10 artistas almejavam esse hit; quem mais se aproximou disso foi o Skank com “Garota Nacional”, lançada no álbum O Samba Poconé apenas 17 dias antes (15 de junho de 1996). Cabe ressaltar que esse sucesso é uma versão de Herbert Vianna da música “Párate Y Mira”, composição de Diego Blanco e Bahiano da banda de reggae e ska argentina Los Pericos, e, sem bairrismos, a versão de Herbert Vianna é bastante superior à original. 9 Luas é uma obra que envelhece com elegância, mantendo viva a sensação de que, a cada audição, novas nuances se revelam. Ouvir hoje, praticamente 30 anos depois, faixas como “Na Nossa Casa”, me dão a certeza de que há tanto ainda a ser descoberto dessa banda… Destaco Senô Bezerra (que também toca trombone na faixa) e Adriano Machado, ambos responsáveis pelo arranjo de cordas da faixa e que a elevam a uma das mais belas da banda (os Paralamas devem ter umas 6, 7 músicas mais bonitas de todas). O álbum fecha com uma das canções mais subestimadas da banda, a delicada “Um pequeno imprevisto”, parceria de Herbert com Thedy Corrêa (“Eu quis querer o que o vento não leva / Pra que o vento só levasse o que eu não quero / Eu quis amar o que o tempo não muda / Pra que quem eu amo não mudasse nunca / Eu quis prever o futuro, consertar o passado / Calculando os riscos / Bem devagar, ponderado / Perfeitamente equilibrado”). Na próxima sexta-feira em que chegar do trabalho, relaxe no fim de tarde e início de noite ouvindo esse álbum e perceberá que ele ainda tem muito a nos dizer. 


5º. Longo Caminho [2002]

Esse disco tem uma versão primorosa e emocionante de “Running on the Spot”, do The Jam, o que, por si só, o eleva à posição em que está e o deixa confortável à frente dos ótimos Os Grãos (1991), Big Bang (1989), Cinema Mudo (1983), 9 Luas (1996) e Severino (1994). Quer saber de que água a turma daqui de Brasília provava? Pois bem, coloque para tocar The Gift (1982), do The Jam, grupo do imparável Paul Weller (um dos maiores compositores do mundo em atividade), que rolava em 10 de cada 10 festinhas por aqui nos longínquos anos 80 (como sinto falta dessa época, meu Deus), e entenderá de onde vêm algumas coisas de gente como os Paralamas do Sucesso, Escola de Escândalo, Legião Urbana, Arte no Escuro, Aborto Elétrico, Capital Inicial, Plebe Rude, Finis Africae, Detrito Federal… O trio consegue deixá-la ao mesmo tempo com a sua pegada original e com a cara dos Paralamas como se, para tal feito, tivesse sido necessário percorrer o longo caminho mencionado na faixa que dá nome ao álbum. E a letra? Me parece genial, 20 anos depois de seu lançamento, Herbert cantar os seguintes versos de Weller: “Eu esperava que tivéssemos feito progressos reais / Mas parece que perdemos o poder / Qualquer passo de avanço / É como uma gota caindo no oceano / Estamos batendo na mesma tecla como sempre estivemos? / Somos apenas a próxima geração emocionalmente Incapacitada // Apesar de empilharmos os blocos de construção / A estrutura nunca parece ficar maior / Porque continuamos a chutar as fundações / e ficamos inúteis (parados) enquanto nossas vidas caem… // Eu acredito na vida e eu acredito no amor, / mas o mundo em que eu vivo continua tentando provar que estou errado”. Se um dia precisar explicar a um ET como se deve fazer uma versão de uma canção, apresente essa faixa a ele. Dito tudo isso, obviamente que vale registrar que estamos tratando do álbum lançado sob a emoção da recuperação de Herbert Vianna após o acidente de ultraleve ocorrido apenas um ano antes. A produção, a cargo do eficaz Carlo Bartolini, é uma das melhores dentre a discografia da banda e conseguiu dar uma sonoridade roqueira bastante agradável de se ouvir, sem querer mudar a característica original do som da banda, mas trazendo outras tonalidades ao som dos três músicos nesse momento tão complexo. As músicas foram compostas antes do acidente, e hoje, à distância, vejo que foi extremamente acertada a decisão da banda de aproveitar essas sobras de estúdio e de ideias ainda inacabadas em alguns casos e terminá-las, ao invés de partirem para composições novas, assim como foi acertada a decisão de quase todas as faixas estarem centradas no trio Bi, Barone e Herbert. Ao ouvi-lo, agradeço aos céus por não terem feito de Hey Na Na um álbum duplo! “Flores no Deserto” foi escrita em homenagem a Marcelo Yuka, ex-baterista d’O Rappa, que, em 2000, foi atingido por tiros ao tentar impedir um assalto e que também ficou paraplégico: “havia inocência em seu sorriso / enquanto caminhava rente ao precipício / estava calmo por acreditar em perfeição / tal qual o tolo da colina na canção”. Como curiosidade, foi um dos primeiros discos da EMI a ter proteção anticópia, porém a tecnologia não era perfeita, dando assim a possibilidade de se copiar o disco. O título da última canção, “Hinchley Pond”, é o nome da fazenda dos pais de Lucy Needham-Vianna, esposa de Herbert, falecida no acidente. A música é sensível e dolorida e os versos “Oh, céu azul / Leve-me para lá / Me deixe na pequena lagoa / Onde eu tinha uma nova vida / Onde meu verdadeiro amor pertence” são os mais pungentes do compositor, que pede emocionadamente para morrer junto de sua amada na mesma lagoa que a afogou. O disco ainda tem a excelente “O calibre”, o hit matador do álbum (“Eu vivo sem saber / Até quando ainda estou vivo / Sem saber o calibre do perigo / Eu não sei da onde vem o tiro”), a lindíssima “Seguindo Estrelas” (provavelmente a balada mais linda da banda, parece ter sido lançada ontem), a ótima “Longo Caminho”, a também belíssima “Cuide bem do seu amor” (ok, ok, também séria candidata a balada mais linda da banda) e “Flores e Espinhos”, joia escondida no álbum. É um discaço, fundamental na discografia da banda, e só está em 5º lugar porque os quatro que vêm pela frente são todos obras-primas excepcionais. A tempo: em uma tradução livre, “Running on the Spot” significa “correr sem sair do lugar”… 


4º. Bora-Bora [1988]

Se Selvagem? (1986) já havia indicado uma banda que começava a amadurecer seu som e ampliar suas influências, o quarto disco do grupo, Bora-Bora, é o álbum em que Os Paralamas do Sucesso dão o salto artístico decisivo, consolidando-se como uma das maiores forças do rock brasileiro dos anos 80. Sem Bora-Bora, não teríamos Õ Blésq Blom, dos Titãs, lançado um ano e meio depois, bem como não veríamos surgir bandas como Skank, Móveis Coloniais de Acaju, Mundo Livre S/A e Chico Science & Nação Zumbi na década seguinte. Foi a primeira experiência de produção “da casa”, assinada por Carlos Savalla em parceria com a própria banda, e marcou a entrada definitiva dos sopros no som do trio. Gravado no Estúdios EMI-RJ em fevereiro de 1988 e mixado no Townhouse Studios, em Londres em março do mesmo ano, o disco revela uma banda segura, ousada e disposta a experimentar, misturando reggae, rock, música latina e até jazz, com uma coesão impressionante em um lançamento que tinha o lado A mais alegre e o lado B mais introspectivo, revelando as agruras do fim do relacionamento de Herbert Vianna com Paula Toller. A terceira canção do álbum, a faixa-título “Bora-Bora” já anuncia essa expansão: uma canção que traz um ritmo contagiante, repleto de percussões tropicais, arranjos de metais precisos e a guitarra de Herbert Vianna alternando entre riffs marcantes e toques quase sutis, num equilíbrio perfeito, ou seja, temos aqui a especialidade da casa: os hits matadores do grupo. A letra, apesar da leveza, traz uma energia vibrante, evocando uma sensação de fuga, liberdade e festa, como se convidasse o ouvinte a um lugar idealizado de alegria e (des)encontros — uma espécie de paraíso pessoal, a Pasárgada de Herbert Vianna, na qual a perda da amada (Toller?) para um outro (Leoni?), explicitada nos versos “Te imagino com outro cara / Numa praia em Bora-Bora / Agora!”, não revela tristeza, apenas o amargo sabor da vontade de fugir (“Me imagino embriagado / Jogado no chão / De uma espelunca / Nunca! // Já não penso em nada disso / O ciúme é um laço / Um artifício meu / Eu já não sou mais tão menino / Pra me pintar / Da cor do teu destino teu”). Os músicos tocam como nunca e, definitivamente, dão uma aula de arranjo e uso de metais. “O Beco”, por sua vez, ao abrir o álbum, apresenta um lado mais introspectivo e atmosférico, quase cinematográfico — o título e a sonoridade remetem a uma caminhada por ruas estreitas e misteriosas, onde os arranjos ganham camadas e texturas que reforçam o clima de suspense e emoção contida. É uma das faixas que mostram a versatilidade da banda, transitando entre o pop acessível e a experimentação sonora, herança direta de Selvagem? (1986). “Quase um Segundo” (“Às vezes te odeio por quase um segundo / Depois te amo mais”) traz uma carga emocional poderosa. Com uma letra que fala da efemeridade do tempo e das relações, a música tem um arranjo mais contido, permitindo que a voz de Herbert se destaque em uma interpretação cheia de sensibilidade. O uso delicado dos metais e a bateria com toque mais sutil dão à faixa uma atmosfera de melancolia elegante. Porém, o auge do disco é a magnífica “Uns Dias”. A letra funciona como uma confissão contida — fala de ausências, de deslocamento emocional e do retorno ao que já não é mais como era antes: “Mas você chegou já era dia / E não estava sozinha / Eu tive fora uns dias / Eu te odiei uns dias / Eu quis te matar”. Não é um desabafo explosivo, é mais uma constatação melancólica: o narrador registra um hiato (“tive uns dias fora”) e observa as pequenas fraturas que isso provoca nas relações, ou seja, perdeu a sua amada para outro, o que torna a canção universal — quem nunca quis se explicar quando esteve ausente de seu amor que atire a primeira pedra: “Eu tive fora uns dias / Numa onda diferente / E provei tantas frutas / Que te deixariam tonta / Eu nem te falei / Da vertigem que se sente // Eu nem te falei / Que eu te procurei / Pra me confessar / Eu chorava de amor / E não porque eu sofria”. Herbert entrega a canção com uma fragilidade controlada: não se escora em gritarias nem em dramalhões, canta quase por dentro da sílaba, com pequenas raspagens de voz que humanizam a mensagem. Essa modulação cria empatia imediata — ouvimos alguém que se arrepende, que pensa alto, sem teatralidade. O arranjo e a melodia são incomuns, pois enquanto a melodia prioriza contornos ligados à voz, o arranjo intensifica os acordes que criam uma sensação de “meio-tom” emocional: nem totalmente resolvidos, nem tensos demais. Essa paleta harmônica permite que o ouvido sinta uma leve tensão que se resolve em pequenos alívios no refrão, sem alardes. A dinâmica da faixa cresce de forma orgânica — começa íntima, amplia-se no refrão e recolhe no verso seguinte — e isso confere à canção um fluxo narrativo que parece contar uma história em poucos minutos. Certamente, um dos pontos máximos da carreira dos Paralamas e, dentre a coleção de hits matadores, certamente é pódio. Nosso quarto lugar, portanto, é um divisor de águas na discografia dos Paralamas — um álbum que amplia as fronteiras do rock nacional e ajuda a definir uma nova identidade para a banda. O risco que eles tomaram aqui, combinando sofisticação musical (“Fingido”, “Dois Elefantes”, “O Fundo do Coração”) e apelo popular (nas faixas “Bundalelê”, “Sanfona”, “Um a Um”, clássico nordestino de Edgard Ferreira) foi recompensado com uma obra que resiste ao tempo e continua a surpreender e encantar fãs e críticos. Se você, caro leitor, não possui nenhum disco dos Paralamas, Bora-Bora é o must have em qualquer boa discoteca. 


3º. Hey Na Na [1998]

Chegar a 1998 com mais de 15 anos de carreira, e sem jamais ter lançado um disco ruim, já era um feito (a banda já contava oito lançamentos), mas os Paralamas não se contentaram com a regularidade: com Hey Na Na, eles entregaram um álbum vibrante, versátil e cheio de fôlego novo — daqueles que soam tão inspirados que fazem o ouvinte pensar que está diante de uma banda no auge da juventude. Produzido por Chico Neves (que vinha se destacando por seu trabalho com artistas de linguagem moderna e experimental), o disco é uma prova de que é possível uma banda atualizar o seu som sem perder a identidade. O hit matador “Ela Disse Adeus” já mostra o tom: uma balada comovente, de melodia irresistível e letra que traduz como poucas a dor do abandono (“Ela disse adeus, e chorou / Já sem nenhum sinal de amor / Ela se vestiu, e se olhou / Sem luxo, mas se perfumou / Lágrimas por ninguém / Só porque, é triste o fim / Outro amor se acabou”). É daquelas canções que nascem clássicas, e que continuam emocionando em qualquer show. Há também a belíssima “O Amor Não Sabe Esperar” (com participações luxuosas de Marisa Monte e Dado Villa-Lobos), que amplia a paleta sonora do trio, trazendo delicadeza e refinamento pop sem jamais soar forçada. O álbum também carrega um contexto importante: foi o último de inéditas lançado antes do acidente de ultraleve de Herbert Vianna, em 2001. Ouvi-lo hoje, sabendo do que viria a seguir, dá um sabor agridoce — como se Hey Na Na fosse um brinde à vitalidade plena da banda, pouco antes de um período de provação e reinvenção. Quero destacar novamente a produção de Chico Neves e afirmar que ela merece menção especial: os arranjos são detalhistas, mas não engessados; há espaço para que a bateria de Barone respire, o baixo de Bi pulse com liberdade, e a guitarra de Herbert, ora limpa e cristalina, ora suja e distorcida, dialogue com os metais e teclados sem atropelos. Com um repertório sem pontos fracos, Hey Na Na mostra os Paralamas com uma segurança rara, dominando todos os terrenos que se propõem a explorar. É um disco que equilibra emoção e energia, maturidade e frescor, e que, em muitos momentos, parece feito sob medida para provar que o trio ainda sabia surpreender — e muito, basta ver “O Trem da Juventude”, canção que tem um arranjo difícil, que não a torna nem uma balada e nem um rock, deixando-a instigante e deliciosa. Só Herbert Vianna e seus parceiros para nos proporem uma levada em que se encaixem tão naturalmente versos como (quero ver você cantá-los sem enrolar a língua e no ritmo quebrado da música): “Minha alma é lavada, desencardida / E quem destratou a sua vida foi você / Desamarrada, desimpedida, desarmada / Voa livre pelo mundo até escurecer // Quando faz frio perto do mar / Quando não há nuvens no céu / Quando sopra o vento terral de manhã / Vale a pena acordar pra ver // Sempre atrasada, sempre iludida / De que vai voltar a vida que você deixou / O tempo, os homens / As marcas de noites e dias mal vividos / Nada disso te perdoou // Rede de surfistas no mar / Ligados por computador / Novas maravilhas pra se admirar / Não me venha com a velha dor // O trem da juventude é veloz / Quando foi olhar já passou / Os trilhos do destino cruzando entre nós / Pela vida, trazendo o novo”. E para você que é fã da banda e que, provavelmente, o colocaria atrás de Bora-Bora (1988), sugiro uma audição atenta de canções que costumam não chamar tanta atenção nesse discaço que me orgulho de poder colocar no pódio: a madura e delicada “Santorini Blues”, que fecha o disco e indica o quão versátil era Herbert Vianna aos 37 anos, compondo como alguém que já tivesse uma vida inteira de produções artísticas, pois aqui ele troca, como poucos, a urgência pelo contemplativo: imagens de viagem, mares azuis e um lirismo solar que faz o álbum pousar em um lugar idílico com doçura — prova de que, quando querem, os Paralamas também são mestres do detalhe; ouça também “Viernes 3 AM” e perceba, novamente, como esse sujeito era bom de composição nessa música extremamente angustiada e dolorida, nessa releitura respeitosa de Charly García que Herbert canta com sobriedade e um travo de madrugada portenha; e, por fim, a música mais bonita da banda: “Brasília 5:31” (com “Here Comes the Sun” dos Beatles de música incidental como um raio atravessando o céu de concreto daqui da capital, além da guitarra certeira de Dado Villa-Lobos), canção que muita, mas muita gente que viveu e vive na estrada, em turnês e shows, adoraria ter composto… Com 15 anos de sucesso ininterrupto, Herbert Vianna soube refletir lindissimamente em seus versos e música o outro lado da fama. 3º lugar merecido na classificação para essa coleção de grandes canções, até porque os dois álbuns seguintes são de outro planeta. 


2º. O Passo do Lui [1984]

Embora o disco de estreia Cinema Mudo (1983) tenha apresentado ao Brasil aquele trio irreverente que misturava ska, reggae e rock com sotaque carioca e energia juvenil brasiliense, foi em O Passo do Lui que os Paralamas realmente encontraram a sua voz — e que voz! Gravado no início da explosão dessa nova safra do rock brasileiro (basta lembrar que, no mesmo ano, tivemos as estreias de Kid Abelha, Barão Vermelho e Titãs), com produção de Marcelo Sussekind guitarrista do Herva Doce, e aqui muito mais inspirado do que no trabalho anterior, já que trouxe a mudança de sonoridade desejada pela banda desde o primeiro disco, com a bateria e o baixo mais presentes, o álbum é uma sucessão de canções que, quatro décadas depois, continuam onipresentes nas boas rádios do ramo, nos shows e na memória afetiva de pelo menos duas gerações, composições que marcariam a banda e o rock brasileiro É impossível falar desse disco sem mencionar o seu repertório matador de hits emblemáticos. Quem me acompanha aqui na Consultoria sabe que tenho minhas idiossincrasias e uma delas é a de que uma banda se torna grande quando passa a ter um hino, e o dos Paralamas é “Óculos”, música que abre o disco. Hoje em dia uma música pop começar com quarenta e poucos segundos de introdução instrumental seria inimaginável, como acontece em “Óculos”, mas são justamente esses segundos que explicam o salto que o Paralamas deu. Bi e Barone estavam ali entrosadíssimos, bem captados, baixo e bateria pulsantes na cara do ouvinte, chacoalhando-o por inteiro e, ao mesmo tempo, ao fundo, algo diferente, um ingrediente especial que, aos poucos ia se fazendo notar: o talento de Herbert Vianna como guitarrista, seja compondo riffs espertos, solando ou criando ambiências. A batucada que marca a introdução de “Óculos” já mostra o quanto de evolução o álbum propõe. Teclados jamaicanos marotos servem de camada para uma performance extraordinária de Barone na bateria, deixando sua principal referência na época, Stewart Copeland, do The Police, em maus lençóis para igualá-la. A canção dá o tom para todo o restante do álbum. Sem dar descanso, vem em seguida “Meu Erro”, provavelmente a música mais emblemática da carreira da banda, tão irresistível quanto “Óculos” e com uma letra improvável para um sucesso tão animado: “E o meu erro foi crer / Que estar ao seu lado bastaria”. “Fui Eu” vem na sequência, apresentando ao mundo o que é uma balada roqueira brasileira com pegada de ska e mais uma letra bem sacada de Herbert Vianna. Com três faixas, o álbum já mostrava que estávamos diante de três monstros em seus instrumentos. “Romance Ideal”, com um dos solos mais lindos de Herbert Vianna, delicado e certeiro, já apontava para o futuro de Herbert como compositor de baladas perfeitas. “Ska” (impossível não se levantar para dançar já a partir do saxofone inicial de Léo Gandelman) botou o Brasil inteiro no passo do Lui! E a letra, com sua agressividade ensolarada? “A vida não é filme, você não entendeu / Ninguém foi ao seu quarto quando escureceu / Saber o que passava no seu coração / Se o que você fazia era certo ou não / E a mocinha se perdeu olhando o Sol se por / Que final romântico, morrer de amor / Relembrando na janela tudo que viveu / Fingindo não ver os erros que cometeu // E assim / Tanto faz / Se o herói não aparecer / E daí / Nada mais // A vida não é filme, você não entendeu / De todos os seus sonhos não restou nenhum / Ninguém foi ao seu quarto quando escureceu / E só você não viu, não era filme algum”. Esse era o lado A. Acha que o lado B dava descanso? “Mensagem de Amor”, com sua pura poesia pop, com um refrão que é daqueles que grudam na alma e uma das melhores guitarras de Herbert e “Me Liga”, rock simples e direto, impossível de ouvir parado sem querer dançar coladinho, mantinham o alto nível do álbum. Aliás, sobre “dançar coladinho”: se você tem menos de 40 anos, não tem como entender o que eram esses tempos pré-internet, pré-computador, pré-locadoras, pré-CD’s, pré-TV a Cabo: o Brasil da TV aberta e das rádios. Nas festinhas, levávamos nossos LP’s e era assim que a festa rolava, com o álbum dos Paralamas tocando sem que pulássemos nenhuma música. Afora isso, todas elas figuram entre as melhores composições dos anos 80 no Brasil, e juntas já seriam suficientes para colocar O Passo do Lui no topo de qualquer lista. Há 40 anos atrás, todo dia, a todo instante, tocava Paralamas na rádio e na TV. Mas o disco vai além dos hits óbvios. “Assaltaram a Gramática”, parceria com Lulu Santos e Arnaldo Antunes, é um exercício de lirismo e inventividade, brincando com as palavras de forma quase tropicalista. “Menino e Menina” tem uma ternura rara no reggae leve e animado, e até mesmo a quase sempre esquecida instrumental “O Passo do Lui” (que dá nome ao álbum e homenageia o percussionista argentino Lui, figura queridíssima no círculo da banda daqui de Brasília) tem uma energia contagiante. O Passo do Lui é o momento Beatles da banda, daqueles álbuns raros em que praticamente todas as faixas são candidatas a clássicos. É a síntese de um momento em que o rock brasileiro ainda soava fresco, divertido e cheio de possibilidades, e no qual os Paralamas, aos 20 e poucos anos (Herbert Vianna e Bi Ribeiro tinham tinha 23 e João Barone, 22), já estavam prontos para voos muito mais altos. Se ele não ficou em primeiro lugar neste ranking, é apenas porque Selvagem? (1986), o álbum seguinte na discografia da banda, é ainda mais completo e histórico. Mas, em termos de impacto cultural e de resistência no tempo, este disco está no mesmo patamar — e, para muitos fãs, será sempre o melhor. O legado de O Passo do Lui é o de um disco com tanto frescor, tão certeiro e redondo, que é difícil não querer ouvi-lo de novo e de novo, assim como é difícil recusar mais um copo de água geladinha em um dia de calor. 


1º. Selvagem? [1986]

Se existe um disco que sintetiza o espírito criativo, político e musical dos Paralamas do Sucesso, esse disco é Selvagem?. E não é apenas pelo repertório excelente, ou pela produção de primeira linha (assumida por Liminha, no auge de sua genialidade), mas porque ele é, ao mesmo tempo, um retrato fiel do Brasil dos anos 80 e um manifesto artístico de uma banda no seu ápice de energia e inspiração. Gravado entre o final de 1985 e o início de 1986, Selvagem? é a obra que colocou Herbert, Bi e Barone no patamar de gigantes — não mais como “a banda divertida do ska brasileiro”, mas como músicos de peso, capazes de misturar reggae, rock, funk, música latina e crítica social em um mesmo caldeirão sonoro. É aqui que estão “Alagados”, “A Novidade” e “Selvagem” — três das maiores canções já compostas no país. Xeque-mate. São três aulas de como compor grandes canções e que qualquer aspirante a músico deveria estudar. “Alagados” é, com seus cinco minutos e dois segundos, um hino urbano dos nossos muitos Brasis, obra-prima composta por Hebert, Bi e Barone, com um refrão que qualquer brasileiro sabe de cor (“Alagados, Trenchtown, Favela da Maré / A esperança não vem do mar / Nem das antenas de TV / A arte de viver da fé / Só não se sabe fé em quê / A arte de viver da fé / Só não se sabe fé em quê”) e uma letra que costura realidades distantes e iguais, do subúrbio carioca à Jamaica. A guitarra de Herbert Vianna nessa música é, sozinha, uma obra de arte, possui os genes de Mestre Vieira e a harmonia típica da guitarrada paraense. Já “A Novidade” é outra obra-prima dentre o que de melhor já foi composto em nossas terras, melódica e poética, dessas que só poderiam mesmo nascer de um telefonema entre Gil e Herbert, (assista nesse vídeo como ela foi feita). O tema da desigualdade, tão caro à Gil, surge num rompante, como ele mesmo conta em seu livro Todas as letras, lançado em 2022, com organização de Carlos Rennó e textos de Arnaldo Antunes e José Miguel Wisnik, após Herbert ter lhe mandado, via Sedex, a gravação instrumental da música num K7, que Gil retirou no correio: “Fui pro hotel e botei a fita no gravador. Depois de umas quatro passadas, saí anotando. Eram mais ou menos duas da tarde. Às três horas eu estava ligando pro estúdio já para passar a letra. Foi uma coisa assim: bum! A letra veio como um tiro certeiro, absolutamente de chofre, inteira. E de um modo surpreendente até pra mim, porque, mesmo sem tempo pra qualquer avaliação crítica no dia seguinte, resultou no que eu acho um dos meus melhores textos — pela escolha e pela maneira de tratar o assunto, pela concisão e pela elegância da construção.”. Gil conta também que a inspiração para a escrita da letra veio de um estímulo visual e outro sonoro: “O quarto do hotel dava para o mar, e eu estava escrevendo na mesinha de frente para a janela, com a visão do mar ao fundo. Daí a ideia da sereia que vinha dar à praia. Algumas sílabas no início do cantarolar do Herbert na fita me insinuaram algo que soava como a palavra ‘novidade’, e eu aproveitei essa sugestão sonora. O restante veio por acaso mesmo.”. E completa: “O tema da desigualdade sempre fez parte do modo de inserção da minha geração na discussão dos problemas da sociedade; do nosso desejo de expressá-los. Universitário por excelência, o tema é, portanto, anterior e recorrente em meu trabalho. Está em Roda, em Procissão, em Barracos. Agora, em ‘A Novidade’, a imagem da sereia é que dá a partida para o tratamento da questão; a novidade é essa. Pode-se imediatamente pensar no Brasil, mas é sobre o Terceiro Mundo em geral; mais: sobre todo o ‘mundo tão desigual’, mesmo, de que fala o refrão.”. A sereia, aqui, é usada como metáfora para a desigualdade social, porque é metade peixe (“Um grande rabo de baleia”) – desejada para quem necessita matar a fome – e metade humana (“O busto de uma deusa maia”) – que é contemplada/adorada por quem não precisa matar a fome: Ou seja, um “paradoxo estendido na areia: alguns a desejar seus beijos de deusa, outros a desejar seu rabo pra ceia”. No documentário que celebra os 30 anos dos Paralamas do Sucesso, os integrantes da banda contam que estavam no estúdio quando receberam a letra de Gil e que Herbert — ao telefone com o baiano — disse que começou a chorar muito e que entrou instantaneamente no que chamou de uma “CTI emocional”. O clipe da canção foi gravado em 16 viagens da barca que fazia a travessia Rio-Niterói, mostrando cenas de super lotação, de revolta e do cotidiano do trabalhador brasileiro. Já “Selvagem”, de Herbert e Bi, é uma pedrada que carrega o DNA do reggae e a fúria do rock, seja na guitarra, seja na letra cantada com fúria e atrevimento. Obra-prima de versos cortantes, “Selvagem” continua, décadas depois, assustadoramente atual. A repressão policial contra manifestações democráticas, o discurso endurecido em nome da “lei e da ordem”, governos que, em vez de oferecerem soluções, fabricam novas crises; os “meninos nos sinais, mendigos pelos cantos” — agora ainda mais numerosos numa paisagem urbana corroída por crises econômicas sucessivas — e os negros, cansados de apanhar, carregando na pele e na memória o peso de séculos. A canção, curta e circular, genialmente estrutura-se numa espiral que se repete em quatro ondas — a polícia, o governo, a cidade, os negros —, como se desse voltas num mesmo labirinto. Talvez seja esse o retrato mais fiel do Brasil: um país que gira sobre suas próprias feridas, incapaz de cicatrizá-las. Ou, quem sabe, o canto inquieto de um lugar que nunca deixou de ser, no fundo, selvagem: “A polícia apresenta suas armas / Escudos transparentes, cassetetes / Capacetes reluzentes / E a determinação de manter tudo / Em seu lugar // O governo apresenta suas armas / Discurso reticente, novidade inconsistente / E a liberdade cai por terra / Aos pés de um filme de Godard // A cidade apresenta suas armas / Meninos nos sinais, mendigos pelos cantos / E o espanto está nos olhos de quem vê / O grande monstro a se criar // Os negros apresentam suas armas / As costas marcadas, as mãos calejadas / E a esperteza que só tem quem tá / Cansado de apanhar” O que temos, assim, com essas três joias, são três dos hits mais matadores de nosso cancioneiro nacional. A sonoridade do disco é cristalina e quente ao mesmo tempo: a bateria de Barone pulsa com autoridade, o baixo de Bi Ribeiro é um dos mais criativos da música brasileira (ouça “Alagados” isolando o baixo e entenderá), e Herbert Vianna está em um momento de pura inspiração — tocando, cantando e compondo como quem sabe que está fazendo (e vivendo a) história. No aspecto lírico, Selvagem? dialoga com um Brasil em transição: fim da ditadura, abertura política, desigualdade social, (des)esperança e frustração misturados. É um álbum que poderia ser estudado como documento histórico e, ainda assim, funcionar como trilha sonora de qualquer verão. Passados quase 40 anos de seu lançamento, ele continua fresco, atual, dançante e potente. Colocá-lo em primeiro lugar não foi tarefa difícil: entre tantas obras-primas da discografia dos Paralamas, esta é a que melhor equilibra genialidade artística, impacto cultural e qualidade musical.

Do Pior Ao Melhor: The Who

 

Do Pior Ao Melhor: The Who

Como bem disse o MC do festival da ilha de Wight em 1970, é hora da “little band from Shepherds Bush… The ‘Oo”. Uma das maiores bandas de rock de todos os tempos tem uma discografia de estúdio bastante restrita, com apenas dez álbuns de estúdio e um ao vivo lançados entre 1965 e 1982, com mais dois lançados no século XXI. A esses álbuns somam-se uma coletânea de músicas inéditas e três trilhas sonoras. Motivos? Nunca encontrei uma explicação, mas sempre especulei que isso tem a ver com o fato de que o grupo sempre confiou na habilidade de compositor de Pete Townshend. É verdade que John Entwistle corria por fora e sempre emplacava algumas músicas nos álbuns da banda, mas Keith Moon e Roger Daltrey nunca foram compositores, fazendo com que The Who dependesse da inspiração do guitarrista para ter o que gravar. 

Mesmo no que tange a compactos, The Who nunca foi tão produtivo quanto The Beatles e Rolling Stones nos anos 60 – ainda que tenha emplacado uma série impressionante de singles que não encontraram abrigo em LPs no começo dos anos 70. Isso faz com que um fã da banda interessado em construir uma boa coleção tenha que ter não só os melhores LPs de estúdio originais, mas também uma ou duas boas coletâneas para ter acesso a músicas de excelente qualidade. E claro, também não se pode esquecer que um dos melhores discos ao vivo de todos os tempos, Live at Leeds, é obrigatório. Após a morte de Keith Moon, The Who tentou levar as coisas adiante – e embora o substituto Kenny Jones fosse tecnicamente muito bom, faltava-lhe uma característica importante para o som da banda: a imprevisibilidade. De todo modo, o grupo sobreviveu por apenas quatro anos sem seu baterista original.

No final dos anos 80, a banda voltou à estrada e ainda gravou duas músicas novas para um disco-solo de Townshend, The Iron Man. Somente depois da morte de John Entwistle a banda voltaria a gravar um disco de estúdio, já no século XXI – e depois lançaria mais um. Algumas coletâneas trariam uma ou duas músicas inéditas cada uma. Nesse meio tempo, vários álbuns e vídeos ao vivo seriam lançados oficialmente pela banda. Este Do Pior ao Melhor, como de praxe, irá se concentrar nos discos originais do The Who, deixando de lado as coletâneas, os discos ao vivo e as trilhas sonoras para Tommy, Quadrophenia e The Kids Are Alright

Mas antes de tratar dos originais, algumas recomendações de coletâneas: Meaty, Beaty, Big and Bouncy ainda é a melhor opção. The Story of The Who, de 1976, também é muito boa, mas não é fácil de achar porque nunca saiu em CD. The Who Hits 50!, mais abrangente, pode ser mais interessante para um panorama geral do grupo, e The Essential The Who, em CD triplo, é a mais completa e mais recente. Claro, se der para investir numa box set, Thirty Years of Maximum Rhythm & Blues, de 1994, ainda é o que há de melhor. A coletânea de raridades e inéditas Odds and Sods é interessante e vale a pena para quem coleciona a banda. Quanto aos álbuns ao vivo, Live at Leeds é essencial; se alguém estiver curioso para ver como Kenny Jones soava ao vivo, The Who Live at Shea Stadium 1982 é uma opção muito mais interessante do que Who’s Last. Dentre os gravados após o retorno, Live at Hyde Park é uma boa escolha. Isso posto, vamos ao que interessa!


12. It’s Hard [1982]

Indubitavelmente, o disco mais fraco do The Who antes de sua primeira dissolução deve esse status nada invejável ao desinteresse de Pete Townshend pela banda naquela época. It’s Hard deixou uma música muito tocada nos shows da banda, sobretudo em suas reuniões, que é “Eminence Front”, mas, sinceramente, não vejo muito o que justifique. O disco abre com a insossa “Athena”, e dá uma leve melhorada com “It’s Your Turn”, de John, mas cantada por Roger. “Cooks County” só se destaca pelo vocal raivoso de Roger. A faixa-título é razoável, mas no contexto do disco soa quase como obra-prima. Outra contribuição de John Entwistle, “Dangerous”, soa acima da média do disco, e finalmente traz o baixista com o destaque que merece, ainda que mais uma vez Roger tenha assumido o vocal. “I’ve Known No War” é interessante e um destaque do álbum, com teclados bem integrados ao arranjo. “One Life’s Enough” é uma curta balada de Pete, que passa rápido demais para chamar a atenção; “One at a Time” é a terceira música de John, mas a única que ele fez o vocal principal (e encheu o arranjo de metais) – ele fez coisa bem melhor, mas a música não é ruim. Pete baseou o arranjo de “Why Did I Fall for That” nas guitarras, mas a música carece de atrativos e o refrão parece ter palavras demais. E “A Man is a Man” é uma música que Pete parecia gostar bastante, pois foi tocada em shows do retorno e em turnês solo do guitarrista, mas também não chega a chamar a atenção. O melhor ficou para o final: “Cry If You Want”, com uma bateria pesada de Kenny Jones conduzindo-a num ritmo meio marcial, é o último suspiro de uma banda que foi grande. Após a turnê desse álbum, saíram várias coletâneas e o anêmico duplo ao vivo Who’s Last (1984), para cumprir contrato. 


11. Endless Wire [2006]

O The Who passara 24 anos sem entrar no estúdio, e quando o fez, John Entwistle já não estava entre nós. Se os dois discos com Kenny Jones eram marcados pela falta de Keith Moon, este álbum prova que The Ox era essencial para o som do grupo. Boa parte das músicas foi gravada apenas por Pete (tocando quase tudo sozinho) e Roger, mas cada um gravou separado do outro. Embora o The Who estivesse excursionando há tempos com Palladino no baixo e Starkey na bateria, ambos participam de apenas uma música cada um. Endless Wire não chega a ser um disco ruim, mas não se compara com o que a banda fez de melhor. O álbum é composto por nove músicas independentes e dez que se interligam para criar uma “mini-ópera” (“Wire & Glass”), com duas extended versions para  músicas que fazem parte da mini-ópera. como bônus. “Fragments” inicia (bem) o álbum, com teclados que remetem a “Who’s Next”, mas a acústica “Man in a Purple Dress” não acrescenta muito. Já “Mike Post Theme” e “Black Widow Theme” são puro The Who, ainda que Moon e Entwistle façam uma falta e tanto; ambas estão entre as melhores músicas do álbum na minha opinião. “In the Ether” é pouco atraente e ainda é prejudicada por vocal ruim de Pete; o que o levou a cantar a música me é um mistério, pois mesmo envelhecida a voz de Roger é melhor, ainda que duvide que o vocalista fosse salvar a música da mesmice. “Two Thousand Years” teria sido melhor se o arranjo incluísse bateria; o que a salva é a guitarra elétrica no terço final. Se “God Speaks of Marty Robbins” (que eu só conhecia por ser autor de “El Paso”, música que o Grateful Dead tocou até a exaustão nos seus shows) não se destaca, “It’s Not Enough” é uma música como se espera do The Who, com peso na medida certa, o contraponto entre os backing vocals de Pete e o lead de Roger, e uma base segura. A curtinha “You Stand by Me” traz Pete novamente no vocal principal, mas aqui ele se saiu melhor. Quanto a “Wire and Glass”, a maioria das músicas que a compõem mal alcança dois minutos (com exceção de “Mirror Door” e “Tea & Theatre”), mas no todo funciona bem. Quando comprei Endless Wire, a emoção de ter um álbum novo do The Who fez-me gostar bastante dele. Posteriormente, o tempo mostrou que não era tudo isso. Dezoito anos atrás, este álbum estaria mais alto na lista. 


10. WHO [2019]

Quando ninguém esperava nada de novo da banda, eis que Townshend e Daltrey engatilharam este disco nostálgico, cuja capa remete a muitos ícones de seu passado. E, embora Townshend tenha mais uma vez gravado a maior parte dos instrumentos, dessa vez há vários músicos participando, dentre eles Pino Palladino, Starkey e o irmão caçula de Pete, Simon Townshend. Quando “All This Music Must Fade” começa, o ouvinte pede que ela não desapareça, pois é a melhor abertura de um álbum do grupo desde Who’s Next! “Ball and Chain” mantém o astral, outra boa música que traz um emocionante gostinho do velho Who, baseada em “Guantanamo”, que Pete gravou a solo inicialmente. “I Don’t Wanna Get Wise” soa como Townshend assumindo que envelheceu, e mantém o disco em bom nível. “Detour” moderniza a Bo Diddley beat e, mesmo inferior às três anteriores, não  compromete. Mas a partir daí as coisas se complicam, como se a banda tivesse perdido energia; “Beads on One String”, “Hero Ground Zero” e “Break the News” (composta por Simon) são músicas mais lentas, o que não seria problema se as melodias fossem cativantes. “Street Song” coloca um pouco mais de peso, mas não é muito interessante. “I’ll be Back” traz Pete cantando e tocando harmônica numa baladinha simpática; se em Endless Wire seu vocal comprometia as músicas que ele interpretou, aqui é um ponto alto da música. “Rockin’ in Rage” é boa, mas falta-lhe um pouco de rage. O álbum regular se encerra com “She Rocked my World”, que também não se destaca e, para piorar, o vocal de Roger está bem diferente do usual, e não para melhor – é uma pena, porque seu desempenho é muito bom ao longo de todo o disco. A maioria das edições traz três bônus, todos cantados por Pete: “This Gun Will Misfire”, “Got Nothing to Prove” e “Danny and my Ponies”. A primeira é mais rocker que a maior parte do disco. “Got Nothing to Prove” tem um arranjo orquestrado e soa bem sessentista, parecendo um pouco com os experimentos de The Who Sell Out. Essas duas poderiam ter entrado no álbum regular sem problemas, mas a última é bem fraca e encerra mal um disco razoável levado por uma dupla de veteranos sem nada a provar – mas ainda dispostos a mostrar porque continuam por aí. 

9. Face Dances [1981]

Melhor do que muita gente está disposta a admitir, ainda que abaixo do que a banda vinha fazendo até então. O primeiro álbum de estúdio com Kenny Jones na bateria foi lançado cerca de três anos depois de Who Are You, e abre com um clássico tardio, “You Better You Bet”, uma boa música que traz uma harmonização perfeita entre os três vocalistas principais e chama a atenção pelo arranjo baseado nos teclados (que, de acordo com os créditos, foram tocados no álbum por Townshend e pelo convidado John “Rabbit” Bundrick). “Don’t Let Go the Coat” e “Cache Cache” não são tão boas, mas também não comprometem; a bateria indomável de Moon teria lhes dado uma nova dimensão. Mas na sequência tem-se John Entwistle arrasando com “The Quiet One”, apesar de seu vocal estar muito ruim nessa época, e aqui Kenny Jones mostra porque foi escolhido. O primeiro tropeço é “Did You Steal my Money”, com um backing vocal sussurrado repetitivo e meio irritante; gostaria de ouvir uma rough mix sem isso. “How Can You Do it Alone” não melhora muito, embora tenha um bom refrão, bem próprio do estilo da banda; falta peso nas guitarras e Entwistle está desaparecido na mixagem, tornando-a pouco representativa. Em seguida, a pior música do disco, “Daily Records”, que parece uma tentativa fracassada de voltar à alegre “Squeeze Box”, de “The Who By Numbers”. “You”, de John, é bem melhor, com uma dose saudável de peso no arranjo. “Another Tricky Day” encerra bem o LP, ainda que mais uma vez se sinta falta de um pouco mais de peso e distorção na guitarra de Townshend. No todo, não chega a ser um disco ruim, mas a banda era capaz de fazer melhor – e ela o tinha feito.


8. A Quick One [1966]

O segundo LP do The Who é uma colcha de retalhos: parte remete ao que a banda fez no primeiro disco, parte antecipa o que seria feito no seguinte. O álbum deveria trazer três composições de cada membro da banda, mas isso gerou um problema – nem Daltrey nem Moon poderiam ser considerados compositores, e Entwistle estava começando a se aventurar nesse mundo – se “Boris the Spider” virou um clássico, “Whiskey Man” (em que ele toca trompa) ficou esquecida; Moon saiu-se com a fraquinha “I Need You” (com uma bateria matadora, entretanto) e a bizarra “Cobwebs and Strange”, instrumental baseada na sua linha de bateria e que traz o Who soando como uma banda do Exército da Salvação completamente de porre, com Roger no trombone, Moon na tuba, John na trompa e trompete e Pete tocando um apito. Daltrey só compôs a esquecível “See My Way”, e a solução foi confiar no bom e velho Pete. E este saiu-se com “Run Run Run” (uma tentativa de repetir “My Generation”) e a baladinha “Don’t Look Away”, que passam longe do que ele fez de melhor, mas também entregou um clássico absoluto, “So Sad About Us”, e a revolucionária “A Quick One While He’s Away”, com seus mais de nove minutos de duração juntando seis fragmentos de composições dele que trazem uma mulher infiel, um marido traído e Ivor, o Maquinista. A banda tocou essa mini-ópera por anos, e provavelmente a melhor versão está registrada no Rock’n’Roll Circus dos Rolling Stones – Mick Jagger ficou envergonhado com a performance dos Stones após ter visto o segmento do The Who. O disco se completa com a cover de “Heat Wave”, bem mais fraca que o original da Motown. A edição em CD de 1996 trouxe várias curiosidades, como o EP Ready Steady Who, com a banda se divertindo com “Barbara Ann” (Moon adorava surf music) e o tema de “Batman”. 


7. The Who by Numbers [1975]

Após seu segundo álbum duplo conceitual, The Who saiu-se com um disco simples e de músicas individuais – tal como Who’s Next após Tommy. Mas os resultados não foram tão bons. Havia problemas por todos os lados: John Entwistle vinha se dedicando a seus discos-solo e chegou a fazer uma turnê com sua banda, Keith Moon estava bebendo cada vez mais e sua saúde estava em declínio – e ao mesmo tempo vinha gravando um disco solo, e Daltrey andava enamorado com o cinema. Pete, por sua vez, também estava abusando do álcool. O disco abre com “Slip Kid”, que disputa com “Squeeze Box” o posto de representante do álbum nas coletâneas posteriores. Entretanto, ainda que boas músicas, nenhuma das duas é páreo para as excelentes “Dreaming from the Waist” (com uma linha de baixo inacreditável de Entwistle) e “However Much I Booze”, que Pete canta com o sentimento de quem enchia a cara para aliviar as pressões – sem sucesso. Outras músicas muito boas deste LP, mas pouco conhecidas, são a bonita “Imagine a Man” (outra que trata das pressões que Townshend sofria), “They Are All in Love” e “Success Story” (única contribuição de John Entwistle ao álbum); por outro lado, “How Many Friends” e “In a Hand or a Face” chamam bem menos a atenção, e “Blue Red and Grey”, com um vocal irritante de Pete, é uma forte candidata a pior música do The Who em toda a década de 70. The Who By Numbers vendeu bem e foi promovido com uma turnê (a última com Keith Moon na bateria) que se estendeu até 1976 (o DVD semioficial Live in Texas ‘76 traz um show excepcional dessa época, e as músicas gravadas em Swansea, disponíveis em diferentes lançamentos e que formam os bônus neste disco, mostram uma banda ainda capaz de tocar fogo num palco). A capa foi desenhada por John, que comentou que recebeu 30 libras pela arte.


6. Who Are You [1978] 

O canto do cisne da formação original mescla composições inesquecíveis com outras que não se destacam muito. Lançado quase três anos depois de The Who By Numbers, Who Are You foi bem-sucedido comercialmente, mas a morte de Keith Moon menos de três semanas depois de seu lançamento impediu que fosse divulgado adequadamente com uma turnê. A faixa-título é um dos clássicos indiscutíveis do grupo e uma das poucas músicas deste álbum a ser regularmente executada ao vivo. “Trick of the Light”, de John, é para mim uma das melhores composições do baixista, tendo sido tocada em algumas turnês do grupo (há uma boa versão dela em Join Together, que documenta a turnê de 1989). Entwistle ainda assinou duas boas músicas, “Had Enough” e “905” (mas somente esta última o traga no vocal principal), e Pete trouxe, além de “Who Are You”, as boas “New Song”, “Sister Disco” e “Music Must Change”, bem como a razoável “Love is Coming Down” e a enjoadinha “Gutar and Pen”. No todo, o último grande disco do The Who, com uma boa performance de todos os envolvidos, especialmente de John (que pela primeira vez é creditado com sintetizadores num disco do grupo) e Roger, mas ainda assim é difícil ouvi-lo e pensar que Keith Moon (que nesse disco soa melhor do que no anterior) sucumbiria aos excessos pouco tempo depois. Após Who Are You a banda lançaria duas trilhas sonoras, para o documentário sobre sua carreira The Kids Are Alright e o filme Quadrophenia, baseado no disco de 1973, este último marcando a estreia de Kenny Jones em algumas músicas novas compostas especialmente para o projeto.


5. My Generation [1965]

Dito de uma forma bem simples: este é o melhor LP de estreia de uma banda inglesa nos anos 60, batendo Stones, Kinks, Beatles, quem você quiser. My Generation é parte material original de Pete, parte covers (duas de James Brown, “I Don’t Mind” e “Please Please Please”, e uma de Bo Diddley, “I’m a Man”), com direito a uma instrumental (“The Ox”) creditada a Townshend, Entwistle, Moon e o pianista Nicky Hopkins. As músicas de Pete reinam soberanas: além da faixa-título, temos “The Kids Are Alright”, “A Legal Matter” (com o guitarrista mandando ver no microfone também), “The Good’s Gone”, “It’s Not True” e “Out in the Street” (com direito a uma abertura semelhante à de “Anyway, Anyhow, Anywhere”) como destaques. Na minha opinião, a única música dispensável seria “La La Lies”, mas ainda assim é um típico pop sessentista, agradável e inconsequente. My Generation, o álbum, já traz alguns dos elementos que farão o sucesso do The Who, como o baixo sensacional de Entwistle e a bateria anárquica de Keith Moon, mas Pete ainda não tinha descoberto os pedais de distorção e Roger não explora a potência da sua voz. Uma box set lançada em 2016 traz 79 músicas em cinco CDs, mas além de haver muita repetição, alguns dos discos são muito mal aproveitados e sobra bastante espaço vazio. Algumas BBC sessions poderiam ter completado a box, mas como isso não foi feito, não adianta reclamar. 


4. The Who Sell Out [1967]

Um dos discos mais criativos dos anos 60, estruturado como se fosse um programa de rádio, com vinhetas funcionando como “comerciais”. Após o jingle da “Radio London”, os metais de John Entwistle introduzem a psicodélica “Armenia City in the Sky”, de Speedy John Keen, um amigo de Pete (que produziria o único LP de sua banda Thunderclap Newman em 1970), e que canta a música com Roger. O jingle para “Heinz Baked Beans”, uma daquelas músicas bizarras de John, vem na sequência, e a bela “Mary Anne with the Shaky Hand” é a segunda música “de verdade” do disco. “Odorono”, outro jingle, traz Pete cantando sobre uma garota cujo crush não ligou para ela no dia seguinte (e desde que eu ouvi tento descobrir o que isso tem a ver com um desodorante). Um clássico de Pete, “Tattoo”, traz dois irmãos discutindo a teoria de que tatuagens fazem alguém ser um homem – a reedição de Live at Leeds traz uma versão absolutamente matadora dessa música. Como se não bastasse, a seguir vem a fantástica “Our Love Was”, com um vocal etéreo de Pete e um belo arranjo vocal. Os jingles para o curso de Charles Atlas e para as cordas Rotosound introduzem a música mais conhecida do disco, “I Can See for Miles”, com uma bateria fantástica de Moon e mais um arranjo vocal impressionante. Pete canta outra balada comovente, “I Can’t Reach You”, precedida por outra vinheta/jingle com Entwistle buscando o fundo do gogó no vocal. A curta “Medac” (de John) traz o protagonista elogiando o creme antiacne que deixou seu rosto como “a baby’s bottom” (e você achou que o Gilberto Gil é quem tinha inventado a expressão). “Relax” é uma boa música que não se destaca tanto neste ótimo LP, ao passo que “Silas Stingy”, de John, falha ao tratar de um sujeito pão-duro; a música traz Daltrey e Townshend dividindo os vocais (uma raridade). Outra balada de Townshend, “Sunrise”, mostra que as ideias que se desenvolveriam em Tommy já frequentavam sua cabeça. Por fim, “Rael” encerrra o disco com suas duas partes – mais uma música que prenuncia “Tommy”. The Who Sell Out também está disponível em uma Super DeLuxe Edition com cinco CDs e dois singles em vinil, e um dos CDs é intitulado The Road to Tommy, explorando a conexão entre os dois discos. 


3. Tommy [1969]

Para muitos, a obra-prima da banda. Não para mim; na minha opinião, eles fizeram músicas mais interessantes nos dois primeiros colocados dessa lista. Não que Tommy seja ruim, os outros é que são melhores na minha opinião. A história de Tommy começa com as ideias que a banda acumulou em The Who Sell Out e evoluiu para a “ópera-rock” que conhecemos. Com 24 faixas, o álbum tem bastante destaques, mas também tem sua dose de encheção de linguiça, se a gente pensar bem; claro que todas as músicas têm seu papel na narrativa, sendo difícil dispensar alguma delas, mas ainda assim músicas como “It’s a Boy”, “Miracle Cure”, “Do You Think It’s Alright?”, “There’s a Doctor”, por exemplo, não contribuem muito. “Pinball Wizard”, “Amazing Journey”, “Acid Queen” e “We’re Not Gonna Take It” podem ser as mais conhecidas, mas “Sally Simpson”, “Sensation”, “I’m Free” e “Christmas” são muito boas e podiam ter um pouco mais de destaque. O álbum fez um sucesso enorme, pagando as dívidas do grupo e rendendo uma boa quantia para todos os envolvidos, mas também lançaria uma sombra sobre Pete: a pressão para repetir Tommy seria intensa e prejudicaria o trabalho do guitarrista-compositor por anos. Em 1972 uma versão orquestrada seria lançada, e em 75 o álbum viraria filme, com direito a uma trilha sonora repleta de convidados e algumas músicas novas; a versão de “Pinball Wizard” com Elton John é melhor do que a original, na minha opinião, e Tina Turner simplesmente arrebenta com “Acid Queen”. Em 1993 surgiria uma nova versão, dessa vez do musical da Broadway. Por fim, em 2019 Daltrey, junto com vários músicos que se apresentam ao vivo com ele e Townshend, lançou uma nova versão orquestral. E a banda tocou a “f***ing opera” (palavras de Moon) na íntegra por anos, voltando a apresentá-la nas suas turnês de reunião, às vezes completa, às vezes só as músicas mais famosas.


2. Quadrophenia [1973]

Quadrophenia é uma obra de arte. O segundo duplo de estúdio, o segundo disco conceitual do grupo, e uma das obras definitivas do rock setentista. Inteiramente composto por Pete Townshend (único álbum do The Who com essa característica), o álbum narra a história de Jimmy, um mod que tinha quatro personalidades distintas vivendo dentro de si (e cada músico do grupo representa uma dessas personalidades). Pete e Roger se encarregam dos vocais principais, com John relegado aos backing vocals e à harmonia com Roger em “Is it in my Head”; “Bell Boy” traz Keith Moon no papel-título, e sua voz é apresentada com destaque nessa música. Quadrophenia é outra narrativa um pouco confusa, mas com músicas riquíssimas, muito bem compostas e arranjadas por Pete, que tocou um sintetizador ARP 2500 e gravou diversos efeitos especiais, e por John, que incluiu vários metais (especialmente em “5:15”, minha música favorita do disco). “The Real Me”, “I’m One”, “The Punk and the Godfather”, “Doctor Jimmy” e “Love Reign O’er Me” são outros destaques num álbum praticamente perfeito, que viraria filme alguns anos depois e seria apresentado na íntegra em algumas turnês. A capa e o livreto, bastante elaborados, custaram à banda mais de 16.000 libras para ficarem prontos. Na turnê de divulgação do álbum original, entre 1973 e 74, a banda teve que se apresentar com tapes pré-gravados, pois Daltrey vetou a ideia de excursionarem com um tecladista convidado; como os tapes nem sempre funcionavam direito, o resultado foi que a qualidade dos shows foi seriamente comprometida. Uma box set intitulada The Director’s Cut trouxe dois CDs com demos de Pete para o projeto, bem como uma seleção de músicas do original remixadas em áudio 5.1. Quadrophenia” é um daqueles discos que têm que estar na sua coleção se você se interessa pelo The Who! 


1. Who’s Next [1971]

Nenhuma surpresa aqui. Who’s Next parece uma coletânea, de tantas músicas fantásticas que inclui. Do início com “Baba O’Riley” ao final com “Won’t Get Fooled Again”, ambas baseadas no recém-descoberto amor de Townshend pelo sintetizador VCS3, Who’s Next fornece uma sequência de nove músicas impecáveis: “Baba O”Riley” é uma homenagem de Pete ao seu guru e uma das músicas mais famosas dos anos 70; a música termina com um solo de violino de Dave Arbus, do grupo East of Eden, que ao vivo era substituído por Roger soprando sua harmônia. “Bargain” é um rock típico da banda, mesclando trechos mais leves com o peso que Moon e Entwistle conseguiam colocar nos seus instrumentos; “Love Ain’t for Keeping” é uma linda balada levada no violão (há uma versão alternativa com Leslie West dando um show na guitarra elétrica), e prepara para a sarcástica “My Wife”, escrita e cantada por John. Na sequência, a bela “The Song is Over”, cujo final puxa “Pure and Easy”, que a banda só lançaria em 1974 na coletânea de inéditas “Odds and Sods”, encerrando o antigo lado A com maestria. As duas músicas mais fracas do disco, “Getting in Tune” e “Going Mobile” (cantada por Pete) abrem o velho lado B – mas o “fraco” aqui é apenas em termos de comparação com as obras-primas que formam o resto do disco. Mas qualquer impressão negativa é dirimida pela maravilhosa “Behind Blue Eyes”, com um desempenho fantástico de Daltrey nos vocais e a alternância entre peso e suavidade que fez o The Who se destacar entre seus concorrentes. Por fim, o mini-épico “Won’t Get Fooled Again”, indispensável nos shows do grupo, traz uma das letras mais conhecidas de Pete numa melodia que gruda na sua cabeça. Who’s Next é um daqueles discos que tem poucos paralelos no rock, uma obra atemporal de uma banda que, se tivesse feito somente ele, já teria seu lugar garantido na história da música. Hoje há uma box com dez CDs contando como o projeto Lifehouse se materializou em Who’s Next, várias raridades e dois shows completos. Indispensável! 

Confinement – Facing Death [2024]

 

Confinement – Facing Death [2024]

O Confinement é uma banda paulista que toca um thrash com influências de death metal que existe há mais de 30 anos, mais especificamente em 1993 fundada por seu líder e incansável guitarrista e vocalista Ary Frühalf. Com algumas demos lançadas nos anos 90 e algumas mudanças de formação, a banda resistiu estes mais de 30 anos e agora finalmente lança seu primeiro disco completo, Facing Death.

É interessante que ao apertar o play, você já sente aquela produção e timbre das guitarras ao estilo metal extremo dos anos 90, o que vejo como algo positivo. Parece que estou encontrando algum disco perdido lá do início dos anos 90 que só viu a luz hoje em dia, sem necessariamente soar datado. A formação consta com Ary Frühalf (vocal, guitarra), Leonardo Souzza (baixo e backing vocals) e vários bateristas que gravaram diferentes faixas (entre eles Marco A. Moura, Leandro Lingoist e Fábio Lucas), além do baixista Maurão que grava uma música.

A primeira música, “Sky” é um instrumental curioso: é como se fosse uma faixa inteira focada nos solos de guitarra de Ary, coisa que normalmente apenas as bandas de prog metal fariam. Óbvio que a sonoridade aqui é thrash, mas é algo tão anti-clichê que eu achei bem interessante para se iniciar um disco. Sem ter produtores externos ou gravadoras ditando regras, Ary e sua trupe fazem o que bem entendem.

“Sequels” inicia com um som de navio e avião, e então inicia os timbres da guitarra que me lembram aquele Metallica dos anos 80 com Ary tendo um vocal que se assemelha muito a Dave Mustaine. Esta canção é bem longa e novamente os solos de guitarra dominam grande parte da canção. Curiosamente, temos momentos acelerados em que Ary passa a usar mais o vocal rasgado. Estas sequências rítmicas diferentes coladas umas nas outras dão uma típica pegada progressiva, embora eu não tenha certeza se esta foi a intenção da banda. Confesso que nunca ouvi algo similar nessa minha vida, o que para mim é algo positivo.

The Stumbling Stone” segue numa linha da faixa anterior, cheia também de ritmos diferentes que se aceleram e diminuem, ligados a solos entre estes meios. Achei bem interessante, só não curti muito uma espécie de backing vocal agudo no início que não acrescenta à canção. “Cut Off All the Reins” faz Ary se focar mais no vocal limpo ao estilo Dave Mustaine e alguns agudos típicos dos metal tradicional dos anos 80. Como a banda não tem um segundo guitarrista, você estranha um pouco os solos de guitarra sem uma segunda por trás mantendo os riffs, só com o baixo e a bateria. Ou seja, Ary faz tudo meio sozinho na música: toca os riffs, os solos e ainda canta. Mas sem usar bases pré-gravadas, o que deixa a sonoridade talvez mais próxima do que seria ao vivo.

O disco tem 9 faixas, das quais ainda destaco “Anguish”, mais veloz e próxima do thrash tradicional ao qual une algumas paradinhas momentos mais melodiosos, embora mantendo a agressividade e a música título “Facing Death”, com um início mais influenciado por aqueles riffs meio sabáticos típicos do Tony Iommi seguido então por um aumento de velocidade típico do Slayer. Não tem jeito, a banda realmente não curte seguir o tradicional! Ou seja, quer uma música com a mesma velocidade do início ao fim? Esqueça neste disco!

Não tem como negar que pelo jeitão da gravação e das composições, o disco soa como o de uma banda de garagem. Mas particularmente eu acho isso legal. Tem trocentas bandas extremas para você curtir que segue a linha mais “tradicional” e esta aqui soa do jeito que eles querem. Totalmente anti-comercial, mas é bem isso que a torna interessante a meu ver.

Eu recomendo ouví-los. Se você não liga para essa produção atual e gosta de algo mais solto, esta banda irá te agradar.

Tracklist

  1. Sky (Instrumental)
  2. Sequels
  3. The Stumbling Stone
  4. Cut Off All Reins
  5. Anguish
  6. Slow Death
  7. Far Beyond the Shadows
  8. Facing Death
  9. The Valley of Living Death


THE BEATLES - STRAWBERRY FIELDS FOREVER - EVER!

 


Os Beatles passaram o último mês de 1966 trabalhando quase unicamente em uma única canção, o nostálgico hino de John Lennon em homenagem a Strawberry Fields, um orfanato do Exercito da Salvação, na esquina do quarteirão onde ele havia crescido. Como era a mais complexa gravaçao dos Beatles até então, eles recorreram ao talento, à engenhosidade e ao arsenal de George Martin para gravar "Strawberry Fields Forever". A música tinha começado como uma simples balada acústica, mas à medida que o arranjo em grupo evoluía, ela assumiu um tom mais grave, de que John, observando as atividades de alguns grupos californianos, particularmente gostava. Os Beatles gravaram 26 tomadas diferentes, de versões em grupo a arranjos orquestrais e tomadas experimentais, e de algum modo, George Martin conseguiu cumprir o objetivo de John de refinar todas elas até obter um clássico complexo, multifacetado e atemporal. O compacto simples foi lançado em 17 de fevereiro de 1967, com "Penny Lane" - outro clássico, do outro lado. Os críticos logo aclamaram as duas músicas, e ao longo dos anos "Strawberry Fields Forever" só fez crescer, alcançando um status lendário. Aos olhos de muitos, é a mais preciosa faixa de vinil de todos os tempos. E quando avaliada em conjunto com o curta-metragem promocional feito no mesmo ano, o impacto é eletrizante. Nunca houve um coniunto de imagens que evocasse uma era de maneira tão concisa.



THE BEATLES - SHINDIG! TV SPECIAL - 1964


Depois dos ensaios no dia anterior, no dia 3 de outubro 1964, os Beatles gravaram sua apresentação para uma edição britânica do programa de TV americano Shindig! no Granville Studio em Londres. Esta apresentação foi assistida por moradores de Londres do fã-Clube dos Beatles. Eles tocaram três músicas ao vivo: "Kansas City / Hey-Hey-Hey-Hey!" , "I'm a Loser" e "Boys". Os Beatles estavam no topo da lista no show que incluia Sandie Shaw, PJ Proby, The Karl Denver Trio, Tommy Quickly, Sounds Incorporated e Lyn Cornell. Além de sua performance, os Beatles também apareceram no final do show com o Karl Denver Trio. A edição britânica do Shindig! foi transmitido pela primeira vez nos EUA pela ABC em 7 de outubro de 1964, mas nunca foi exibido na Grã-Bretanha.


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