segunda-feira, 15 de junho de 2026
Em 15/06/1978: Bob Dylan lança o álbum Street-Legal
Berlin é uma banda americana de new wave e synth-pop, foi formada em Los Angeles, EUA em 1978
Em 15/06/1972: Pink Floyd lança no EUA o álbum Obscured by Clouds
Em 15/06/1982: Kiss lança o álbum Killers
Bob Seger – Night Moves [1976]
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Night Moves é o nono álbum de estúdios do artista norte-americano Bob Seger, lançado oficialmente em 22 de outubro de 1976, através do selo Capitol Records. Em 1974, Seger formou a Silver Bullet Band cujos membros originais eram o guitarrista Drew Abbott, o baterista e vocalista Charlie Allen Martin, o tecladista Rick Manasa, o baixista Chris Campbell e o saxofonista Alto Reed. Com esta nova banda, Seger lançou o álbum Seven (1974), que continha o hit “Get Out of Denver”, o qual foi um sucesso moderado, alcançando a 80ª posição em nível nacional.
Em 1975, Seger lançaria Beautiful Loser. Este álbum marcou o retorno de Seger à Capitol Records após quatro anos.
O álbum contou principalmente com músicos da Muscle Shoals Rhythm Section (uma vez que foi gravado naquele estúdio), mas os membros da Silver Bullet Band foram usados separadamente em algumas músicas e juntos em “Nutbush City Limits”, uma música cover de Ike & Tina Turner. Em abril de 1976, Seger e a Silver Bullet Band lançaram o álbum Live Bullet, gravado em duas noites na Cobo Arena, de Detroit, em setembro de 1975. Ele continha a versão de Seger para “Nutbush City Limits”, bem como a versão clássica de Seger sobre a vida na estrada, “Turn the Page”, lançada originalmente em Back in ’72. O disco também incluía seus lançamentos de sucesso do final dos anos 1960 – “Heavy Music” e “Ramblin’ Gamblin’ Man”.

Um best-seller instantâneo em Detroit, Live Bullet começou a chamar a atenção em outras partes do país, vendendo melhor do que os álbuns anteriores de Seger, obtendo repercussão de rádios voltadas ao rock progressivo e outras estações que tocavam AOR, permitindo que Seger fosse a atração principal de mais shows.
Entretanto, Seger ainda tinha um desequilíbrio de popularidade; em junho de 1976, ele foi um artista de destaque no Pontiac Silverdome, de Detroit, na frente de quase 80 mil fãs, mas uma noite depois tocou para menos de mil pessoas em Chicago. Night Moves é o primeiro álbum de estúdio de Seger a creditar sua banda de apoio, a Silver Bullet Band, embora eles só se apresentem em cinco das nove músicas do álbum; as outras quatro contam com o apoio da Muscle Shoals Rhythm Section. As faixas 1, 2, 3, 4 e 9 foram gravadas pela Silver Bullet Band.
“Rock and Roll Never Forgets” é uma canção roqueira e bem direta, com ótimos vocais de Seger. “Night Moves” é uma linda música, suave e comovente, sendo um clássico de Bob. “The Fire Down Bellow” é mais bluesy, tendo uma guitarra afiada ‘cortando’ toda a faixa. “Sunburst” é mais intimista e mais calma, mas com bela melodia. “Sunspot Baby” é animada e divertida, e também aposta na pegada bluesy. Outra balada simples e eficaz no disco é a bonita “Mainstreet”. “Come to Poppa” é uma versão para a música composta por Earl Randle e Willie Mitchell e traz bastante swing. “Ship of Fools” tem uma pegada country e é uma música mais suave. Uma versão bem animada para “Mary Lou”, de Young Jessie, encerra o disco.

Night Moves foi o álbum que realmente fez Bob Seger fazer sucesso nos Estados Unidos. Musicalmente, ele é uma continuação do já muito bom Beautiful Loser, embora as canções aqui sejam mais caprichadas. O rock ‘n’ roll tradicional de Seger é fundido às suas influências de Country e de Blues, como em “Ship of Fools” e “Sunspot Baby”. Há espaço para baladas como “Mainstreet” e “Night Moves”, esta, uma das melhores composições de Seger. A união com a Silver Bullet Band se mostra mais que acertada em canções como “Rock and Roll Never Forgets” e a excelente “The Fire Down Below”. Night Moves fez bastante sucesso, atingindo a 8ª posição da principal parada norte-americana de álbuns.
Desta maneira, Night Moves foi o primeiro álbum de Seger a ficar entre os dez primeiros na parada de álbuns da Billboard e no futuro acabou tornando-se o disco de estúdio mais vendido de toda a sua carreira. O sucesso de Night Moves também impulsionou as vendas dos lançamentos anteriores de Seger. Beautiful Loser, de 1975, venderia dois milhões de cópias e o álbum de 1976, Live Bullet, venderia seis milhões de cópias nos Estados Unidos. Inclusive, Live Bullet é citado como um dos maiores álbuns ao vivo de todos os tempos. Night Moves ultrapassa a casa de 6 milhões de cópias vendidas apenas nos Estados Unidos.
Faixas:
- Rock and Roll Never Forgets
- Night Moves
- The Fire Down Below
- Sunburst
- Sunspot Baby
- Mainstreet
- Come to Poppa
- Ship of Fools
- Mary Lou
R. E. M. – Green [1988]
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No começo de 1988, o grupo norte-americano R.E.M. trocava a gravadora independente I.R.S. pela “major” Warner Bros., em uma negociação que levou muitos de seus fãs a acusá-los de “vendidos”, devido ao fato de o grupo ter construído sua reputação e sua carreira inteira (que contava, à época, com cinco álbuns de estúdio e um EP) sob as “asas” do selo “menor”, o que os levou a um grande reconhecimento no setor das “college radios” americanas, e os tornou um dos grupos favoritos do chamado “rock alternativo” de então. Mas o quarteto, formado à época por Michael Stipe nos vocais, Peter Buck nas guitarras, Mike Mills no baixo e Bill Berry na bateria, estava frustrado com as cobranças da I.R.S. por vendas cada vez maiores, além de não concordarem com a estratégia de divulgação e distribuição do selo para a banda fora dos EUA. A promessa de total liberdade criativa e de uma distribuição melhor por parte da Warner foi decisiva para que o grupo fechasse um acordo com a nova gravadora (ainda que, financeiramente, a proposta não fosse a mais vantajosa), e assim, em março de 1988, o grupo começou a registrar as demos do que viria a ser o seu sexto disco, novamente produzido por Scott Litt (que já havia trabalhado com o grupo no álbum anterior, Document, de 1987), e que viria a ser lançado em 8 de novembro de 1988, sob o nome Green.
Ainda na fase de demos, segundo o belo texto de Allan Jones (editor da revista Uncut) presente no encarte da edição de vigésimo quinto aniversário do disco (voltaremos a ele mais tarde), Stipe havia pedido a seus colegas que não escrevessem mais canções “típicas” do R.E.M.. Havia por parte dos músicos uma ideia de mudar a sonoridade característica do grupo (descrita, segundo Buck em entrevista da época, como “coisas semi-folk, semi-rock, semi-baladas, compostas em tons menores e enigmáticos”), de evitar repetições, de trilhar novos “caminhos” musicais nas novas composições do quarteto. “Pop Song 89”, a faixa que abre Green, já demonstra esta ideia, pois, ainda que a guitarra de Buck ainda ecoe a fase anterior da banda (em seus timbres e na melodia de seus riffs, especialmente no tema “solo” que se repete ao longo da música), o restante da música traz uma aura “pop” e “mainstream” que poucas vezes havia aparecido no catálogo do grupo até então. “Get Up” e “Stand”, outras duas faixas do álbum (onde destaco os sempre bem colocados e executados backing vocals de Mills – e de Berry também, como podemos conferir nos vídeos do período), também tem esta sonoridade mais “acessível”, tanto que todas foram lançadas como singles, ajudando na divulgação e no reconhecimento do álbum (que foi o primeiro registro do grupo a receber disco de ouro – e depois de Platina – na Inglaterra, além de atingir Platina Dupla nos EUA e no Canadá e Ouro na Nova Zelândia e na Espanha) e a difundir mundialmente o nome do R.E.M., como a banda desejava então.

A busca por novas sonoridades também levou o grupo a experimentar com novos instrumentos, e até com trocas de posição na “escalação” do “time R.E.M.”. Com Berry no baixo, Mills no acordeão e Buck no mandolin (instrumento que o músico ainda estava recém aprendendo a tocar, segundo o texto de Jones), foi registrada a acústica “You Are the Everything”, uma das mais belas baladas da carreira do grupo. O mandolin de Buck também é destaque em “Hairshirt” (também com Berry no baixo, mas com Mills deslocado para o órgão) e “The Wrong Child”, duas faixas que seguem uma linha musical parecida com a de “…Everything”, porém sem, na minha opinião, alcançar os mesmos níveis de excelência (especialmente a segunda, onde o dueto entre Mills e Stipe e alguns tons mais altos alcançados pela voz do segundo sempre me incomodaram um pouco).
“Orange Crush” (primeiro single lançado para divulgar o álbum) e “Turn You Inside-Out” (que conta com o convidado Keith LeBlanc na percussão, e é a música que fez com que eu realmente me apaixonasse pelo R.E.M., junto com “You Are the Everything”, quando as conheci assistindo na televisão ao documentário Tourfilm, como já contei em outro texto para o site) estão dentre as coisas mais “pesadas” já gravadas na carreira da banda, enquanto a sombria “I Remember California” e, principalmente, a bela “World Leader Pretend” (que conta com as participações especiais dos músicos convidados Jane Scarpantoni no cello e Bucky Baxter na Pedal Steel Guitar) são as que mais lembram a fase anterior do grupo (“…Pretend” ainda ficou com o “mérito” de ser a primeira música a ter sua letra publicada no encarte de um disco da banda, algo que não se tornaria assim tão comum nos lançamentos posteriores da carreira do R.E.M.).
Lançado à época em CD, LP e K7 (além de ter uma versão promocional com capa em cores diferentes, mais escuras e sombrias, que vinha em uma caixa coberta por um tecido com o nome da banda e do disco gravados em baixo-relevo, marcando a primeira vez que a gravadora lançava uma “edição especial” para um álbum do R.E.M., algo que viria a se repetir em todos os discos posteriores – menos no último -, como já explicado em uma série de quatro partes aqui no site), Green ainda conta com uma espécie de “faixa escondida”, oficialmente sem título, e que, por isto mesmo, passou a ser conhecida como “Untitled”. Com Buck na bateria e Berry na guitarra, a faixa é, segundo o citado texto de Jones, uma “oração sussurrada por um mundo ferido”, “tão cheia de uma vulnerabilidade maravilhosa que nem precisa de um nome, pois seria perfeita seja como fosse chamada”. Honestamente, não ouço tudo isto em mais uma faixa com acenos ao pop, mas sem se afastar totalmente do alternativo, como as três primeiras faixas citadas, as quais, a meu ver, conseguem resultados auditivos muito melhores do que a faixa de encerramento deste que é um dos meus registros favoritos na carreira do R.E.M..

A excursão para promover Green durou onze meses, e, ainda durante esta tour, o grupo passou a incorporar em suas apresentações as faixas “Low” e “Belong”, que só viriam a ser registradas oficialmente em seu próximo disco de estúdio. As duas aparecem, ainda em versões “embrionárias”, no CD bônus que acompanha a citada edição de vinte e cinco anos lançada em 2013 (há ainda uma outra edição lançada em 2005, que contém como bônus um DVD-áudio com uma mixagem em 5.1 surround e alguns extras, como um documentário e uma galeria de fotos), a qual, além do álbum remasterizado, ainda traz parte de um show feito pelo grupo na cidade de Greensboro, na Carolina do Norte, em 10 de novembro de 1989 (uma foto do set list manuscrito da apresentação presente no encarte deixa claro que algumas músicas interpretadas na ocasião não estão presentes no CD, como, por exemplo, “So. Central Rain” e “Feeling Gravitys Pull”, duas das minhas favoritas na discografia do quarteto). Registros de partes da mesma excursão também aparecem no já citado vídeo Tourfilm, lançado em 1990, cujo áudio foi totalmente retirado do mesmo show em Greensboro presente na edição de aniversário citada acima. Com o final da digressão, o R.E.M. voltaria aos estúdios no meio de 1990, para trabalhar no sucessor de Green, o qual viria a ser Out of Time, o álbum que, finalmente, faria o grupo “estourar” nas paradas do mundo inteiro. Mas isto é assunto para um outro texto.
Track List:
1. Pop Song 89
2. Get Up
3. You Are The Everything
4. Stand
5. World Leader Pretend
6. The Wrong Child
7. Orange Crush
8. Turn You Inside-Out
9. Hairshirt
10. I Remember California
11. Untitled
Blonde On Blonde (Columbia Records, 1966), Bob Dylan
Há discos que soam como um instante de revelação; outros, como o próprio colapso do mundo. No caso de Blonde On Blonde, ele é ambos. Este álbum duplo nasceu do exaustivo ciclo que levou Bob Dylan do trovador de café universitário ao profeta elétrico de arenas — uma ascensão tão vertiginosa que só poderia culminar em vertigem. O Dylan que chegou a esse álbum era um homem de vinte e cinco anos, cercado por câmeras, fãs e anfetaminas, recém-casado com Sara Lowndes e arrastado por uma turnê incessante que já o fazia dormir em pé. Um poeta perseguido pela própria claridade.
Blonde on Blonde era o terceiro capítulo de uma trilogia que começara em 1965 com os álbuns Bringing It All Back Home e Highway 61 Revisited: o ciclo elétrico que redefiniu o rock. Se os dois anteriores soavam como um choque entre poesia e corrente alternada, Blonde On Blonde expandia essa colisão para uma escala sinfônica. O primeiro álbum duplo da história do rock não apenas dobrava o tempo de audição — dobrava também a consciência. Era o som de um artista tentando se ouvir dentro do próprio ruído.
As gravações começaram em Nova Iorque, em janeiro de 1966, nos estúdios da Columbia Records. Dylan tentava capturar algo que ainda não sabia nomear. As primeiras sessões foram frustrantes, densas, erráticas. Entre os músicos, o guitarrista Robbie Robertson (1943–2023), o tecladista Al Kooper e os membros dos Hawks (futura The Band) tentavam seguir um maestro imprevisível, que mudava versos e estruturas no meio da execução. O produtor Bob Johnston (1932–2015) percebeu que a cidade o sufocava e o convenceu a mudar-se para Nashville, onde havia um complexo de estúdios da Columbia — o lendário Quonset Hut Studio, adquirido pela companhia em 1962. A decisão soou como um gesto simbólico: o poeta de Greenwich Village descia ao sul para encontrar o coração do blues, os dedos do country e a precisão dos músicos de estúdio da capital do Tennessee.
Lá, em fevereiro de 1966, tudo se encaixou. Dylan escrevia febrilmente num quarto de hotel enquanto Kooper o acompanhava ao piano e, horas depois, os músicos traduziam suas visões em som. O resultado foi um mosaico sonoro único: guitarras líquidas, órgãos crepitantes, trompetes marchando como se o caos fosse um desfile. O próprio Dylan mais tarde definiria esse som como “um ouro metálico e brilhante, o som fino e selvagem de mercúrio”.
Lançado em 20 de junho de 1966 pela Columbia Records, Blonde on Blonde abre com “Rainy Day Women #12 & 35” e seu ritmo de carnaval demente. Entre risadas e metais dissonantes, Dylan prega a liberdade pelo sarcasmo: “Everybody must get stoned” (“Todo mundo tem que ser apedrejado”). A frase, ambígua, é menos um convite à embriaguez (na gíria da época, “stoned” significava estar “chapado”, “drogado”) e mais uma constatação bíblica — todos serão apedrejados, todos serão julgados. O ritmo de fanfarra soa como um exército de bêbados marchando contra a hipocrisia. É o prenúncio de um disco que alternará ironia e lucidez como quem acende e apaga uma lâmpada.
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| Lado interno da capa dupla de Blonde On Blonde. |
Em “Visions Of Johanna”, o disco muda de estado. A faixa é uma das mais delicadas epifanias já gravadas pelo cantor. É o lamento do artista diante da ausência da musa — um poema sobre o desejo inalcançável, a perfeição sempre um passo adiante. O arranjo é sutil, movendo-se como uma respiração lenta; o órgão de Kooper brilha como uma luz distante. Dylan não canta: sussurra, observa, dissolve-se no próprio pensamento.
Gravada ainda em Nova Iorque, “One Of Us Must Know (Sooner Or Later)” fecha o primeiro lado do disco 1. A canção é uma carta aberta a uma ex-amante, carregada de arrependimento e confissão defensiva. O piano de Paul Griffin (1937–2000) explode em gestos quase gospel, e a voz de Dylan oscila entre ternura e raiva. Há uma beleza desconcertante em sua imperfeição — como se o cantor pedisse desculpas tropeçando nas próprias palavras:
“I didn’t mean to treat you so bad / You shouldn’t take it so personal / I didn’t mean to make you so sad / You just happened to be there, that’s all.”
(“Eu não queria ter te tratado tão mal / Você não deveria levar isso tanto para o lado pessoal / Eu não queria te deixar tão triste / Só aconteceu de você estar lá, isso é tudo.”).
Abrindo o segundo lado, “I Want You” é um respiro de doçura e velocidade. Dylan brinca com o formato pop sem abandonar sua ironia. A canção é simples, mas seu cenário é povoado por personagens saídos de um sonho barroco: rainhas, crianças, agentes funerários. Entre versos quase nonsense, a frase central — “I want you” — soa como o gesto mais humano e direto do disco: o desejo puro, sem culpa, sem filosofia. Em 1993, a banda Skank gravou em seu primeiro e homônimo álbum uma versão em português da canção, em ritmo de reggae, intitulada “Tanto”.
“Stuck Inside Of Mobile With The Memphis Blues Again” é um dos momentos mais labirínticos da obra. Dylan encena o absurdo da vida moderna com humor e desespero. Cada verso é uma vinheta surreal: padres, debutantes, vendedores de relógios, todos presos no mesmo redemoinho. O refrão é um grito cômico e trágico: “Oh, Mama, can this really be the end?” (“Oh, mamãe, será que este é realmente o fim?”). O ritmo, empurrado pela bateria de Kenny Buttrey, transforma o caos em dança.
“Leopard-Skin Pill-Box Hat” é uma sátira do ciúme em forma de Chicago blues. Dylan ri do fetiche e do consumo, mas também ri de si mesmo — o amante que observa a mulher partir com outro, levando o chapéu de pele de leopardo. O solo de Robertson é puro fogo, e a ironia goteja em cada linha. É Dylan, o debochado, transformando ressentimento em ritmo.
O disco 1 termina com um dos ápices emocionais do álbum: a balada folk “Just Like a Woman” traz Dylan reduzindo o mundo a um diálogo entre fragilidade e ternura. A canção, muitas vezes mal interpretada como misógina, é na verdade uma confissão de impotência diante da vulnerabilidade humana. O arranjo é suave, e a interpretação de Dylan carrega a resignação de quem entende que amar é sempre perder um pouco.
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| “I Want You” ganhou uma versão em português gravada pela banda Skank. Incluída no primeiro álbum de estúdio do grupo, lançado em 1993, a canção recebeu o título de “Tanto”. |
O blues volta lento e úmido com “Temporary Like Achilles”. Dylan senta-se diante de um piano barrelhouse e transforma o mito grego em metáfora de fragilidade emocional. O narrador observa o novo amante da mulher amada, “temporário como Aquiles”, e sorri com amargura. A canção soa como fumaça: densa, mas transparente.
Na faixa seguinte, “Absolutely Sweet Marie”, a guitarra salta, a gaita ri. Dylan mistura imagens sexuais e símbolos de liberdade com um refrão irônico: “But to live outside the law, you must be honest” (“Mas pra viver fora da lei, é preciso ser honesto”). É o verso que sintetiza toda a sua filosofia de 1966 — viver fora da norma, mas com autenticidade. O espírito beat encontra o blues em plena combustão.
“4th Time Around” é uma espécie de espelho torto de “Norwegian Wood”, dos Beatles. Bob Dylan responde à ironia de John Lennon (1940–1980) com uma ironia ainda mais cortante. As melodias são semelhantes, mas o tom da canção de Dylan é mais sombrio. Parece um diálogo cifrado entre dois gênios testando seus limites — o momento em que Dylan transforma paródia em arte.
“Obviously 5 Believers” é um blues-rock agitado, direto, sem enigmas. As guitarras deslizam como se estivessem cobertas de poeira e cerveja. É o intervalo terreno entre visões metafísicas. Dylan canta o amor como quem grita da janela de um trem — rápido, urgente, elétrico.
O lado final do disco é inteiro ocupado por “Sad Eyed Lady of the Lowlands”. Ela se estende por mais de onze minutos de devoção e mistério. Dedicada à esposa Sara, é um cântico hipnótico, um rosário de imagens, um rito de entrega. Dylan já não fala ao mundo — fala à eternidade. O tempo se dissolve. O disco termina onde o amor e o delírio se confundem.
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| Bob Dylan, Sara Dylan e Jacob Dylan em 1970. Composta por Dylan, a canção "Sad Eyed Lady of the Lowlands” é dedicada a Sara. |
Blonde On Blonde alcançou o nono lugar na Billboard 200 e o terceiro no Reino Unido. Seus singles — “Rainy Day Women #12 & 35” e “I Want You” — conquistaram as rádios. Em 1967, o álbum já era disco de ouro; décadas depois, seria reconhecido como uma das maiores obras da história do rock. A Rolling Stone o classificaria entre os dez melhores álbuns de todos os tempos, e suas canções “Just Like A Woman” e “Visions Of Johanna” figurariam entre as 500 maiores já escritas.
Mas os números pouco dizem. O que Blonde On Blonde fez foi dissolver as fronteiras entre a canção popular e a literatura. Dylan transformou o rock em prosa poética, em teatro sonoro, em filosofia cantada. Era o auge de uma linguagem nova — onde o blues se tornava metafísica e a poesia urbana encontrava o som rural de Nashville.
No final de julho de 1966, um mês após o lançamento de Blonde On Blonde, Bob Dylan sofreu o misterioso acidente de motocicleta em Woodstock, no estado de Nova York, desaparecendo da vida pública por mais de um ano. O artista teria aproveitado a ocasião para reclusão e para se dedicar mais à família. Blonde On Blonde, portanto, soa como o último grito antes do silêncio — a síntese de uma era que se autodestruiria na mesma velocidade em que se inventava.
Quando retornou, dois anos depois, a voz de Dylan era outra: mais calma, mais terrosa. Blonde On Blonde marca, portanto, o ponto final de sua juventude incendiada — o crepúsculo dourado de um artista que ousou iluminar demais.
Ao lado de Bringing It All Back Home e Highway 61 Revisited, Blonde On Blonde completa uma trilogia de iluminação e desordem. É a síntese do rock como linguagem poética — o momento em que a música popular deixou de ser entretenimento e passou a ser arte moderna. Dylan cruzou a literatura de Rimbaud com o blues do Mississippi, as ruas de Nova Iorque com as estradas de Nashville. O resultado foi um som suspenso entre o profano e o divino.
Faixas
Todas as faixas compostas por Bob Dylan.
Lado 1
1) “Rainy Day Women #12 & 35”
2) “Pledging My Time”
3) “Visions Of Johanna”
4) “One Of Us Must Know (Sooner Or Later)”
Lado 2
1) “I Want You”
2) “Stuck Inside Of Mobile With The Memphis Blues Again”
3) “Leopard-Skin Pill-Box Hat”
4) “Just Like A Woman”
Lado 3
1) “Most Likely You Go Your Way (And I’ll Go Mine)”
2) “Temporary Like Achilles”
3) ‘“Absolutely Sweet Marie”
4) “4th Time Around”
5) “Obviously 5 Believers”
Lado 4
1) “Sad Eyed Lady Of The Lowlands”
Destaque
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