sexta-feira, 17 de julho de 2026
Nesta viagem pelo excelente trabalho da página Movimento Rota Sonora, que está a fazer uma ronda pelas bandas emergentes, distrito a distrito, XX Actos, referentes a 18 Distritos e 2 Arquipélagos
Recordando o álbum ''Suspeito'' do Paulo Gonzo de 1998.
Total Control – Henge Beat (2011)
Lançado em 2011, já lá vão quatro anos, o primeiro disco dos Total Control é um disco de referência. Mas porquê de referência? Bem, isto das críticas, ou melhor, das opiniões, é uma praga. Uma virose de proporções incalculáveis sem remédio à vista! E se na moda as opiniões são frívolas, na música são demasiadas. Não há matéria artística que se preste a opiniões. Isto para não aprofundarmos a presunção do termo arte. Ou se gosta, ou não se gosta. Tão simples… É tudo uma questão de conforto e bem-estar. Nós procuramos o que nos faz sentir mais aptos a conseguir conquistar aquilo que desejamos. Shoegaze hipnótico, sintetizadores que também falam, lamentos obsequiosos, Henge Beat lança chamas! Já não há nada de novo; há aquilo que nos faz entrar em êxtase, e que nos faz entrar em êxtase pela primeira vez quando a ouvimos à terceira vez, ou à primeira…
«The hammer is coming down. To take pills to remember to take pills to forget. These are not the last days».
Henge Beat é um disco de referência. Mas porquê de referência? Porque é um disco completo, fascinante, denso sem se tornar aborrecido num único refrão, num único riff. Para os amantes do punk, do pós-punk e new-wave, este álbum vem reabilitar a sobrevivência de um mito adormecido, desde a morte prematura de Ian Curtis. A escuridão inofensiva, a que não faz mal, aquela que nos faz pensar obsessivamente na morte, no fim, na tragédia do amor intangível e na incapacidade de lidarmos com as nossas frustrações. Depois há também as reminiscências industriais, as pancadas sistemáticas, o legado Cabaret Voltaire embelezado por camadas estéticas menos cruas. Na realidade, os Total Control têm uma identidade muito singular. Ainda que constituídos por vários elementos de outras bandas, este agrupamento específico não se confunde. É puro de sangue.
Então e o que devemos fazer com tudo isto? E quem sou eu para dizer neste epílogo persuasivo que, embora Henge Beat não seja o álbum de todos os tempos, Henge Beat pode ser um álbum para todos os tempos? Eu oiço o que quero e o que faz de mim uma pessoa mais atenta à beleza das emoções.
Mas esta é apenas a minha opinião.
Belle And Sebastian – Girls In Peacetime Want To Dance (2015)
Os Belle and Sebastian estão mudados. Já não são os mesmos. Nem poderiam ser, uma vez que o tempo passa, e nessa passagem tudo se altera, e por vezes até nós próprios temos alguma dificuldade em reconhecer o que fomos anteriormente. Assim, se é natural e humana a mudança, também é natural que tenhamos opiniões valorativas em relação ao antes e ao agora, no que diz respeito ao som de uma qualquer banda. Eu, naturalmente, tenho a minha, e por isso vou dar-me ao trabalhoso prazer de escrever este pequeno texto sobre o último disco dos escoceses Belle and Sebastian, de quem tanto gostei. Na verdade, ainda gosto muito, mas já não é bem a mesma coisa. Ou seja, a mudança que a banda operou neste Girls In Peacetime Want To Dance foi, de alguma forma, substantiva, e o paradigma musical de discos como Tigermilk, If You’re Feeling Sinister, The Boy With The Arab Strap ou o mais recente The Life Pursuit está, atualmente, um pouco alterado. Isso, em si mesmo, é coisa de louvar, mas a verdade é que considero que a banda não ganhou muito com a alteração efetuada.
A aposta num primeiro tema de avanço deste longa duração (a canção «The Party Line») com características bem dançantes, quase a roçar o ambiente disco-sound, não terá sido nada inocente. Mais ritmo e menos intimismo parecem ser a base da receita preferencial do presente momento de Stuart Murdoch e amigos. Ora é exatamente aí que o meu lamento entra. Nada tenho contra o ritmo dançante capaz de contagiar o mais empedernido corpo numa qualquer pista de dança. Nada mesmo. Mas os Belle and Sebastian sempre foram grandes (aos meus ouvidos), sobretudo pela inocência plácida das suas composições mais íntimas, mais melancólicas, mais cheias de alma em estado de pura comoção. Os casos das antigas e deliciosas «We Rule The School», «Fox In The Snow» ou «Mornington Crescent», são bons exemplos do que digo. Os Belle and Sebastian sempre foram grandes (aos meus ouvidos), sobretudo (e também) pelo seu som inovador, sem grandes precedentes, apostando num rock inteligente, arejado e certeiro nas palavras e nos embalos sonoros que nos ofereciam. Basta lembrar canções como «The State I Am In», «Like Dylan In The Movies», «Get Me Away From Here», «Judy And The Dream Of Horses», «Another Sunny Day» ou mesmo «I Didn’t See It Coming». Por tudo isto, que não é pouco, não sei muito bem como entender as recentes «The Party Line» ou «Enter Sylvia Plath», sendo que esta última mais parece feita para animar uma qualquer feira popular. Para mim, e mantendo o respeito que tenho por eles, prescindo perfeitamente destes novos caminhos sonoros, que de tão festivos (um pouco à maneira de um Festival da Canção em versão ligeiramente melhorada) me parecem plásticos, artificiais, no que as expressões podem ter de pior significação. No entanto, o disco salva-se de maiores desastres com as canções «Nobody’s Empire» (ao estilo da era Jeepster), «The Cat With The Cream», «Ever Had A Little Faith?» ou «The Everlasting Muse», embora está última esteja já um pouco aquém da beleza das anteriores.
Sendo assim, e feito um balanço geral às doze canções deste novo Girls In Peacetime Want To Dance, parece-me seguro afirmar que este trabalho de 2015 não traz qualquer acréscimo ao bom estatuto de culto que a banda soube construir. Nem mesmo sei se devo entender este disco como um exercício corajoso de inovação, se de risco calculado e episódico. O futuro dirá algo mais sobre este assunto. A minha esperança, no entanto, é que o próximo passo em frente seja, inequivocamente, um retrocesso, um passo atrás. Mas isso é apenas uma vontade minha, uma vontade particular de um ouvinte antigo e atento, que no entanto reconhece que a Arte deve ser entregue aos artistas, e aos ouvintes aquilo que os artistas quiserem. Sempre foi assim, e sempre assim será, mesmo com mudanças menos conseguidas pelo meio.
Diabo na Cruz – Diabo na Cruz (2014)
O Diabo na Cruz não tem pátria: habita aquelas terras de ninguém onde diversos territórios confluem. Se para a maioria as fronteiras são zonas perigosas sitiadas pelos «diferentes», para os Diabo são mais do que bem-vindas: formam o próprio habitat. Onde a música popular portuguesa colide com a «pop» anglo-saxónica, onde o campo esbarra com a cidade, onde o antigo embate com o novo, onde a estética dominante choca com outros padrões de gosto, é onde o Diabo gosta de estender a sua esteira. Ora, como veremos, o seu terceiro disco é muito diferente dos registos anteriores, quer na sonoridade quer no conteúdo. É possível uma banda mudar tão profundamente sem trair a sua identidade? Será esta a pergunta do milhão de dólares, o fio de Ariadne que nos permitirá sair – esperamos – do labirinto deste texto.
O novo disco é menos rock e mais pop – o que lhe falta agora em guitarra sobeja depois nos sintetizadores. Pode-se por isso esperar menos euforia punk nos concertos? Não o creio. As canções levantam na mesma sem o viagra do riff, como se o Diabo na Cruz – qual Obélix do punk popular português – tivesse caído num caldeirão de riffs quando era pequeno. «Saias», por exemplo – ode maravilhosa à sensualidade feminina – é um clássico instantâneo, entrando para a história da música popular portuguesa à primeira audição. Não se pense porém que todas as canções têm orelhas pop gigantes; a sequência «Verde Milho», «Mó de Cima» e «Azurvinha» assegura o devido contrapeso anti-pop, açúcar e limão doseados na perfeição. Já «Moça Esquiva» é o ingrediente esquisito, aquele que dá um toque diferente e especial ao menu de degustação. Com o seu sintetizador manhoso, e o seu sample de gosto duvidoso, é uma reflexão deliberada sobre o lugar que o mau gosto deve ocupar na música considerada credível, não só pelo prazer estético kitsch que proporciona mas também pelo seu poder de questionar as normas do gosto – intolerantes por definição.
O surrealismo popular dos discos anteriores – muito elegante na forma mas de difícil decifração – é agora abandonado em favor de uma abordagem mais directa de escrever canções: menos rodriguinhos, mais chutos à baliza, marimba lá para a nota artística, é preciso é que a mensagem marque golo. A mensagem é profundamente política, apesar de não o parecer. Roque Popular era sombrio, um espelho dos tempos cinzentos pós-troika. Mas Jorge Cruz acabou por problematizar esse queixume tão português, que acaba tantas vezes por reforçar o mal que pretende esconjurar. Por isso, o novo disco é deliberadamente optimista, uma afirmação inequívoca de vitalidade, como se gritassem ao mundo: estamos vivos, cacete, bora agarrar a vida bem pelos cornos, nem pensem que a rameira da troika vai meter as suas unhas peçonhentas nas minhas costas.
Há também uma mudança na geografia das canções, um claro deslocamento do campo para a cidade. A Lisboa – da Rua do Salitre, do Copenhaga, do Maria Vitória – é agora o pano de fundo onde as histórias acontecem. O diálogo entre o rural e o urbano persiste mas é agora disposto num tabuleiro bem diferente. Virou! e Roque Popular são a cidade que há no campo, o puto citadino a dar tudo nas festas da terrinha, o «Meu Querido Mês de Agosto» convertido em mp3. Diabo na Cruz é o contrário: o campo que há na cidade; o nosso verniz provinciano a estalar no momento mais cosmopolita; a tensão entre as peneiras da pseudo-sofisticação urbana e a rudeza despretensiosa das nossas raízes rurais. Numa fórmula: todo um manual sobre a difícil relação que nós, portugueses, temos com as nossas origens.
Todas estas mudanças atraiçoam a sua identidade? De maneira nenhuma. A banda de Jorge Cruz continua a fazer o que sempre fez e tão bem sabe fazer: navegar pelas fronteiras proibidas da pop, mapeando os lugares dos interstícios musicais nunca antes cartografados. Acontece apenas que as linhas de demarcação são afinal muito mais espessas do que julgáramos, pelo que, disco após disco, a banda vai-nos conduzindo a novos territórios raianos. Que o Diabo na Cruz continue assim por muitos anos: provocador, inteligente e com grandes canções pop.
Roísín Murphy – Overpowered (2007)
Dois anos depois de Ruby Blue e em 2007, Roísín Murphy, a ex-Moloko, lança Overpowered. Embora se mantenha na mesma linha que o anterior, este álbum surge mais intenso, vibrante e mexido. Um verdadeiro electro-disco, como foi denominado na altura do seu lançamento. O álbum teve críticas favoráveis e para quem já tinha apreciado o primeiro álbum de Roísín, certamente que vai gostar deste. Ainda mais do que em Ruby Blue, Overpowered vem marcar o assumir de uma nova personalidade, uma nova roupagem para a mesma mulher meio louca que vi dançar incansavelmente ao pé, dentro e em cima de um órgão, no Sudoeste em 2003, dando a cara e o corpo por Moloko.
Todas as letras das músicas presentes neste álbum têm o cunho pessoal da autora, mas sempre com algumas ajudas, assim como já tinha sido notado em Ruby Blue. No entanto, enquanto que naquele, Matthew Herbert entra na escrita e produção do álbum, em Overpowered existe uma enorme diversidade de produtores e de escritores. E isto não é necessariamente mau. O mais interessante é ver como o fio condutor entre todas as músicas é mesmo Roísín, e, apesar de existirem tantas colaborações, é mais que certo que existe ligação entre as músicas e que este álbum é completo e faz sentido, do princípio ao fim.
O single que dá o nome ao álbum abre as hostilidades e aos primeiros segundos ficamos logo amigos. É uma música quase sensual pelo movimento que imprime ao corpo. Ou então resulta numa patetada se a vossa dança sensual se assemelhar a uma lesma a caminhar em asfalto quente. Certo é que imprime movimento e é difícil ficar quieto. «You Know Me Better» não decepciona e permite manter o groove, assim como as músicas que lhe seguem. De destacar «Cry Baby» com uma batida ainda mais viva, uma linguagem mais directiva.
Sou o tipo de ouvinte que liga muito às letras das músicas. Claro que o som é a porta de entrada. Por mim até podem cantar lindas frases budistas cheias de sentido, mas se for ao som de um papagaio a morrer engasgado, eu passo. E esta é uma das qualidades de Roísín. Quando ouvimos músicas mais electrónicas sabemos que há sempre o risco de existirem não só batidas repetidas como também refrões rascas que são cantarolados no mesmo tom durante a maior parte da canção. O conteúdo acaba por ser mais oco do que a adolescência tardia. Mas Roísín não. Não me entendam mal, não é a colecção das melhores letras do mundo, mas é uma conquista: música electrónica com bons refrões, boas letras, pitada de ironia, e vá, um q.b. de desgosto amoroso (como quando em «Tell Everybody» ela diz «Baby, I don’t understand, Why you’re leaving me»).
«Scarlet Ribbon» e «Parallel Lives» (a última do álbum) são as duas músicas mais calmas do álbum que no entanto não descuram o seu lado mais electrónico nem as batidas menos prementes, mas sempre presentes.
Desde Overpowered que não há muito a falar sobre Roísin Murphy. Ou melhor, há, mas em fragmentos. Lançou variadíssimas canções, inclusivamente em italiano (2014). Fez muitas participações, onde se inclui a música «Don’t You Agree», presente num projecto de David Byrne e Fatboy Slim. Ainda em 2014 refere que está a trabalhar num novo álbum a solo. Queremos mais. Esperamos por mais. Queremos um álbum inteiro. Se faz favor.
Fantastic Negrito – Alive! (2026)

No dia 17 de julho, Fantastic Negrito lança seu álbum ao vivo “Alive!”. Tendo já conquistado três prêmios Grammy, este álbum parece estar prestes a lhe render um quarto. É um lançamento ao vivo quase impecável, possivelmente o melhor disco analisado este ano pelo site.
Musicalmente, o disco soa como uma fusão da sensibilidade funk de James Brown com as tendências mais pesadas do Led Zeppelin. As faixas foram gravadas durante apresentações ao vivo na Itália, Estados Unidos, Suíça e Reino Unido. Estilisticamente, a música transita entre heavy metal, grooves funky, rock progressivo com influências de jazz, gospel e blues com alma. Liricamente, o disco varia de comentários urgentes sobre o estado do mundo a lamentos de coração partido, passando por jogos de palavras lúdicos, quase infantis. Independentemente do ritmo ou da atmosfera, seja melancólica e lenta ou rápida e visceral, a música transmite uma sensação genuinamente épica. É eclética, cheia de energia e simplesmente excelente.
A formação da banda conta com o próprio Fantastic Negrito nos vocais principais e guitarra rítmica, ao lado de Bryan Simmons nos teclados e vocais de apoio, Clark Sims na guitarra solo e vocais de apoio, Lily Stern no baixo e vocais de apoio, e James Small na bateria. Cada músico tem seu momento de brilhar, principalmente durante "In the Pines", onde quase toda a banda se reveza no protagonismo.
Com quinze faixas, o álbum é mais longo do que muitos lançamentos recentes de blues rock, mas nunca dá a impressão de se estender demais. Apenas uma faixa, a décima primeira, "Eat Less Sugar", é formalmente rotulada como um interlúdio, embora a sexta faixa, "In the Pines", com mais de dez minutos de exploração predominantemente instrumental que transita entre jazz, country tradicional, rock progressivo e gospel, e a décima quarta faixa, "The Duffler", uma breve faixa com menos de dois minutos que lembra uma música compacta do Led Zeppelin, ambas expandam os limites do gênero à sua maneira. Cada faixa parece distinta e proposital, sem nada aqui que valha a pena pular.
Entre os destaques, “Living With Strangers” impressiona com seus acordes ousados no estilo heavy metal, improvisação vocal influenciada pelo scat e um blues intenso e carregado de ressentimento, sem mencionar uma referência ao Black Sabbath por volta de dois terços da faixa. “I Hope Somebody's Loving You” também figura entre os melhores momentos do álbum, uma balada soul arrebatadora que se distancia significativamente do restante do som do disco, aproximando-se mais de algo como o Chi-Lites do que do território funk-metal explorado em outras partes. Vale mencionar também a faixa de encerramento, “Please Computer”, uma música verdadeiramente explosiva que constrói intensidade gradualmente até um final poderoso.
“Alive!” demonstra exatamente a criatividade, o talento e o espírito que consagraram o Fantastic Negrito como vencedor de múltiplos Grammys. É um forte candidato a um dos melhores álbuns do ano até o momento, uma audição essencial para qualquer fã de blues rock.
Lista de faixas:
1. An Honest Man (Live) (05:02)
2. How Long? (Live) (03:37)
3. Living with Strangers (Live) (06:22)
4. Bullshit Anthem (Live) (02:56)
5. Night Has Turned to Day (Live) (02:43)
6. In the Pines (Live) (10:24)
7. Beat Salad (Live) (04:56)
8. Good Feeling (Live) (04:41)
9. California Loner (05:35)
10. I Hope Somebody’s Loving You (Live) (04:54)
11. Eat Less Sugar Have More Sex (Live) (02:00)
12. Working Poor (Live) (04:32)
13. Plastic Hamburgers/Long Long Road (Live) (05:55)
14. The Duffler (Live) (01:33)
15. Please Computer (Live from Brooklyn, New York) (05:09)
Tyrant – Discography (2018 – 2026)

Year: 2018 – 2026
Style: Heavy Metal
Country: USA
Albums / Albums:
2018 – The Pact (Upconvert)
2022 – The Lowest Level
2026 – Emergo
Copper Wolf – Hammer Down – 2026

Genre: Hard Rock
Release Year: 2026
Audio Codec: MP3
Tracklist:
01 – Obsession
02 – Burning Red Tonight
03 – It’s All For Love
04 – Born To Run Wild
05 – Sweet Lovin Poison
06 – Denmark Street
07 – Wild as the Wind
08 – Riding Through the Storm Pt 1
09 – Riding Through the Storm Pt 2
10 – Hammer Down
Created with the help of AI Romek Addams.
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