quarta-feira, 28 de setembro de 2022

POEMAS CANTADOS DE SÉRGIO GODINHO

É Terça Feira
Sérgio Godinho

É terça-feira
e a feira da ladra
abre hoje às cinco
de madrugada

E a rapariga
desce a escada quatro a quatro
vai vender mágoas
ao desbarato
vai vender
juras falsas
amargura
ilusões
trapos e cacos e contradições


É terça-feira
e das cinzas talvez
amanhã que é quarta-feira
haja fogo outra vez
o coração é incapaz de dizer
"tanto faz"
parte p´ra guerra
com os olhos na paz


É terça-feira
e a feira da ladra
quase transborda
de abarrotada


E a rapariga
vende tudo o que trazia
troca a tristeza
pela alegria


E todos querem
regateiam
amarguras
ilusões
trapos e cacos e contradições


É terça-feira
e das cinzas talvez
amanhã que é quarta-feira
haja fogo outra vez
o coração
é incapaz
de dizer
"tanto faz"
parte p´ra guerra
com os olhos na paz


É terça-feira
e a feira da ladra
fica enfim quieta
e abandonada
e a rapariga
deixou no chão um lamento
que se ergue e gira
e roda com o vento
e rodopia
e navega
e joga à cabra-cega
é de nós todos
e a ninguém se entrega


É terça-feira
e das cinzas talvez
amanhã que é quarta-feira
haja fogo outra vez
o coração
é incapaz
de dizer
"tanto faz"
parte p´ra guerra
com os olhos na paz


Eh! Meu Irmão (Ou Mais Uma Canção de Medo)

Sérgio Godinho

 

Eh, meu irmão, que é que tens

que tremes como um chouriço?

Eh, meu irmão que é que tens,

parece que vistes bicho!

Um bicho vi, sim senhor,

enroscou-se a mim e pediu-me amor

tinha corpo de mulher

cabelo encaracolado

beijou-me, apagou as luzes

e eu então gritei!

Ai, um bicho!


Eh, meu irmão, que é que tens

estás branco que nem um nabo!

Eh, meu irmão que é que tens,

parece que vistes o diabo!

Vi mesmo, bateu-me à porta

disse que o povo estava na rua

e que a rua era do povo

que é p´ra quem ela foi feita

e o povo somos nós todos

e eu então gritei!

Ai, o diabo!


Eh, meu irmão, que é que tens

estás branco como o jasmim!

Eh, meu irmão, que é que tens

o que é que te pôs assim!

Foi o medo da água fria

o medo da vida, o medo da morte

o medo da lua-cheia

o medo da lua-nova

o medo até de ter medo

que me faz gritar

Ai, que medo!


E assim com medo de tudo

perdeu meu irmão a vida

e assim com medo de tudo

viveu-a e não foi vivida

meteram-no num caixão

às duas por três, num dia de Verão

desceram-no p´ra uma cova

deitaram terra por cima

espetaram-lhe uma cruz

ita missa est

Amen.


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