terça-feira, 15 de novembro de 2022

POEMAS CANTADOS DE SÉRGIO GODINHO

O Fim de Tudo

Sérgio Godinho

 

No começo era o fim

agora ai de mim, ai de mim

era bom, era a sós

agora ai de nós, ai de nós

como é que se sai

do eterno ai, terno ai

como é que se faz

pela paz

que é o nosso bem camuflado

dá-se aquela de emancipado

e some cada um p´ra seu lado


o perfeito casal

habitué da columa social

estrilhou, estrilhaçou

vá lá saber-se porquê

vá lá saber-se porquê


O fim de tudo

é um recomeço

e olha, eu bem que mereço

tratar bem do melhor em mim


No começo, a paixão

agora essa não, essa não

era tudo demais

agora é só ais, é só ais

que é do amor que aparecia

tão cru na fotografia

que é do amor que se faz

e talvez

não volte mais a ser feito

vai-se de coração ao peito

cortar pela vida a direito


coração trivial

a afundar em água doce, água e sal

estrilhou, estrilhaçou

vá lá saber-se porquê

vá lá saber-se porquê


O fim de tudo

é um recomeço

e olha, eu bem que mereço

tratar bem do melhor em mim


No começo é para sempre

agora há quem lembre, há quem lembre

a promessa a preceito

de peito ao ar, mão no peito

pelo geito da mão

ainda é talvez sim, talvez não

mas o fôlego falha-nos

valha-nos Deus, quem nos acode

a parte esquece do peito explode

e o coração que gire e que rode


O fim de tudo

é um recomeço

e olha, eu bem que mereço

tratar bem do melhor em mim


O Fugitivo
Sérgio Godinho
 
Um homem corre na noite
é uma imagem banal
podia ser em Madrid
ou Johanesburgo, ou em S. Paulo
ou Budapeste, Nova Iorque
ou Hollywood
ou é claro em Portugal
um homem corre na noite
é uma imagem banal

Porque foge? De onde vem?
porque olha para trás inquietado?
será soldado? vagabundo?
criminoso? ratoneiro?
será apenas o primeiro
dos que vão fugir com ele?
foge p´ra salvar a pele
só a sua? a pele dos outros?
a pele clara ou a escura?
quanto tempo vai durar a sua fuga?
quanto dura? o que espera?
o que espera o homem- fera
se chegar a quem o espera?
alguém o quer? alguém se acende
alguém o chora?
alguém por quem ele chorou
chorará por ele agora?
alguém que nunca o trairá
e se sim, onde será?

Um homem luta contra o sangue
que derrama
e diz: valeu a pena?

Que os barcos
voltem a subir o Guadiana
vindos de longe
do mar

Que os barcos
voltem a subir o Guadiana
descarregando à passagem
todo o trigo
que o cavalo esbaforido
chegue à relva, sua cama
que o fugitivo
encontre seu porto de abrigo

Um homem corre na noite
é uma imagem banal
esgueirado de holofotes
com a estrada que atravessa
se confunde
com o breu o seu corpo
se confunde
e se passa num muro branco
fica branco como a cal
tal e qual
o camaleão
é uma imagem banal

Um homem luta contra o sangue
que derrama
em que cama
terá ele o seu repouso?
está ansioso? e como não?
não estaria quem pisasse
um desconhecido chão?
não estaria de garganta afogueada
quem por nada
assim fugisse?
quem por tudo suplicasse
dai-me forças, dá-te forças
a ti próprio te confias
dá-te alento, dá-te tempo
dá-te dias
sobrevive de agonias
respirando sobrevives
sobrevive

Um homem vive
contra o sangue
que derrama
e diz: vale a pena?

Que os barcos
voltem a subir o Guadiana ...

Um homem corre na noite
é uma imagem banal
porque insiste? porque teima?
não há pânico na rua
não há fogo no quintal
labaredas? só nas camas
dos amantes
já distantes
chegam ruídos, utopias
quanto vale uma utopia?
vale tudo? quanto vale?
um homem corre na noite
é uma imagem banal

O que fez o fugitivo? porque corre?
se está vivo é porque morre
se morrer é porque o matam
se o matarem ,será justo?
inocentes são os culpados de outros crimes
de que culpa?
de paixão? de inconsciência?
será justo ou não será
desbaratar a inocência
tão a custo conquistada?
porque corre o fugitivo nessa estrada?

E agora para para agora
o homem para
para agora para agora
será que sente que chegou a sua hora?

É impossível
não é possível
correr tanto
e pensar tão
lucidamente
o coração
não aguenta
a cabeça também não
porque tenta
ultrapassar os seus limites?
provavelmente
é por vontade de viver
(quente quente ...)
que ultrapassa os seus limites
«Estamos quites!»
diz para o seu coração
«Ainda não, ainda não ...
sentes que valeu a pena?
se te obrigam a fugir
mais te obrigam
a chegar junto de ti
valeu a pena?»


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