O Carteiro
Sérgio Godinho
Manhã cedo segue a marcha
Sempre na mesma cadência
E lá vai de caixa em caixa
Metendo a correspondência
Para uns são alegrias
Para outros tristezas são
O carteiro não tem culpa
É a sua profissão
Chegou o carteiro
Das nove p'ras dez
A vizinha do lado
De roupão enfiado
Chegou-se à janela
Em bicos de pés
E logo gritou
Traz carta p'ra mim?
E o carteiro que é gago
Espera um bocado
E responde-lhe assim
Não não não não não
Não não não trago nada
Só só só só só
Só trago o pacote
Da sua criada
E o sr. Roque desespera
Pelo vale que nunca vem
Vai sentindo infelizmente
Como faz falta o vintém
Para uns são alegrias
Para outros tristezas são
O carteiro não tem culpa
É a sua profissão
Chegou o carteiro
Quando o carteiro se atrasa
Os protestos são em coro
As garotas ansiosas
Por notícias do namoro
Para umas são alegrias
Para outras tristezas são
O carteiro não tem culpa
É a sua profissão
Chegou o carteiro
O Charlatão
Sérgio Godinho
Numa ruela de má fama
faz negócio um charlatão
vende perfumes de lama
anéis de ouro a um tostão
enriquece o charlatão
No beco mal afamado
as mulheres não têm marido
um está preso, outro é soldado
um está morto e outro f´rido
e outro em França anda perdido
É entrar, senhorias
a ver o que cá se lavra
sete ratos, três enguias
uma cabra abracadabra
Na ruela de má fama
o charlatão vive à larga
chegam-lhe toda a semana
em camionetas de carga
rezas doces, paga amarga
No beco dos mal-fadados
os catraios passam fome
têm os dentes enterrados
no pão que ninguém mais come
os catraios passam fome
É entrar, senhorias
a ver o que cá se lavra
sete ratos, três enguias
uma cabra abracadabra
Na travessa dos defuntos
charlatões e charlatonas
discutem dos seus assuntos
repartem-se em quatro zonas
instalados em poltronas
P´rá rua saem toupeiras
entra o frio nos buracos
dorme a gente nas soleiras
das casas feitas em cacos
em troca de alguns patacos
É entrar, senhorias
a ver o que cá se lavra
sete ratos, três enguias
uma cabra abracadabra
Entre a rua e o país
vai o passo de um anão
vai o rei que ninguém quis
vai o tiro dum canhão
e o trono é do charlatão
Entre a rua e o país
vai o passo de um anão
vai o rei que ninguém quis
vai o tiro dum canhão
e o trono é do charlatão
É entrar, senhorias
a ver o que cá se lavra
sete ratos, três enguias
uma cabra abracadabra

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