quarta-feira, 9 de novembro de 2022

POEMAS CANTADOS DE SÉRGIO GODINHO

O Carteiro

Sérgio Godinho

 

Manhã cedo segue a marcha

Sempre na mesma cadência

E lá vai de caixa em caixa

Metendo a correspondência

Para uns são alegrias

Para outros tristezas são

O carteiro não tem culpa

É a sua profissão


Chegou o carteiro

Das nove p'ras dez

A vizinha do lado

De roupão enfiado

Chegou-se à janela

Em bicos de pés

E logo gritou

Traz carta p'ra mim?

E o carteiro que é gago

Espera um bocado

E responde-lhe assim

Não não não não não

Não não não trago nada

Só só só só só

Só trago o pacote

Da sua criada


E o sr. Roque desespera

Pelo vale que nunca vem

Vai sentindo infelizmente

Como faz falta o vintém

Para uns são alegrias

Para outros tristezas são

O carteiro não tem culpa

É a sua profissão


Chegou o carteiro


Quando o carteiro se atrasa

Os protestos são em coro

As garotas ansiosas

Por notícias do namoro

Para umas são alegrias

Para outras tristezas são

O carteiro não tem culpa

É a sua profissão


Chegou o carteiro


O Charlatão

Sérgio Godinho

 

Numa ruela de má fama

faz negócio um charlatão

vende perfumes de lama

anéis de ouro a um tostão

enriquece o charlatão


No beco mal afamado

as mulheres não têm marido

um está preso, outro é soldado

um está morto e outro f´rido

e outro em França anda perdido


É entrar, senhorias

a ver o que cá se lavra

sete ratos, três enguias

uma cabra abracadabra


Na ruela de má fama

o charlatão vive à larga

chegam-lhe toda a semana

em camionetas de carga

rezas doces, paga amarga


No beco dos mal-fadados

os catraios passam fome

têm os dentes enterrados

no pão que ninguém mais come

os catraios passam fome


É entrar, senhorias

a ver o que cá se lavra

sete ratos, três enguias

uma cabra abracadabra


Na travessa dos defuntos

charlatões e charlatonas

discutem dos seus assuntos

repartem-se em quatro zonas

instalados em poltronas


P´rá rua saem toupeiras

entra o frio nos buracos

dorme a gente nas soleiras

das casas feitas em cacos

em troca de alguns patacos


É entrar, senhorias

a ver o que cá se lavra

sete ratos, três enguias

uma cabra abracadabra


Entre a rua e o país

vai o passo de um anão

vai o rei que ninguém quis

vai o tiro dum canhão

e o trono é do charlatão


Entre a rua e o país

vai o passo de um anão

vai o rei que ninguém quis

vai o tiro dum canhão

e o trono é do charlatão


É entrar, senhorias

a ver o que cá se lavra

sete ratos, três enguias

uma cabra abracadabra

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