Os Pontos Nos Iis
Sérgio Godinho
Ó meu caro vamos lá pôr os pontos nos iis
De quem são os campos deste país
De você que diz que são seus porque os herdou
Ou da gente que neles sempre trabalhou
Quem vale mais do que o que tem
Quem tem menos do que o que vale
Quem tem cabeça para pensar
Quem é que é o povo de Portugal
E que a terra é de quem a trabalhar pois bem
Não é novidade para ninguém
Mas é que você insiste em ser distraído
E em guardar para si o que nos é devido
Quem vale mais do que o que tem
Quem tem menos do que o que vale
Quem tem cabeça para pensar
Quem é que é o povo de Portugal
E você a dizer-me que o silêncio é ouro, ora ora
Ouro assim é aquele que nos explora
Não se vai amar quem assim nos explorou
Quem me tem roubado de tudo o que sou
Quem vale mais do que o que tem
Quem tem menos do que o que vale
Quem tem cabeça para pensar
Quem é que é o povo de Portugal
Mas não pense que vamos ficar na cepa torta
A injustiça a gente já não suporta
Temos força e razão e vontade para lutar
Pela terra que é de quem a trabalhar
Quem vale mais do que o que tem
Quem tem menos do que o que vale
Quem tem cabeça para pensar
Quem é que é o povo de Portugal
Ó meu caro vamos lá pôr os pontos nos iis
De quem são os campos deste país
De você que diz que são seus porque os herdou
Ou da gente que neles sempre trabalhou?
Quem vale mais do que o que tem
Quem tem menos do que o que vale
Quem tem cabeça para pensar
Quem é que é o povo de Portugal
Ouro Preto
Sérgio Godinho
Ouro Preto foi na nuvem transportada
agora não chovia ainda em Minas
mas já a grande mão ali pousava
a mão que moldaria nas colinas
Ouro Preto
Eu vi no ar brilhante a trajectória
das chuvas que trouxeram quantidade
de gestos, arquitectos da memória
aos poucos pondo o rosto na cidade
de Ouro Preto, Ouro Preto
O líquido suspira pela terra
formando gota o casario
as formas que a paisagem não encerra
são corpos que na tarde acaricio
em Ouro Preto, Ouro Preto
Sentado na soleira desmaiado
uni-me com a estátua que me beija
a mão que me talhou, do Aleijado
sentou-me incandescente em sua igreja
Raiz que reconheço também minha
ou âncora por vezes já sem nó
eu chego aqui como antes já não vinha
em Ouro Preto eu não me sinto só
Ouro Preto, Ouro Preto

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