segunda-feira, 12 de dezembro de 2022

POEMAS CANTADOS DE SERGIO GODINHO

Os Pontos Nos Iis

Sérgio Godinho


Ó meu caro vamos lá pôr os pontos nos iis

De quem são os campos deste país

De você que diz que são seus porque os herdou

Ou da gente que neles sempre trabalhou


Quem vale mais do que o que tem

Quem tem menos do que o que vale

Quem tem cabeça para pensar

Quem é que é o povo de Portugal


E que a terra é de quem a trabalhar pois bem

Não é novidade para ninguém

Mas é que você insiste em ser distraído

E em guardar para si o que nos é devido


Quem vale mais do que o que tem

Quem tem menos do que o que vale

Quem tem cabeça para pensar

Quem é que é o povo de Portugal


E você a dizer-me que o silêncio é ouro, ora ora

Ouro assim é aquele que nos explora

Não se vai amar quem assim nos explorou

Quem me tem roubado de tudo o que sou


Quem vale mais do que o que tem

Quem tem menos do que o que vale

Quem tem cabeça para pensar

Quem é que é o povo de Portugal


Mas não pense que vamos ficar na cepa torta

A injustiça a gente já não suporta

Temos força e razão e vontade para lutar

Pela terra que é de quem a trabalhar


Quem vale mais do que o que tem

Quem tem menos do que o que vale

Quem tem cabeça para pensar

Quem é que é o povo de Portugal


Ó meu caro vamos lá pôr os pontos nos iis

De quem são os campos deste país

De você que diz que são seus porque os herdou

Ou da gente que neles sempre trabalhou?


Quem vale mais do que o que tem

Quem tem menos do que o que vale

Quem tem cabeça para pensar

Quem é que é o povo de Portugal


Ouro Preto

Sérgio Godinho

 

Ouro Preto foi na nuvem transportada

agora não chovia ainda em Minas

mas já a grande mão ali pousava

a mão que moldaria nas colinas

Ouro Preto


Eu vi no ar brilhante a trajectória

das chuvas que trouxeram quantidade

de gestos, arquitectos da memória

aos poucos pondo o rosto na cidade

de Ouro Preto, Ouro Preto


O líquido suspira pela terra

formando gota o casario

as formas que a paisagem não encerra

são corpos que na tarde acaricio

em Ouro Preto, Ouro Preto


Sentado na soleira desmaiado

uni-me com a estátua que me beija

a mão que me talhou, do Aleijado

sentou-me incandescente em sua igreja


Raiz que reconheço também minha

ou âncora por vezes já sem nó

eu chego aqui como antes já não vinha

em Ouro Preto eu não me sinto só

Ouro Preto, Ouro Preto

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