sábado, 8 de abril de 2023

Perfume Genius – Set My Heart on Fire Immediately (2020)

Set My Heart on Fire Immediately, de Perfume Genius, não é um álbum que procure ou consiga cativar-nos imediatamente. É o oposto. Todos os seus labirintos e camadas aproximam este disco daquilo que se espera de um bom vinho, por isso, só depois de maturar e de ser revisitado e saboreado com a devida calma e atenção, pode ser apreciado como merece.

Quando o tema é Mike Hadreas a.k.a. Perfume Genius uma coisa é inegável: o compositor norte-americano tem tido um percurso ascendente brutal e o mais recente álbum é a prova desse mesmo amadurecimento pessoal e artístico.  Se, em 2014, com Too Bright, Perfume Genius atingiu o cume da montanha no que toca a um aumento de popularidade e de sucesso no meio musical, três anos depois com No Shape, Hadreas arriscou-se num claro experimentalismo, que em nada desiludiu.

Agora parece justo dizer que este quinto disco se situa a meio desta montanha russa discográfica. O experimentalismo continua presente, ainda que de forma menos acentuada, mas para além disso não só existe de forma equilibrada com as faixas mais melódicas ou viradas para o pop “catchy”, como torna clara a genialidade deste sempre fiel a si próprio, mas fresco, Perfume Genius.

Artistas que podem juntar-se a uma playlist onde figure o nome de Perfume Genius, podem muito bem ser as experimentalistas Arca e Fka Twigs ou até mais dentro do pop, por exemplo, Christine and the Queens. Depois entrando nos “clássicos”, é possível que nos cruzemos também com os universos de Kate Bush ou até de Bjork.

Todos os discos de Hadreas surgem como uma necessidade que o próprio deve sentir em expressar todo o universo próprio e complexo que lhe corre nas veias, já que “quem canta seus males espanta”. Estas dores que atingem Hadreas mantêm-se relativamente constantes em todos os seus trabalhos. Temos portanto as questões relacionada com a homossexualidade e os perigos que lhe estão associados na sociedade atual, ao amor e à perda, às violências de que foi sendo alvo ao longo da sua vida, à doença de Crohn que o afeta (“Just my stomach rumbling”) ou ainda por exemplo à efemeridade da vida e das relações interpessoais, no epicentro deste vulcão prestes ora a implodir ora a explodir.

Os antecessores trabalhos de Perfume Genius eram um grito de socorro de um corpo aprisionado e condicionado pelos seus próprios limites, já este afigura-se como um  suspiro libertário que parece soltá-lo dessas amarras físicas, e que parece trazer a esta obra uma paz quase etérea. Este novo disco está mergulhado algures entre o sonho e o real. O título deste álbum não é um pedido, é uma exigência e para que se cumpra esta desejada evasão, Perfume Genius oferece ou o caminho da pop como nos é proposto em “On The Floor”  ou o caminho do  sonho, já que este disco está povoado de melodias incorpóreas, tal como nos mostra o tema “Some Dream” que começa como uma balada capaz de embalar miúdos e graúdos num doce e ternurento sono, mas Genius desperta-nos de súbito com um instrumental mais eletrónico, tal qual realidade e pesadelo que invadem até os mais belos sonhos.

Talvez seja em “Leave” que encontramos a sonoridade mais desconcertante deste novo disco do músico, a voz surge-nos processada digitalmente, sussurrada e arrepiante, mas o instrumental confunde-nos por ser inesperado. Em vez dos sons eletrónicos distorcidos que podíamos esperar, deparamo-nos com a harmoniosa harpa ocasionalmente acompanhada por uivos caninos, que oferecem a este tema uma nova dimensão.

A destacar temos a “Nothing at All”, talvez a música mais diferente do alinhamento neste disco. Juntamente com a “Without You” são as que mais nos atiram de imediato para o Perfume Genius que já nos havia sido apresentado. Aqui temos quase todas as marcas distintivas do músico: os agudos, a voz que falha quer por intenção quer por sentimento, a sobreposição cativante de várias partes da letra e a própria sonoridade que lhe associamos. E, é claro, não podiam faltar, os seus tão característicos “Yeah, yeah, yeah”.

Em “Jason” encontramos uma espécie de fio condutor de uma narrativa a que Hadreas já nos tinha introduzido em No Shape com o tema “Alan”. Esta ligação parece clara pelo recurso aos nomes próprios Alan/Jason, é lógico, mas não fica por aqui. Em “Alan” tínhamos um dos temas mais tristemente bonitos de Perfume Genius em que o amor e a fragilidade presentes na sua voz eram suficientes para nos desconcertar e ferir, já em “Jason” o contexto é outro. Nesta “continuação”, o tema fala mais de desejo e luxúria do que necessariamente de amor, fazendo também alusão à temática da homossexualidade. Mais do que isso, parece relatar o decorrer de um primeiro encontro entre dois homens, fortemente marcado por todos os medos que lhe costumam estar associados:

“Clumsy, shakily/He ran his hands up me/He was afraid/Tears streaming down his face”

É curioso se pensarmos na ordem cronológica em que surgem ambos os temas, porque é clara a inversão. Em “Alan”, Hadreas descrevia um amor sólido e maduro, enquanto que em “Jason”, relata um encontro amoroso jovial e furtivo, sem grande carga emocional, que termina de forma quase cómica, com Hadreas a dizer que tirou a esse tal de Jason, o parceiro da noite anterior, vinte dólares das calças.

Este álbum apresenta-se mais despido de camadas instrumentais do que os trabalhos anteriores, sobretudo porque na maioria dos temas deste disco é dado o destaque à voz de Perfume Genius, com o instrumental a surgir mais secundarizado ou quase como som de fundo, se assim quisermos, em oposição aos álbuns anteriores, cujos instrumentais eram parte central da narrativa musical que Hadreas nos oferecia. Aqui, a palavra de ordem parece ser simplicidade e talvez o amadurecimento do músico se reveja fundamentalmente no princípio de que “menos é mais”. Sendo que este “menos” continua a ser oriundo de um artista que já disse tanto e que continua com um outro tanto por dizer.

Esta aparente simplicidade parece pôr em evidência, como nenhum outro disco de Perfume Genius, o incrível aparelho vocal de Hadreas, que nos surge aqui natural e cru como não vimos em mais nenhum dos seus trabalhos. Nunca a sua voz ou as suas palavras ecoaram nos nossos ouvidos de forma tão limpa ou orgânica.

Este não é um álbum que procure ou consiga cativar-nos imediatamente, contrariamente ao que se podia sentir com única visita ao antecessor. É o oposto. Todos os seus labirintos e camadas aproximam este disco daquilo que se espera de um bom vinho. Estamos perante um disco sólido, menos exuberante do que os anteriores, e que por isso só depois de maturar e de ser revisitado e saboreado com a devida calma e atenção, pode ser apreciado como merece.


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