terça-feira, 18 de julho de 2023

Review: Metallica – S&M2 (2020)

 


S&M2 foi gravado nos dias 6 e 8 de setembro de 2019 em shows realizados pelo quarteto norte-americano com a Orquestra Sinfônica de San Francisco, formada por mais de oitenta instrumentistas. Em 27 de setembro, vinte dias após essas apresentações e a gravação desses shows, o Metallica publicou um comunicado informando que James Hetfield havia entrado em uma clínica de reabilitação para tratar o seu vício em álcool. O vocalista só retornaria ao grupo quase três meses depois, no início de dezembro, fazendo a sua primeira aparição pública pós rehab em meados de janeiro. Por todos esses motivos, S&M2 soa ao mesmo tempo como um fim de ciclo e um recomeço para a maior banda de heavy metal do planeta.

Lançado em CD duplo, LP duplo, Blu-ray e DVD, S&M2 é magnífico, imponente e épico. Repetindo a parceria com a Sinfônica de San Francisco, que tocou no S&M original, o Metallica supera o álbum de 1999 com uma interação mais natural e fluída entre as canções e as intervenções e arranjos da orquestra. Não há o estranhamento que alguns arranjos do disco lançado há mais de vinte anos causavam e que me fizeram, pessoalmente, nunca curtir muito o resultado final do trabalho.

Ao todo são 22 músicas de todos os álbuns da banda, incluindo canções dos três discos gravados pelo grupo nessas duas décadas entre uma experiência sinfônica e outra: St. Anger (2003), Death Magnetic (2008) e Hardwired ... To Self-Destruct (2016). A banda varia bastante o repertório em relação ao lançamento original, com as repetições ficando somente por conta de cavalos de batalha imortais como “For Whom the Bell Tolls”, “The Memory Remains”, “Wherever I May Roam”, “One”, “Nothing Else Matters” e “Enter Sandman”. “The Outlaw Torn”, uma das melhores músicas da carreira do quarteto e que também estava no show de 1999, retorna aqui para mostrar, de novo e mais uma vez, o quanto Load é um disco estigmatizado injustamente pelos fãs.

Com uma participação marcante do público e uma performance primorosa da banda e da orquestra, S&M2 também reserva surpresas inesperadas como as performances de peças de música erudita que abrem o segundo CD. “Scythian Suite, Op. 20 II: The Enemy God and the Dance of the Dark Spirits”, do compositor russo Sergei Prokofiev, é um momento de brilho intenso da Sinfônica de San Francisco, que executa a faixa sozinha e mostra o quanto certos aspectos da música clássica são extremamente próximos do metal. Já “The Iron Foundry, Op. 19”, do também russo Alexander Mosolov, traz banda e orquestra unidas em um universo musical que vai além do catálogo do Metallica, e o resultado é excelente. Outro ponto de destaque é “(Anesthesia) Pulling Teeth”, a instrumental de baixo que eternizou o falecido Cliff Burton, tocada aqui pelo contrabaixista Scott Pingel, do corpo da Sinfônica de San Francisco, que a eleva a um nível quase espiritual e é um dos momentos mais bonitos do show.

A presença de várias músicas dos discos mais recentes mostra o quanto o repertório do Metallica mantém a sua força, aqui devidamente encorpada pelas orquestrações. Isso torna o show refrescante e traz um ar de novidade equilibrado de forma eficiente com os clássicos de sempre.

O resultado final é uma experiência musical hipnotizante e emocionante, que une o metal e a música erudita de maneira muito mais profunda e eficiente do que a do S&M original, ainda que essa evolução não fosse possível sem a experiência de duas décadas atrás. S&M2 é um documento impressionante da força do catálogo do Metallica e do alcance infinito das músicas compostas pela banda.

Nota máxima, sem exagero!



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