quarta-feira, 27 de dezembro de 2023

Lily Allen – Alright, Still (2006)


 

Um disco que vive da permanente tensão entre a inocência sonhadora da música e a malícia filha da puta das letras.

De que é feita a boa música pop? Não compliquem, bastam duas coisas: melodias bonitas e letras inteligentes (tudo o resto é acessório). Porque é que os Smiths e os Pulp são os maiores? Porque fazem a dobradinha como ninguém.

Apliquemos então esta complicadíssima grelha teórica a Lily Allen e ao seu disco de estreia.

Melodias bonitas e orelhudas? Confere. É difícil encontrar um refrão que não nos expluda na cara como um fogo-de-artifício.

Letras espertas? Também. Lily tem o dom da imediatez. Com o seu cockney vívido e espirituoso faz o que quer.

Mas Alright, Still vai ainda mais longe, o glutão. Ambiciona também à originalidade. Ora do ponto de vista estritamente musical não há aqui grande novidade: são os acordes do costume, embrulhados em estéticas já conhecidas. Ninguém nega o bom gosto e requinte da produção – com os seus condimentos ska, garage e madchester impecavelmente confeccionados – mas a dívida aos Specials, Streets ou Happy Mondays é demasiado grande para poder ser descurada.

A sua singularidade está noutro sítio, na forma como reinventa o velho arquétipo  do “disco de separação”. Em vez de abordar o tema com o peso e o dramatismo do costume, Lily faz o contrário, tentando disfarçar o seu sofrimento através de canções irresponsavelmente bem-dispostas. Allen queixa-se na mesma do bandalho que lhe partiu o coração mas fá-lo sempre com ritmos caribenhos que reclamam protector solar. Em vez de rebolar no lodo da depressão, Lily finge estar por cima, arrasando o seu ex com o seu sarcasmo demolidor (Nota mental: nunca pedir Lily Allen em namoro).

Todo o disco vive dessa tensão entre a inocência sonhadora da música e a malícia filha da puta das letras. Lily é tão corrosiva e resmungona e mal-educada  que a nossa impressão inicial é que não passa de uma grandessíssima cabra. Demora tempo até percebermos que por detrás desta capa de cinismo se encontra afinal uma imensa vulnerabilidade. Em “Littlest Things” – porventura a canção mais bonita do disco -, deixa, por fim, cair a máscara, recordando com ternura e saudade os pequenos nadas de um amor perdido.

É neste complexo jogo de espelhos que se faz um grande disco.



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