terça-feira, 30 de janeiro de 2024

Discografias Comentadas: ZZ Top (Parte II)

 

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Era hora de dar início ao domínio mundial. Portanto, Billy Gibbons, Dusty Hill e Frank Beard entraram em estúdio sabendo exatamente o que queriam para seu oitavo disco. Pelas vendas e reconhecimento, pode-se dizer que conseguiram com louvores, mas a história da banda pós anos 70 não fica só nisso. Ela é riquíssima e cheia de pérolas a serem descobertas pelos entusiastas. Caso você esteja curioso para saber como foi o desempenho do grupo nesse período, acompanhe o texto abaixo e, claro, não esqueça de comentar o que achou ao final.


EliminatorEliminator [1983]

O ápice. E em todos os sentidos: o disco mais vendido, o mais aclamado pro crítica e público, o mais arriscado em termos de som, e mais um monte de outras qualidades que não me vieram à memória ao redigir este texto. A sonoridade disco eletrônica apenas pincelada em El Loco fora levada às últimas consequências, conseguindo um híbrido inusitado da sonoridade southern agreste com a disco e a synthpop dos anos 70. O resultado é um caminhão de hits instantâneos, músicas que entraram para o panteão de clássicos eternos do rock e a construção do visual definitivo do trio: óculos escuros, o famoso Ford Coupé ’33 em grande parte dos clipes e futuras capas de discos e os icônicos instrumentos felpudos. A icônica sonoridade deste, e dos futuros discos do trio, deve-se a outro trio: os engenheiros de som Terry Manning e Linden Hudson e o empresário da banda, Bill Ham. Os problemas com músicas não creditadas começam aí pois, com o lançamento do disco, Hudson alegou que não recebeu crédito algum por grande parte dos arranjos e sintetizadores utilizados no disco. O caso foi parar na justiça, levando a banda a pagar uma quantia próxima de U$600 mil e ter seu nome creditado pelos arranjos da faixa “Thug” (créditos dessa informação ao Music on the Run). Já deixo claro que os 5 singles lançados (à saber: “Gimme All your Lovin’”, “Got Me Under Pressure”, “Sharp Dressed Man”, “TV Dinners” e “Legs”) são discoteca básica para qualquer rockeiro metido à fodão, portanto, quero me reportar às músicas menos faladas. “I Need You Tonight” é uma excelente balada blues sentimental feita com guitarras com feeling para dar e vender. “I Got the Six” vai fundo no hard rock, auxiliado pelos vocais de Dusty Hill em primeiro plano. “Thug”, a música que gerou confusão com produtores, é a que mais abusa de teclados e efeitos digitais, definitivamente uma música com a cara dos anos 80. “Dirty Dog” economiza nas bases de guitarra, deixando os destaques para teclados e baixo fazerem as vezes dos riffs, reservando o brilho da guitarra para o solo. “If I Could Only Flag Her Down” é um southern com um belo solo blues de Gibbons, enquanto “Bad Girl” é outro hard rock entoado por Hill com uma levada disco contagiante, um belo encerramento para um disco que beira a perfeição. Resumindo este monte de coisas que falei em poucas sentenças, diria: ouça AGORA!


AfterburnerAfterburner [1985]

Aquele velho ditado futebolístico também vale (mais ou menos, eu diria) para o meio artístico. O ditado, no caso é o “Em time que está ganhando, não se mexe”, e ele cabe perfeitamente aqui. Talvez percebendo a excelente receptividade e as altas vendas de Eliminator, o trio e seus produtores entram em estúdio para registrar basicamente um Eliminator II. O resultado? Diria que é satisfatório, a anos luz da quase perfeição do disco anterior, mas um disco que caminha confortavelmente pelo caminho de tijolos dourados que eles mesmos pavimentaram 2 anos atrás. Dentre os destaque: “Stages”, mais disco que rock, mas nem por isso ruim, com um refrão de assimilação imediata. “Sleepin Bag” cativa pelas batidas de bateria eletrônica, uma ótima faixa de abertura. “Can’t Stop Rockin’” é o típico hard rock cantado por Dusty Hill e, como sempre, eficiente à que veio. Pondo fim aos destaques, cito “Planet of Woman”, bom hard rock de riffs fortes e uma das que menos exageram no uso de trechos de sintetizadores. Confesso que raramente escolho este disco quando quero ouvir algo do ZZ Top. À meu ver, é um disco com a cara dos anos 80 e seus excessos eletrônicos, mas que não envelheceu tão bem quanto seu irmão mais velho, mas vale a audição pelos seus pontos positivos.


RecyclerRecycler [1990]

O disco à inaugurar os anos 90 para o ZZ Top também é o último disco sob contrato com a Warner, que posteriormente viriam a assinar com a RCA. Descaradamente mais conciso e contido nas exuberâncias disco, Recycler, além de ser muito superior ao disco anterior, também dá o primeiro passo – mesmo que tímido – para o retorno ao som mais simples e clássico do trio. Ainda há muito da roupagem oitentista desenvolvida com primor em Eliminator, porém, não utilizado com tanta intensidade como em Afterburner, disco que se perde em excessos incontáveis vezes. O resultado dessa dosagem é um disco mais agradável aos ouvidos, onde voltamos a ouvir uma bateria minimamente orgânica, com boas músicas e algumas boas pérolas. À começar por “Concrete and Steel”, ótima faixa de abertura, com um balanço muito interessante. “Lovething” segue com um ótimo andamento, com ótima distorção no baixo e ritmo hipnótico. “Penthouse Eye” retorna aos bons tempos de blues rock em uma música cheia de malícia e ótimo refrão. “Tell It”, por fim, é simples, segue exatamente a linha de um bom southern com sintetizadores.


AntennaAntenna [1994] 

O primeiro disco junto à RCA viria apenas 4 anos depois de Recycler, e é daqueles que te recebem na base da grosseria, com um dos riffs mais pesados da banda até a data. A surpresa de poder voltar a ouvir um riff de guitarra livre de sintetizadores torna a audição de Antenna muito mais agradável comparado aos dois discos anteriores. A pegada rústica e influência da sonoridade texana e country definitivamente voltaram, mas isso não quer dizer que o disco parece saído dos anos 70. A gravação é uma das mais cristalinas e bem mixadas da banda. A bateria ganhou corpo e muitas vezes toma a linha de frente nas músicas de forma poderosa. O baixo ainda apresenta os resquícios dos sintetizadores e distorções, mas são efeitos que mais acrescentam do que atrapalham, enquanto as linhas de guitarra soam muito agradáveis e voltam a apresentar a assinatura básica de Billy Gibbons. Vale também ressaltar que este é o primeiro disco a contar com Gibbons na produção junto do empresário Bill Ham, algo que pode ter influenciado nessa volta ao básico. No geral, é um disco de audição agradável e homogênea, sem nenhum clássico para posteridade, mas com faixas que ficam no subconsciente de qualquer fã do grupo. Destaco a excelente abertura, “Pincushion”, dona de um riff de chutar a porta. “Breakaway” quebra o ritmo intenso com uma boa faixa cadenciada e baseada no blues-country cheio de swing e malícia na interpretação de Gibbons. O destaque de Dusty Hill nos vocais aqui é “World of Swirl”, um ótimo hard rock onde Hill usa mais de vocais rasgados do que sua costumeira voz aveludada. Por fim, “Girl in a T-Shirt” evolui de um riffzinho besta para uma música de pegada inusitada (apenas ouça, você entenderá). Antenna, apesar de não possuir nenhum clássico e passar quase batido na discografia do trio, vale e muito a conferida. É um disco nivelado, de audição agradável e até divertido.


RhythmeenRhythmeen [1996] 

O intervalo entre discos diminuiu, e dois anos depois já pôde-se conferir o segundo passo da banda para longe dos anos oitenta. O resultado disso é outro disco bem nivelado, com pelo menos uma música memorável e um algo mais no tempero. Billy Gibbons volta a assinar a produção junto de Bill Ham aqui, trazendo mais intensamente o peso dos instrumentos e uma produção mais “na cara”, mas não é só nisso que Rhythmeen chama a atenção. Este é disparado o disco mais pesado e sombrio da banda. Há menos ênfase em músicas com pegada boogie ou rockabilly. Aqui, o blues mais sujo e arrastado dita as regras do disco, dando uma singularidade muito bem vinda ao registro. A mixagem dos instrumentos também chama a atenção. O baixo de Dusty Hill nunca esteve com tanta evidência, dando peso extra muito bem vindo para as composições. A bateria também ganhou mais profundidade e a guitarra ficou mais encorpada, por vezes até usando fuzz em algumas faixas (“Bang Bang”). Explicitando esse novo direcionamento, “Vincent Price Blues” chega a assustar os desavisados com seu andamento arrastado e riffs blues quase demoníacos (guardadas as devidas proporções). “She Just Killing Me” também se destaca pelo seu extenso trecho improvisado e ritmo constante. Vale citar que ela foi escolhida para fazer parte do clássico trash From Dusk ‘till Dawn, do diretor Robert Rodriguez (inclusive o clipe de divulgação é estrelado por George Clooney e Salma Hayek e dirigido pelo próprio Rogriduez). “Hairdresser” traz o country cortante como base, além de outra linha de baixo estrondosa. Fechando os destaques, “My Mind is Gone” possui refrão simples feito com efeitos de reverb, mas conquista pelo clima penetrante e ótimos riffs. É um disco mais variado que Antenna, alcançando, no geral, resultados positivos na maioria das faixas. Só fico um tanto decepcionado pela falta uma faixa de qualidade tendo Dusty Hill comandando as vozes (aqui, Hill só registrou os vocais em “Loaded”, um hard rock distorcido e que não convence muito).


XXXXXX [1999]

O triplo “X” do título foi uma alusão ao trigésimo aniversário da banda, comemorado com um disco não tão festejado pelos fãs, muito menos pelo próprio trio, que dificilmente lembra dele na hora de construir a tracklist de suas apresentações ao vivo. Colocado frente a frente com os dois lançamentos anteriores, é visível que a qualidade é mais baixa, com várias faixas que estão ali mais para completar o tempo do disco, além de alguns dos momentos mais vergonhosos dos trinta anos vividos pelo trio até o momento. Porém, o disco não é uma desgraça completa. Perdido entre engôdos raps ridículos (“Crucifixx-a-Flatt”), blues modorrentos (“Made into a Movie”) e colagens eletrônicas sem sentido (“Dreadmonboogaloo”) estão algumas pérolas que apenas os texanos são capazes de fornecer ao mundo. “Fearless Boogie” é um ótimo boogie que convida qualquer um à uma dança. A parte ao vivo do disco é algo que definitivamente deve ser conferida deste disco. Introduzida pelo icônico radialista Ross Mitchell, ela tem início com uma versão alterada de “Pincushion”, do Antenna, aqui renomeada como “Sinpucher”. “(Let me Be) Your Teddy Bear” é um surpreendente country entoado com poder por Dusty Hill. “Hey Mr. Millionare” carrega consigo a colaboração sempre bem vinda de Jeff Beck nos vocais principais, além de uma bela trilha de baixo e riffs bem sacados de Gibbons e Beck. Pondo um ponto final nesta celebração, “Belt Buckle” encerra de maneira equivocada o disco com uma música de ritmo sem graça e vocais mal editados. Sim, definitivamente o pior disco da carreira do ZZ Top, mesmo carregando consigo a boa intenção de ser uma celebração aos 30 anos de carreira. Vale a pena pelas faixas registradas ao vivo. Quanto ao material de estúdio, passe batido, pois não há muita coisa digna de atenção.


MescaleroMescalero [2003]

Último disco sob contrato com a RCA, Mescalero também é o primeiro disco do ZZ Top a não contar com a produção de Bill Ham, tendo Gibbons assumido as rédeas da produção e muito possivelmente do direcionamento musical. Assumindo alguns riscos muito interessantes, não é exagero algum dizer que este é o melhor disco da banda sob contrato com a RCA. Usando com mais intensidade influência de folk norte americano e mexicano, tejano e, claro, country, o saldo final é um disco de 16 faixas homogêneo, além de surpreender o ouvinte com uma ou outra novidade entremeada pelas costumeiras canções southern. Vale citar que o uso de distorções e fuzz nas guitarras e até no baixo é uma constante no disco todo, mas estão longe de trazer o mesmo clima pesado de Rhythmeen. Os destaques do disco: “Mescalero” dá as boas vindas com guitarras pesadas, simpáticas marimbas e Billy Gibbons cantando em espanhol: faixa curiosa, no mínimo, mas muito interessante. “Alley-Gator” junta guitarras pesadas e gaitas em um ritmo cheio de groove. “Goin’ So Good” é a balada country do disco, com belo uso de steel guitar. Dusty Hill só registra uma música como voz principal, e é na ótima “Piece”, hard rock pesadíssimo e que não faria feio frente às bandas de hard rock da época. Por fim, “Cruchy” é um grosseiro southern rock com linhas de baixo marcantes. Conciso, arriscado, com várias ideias bem utilizadas e músicas memoráveis, Mescalero é um belo acerto depois de um disco deveras decepcionante. Audição recomendada.


La FuturaLa Futura [2012] – (Por Bruno Marise)

La Futura é o retorno em estúdio do ZZ Top após nove anos e traz uma belíssima volta à forma, com uma sonoridade inspirada fortemente na fase setentista da banda: Blues rock pegajoso, rasgado e cheio de malícia. Billy Gibbons apresenta uma voz rouca e envelhecida, que em alguns momentos chega a lembrar Tom Waits. O que poderia ser um problema para muitos cantores, acaba caindo muito bem no som do trio, e dando um charme a mais ao álbum, além de uma dinâmica interessante no contraste com os backing vocals límpidos e melódicos de Dusty Hill. O longo tempo afastado das gravações parece ter feito um bem danado ao grupo, que soa renovado e inspiradíssimo, não devendo nada aos seus melhores trabalhos. E isso parece ser uma característica marcante do produtor Rick Rubin: Fazer com que o artista busque a sonoridade de sua fase clássica , deixando a música fluir da maneira mais espontânea possível. O frescor das canções é impressionante, e a produção mais crua dá uma bela atmosfera, registrando a sempre simples e competente cozinha e deixando a guitarra de Gibbons brilhar, com seu timbre inacreditavelmente único. Se os barbudos do Texas seguirem nesse nível altíssimo, que continuem na ativa por muito tempo e nos presenteiem com mais álbuns como La Futura.

Fim do post


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