Mais do que qualquer um dos dez álbuns anteriores do Metallica, 72 Seasons exige que o ouvinte absorva, sinta e entenda o que James Hetfield está cantando. As letras são parte fundamental da força do disco e colocam as canções em outra dimensão. James nunca se despiu tanto e mostrou, sem filtro, seus medos, problemas e questões como aqui. O lado bom, o mau e o feio do líder do Metallica está escancarado, notadamente nos versos de canções como “Shadows Follow”, “Screaming Suicide”, “Chasing Light”, “If Darkeness Had a Son” e “Room of Mirrors”.
Musicalmente, o que ouvimos equilibra a sonoridade apresentada em Harwired ... To Self-Destruct (2016) com mais elementos da NWOBHM e uma dose extra de agressividade e urgência. Saem as melodias e os ganchos fartos do último álbum, e em seu lugar surge a fúria e a violência, ingredientes que não apenas conversam, mas amplificam os temas abordados por Hetfield.
72 Seasons teve a produção assinada por James e Lars Ulrich com Greg Fidelman, o mesmo trio do disco anterior. O trabalho traz doze músicas e inclui a canção mais longa da carreira do Metallica, “Inamorata”, que encerra o álbum. O título faz menção aos dezoito primeiros anos de vida de qualquer pessoa, período em que as experiências que vivemos na infância e adolescência moldam grande parte da nossa visão de mundo. No caso do Metallica, 72 Seasons aplica esse conceito à vida de James Hetfield, alma e coração da banda, e que passou por uma reabilitação e um divórcio nos anos recentes.
A palavra que melhor define 72 Seasons é autenticidade. O álbum soa autêntico e verdadeiro do início ao fim, sem, por exemplo, as referências cansativas ao passado presentes em Death Magnetic (2008). E aqui vale um ponto: muitos fãs gostam de usar o argumento, bastante raso é bom frisar, de que um quarteto de músicos milionários como James, Lars, Kirk Hammett e Robert Trujillo tem como última prioridade aquilo que o tornou famoso: a música. Se fosse assim, não teríamos shows beirando as três horas e com setlists diferentes a cada noite. E, principalmente, se o pensamento da banda estivesse longe da música e os quatro estivessem acomodados como muitos pensam, não gravariam um álbum como 72 Seasons à essa altura da carreira, com letras tão francas onde seu líder se expõe sem medo de opiniões alheias em plena era do cancelamento.
Vale mencionar o quanto os quatro singles divulgados antes do disco – “72 Seasons”, “Screaming Suicide”, “Lux Æterna” e “If Darkeness Had a Son” – ganham muito mais força no contexto do álbum. A música título abre o trabalho com um ataque metálico contundente e repleto de mudanças de andamento, já deixando claro a fúria e a selvageria que permeiam todo o disco. “Screaming Suicide” aborda um tema cada vez mais em pauta, onde James relata suas experiências pessoais enquanto lança uma luz de esperança em quem passa por momentos difíceis. “Lux Æterna” é a mais rápida das canções e agradará os fãs que, mesmo depois de 35 anos do último álbum totalmente thrash metal da banda - ... And Justice for All, lançado em setembro de 1988 -, ainda sonham com um retorno da sonoridade dos quatro primeiros discos, o que nunca acontecerá. “If Darkeness Had a Son” traz uma das melhores letras de 72 Seasons e, musicalmente, é a que mais se aproxima de Hardwired ... To Self-Destruct com seu andamento cadenciado e melodia constante. As quatro estão entre os destaques do disco.
“You Must Burn!” segue a tradição de “Sad But True”, enquanto “Crown of Barbed Wire” e “Chasing Light” poderiam estar no álbum anterior. “Too Far Gone?”, ainda que na parte instrumental não esconda e inspiração em canções já gravadas pela banda e que usam praticamente a mesma fórmula, também demonstra que fazer o mesmo com energia e sangue nos olhos ainda funciona - e esse modo de ver as coisas não está muito distante de vários gêneros do metal que se agarram com unhas e dentes a uma fórmula pré-definida e não conseguem se afastar dela, sendo os exemplos mais notórios o power e o próprio thrash metal.
Com mais de onze minutos de duração, “Inamorata” encerra 72 Seasons e é a canção mais longa já gravada pelo Metallica. Andamento cadenciado, doses massivas de peso e riffs cortantes são a base para uma letra onde James admite que, do alto das suas quase seis décadas de vida, ainda segue lutando contra seus demônios uma batalha que, todos esperamos, fique mais branda nos anos que virão. A parte central traz lindas melodias de guitarra, com a banda diminuindo o ritmo e intensificando a sensibilidade, em um encerramento em grande estilo.
72 Seasons, assim como James, não é sinônimo de perfeição. Enquanto as falhas de James Hetfield fazem com que ele fique mais próximo dos fãs, como vimos na recente passagem da banda pelo Brasil quando, durante o show em Belo Horizonte, ele falou da sua depressão e chorou no palco, os problemas de 72 Seasons (a falta de variação e a ausência de riffs que cativam de imediato sendo os mais evidentes) mostram uma banda que não só não tem medo de se mostrar como realmente É, mas principalmente como realmente ESTÁ no momento. O que, vale lembrar, o Metallica já fez em diversos momentos marcantes como em ... And Justice For All (onde a pretensão consciente foi uma ferramenta para mostrar que poderiam seguir sem Cliff Burton, gerando canções com um grau de complexidade nunca mais repetido), Black Album (quando deixaram para trás o thrash metal e se transformaram em uma banda universal), Load (quando ignoraram o posto de maior banda de metal do mundo e fizeram um álbum com influências de rock alternativo, southern e country) e St. Anger (em que o processo que quase levou a banda ao fim com a saída de Jason Newsted e a reabilitação de James foi transformada em um disco prejudicado pela péssima produção).
Como todo álbum do Metallica, 72 Seasons é bem-vindo. Já foram inúmeras temporadas de nossas vidas tendo a banda como trilha sonora, e muitas ainda estão por vir.
.jpg)

Sem comentários:
Enviar um comentário