sábado, 20 de abril de 2024

Lula Côrtes e Zé Ramalho ‎"Paêbirú" 1975

 



Esta colaboração dos artistas brasileiros Lula Côrtes e Zé Ramalho foi gravada em 1974, lançada no ano seguinte e permaneceu praticamente inédita durante 30 anos devido a um incêndio em um armazém que destruiu quase todos os exemplares existentes. Um destino curiosamente adequado para um álbum dedicado aos quatro elementos: terra, ar, fogo e água, cada um dos quais domina um lado deste LP duplo. Quando finalmente surgiu, as pessoas ficaram surpresas com a dificuldade de categorização. A ligação óbvia com o movimento Tropicália  está aí, mas “Paebiru” vai muito além daquela conhecida mistura de jazz, rock psicodélico, samba e vanguarda. Às vezes lembra os roqueiros Kraut experimentais dos anos 70, como Amon Duul e Can, outras vezes soa como o trabalho de descolados do século 21 com uma vasta biblioteca de sons e software de mixagem altamente avançado. Agora que penso nisso, eu poderia dizer que é uma música hippie brasileira chapada e descrevê-la da forma mais completa possível em 2.000 palavras. Mas não seria justo: “stoned jams” implica que não há melodia ou estrutura quando na verdade estas existem, nem que seja para fornecer a estrutura dentro da qual os músicos perseguem livremente a sua musa. O lado Terra começa com a quase convencional "Trilha de Sumé", um samba psicodélico movido pela percussão, com flautas vibrantes e vocais relaxados, não muito diferente dos primeiros lados de Giberto Gil. Segue-se o quase cacofónico "Culto à Terra" com tambores tribais, cantos e guitarra eléctrica fuzzed, e o encantador e melódico "Bailado das Muscarias" com flauta, piano e guitarra acústica. O lado Air  é composto pelas belas e introspectivas "Harpa Dos Ares" e "Omm" e pela mais experimental "Não Existe Molhado Igual Ao Pranto" com seus vocais cantados e sax bebop. O lado Fire começa com "Raga Dos Raios" quebrando o silêncio com guitarras acid fuzz uivando em um cenário de sons indianos. O rock “Nas Paredes de Pedra Encantada” tenta nos atrair para a pista com sua batida propulsora, vocais soul e órgão. Essa vibe continua com uma peça experimental com batida dançante chamada "Marácas de Fogo". A águao lado abre com cantos africanos de "Louvação a Iemanjá" e continua com improvisações psicodélicas de violão em "Regato da Montanha". "Beira Mar" é um interlúdio de violão folk, seguido da alegre "Pedra Templo Animal" e da coda instrumental "Trilha de Sumé part2". Este álbum é um deleite raro para os aventureiros musicalmente, mas também tem momentos suficientes de beleza pastoral e diversão exultante para prender o ouvinte casual. Dificilmente se pode acreditar que ainda existam “obras-primas perdidas” no mundo, mas de vez em quando surge um disco como “Paêbirú” e prova que estamos todos errados. Esperamos que haja mais surpresas como essa por vir...




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