A história por trás de projetos gráficos de discos marcantes, do samba, ao rock, passando pelo metal, MPB ou manguebeat
Quem nunca descobriu um artista ou banda apenas porque foi fisgado pela arte do álbum? Afinal, o principal feito do design gráfico de uma grande capa, seja ela física ou digital, é despertar no ouvinte o desejo de escutar a obra que apresenta.
Os caminhos para alcançar este objetivo, no entanto, são muitos: a capa pode tanto condensar e antecipar o conteúdo do álbum, quanto deixá-lo em aberto, optando por sugerir ao invés de revelar.
Pode ser extremamente minimalista, como o "Álbum Branco", dos Beatles, ou empilhar elementos, como é o caso de Disraeli Gears, do Cream.

Pensando nesta simbiose entre música e design, selecionamos 10 capas icônicas da música brasileira de estilos distintos, do samba, ao rock, passando pelo metal, MPB ou manguebeat e contamos um pouco da história por trás delas.
Tropicália ou Panis et Circensis | Vários | 1968
Desenvolvida pelo artista Rubens Gerchman, a capa do disco que revolucionou a Música Popular Brasileira e juntou Caetano Veloso, Gal Costa, Gilberto Gil, Nara Leão, Os Mutantes e Tom Zé, parece se inspirar no clássico dos Beatles, Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, lançado um ano antes, mas também pode ter bebido de outra fonte: o retrato dos modernistas da Semana de 22.
Seja como for, ela é repleta de referências e mensagens subliminares. A pose do grupo imita as fotografias de família da época e a predominância do verde e amarelo reforça as cores da bandeira brasileira.

Rogério Duprat, maestro e arranjador do disco, segura um penico como se fosse uma xícara, numa possível alusão ao mictório de Marcel Duchamp.
O compositor Tom Zé, representando o retirante nordestino, carrega uma mala e os irmãos Baptista, de Os Mutantes, empunham suas guitarras (então instrumento polêmico, que havia inclusive motivado uma marcha de protesto no ano anterior).
Secos & Molhados | Secos & Molhados | 1973
Se alguém, na madrugada em que as fotos eram feitas, entrasse no estúdio e dissesse para os quatro músicos que a imagem das quatro cabeças servidas em bandejas, numa clara crítica à ditadura militar brasileira, viria a ser eleita pela Folha de S. Paulo, em 2001, a melhor capa de disco da música brasileira, eles provavelmente não acreditariam.
Sentados sobre tijolos, sentiam frio. As cabeças maquiadas, expostas ao calor das lâmpadas, suavam. Na verdade, toda a sessão de fotos do álbum de estreia dos Secos & Molhados, concebida e realizada pelo fotógrafo do jornal Última Hora, Antônio Carlos Rodrigues, foi marcada pela precariedade.

Em valores corrigidos, o orçamento não passava de 80 reais. Os alimentos utilizados vieram de um supermercado vizinho e a mesa, um compensado fino de madeira, foi serrada pelos integrantes da banda.
Uma prova de que o que conta, mais do que os recursos materiais, são as ideias.
A Tábua de Esmeralda | Jorge Ben Jor | 1974
O melhor trabalho de um dos grandes inovadores da MPB, considerado pela Rolling Stone o sexto melhor álbum da história da música brasileira, pedia uma apresentação à altura.
A tarefa ficou a cargo do artista carioca Aldo Luiz, que a cumpriu com louvor.

A ilustração da capa, que abusa de cores vibrantes, funciona como uma espécie de guia para as faixas do disco.
Representa o anúncio da chegada dos alquimistas (Os Alquimistas Estão Chegando), os deuses astronautas (Errare Humanum Est), o alquimista Paracelso (O Homem da Gravata Florida), a Tábua de Esmeralda (Hermes Trismegisto e sua Celeste Tábua de Esmeralda), entre outros.
Clube da Esquina | Milton Nascimento e Lô Borges | 1972
Uma das imagens mais reconhecíveis no imaginário da música popular brasileira, certo? Menos para os personagens.
Antônio Rimes e Antônio Carlos de Oliveira, os meninos fotografados na beira de uma estrada por Carlos da Silva Assunção Filho, o Cafi, sequer sabiam da existência do álbum até serem procurados por um repórter do jornal O Estado de Minas, em 2002.

Pela força da fotografia, escolhida pelo próprio Milton Nascimento, todas as informações do disco, incluindo o título e uma foto dos dois músicos, foram deixadas para o verso.
Curiosidade: a imagem que ilustra Heresia, o álbum de estreia do rapper Djonga, um dos maiores nomes do hip-hop brasileiro em anos recentes, é uma releitura desta capa.

<atrás/além> | O Terno | 2019
A capa do quarto álbum de estúdio do trio paulistano O Terno, nascida de uma intervenção sobre o "Álbum Branco", dos Beatles, abusa dos espaços vazios.
A ideia partiu do vocalista e compositor do grupo, Tim Bernardes, e foi realizada pela artista gráfica Maria Cau Levy.

A proposta é minimalista: três círculos coloridos, que representam os álbuns já lançados, em alto relevo sobre um fundo branco.
Acima dos círculos, o nome da banda separado silabicamente: "o" "ter" "no". A divisão pretende ressaltar o reconhecimento da individualidade dos integrantes.
Verde Que Te Quero Rosa | Cartola | 1977
Talvez o maior poeta do samba brasileiro, Angenor de Oliveira, o Cartola, teve uma estreia tardia no mercado fonográfico, em 1974, aos 66 anos.
Sua imagem mais emblemática, no entanto, é a que ilustra o terceiro álbum de estúdio, Verde Que te Quero Rosa, lançado três anos depois. Por muito pouco, ela quase não aconteceu.

Avesso às fotografias, Cartola fez o que pode para fugir das lentes de Ivan Klinger, que precisou ir até a casa do compositor para fotografá-lo.
Klinger contou com um golpe de sorte: enquanto o sambista e o fotógrafo conversavam, Dona Zica, a esposa de Cartola, serviu café num jogo de louça nas cores verde e rosa - as mesmas do título do disco, em homenagem à escola de samba Estação Primeira de Mangueira, da qual era um dos fundadores.
O olho treinado de Klinger percebeu a beleza do momento e fez o registro que estamparia um dos grandes álbuns da música brasileira.
Cabeça Dinossauro | Titãs | 1986
Primeiro disco de ouro da banda paulistana — e também o mais pesado — Cabeça Dinossauro traz clássicos como Família, Bichos Escrotos, Polícia, Homem Primata.
Na sonoridade, além da influência óbvia do punk, são perceptíveis elementos de reggae e funk.

A ilustração da capa, que expressa o conteúdo visceral da obra, é de ninguém menos que Leonardo da Vinci. Trata-se do esboço A expressão de um homem urrando, cedido pelo Museu do Louvre.
Na contracapa, outra ilustração do artista italiano: Cabeça grotesca.
Roots | Sepultura | 1996
Não é exagero dizer que este álbum foi um divisor de águas no mundo do metal. Além da faixa Itsári, gravada com índios Xavante, Roots inovou ao trazer berimbaus e tambores ao lado de guitarras afinadas em tons mais baixos e foi o maior sucesso comercial da carreira do Sepultura - cerca de dois milhões de cópias vendidas.

A base para a capa foi o retrato de um menino indígena presente na nota de mil cruzeiros. A partir de uma fotocópia enviada pelo vocalista Max Cavalera, o artista Michael R. Whelan trabalhou para transmitir o conceito de "raízes" que norteia a obra.
Vivendo e não aprendendo | Ira! | 1986
Considerado por muitos o melhor álbum do grupo, Vivendo e não aprendendo traz um projeto gráfico inspirado nos quadrinhos.
A tipografia, tanto na capa quanto no encarte, procura imitar as fontes de HQs antigas, como Flash Gordon e Superman.

Para a capa, os membros da banda queriam algo mais conceitual e reuniram representações, em diferentes estilos, dos quatro integrantes.
Ana Ciça assina o retrato do baterista André Jung, Dora Longo Bahia o do guitarrista e principal compositor, Edgard Scandurra, Camila Tajber o do vocalista, Nasi e Paulo Monteiro o de Ricardo Gaspa, baixista.
Da Lama ao Caos | Chico Science & Nação Zumbi | 1994
Disco inaugural do Manguebeat, movimento que combina ritmos regionais brasileiros como forró, embolada e maracatu com rock, eletrônica, hip hop e funk, Da Lama ao Caos se encarregava da tarefa anunciada por Chico Science na faixa de abertura: "Modernizar o passado é uma evolução musical".

O projeto gráfico é assinado por Dolores & Morales, que correspondem respectivamente a Hélder Aragão, o DJ Dolores e ao cineasta Hilton Lacerda, sob pseudônimo.
Tendo como base uma fotografia de Fred Jordão, a capa foi criada por meio do recorte de fotocópias reticuladas, compostas manualmente na forma de um caranguejo, símbolo do Manguebeat.
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