terça-feira, 22 de abril de 2025

POEMAS CANTADOS DE CAETANO VELOSO

Os Outros Românticos

Caetano Veloso


Eram os outros românticos, no escuro

Cultuavam outra idade média, situada no futuro

Não no passado

Sendo incapazes de acompanhar

A baba Babel de economias

As mil teorias da economia

Recitadas na televisão

Tais irredutíveis ateus

Simularam uma religião

E o espírito era o sexo de Pixote, então

Na voz de algum cantor de rock alemão

Com o ódio aos que mataram Pixote a mão

Nutriam a rebeldia e a revolução


E os trinta milhões de meninos abandonados do Brasil

Com seus peitos crescendo, seus paus crescendo

E os primeiros mênstruos

Compunham as visões dos seus vitrais

E seus apocalipses mais totais

E suas utopias radicais


Anjos sobre Berlim

"O mundo desde o fim"

E no entanto era um SIM

E foi e era e é e será sim


Os Passistas

Caetano Veloso


Vem, eu vou pousar a mão no teu quadril

Multiplicar-te os pés por muitos mil

Fita o céu

Roda

A dor

Define nossa vida toda

Mas estes passos lançam moda

E dirão ao mundo por onde ir

Às vezes tu te voltas para mim

Na dança, sem te dares conta enfim

Que também

Amas

Mas, ah!

Somos apenas dois mulatos

Fazendo poses nos retratos

Que a luz da vida imprimiu de nós


Se desbotássemos, outros revelar-nos-íamos no carnaval

Roubemo-nos ao Deus Tempo e nos demos de graça à beleza total, vem


Nós

Cartão-postal com touros em Madri

O Corcovado e o Redentor daqui

Salvador

Roma

Amor

Onde quer que estejamos juntos

Multiplicar-se-ão assuntos de mãos e pés

E desvãos do ser


Ouro de Tolo

Caetano Veloso


Eu devia estar contente

Porque eu tenho um emprego

Sou um dito cidadão respeitável

E ganho quatro mil cruzeiros

Por mês


Eu devia agradecer ao Senhor

Por ter tido sucesso

Na vida como artista

Eu devia estar feliz

Porque consegui comprar

Um Corcel 73


Eu devia estar alegre

E satisfeito

Por morar em Ipanema

Depois de ter passado

Fome por dois anos

Aqui na Cidade Maravilhosa


Ah

Eu devia estar sorrindo

E orgulhoso

Por ter finalmente vencido na vida

Mas eu acho isso uma grande piada

E um tanto quanto perigosa


Eu devia estar contente

Por ter conseguido

Tudo o que eu quis

Mas confesso abestalhado

Que eu estou decepcionado


Porque foi tão fácil conseguir

E agora eu me pergunto "e daí?"

Eu tenho uma porção

De coisas grandes prá conquistar

E eu não posso ficar aí parado


Eu devia estar feliz pelo Senhor

Ter me concedido o domingo

Prá ir com a família

No jardim zoológico

Dar pipoca aos macacos


Ah

Mas que sujeito chato sou eu

Que não acha nada engraçado

Macaco, praia, carro

Jornal, tobogã

Eu acho tudo isso um saco


É você olhar no espelho

Se sentir

Um grandessíssimo idiota

Saber que é humano

Ridículo, limitado

Que só usa dez por cento

De sua cabeça animal


E você ainda acredita

Que é um doutor

Padre ou policial

Que está contribuindo

Com sua parte

Para o nosso belo

Quadro social


Eu que não me sento

No trono de um apartamento

Com a boca escancarada

Cheia de dentes

Esperando a morte chegar


Porque longe das cercas

Embandeiradas

Que separam quintais

No cume calmo

Do meu olho que vê

Assenta a sombra sonora

De um disco voador


Eu que não me sento

No trono de um apartamento

Com a boca escancarada

Cheia de dentes

Esperando a morte chegar


Porque longe das cercas

Embandeiradas

Que separam quintais

No cume calmo

Do meu olho que vê

Assenta a sombra sonora

De um disco voador


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