quarta-feira, 14 de maio de 2025

Garbarek, Gismonti, Haden - Magico, Carta de Amor (2012)

 

Continuamos com algo relacionado ao que foi apresentado ontem. Retirado de apresentações ao vivo no Amerika Haus de Munique por um trio que já havia se destacado com "Magico" (1980) e "Folk Songs" (1981), o álbum expande o material de ambos os trabalhos, ao mesmo tempo em que demonstra grande progresso, o que não é surpreendente dada a reputação consolidada dos três, e considerando que quase 18 meses se passaram desde a gravação de "Folk Songs" e apenas cinco meses após as sessões de "Magico". Este é um lembrete de como, a qualquer momento, os interesses de três artistas de origens e formações musicais muito diferentes podem se unir em sincronia excepcional, desenvolvendo um conjunto definido pela interação altruísta e pela exploração desenfreada, porém determinada. Um álbum duplo ao vivo que ficou guardado nos cofres da ECM até 2012, esta gravação apresenta uma banda experiente com um domínio perfeito de uma linguagem musical compartilhada, desenvolvida ao longo de um longo período de turnês juntos. Ideal para continuar a jornada musical do Maestro Gismonti...

 

Artista: Garbarek, Gismonti, Haden
Álbum: Magico, Carta de Amor
Ano: 2012
Gênero: Jazz fusion / World music / Alien music
Duração: 01:47:56
Nacionalidade: Multinacional


Você queria mais coisas do brilhante Gismonti? Aqui ela é um pouco acompanhada, em um álbum ao vivo que na verdade são dois álbuns ("Magico" de 1979 e "Folk Songs" de 1981). Gismonti disse sobre este trabalho que é como "uma mensagem em uma garrafa" que foi lançada há quase 30 anos. 
 
Mas antes de continuar, quero fazer uma pergunta à comunidade...
 

Garbarek não é na verdade uma versão musicalmente virtuosa de Jim Carrey?


Deixando as bobagens de lado, vamos falar do álbum "Mágico", lançado em 1979, seu sucessor veio naquele mesmo ano, quando os três mosqueteiros gravaram "Folks Songs". Pouco depois, em abril de 1981, Garbarek, Gismonti e Haden gravaram um concerto que Manfred Eicher, chefe da ECM, arquivaria até se perder nas prateleiras. Nessa apresentação, o trio tocou músicas dos dois álbuns, além de algumas composições próprias (como "Carta de Amor", "Branquinho" e "Dom Quixote", de Egberto Gismonti; a estreia de "All That Is Beautiful" e as influências hispânicas de "La Pasionaria", ambas de Charlie Haden, e "Two Folk Songs", de Jan Garbarek). E, trinta anos depois, essa é a sessão que compõe o álbum ao vivo que serve como o "novo retorno" de Garbarek, Gismonti e Haden.

Vou copiar um bom comentário do álbum, dizendo humildemente que isso está muito além de mim, então deixarei as palavras para alguém muito mais qualificado do que eu:
Gismonti disse sobre este trabalho que é como “uma mensagem em uma garrafa” que foi lançada há quase 30 anos. E é verdade que tem aquele sopro de um mundo distante e imaginado, como uma ilha na memória sentimental do ouvinte. Algo único e irrepetível, diferente de tudo o que os três fizeram depois, que ficou ali e agora nos é devolvido. Como iremos recebê-lo?
A recuperação de valiosos arquivos sonoros como os de Keith Jarrett e do quarteto nórdico no recente Sleeper anunciou um estimulante exercício de memória e também representou um posicionamento estratégico que poucas gravadoras como a ECM podem arcar no atual mercado fonográfico. Esta iniciativa é baseada em gravações ao vivo com edição de estúdio impecável por Manfred Eicher e Jan Erik Kongshaug. Este trio singular, fruto dos encontros que o produtor fomentou entre músicos fiéis ao seu estábulo, inscreve-se na busca de uma nova categoria estética, já que os criadores de categorias nos anos 70 foram Abercrombie, Garbarek, Walcott, Micus, Gismonti... Este lançamento e o anterior, e os esperados, incluem dois valores agregados ao produto em disco: um o contraste cronológico sobre a validade da obra e outro o envolvimento emocional do fã. Assim se completa o legado contido nessas duas preciosidades que são Mágico e Folk Songs, gravações muito próximas no tempo, entre o verão e o outono de 1979, lançadas justamente no ano em questão.
Alguém pode se perguntar como eles chegaram a coincidir e por que essa aliança nunca foi restaurada, exceto pelo show em Montreal entre Haden e Gismonti. O músico brasileiro chega à ECM com Naná Vasconcelos em Dança das cabeças (76). O interesse de Eicher pela sua produção a partir deste momento é evidente, prova disso são os seus álbuns Solo (78-79) e especialmente Sol do medio dia (77), nos quais já podíamos encontrar Garbarek (e Ralph Towner, Naná Vasconcelos e Collin Walcott). Por outro lado, Charlie Haden fez parte do quarteto americano de Jarrett e, depois de algumas apresentações, logo no início dos anos 80, ele adicionaria seu nome ao catálogo com a Liberation Music Orchestra (LMO) e a Ornettian Old and New Dreams.
Garbarek, que fazia parte do quarteto de Jarrett quando o grupo foi formado, gradualmente se afasta de um estilo estritamente jazzístico em direção a uma enunciação baseada no folclore que ganha força no próprio escandinavo e se espalha como discurso por meio de suas colaborações na gravadora, incluindo com Ralph Towner no excelente Dis (1976). Se Gismonti retornou de Paris ao Brasil para tocar violão e se viu seguindo os conselhos da pedagoga Nadia Boulanger, Garbarek explora melodias de herança norueguesa em sua imersão tradicional também através da flauta, de onde adota nuances de cor e intensidade no saxofone soprano. Haden vê o folclore de uma posição intelectual com o LMO, lendo com facilidade e inventividade coletivas as canções da Guerra Civil Espanhola e o cancioneiro revolucionário cubano.
Há dois elementos subjacentes nesses dados que são essenciais para entender esse encontro: a música de inspiração latino-americana e o violão. Isso, que matiza a tendência nórdica da gravadora, é encontrado não apenas nos álbuns anteriores do brasileiro, mas também em My Song, de Jarrett, e mais tarde em The Ballad of the Fallen, de Haden. Ligado à música latina estaria o violão acústico e o compromisso anterior, mais voltado à música panorâmica e coral difundida por Eicher, que foi o Sol Do Medio Dia.
Música clássica, improvisação limitada e folclore, dotados de grande respiração melódica, são os pilares deste trio. Gismonti, que dá continuidade à mensagem de Heitor Villalobos, é quem mais contribui com textos. Sua dualidade como instrumentista confere a este álbum dois perfis distintos, sendo a guitarra preferível devido ao som e à técnica pianística que aplica às guitarras de 8 e 10 cordas e a percussão no braço.
Mensagem em uma tela. Vermeer pintou A Carta de Amor em 1670. O alaúde no colo da mulher que o toca é prova de que a carta que ele recebeu contém algo sentimental. Outro instrumento de cordas, outra garrafa entregue ao oceano do tempo... A guitarra de Gismonti torna as ondas suaves e estranhas com figuras circulares, o saxofone de Garbarek sobe e invoca a letra da letra, enquanto o baixo curvado de Haden é o vento que balança a garrafa ao sabor da correnteza. Love Letter (Gismonti) abre e fecha esse encontro duplo com a delicadeza de um rio tranquilo que se funde com o mar. Apenas a canção folclórica (Garbarek) também aparece duas vezes, em versões diferentes, localizadas no meio de ambas. O álbum Folk Songs, de 1981, para este escritor, é mais rico, mais arriscado e mais original, com menos concessões ao sabor melódico do que Mágico, cuja influência se faz sentir numa segunda parte com uma propensão ao piano que parece impor, definhando o tom geral, sua exuberância lírica.
Com o tempo, e este álbum torna esse contraste possível ao ampliar os ângulos de visão, parece mais evidente que são as faixas baseadas em guitarra que dão a esse encontro sua verdadeira singularidade. As mais duradouras desta sessão, reforçando esta ideia, seriam Cego Aderaldo (o timbre do violão lembra o berimbau com aquele estranho “caipira” que o saxofone traz para o norte, unindo os índios mato-grossenses e os sami), a primeira versão de Folk Song (o cruzamento de um folclore com o sentimento de nostalgia, a alma do encontro) e Spor (teto do diálogo improvisado sob a abordagem estética que a gravadora privilegiou como introdução aberta, com resultado tímbrico, rítmico e melódico incomparável).
Além de Love Letter, há quatro novas faixas em comparação aos álbuns de estúdio. Haden, que utiliza o arco diversas vezes, algo pouco comum para ele, contribui com La Pasionaria, confirmando a linha com o que foi marcado posteriormente no LMO, mas aqui concentrado nas vozes e na adequada adaptação popular hispânica, e All that is beautiful, uma balada que está em consonância melódica com a tradição dos standards, mas que o saxofone de Garbarek aproxima do quarteto de Jarrett e leva para terrenos mais livres. Em geral, no segundo disco há uma maior preeminência do piano e isso leva a terrenos mais melodiosos, solos mais prolongados e pares. Branquinho e Dom Quixote (posteriormente incluídos em Duas Vozes) são assinados por Gismonti e refletem sua ambivalência instrumental tingida com o aroma cantante do álbum Mágico. Falta o pulso repetitivo de Equilibrista, peça para piano incluída em Canções Folclóricas que se desvia um pouco da bohonomia melódica e das cadências clássicas do brasileiro, entre o twist virtuoso e o olhar infantil, em que Palhaço não esconde conexões iniciais com My Song, de Jarrett.
Música que transita entre ideais e viaja no tempo e na geografia. Sons, culturas e sentimentos que, em seu auge, transcendem as três personalidades e quaisquer barreiras entre o popular e o acadêmico. Folclore imaginário, por assim dizer, com uma mensagem que chega até nós hoje com pouca resistência. Se alguma coisa, a descrença e o pensamento de que no passado tudo parecia diferente, novo e esperançoso.
Jesus Gonzalo


Se alguém estiver procurando o som acústico ideal e evocativo para introspecção, certamente o encontrará entre essas onze faixas encantadoras e longas que cobrem as diversas paisagens de beleza serena desenhadas ao longo do CD duplo. Melodias de saxofone, contrabaixo e guitarra se sucedem, às vezes animadas e às vezes melancólicas, mas sempre frescas e brilhantes.

E é exatamente isso que você vai ouvir no vídeo a seguir...


O som acústico, os estilos peculiares de cada um dos integrantes, a sonoridade tanto das guitarras inusitadas do brasileiro quanto do saxofone do norueguês, fazem com que cada música acabe se tornando uma espécie de comunhão entre os músicos para o público. A capacidade de Garbarek ou Gismonti de criar atmosferas é sustentada pelo tremendo Haden.

Este é um álbum onde três músicos incríveis em estado de graça fazem o que sabem fazer de melhor: criar belas paisagens sonoras tocadas ao vivo, levando o público em uma jornada pelas nuvens, pelo sol e pelas estrelas, em um álbum onde nada é deixado de fora.

E não escrevo mais, não precisa, ouça, leve, aproveite... Um álbum que não é um álbum, é uma maravilha, e não tem sentido escrever sobre ele, você só precisa aproveitar... aqui vamos nós com algo extraterrestre, algo que não é deste mundo, talvez o lançamento mais importante da gravadora ECM até hoje, com sons nunca antes ouvidos, interpretados por este vibrante trio de câmara.
 


Track List:
CD 1:
1. Carta de Amor
2. La Pasionaria
3. Cego Aderaldo
4. Folk Song
5. Don Quixote
6. Spor
CD 2:
1. Branquinho
2. All That Is Beautiful
3. Palhaço
4. Two Folk Songs
5. Carta de Amor, var.

Formação:
- Jan Garbarek / saxofones tenor e soprano
- Egberto Gismonti / guitarras, piano
- Charlie Haden / contrabaixo.






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