sexta-feira, 30 de maio de 2025

"Supertramp – Crisis? What Crisis? (1975)"


Tanto o título quanto o conceito da capa foram concebidos por Davies, como John Helliwell relatou: "Foi Rick quem criou o nome Crisis? Que Crisis?, e um dia, enquanto estávamos no Scorpio Studios, ele chegou com o esboço de um homem sentado em uma cadeira sob um guarda-chuva com todo aquele caos ao seu redor. Que Crisis? também aparece no filme Jackal.

Em junho de 2002, a A&M Records relançou uma versão remasterizada de Crisis? Que crise? juntamente com o resto do catálogo musical do grupo entre 1974 e 1987.

Todas as músicas foram escritas e compostas por Rick Davies e Roger Hodgson.

Lado A

«Calma, faz!»  Roger Hodgson  2:18

«Irmã Moonshine»  Roger Hodgson  5:14

"Não há ninguém além de mim"  Rick Davies  5:14

«Uma novela»  Roger Hodgson  4:54

«A Mulher de Outro Homem»  Rick Davies  6:16

Método B

«Senhora»  Roger Hodgson  5:24

«Pobre Garoto»  Rick Davies  5:07

«Apenas um dia normal»  Rick Davies  4:02

«O Significado»  Roger Hodgson  5:23

«Nós Dois»  Roger Hodgson  3:27


Supertramp

Rick Davies: vocais e teclados

John Helliwell: saxofone e backing vocals

Roger Hodgson: vocais, guitarras e teclados

Bob C. Benberg: bateria e percussão

Dougie Thomson: baixo

Equipe técnica

Ken Scott: produtor musical

John Jansen: engenheiro de som

Ed Thacker: Engenheiro Assistente

Richard Hewson: orquestração

Jay Messina: Remasterização

Greg Calbi: Remasterização

Existem álbuns que pegam você de surpresa, não porque estouram seus tímpanos com algo novo, mas porque eles entram na sua cabeça como se não fossem a intenção, e antes que você perceba, você está imerso neles, olhando para o teto e se perguntando o que está errado — ou certo — com sua vida. Crise? Que crise? é um deles. É um álbum que não grita, mas sussurra insistentemente. Ele não pretende ser o protagonista do seu dia, mas acaba se infiltrando até nos seus momentos mais íntimos. Como uma conversa tranquila, mas profunda, com alguém que você não sabia que precisava ouvir.

Lançado em 1975, este foi o quarto álbum do Supertramp e teve a difícil tarefa de seguir o sucesso inesperado de Crime of the Century. É fácil esquecer o quão pesado o peso das expectativas pode ser. Crise? Que crise? não tenta replicar a grandiloquência de seu antecessor. Em vez disso, ele se retira um pouco, entra em uma sala menos iluminada e de lá lança reflexões, ironias e melodias que, embora mais contidas, ainda são carregadas de uma sensibilidade notável.

A capa já dá pistas. Um homem em uma cadeira de praia, sob um guarda-sol amarelo brilhante, cercado por uma paisagem industrial cinza e decadente. É absurdo, é irônico e é exatamente o que o álbum quer dizer: em meio ao caos, fingimos que está tudo bem. Esse é o tom: um equilíbrio entre o leve e o existencial, entre o sarcasmo e a melancolia.

Musicalmente, o álbum mantém aquele DNA reconhecível do Supertramp: teclados quentes, saxofones que parecem pequenos oásis emocionais, percussão limpa e divertida, e aquela alternância vocal entre Roger Hodgson e Rick Davies, que mais parece uma conversa entre dois lados do mesmo ser humano do que uma batalha de egos. Hodgson tende ao etéreo, ao sensível. Davies é mais terroso, mais ácido. Essa dualidade é uma das armas secretas da banda.

Músicas como “Easy Does It” e “Sister Moonshine” abrem o álbum com um toque pastoral, mas com letras que já sugerem desencanto disfarçado de otimismo. Há uma ironia melódica constante: a música sorri, mas as palavras levantam uma sobrancelha.

Depois vêm preciosidades como “Ain't Nobody But Me”, onde Davies faz uma crítica à hipocrisia social, com um groove mais pronunciado e urgente. Ou “Soapbox Opera”, uma balada melancólica que parece tirada de uma peça em miniatura. É uma daquelas músicas que você não entende completamente, mas sente que ela lhe diz algo importante.

Talvez uma das faixas mais subestimadas do álbum seja “Another Man's Woman”, uma brincadeira de quase sete minutos em que o piano brincalhão assume o centro do palco e o sarcasmo de Davies atinge o ápice. Há uma teatralidade em sua voz que lembra um cabaré, mas não uma teatralidade glamorosa, e sim decadente, com fumaça no ar e olhares perdidos entre as bebidas.

O que causa a crise? Que crise? O que o torna especial não é tanto sua inovação (porque ele não a busca de fato), mas sua honestidade emocional. É um álbum de pessoas que já olharam para o vazio, que já sabem que o mundo não tem sentido, mas ainda assim decidem sentar ao piano e compor algo bonito. É uma forma de resistência silenciosa. Da arte em tempos incertos.

E embora na época tenha sido recebido de forma morna, visto como um álbum "menor" em comparação a Crime of the Century ou ao posterior Even in the Quietest Moments..., com o tempo ganhou uma espécie de culto silencioso. Porque há pessoas (e eu me incluo) que preferem esses álbuns imperfeitos, mais humanos, menos pensados ​​para impressionar. Discos que não precisam gritar para dizer que o mundo está de cabeça para baixo.

Crise? Que crise? É um álbum que não busca salvar o mundo, mas sim acompanhar você enquanto tudo desmorona um pouco. Tem o charme do introspectivo, do irônico e do melancólico, envoltos em uma produção elegante e sem excessos. É um álbum que fala com você se você estiver disposto a ouvir nas entrelinhas, entre os acordes, entre os silêncios.

E talvez essa seja a coisa mais valiosa que um álbum pode oferecer: não dar todas as respostas, mas fazer com que você sinta que não está sozinho em suas perguntas.



 ANÁLISE TÓPICO POR TÓPICO

1. Vá com calma

Ele abre o disco como se não quisesse incomodar ninguém. É uma saudação amigável, com uma melodia doce e um clima bucólico. Parece um suspiro resignado diante de um mundo que não entende.

“Calma, filho, calma…”

Não é uma música brilhante, mas serve ao propósito de abrir a porta para um mundo menos tenso do que o do álbum anterior.

2. Irmã Moonshine

Aqui o tom irônico já aparece. A música soa alegre, quase como uma caminhada no campo, mas a letra é uma crítica ao escapismo religioso/espiritual.

“Ah, eu acredito nas pessoas, não tenho nenhum plano mestre…”

Há um doce sarcasmo, como alguém sorrindo enquanto lhe diz que você está completamente perdido.

3. Não há ninguém além de mim

Rick Davies chega forte. Piano mais agressivo, timbre mais escuro. Aqui a crítica é mais direta: a hipocrisia social, o jogo das aparências.

"Você acha que sou apenas um preguiçoso, que vive de golpes de sorte."

A performance vocal é crua, com um groove muito bem trabalhado. É uma resposta seca a um mundo que julga sem realmente olhar.

4. Pobre Garoto

Uma jóia escondida. Swing leve, saxofone relaxado, um toque de jazz lounge.

A letra retrata um personagem resignado, que não tem nada, mas ainda parece encontrar consolo na simplicidade.

“Sou apenas um menino pobre, trabalho com minhas mãos...”

Há uma ternura aqui que raramente é encontrada em outras músicas da banda.

5. Apenas um dia normal

Um diálogo entre Hodgson e Davies, em seus tons contrastantes. É uma peça curta sobre rotina, desconexão emocional e melancolia cotidiana.

“E eu disse que sou apenas um garoto normal, que foi jogado na chuva…”

Uma das mais tristes do álbum. Os dois personagens cantam de perspectivas opostas que se cruzam sem se tocar. Magistral.

6. O Significado

É uma espécie de súplica espiritual, mas sem religião. Melodicamente encantador, com uma sensação que lembra um hino.

“Por que, por que vivemos neste mundo estranho?”

É a música mais existencialista do álbum. Ele não dá respostas, apenas deixa perguntas no ar.

7. Nós Dois

Uma balada de amor simples, honesta e quase ingênua. Muito acústico, minimalista. Não é a faixa mais poderosa do álbum, mas é um alívio bem-vindo de tanto questionamento existencial.

Ideal para uma tarde de domingo, quando você está lembrando de alguém que foi importante.

8. Senhora

Aí vem um pouco de energia de volta. É um pop mais direto, com uma melodia cativante e letras sarcásticas sobre amor e dependência emocional.

"Moça, se você cruzou a água, não acha que deveria?"

Funciona bem ao vivo. É um dos mais acessíveis.

9. Ópera de sabão

Uma mini-ópera, como o próprio nome sugere. Hodgson se destaca com uma performance dramática e uma estrutura incomum.

“Eu quero chorar... mas meus olhos nunca conseguem ficar secos.”

É cheio de emoção, com arranjos muito teatrais. Uma das mais complexas do álbum.

10. A Mulher de Outro Homem

O álbum termina com ironia e caos controlado. Davies dá ao seu personagem sarcástico uma performance de piano divertida e um final dramático.

É uma mistura de cabaré e jam session de rock progressivo.

“Não consigo dormir, não consigo dormir... Não consigo dormir mais.”

Ótimo final, muito teatral e autoconsciente. Como se o disco estivesse tirando a máscara e dizendo: "Bem, é isso. Boa sorte aí."

CONCLUSÃO:

Crise? Que crise? É o mais humano e acessível desta trilogia. Não é o mais completo (Crime) nem o mais elegante (Mesmo nos Momentos Mais Silenciosos...), mas tem algo que os outros não têm: uma honestidade calorosa, como uma conversa noturna entre amigos.

É um álbum para ouvir quando você não sabe se está se sentindo bem ou mal, quando está em pausa, quando tudo parece estar indo "normalmente", mas há ruído por dentro. O Supertramp não está em crise aqui... mas está se perguntando se deveríamos estar.


Ano: 1975-76.

A crise não era apenas um título irônico: era um estado de espírito, um reflexo do mundo e, em parte, deles mesmos.

Após o sucesso colossal de Crime of the Century, Supertramp se viu em uma encruzilhada: como seguir em frente sem se repetir? Como você mantém essa centelha criativa sem se esgotar ao longo do caminho? A resposta foi Crise? What Crisis?, um álbum mais introspectivo, menos brilhante na superfície, mas igualmente profundo.

A excursão começou com uma mistura de excitação e exaustão. Roger Hodgson, sempre espiritual e sensível, carregava um fardo invisível: o desejo de dizer algo mais com sua música. Rick Davies, o contrapeso perfeito, manteve o navio flutuando com seu tom mais cru e natural. Juntos, eles eram uma tempestade perfeita.

Os ensaios foram intensos. O som tinha que ser polido, mas vivo. E não foi fácil: músicas como “A Soapbox Opera” ou “Sister Moonshine” exigiam mais do que apenas execução; exigia emoção.

A primeira noite foi em Liverpool, uma cidade com história, energia e ouvidos exigentes. Quando as luzes se apagaram e “Easy Does It” começou a tocar, houve um silêncio reverente. Não foi um espetáculo, foi uma confissão coletiva.

A turnê os levou por todo o Reino Unido e Europa. Em cada cidade, um pequeno ritual: passagem de som, jantares rápidos, entrevistas apressadas e então... a mágica.

Em Amsterdã, depois de uma noite particularmente intensa, Roger escreveu algumas linhas em seu caderno:

As pessoas cantam 'Dreamer' como se fosse delas. É delas. Não nos pertence mais.

Rick, por outro lado, tomava seu uísque no camarim, olhando para o nada antes de cada show, repetindo para si mesmo sem parar: "Mantenha a calma, Rick. Mantenha a calma."

Às vezes dormiam em hotéis luxuosos, outras vezes em ônibus que cheiravam a suor e tabaco. Mas no palco, tudo isso desapareceu. O público se conectou com sua mistura de melancolia e esperança, de crítica social e beleza.

Em Paris, a turnê atingiu seu auge. O Olympia tremia a cada acorde. Durante “Lady”, a voz de Roger falhou brevemente, e essa imperfeição criou um momento perfeito. A plateia ficou em silêncio. No final do show, houve um silêncio por um segundo, como se ninguém quisesse quebrar o feitiço, e então uma ovação de pé que pareceu não ter fim.

No final da turnê em 1976, havia cansaço em seus olhos, mas também uma sensação de missão cumprida. Crise? Que crise? Não foi o sucesso comercial que eles esperavam, mas foi autêntico, e isso valeu mais.

A turnê foi um reflexo de quem eles eram: cinco músicos tentando entender o mundo por meio de sua arte, compartilhando essa busca com milhares de pessoas todas as noites.

E embora a história do Supertramp continuasse com mais sucessos e tensões, a Crise? turnê Que crise? Foi o ponto em que eles deixaram de ser apenas uma banda… e se tornaram algo mais: uma voz para tempos incertos.

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