Se Vinicius, de Moraes, estava certo (como certamente estava), e não há felicidade sem pares, sem casamentos de amizade, amor e música, a canção brasileira pode ser considerada muito feliz. Seus artistas, mesmo os maiores, aqueles que se autossuficientes, vivem de pares, compondo ou cantando juntos. Se há rivalidade entre alguns, é um pecado que se dissolve quando, por algum motivo, se juntam. Assim, pelo menos, o hábito de "convidados especiais" que os músicos brasileiros cultivam em seus shows e discos é saudável (e muitas vezes enriquecedor). Um hábito geralmente chamado de "Duetos".
Chico Buarque tem sido um dos convidados mais requisitados. Os convites provavelmente vieram principalmente por dois motivos: o primeiro, óbvio, é seu prestígio pessoal e artístico. Quem não gostaria de tê-lo como parceiro? O outro motivo, não tão óbvio, reside no fato de Chico — o mestre letrista, o compositor admirável — ter se formado em contato próximo com a música popular. Antes de começar a compor, ele ouviu. E ouviu muito. Das marchinhas de carnaval que cantava na infância, a portas fechadas, fingindo ser um artista de rádio, a todo tipo de músicas que era obrigado a tirar do bolso durante aqueles concursos de televisão "Esta noite se improvisa".
Sua intimidade com as mais variadas formas, com inúmeros gêneros, talvez não tenha influenciado o compositor, cujo estilo é seu e inalienável, mas acabou por conferir ao intérprete uma valiosa relação de conforto com todos os gêneros musicais: de Cole Porter a João do Vale, de Tom Jobim a Jackson do Pandeiro, de Pablo Milanes a si mesmo. Daí sua sonoridade sempre adequada a qualquer dueto. Só isso explica por que sua voz se mistura tão harmoniosamente com tudo, de Zeca Pagodinho a Dionne Warwick, de Ana Belén a Johnny Alf. Tudo isso sem nunca deixar de ser Chico Buarque, seja em dueto com Marçal, Nara, Elba, Nana ou Irmã Miucha. O outro Vinicius, França, sabe disso há mais tempo do que nós. E aproveitou o sucesso do prólogo da novela — Chico e Elza Soares, tão diferentes e, ao mesmo tempo, tão casados — para criar este CD.
Um CD que recomendo muito!
Lista de faixas:
01. Façamos – Elza Soares
02. Desalento – Mestre Marçal
03. Sem você – Tom Jobim
04. Mar e lua – Ana Belén
05. Dueto – Nara Leão
06. A Mulher Do Aníbal – Zeca Pagodinho
07. A Rosa – Sergio Endrigo
08. Até penso – Nana Caymmi
09. Seu Chopin, com licença – Johnny Alf
10. Iolanda – Pablo Milanés
11. Carcará – João do Vale
12. Piano na Mangueira – Dionne Warwick
13. Dinheiro em penca – Miúcha e Tom
14. Não sonho mais – Elba Ramalho



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