domingo, 8 de junho de 2025

Egberto Gismonti - Dança dos Escravos (1989)

 

"Danza dos Esclavos" é um título profundo que evoca a história e a cultura brasileiras, e também é o último álbum de Gismonti da semana. Aqui, mais uma vez, Egberto Gismonti está completamente sozinho com seus violões de 8 e 10 cordas, em uma gravação de qualidade excepcional, onde tudo soa muito claro, limpo e detalhado, como se Gismonti estivesse tocando bem na sua frente. Apenas o violão de Gismonti é ouvido, mas sua magia faz com que pareça que vários instrumentos estão tocando ao mesmo tempo; às vezes, parece que ele está tocando uma linha melódica, um baixo e percussão, tudo ao mesmo tempo! Não é à toa que este é considerado um de seus melhores trabalhos e um exemplo incrível do que pode ser feito com um violão nas mãos de um gênio.
 
Artista: Egberto Gismonti
Álbum: Dança dos Escravos
Ano: 1989
Gênero: Jazz/Fusão
Duração: 47:10
Nacionalidade: Brasil



Aqui, os ritmos são incrivelmente importantes, complexos e fascinantes. Não são os ritmos "simples" de uma música pop. São como padrões entrelaçados que fazem você sentir a "dança" do título, às vezes rápida, às vezes lenta, às vezes com uma sensação de luta ou energia. Mas sempre mágicos e hipnotizantes. E embora o ritmo seja fundamental, existem algumas melodias muito bonitas e emocionantes. Essas melodias podem ser alegres, nostálgicas, reflexivas ou cheias de energia vital. Elas "falam" com você sem usar palavras. O Maestro Gismonti usa toda essa técnica para expressar ideias musicais complexas e muitos sentimentos ao mesmo tempo com um único instrumento. Além disso, como eu disse antes, o som é muito claro; você pode ouvir o timbre da madeira do violão, o som dos dedos nas cordas. É uma experiência auditiva muito rica.
 
Aqui está o comentário do meu amigo e irmão Callenep, que criou esta entrada há muito tempo e hoje temos que lembrá-la:
Mais um grande álbum do monstro solo brasileiro: apenas seus violões são ouvidos neste disco, revelando o virtuosismo e a inovação de Gismonti neste, seu principal instrumento. Desde meados do século XX, a música popular brasileira é reconhecida por sua capacidade de transformar a teoria harmônica, que até então permanecia dentro dos limites da tradição. Músicos como Luis Bonfá e, mais tarde, a onda da Bossa Nova, culminando com Baden Powell, deram ao violão um leque expandido de possibilidades que recriaram a harmonia e o ritmo e se espalharam pelo mundo. Gismonti deu a essa inovação outro grande toque, e isso pode ser sentido neste álbum, que captura um gênero muito familiar na música popular latino-americana: a dança, e que o próprio Gismonti usa como um dos eixos de suas composições, estabelecendo uma conexão primordial com as origens populares e folclóricas de suas obras.
Em Dança dos Escravos, há uma jornada colorida, cada peça dedicada a uma pessoa em particular. Entre elas, há várias peças que já haviam sido gravadas, mas não em versão para violão solo, como "Trenzinho do Caipira", onde Gismonti homenageia o grande compositor nacionalista brasileiro Heitor Villa-Lobos, que já havíamos ouvido em Trem Caipira, mas com uma instrumentação orquestral onde os sopros criam o som do trem avançando de forma impressionista. Nessa versão, o ruído do trem se esvai, e os violões preferem nos contar sobre a viagem, as paisagens que ele atravessa. "Dança dos Escravos" havia aparecido em Infância, também orquestrada para quarteto. Nesta ocasião, a versão para violão solo é quase tão completa quanto a versão para quarteto, graças ao virtuosismo do intérprete. Outra que já havia sido ouvida em versão instrumentada é "Memória e Fado" (Árvore). E, finalmente, "Salvador", que é tocada aqui em tom marrom e constitui uma espécie de standard pessoal para Gismonti, aparecendo em inúmeras gravações, nunca igual à anterior. Esse é um fator notável: cada vez que Gismonti retorna a um tema anterior, ele o recria, o renova e nos oferece uma nova experiência musical que mal nos lembra de algo que já ouvimos, como a alma da música.
Rua Netuno


O próprio título evoca a história e a memória do Brasil. A resiliência, o sofrimento, mas também a força e a cultura que emergiram dessa história. Também evoca os ritmos e as formas musicais que têm raízes africanas e se misturaram no Brasil. É como uma paisagem sonora que nos faz refletir sobre o passado e sentir a energia da cultura brasileira.

E com isso encerramos o último álbum do Gismonti desta semana no blog, então só falta ouvir.


Se decidir ouvi-lo, não se frustre se não "entender" tudo imediatamente. Deixe-se levar pelos ritmos, melodias e sensações. Cada audição pode revelar algo novo. É uma fascinante porta de entrada para a música instrumental brasileira de alto nível.
 
Cuidado, não pense que só porque é tocado apenas com violão significa que se trata de música de fundo. Pelo contrário, como todos os álbuns do Blog Cabeza, é uma obra sonora que exige sua atenção. Imagine-se em uma jornada guiada exclusivamente pelo violão de Egberto Gismonti. Uma jornada por ritmos, melodias e sentimentos. Aprecie os detalhes, tente ouvir as diferentes camadas sonoras que o maestro cria com um único violão.

Espero que esta explicação sirva de mapa para explorar este álbum maravilhoso.
 
Aproveite bastante e agradeça a Calle Neptuno por esta beleza. E continuaremos com a jornada de gravação deles na semana que vem.
 
 
 
 
Lista de faixas:
1. 2 violões (vermelho)
2. Lundu (azul)
3. Trenzinho de Caipira (verde) [Heitor Villa-Lobos]
4. Alegrinho (amarelo)
5. Dança dos Escravos (preto)
6. Salvador (branco)
7. Memória e Fado (marrom)

Formação:
- Egberto Gismonti / guitarras
 

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