Perdeu
Caetano Veloso
Pariu, cuspiu
Expeliu
Um Deus, um bicho
Um homem
Brotou alguém
Algum ninguém
O quê?
A quem?
Surgiu, vagiu
Sumiu, escapuliu
No som, no sonho
Somem
São cem
São mil
São cem mil
Um milhão
Do mal, do bem
Lá vem um
Olhos vazios
De mata escura
E mar azul
Ai, dói no peito
Aparição assim
Vai na alvorada-manhã
Sai do mamilo marrom
O leite doce e sal
Tchau, mamãe
Valeu
Cresceu, vingou
Permaneceu, aprendeu
Nas bordas da favela
Mandou, julgou
Condenou, salvou
Executou, soltou
Prendeu
Colheu, esticou
Encolheu, matou
Furou, fudeu
Até ficar sem gosto
Ganhou, reganhou
Bateu, levou
Mamãe, perdeu
Perdeu, perdeu
Céu
Mar e mata
Mortos da luz desse olhar
Antes assim do que viver
Pequeno e bom
Não diz isso não
Diz isso não
A conta é outra
Tem que dar, tem que dar
Foi mal, papai
Anoiteceu
Brilhou, piscou
Bruxuleou, ardeu
Resplandeceu
A nave da cidade
O Sol se pôs
Depois nasceu
E nada aconteceu
O Sol se pôs
Depois nasceu
E nada aconteceu
O Sol se pôs
Depois nasceu
E nada aconteceu
Perigo
Caetano Veloso
Onde se esconde o que eu vi, não vi
Vejo, farejo perigo aqui
Salta de dentro do mato
Fica calado no ar
Vibra no fundo das pedras
Passa pelo teu olhar
Passa pro lado de fora
Vem pro lado de cá
Some no aro de íris
Que arrodiava o luar
Que cincundava o luar.
Tudo arrodeia os teus olhos vis
Eles são tudo o que eu quis, não quis
São os dois centros do mundo meu
Onde o elítico se perdeu
Onde o perigo se diz o luar
Olhos no ar
Eu, tu e eu
Ah! Olhos no ar
Lua, Luar
Eu, teu e meu.
Onde esconde o perigo em ti
Vejo, revejo o que eu vi, não vi
Ao redor dos teus verdes sóis
Perdição dos teus dois faróis
Tu e eu, um com o outros e sós
Onde o teu perigo em mim
Quase que eu te digo sim
E me amarro, amigo, ao teus nós
Onde o teu perigo em mim
Quase que eu te digo sim
E me amarro, amigo, ao teus nós.

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