O After All poderia ser só mais uma banda que pereceu precocemente sendo esquecida e relegada, excluída de nossas pretensões de audição ou ser meramente um “produto”, uma edição de colecionador, aquela para compor o catálogo de vinis de algum audiófilo espalhado pelo mundo. Todavia não encaro por esse prisma. Em meus garimpos em busca de novas bandas antigas vilipendiadas pelo público e pelo tempo, descobri recentemente a banda americana After All e ávido por descobrir mais e mais sobre o rock progressivo norte americano essa banda se deparou diante dos meus olhos de uma forma tão ocasional que, ao ouvi-la fui tomado por um arrebatamento que me pergunto, como sempre, e de uma forma veemente, como que uma banda como o After All não tem o seu devido crédito, não tem o seu devido lugar de destaque e pioneirismo na história do prog rock da terra do Tio Sam? Digo pioneirismo não pelo fato cronológico, pois o seu único álbum, lançado no longínquo ano de 1969, mas também pela sua vanguardista sonoridade que, na transição da década de 1960 para a de 1970, já se desenhava um progressivo embrionário com aquela pegada psicodélica, lisérgica, típica, é claro, daquele ano, tempos áureos do referido estilo, com o Woodstock ditando o ritmo e o comportamento também. Sim, caros e dignos leitores, o After All, diante de sua magnânima obscuridade, pode ser considerada como uma das pioneiras do rock progressivo norte americano! A banda que foi o pilar, o sustentáculo para a edificação de um estilo que entregou grandes bandas, apesar de sua maioria pouco conhecidas, mais prolíficas e que não lhe deram o crédito, apesar de fugaz e circunstancial para muitos. Finalmente as mídias sociais e a tecnologia da informação fez jus a essa banda e fez com que eu a descobrisse e que esteja me estimulando a redigir algumas linhas sobre a sua história obscura. Os quatro integrantes que compuseram o After All eram amigos e conhecidos, experientes no circuito de rock de Tallahassee, Flórida e juntos aprimoraram, ainda mais, as suas habilidades. São eles: Bill Moon nos vocais e baixo, Charlie short na guitarra, Alan Gold nos teclados e Mark Ellerbee na bateria e vocais.
E isso se nota, nobres amigos leitores, nos arranjos, na melodia das músicas deste único álbum lançado pelo After All. Essa experiência pesou e muito na qualidade de sua música que, logo no seu debut, está belissimamente em evidência aos ouvidos e alma de quem faz uma audição de peito e mente abertas. Um álbum híbrido, como era naquelas épocas de experimentação e inquietude criativa, com levadas jazzísticas, de proto prog, de rock psicodélico, de lirismo, delicadeza, elegância...Uma mescla sonora que é digna de audição realmente. Mas, apesar de o After All ter um combo de quatro excelentes músicos não podemos negligenciar a história de uma poetisa, de uma cantora que esteve por trás desse músico que, apesar de ter sido de forma discreta foi imprescindível para a concepção desse álbum de 1969 da banda. Falo de Linda Hargrove. Linda, nascida também em Tallahassee, na Flórida, em 3 de fevereiro de 1949 foi uma cantora, compositora e poetisa e se aventurou com sucesso na música country norte americana. Ela escreveu muitas músicas de sucesso para muitas bandas e cantores de sucesso do estilo e teve uma grande visibilidade na década de 1970. Linda era conhecida como "The Blue Jean Country Queen", pois se apresentava em seus shows de jeans e sem aquela maquiagem elaborada que outras cantoras country usavam.
Linda Hargrove, então apenas com vinte anos de idade, se juntou com o After All e ofereceu a eles vários de seus poemas e os caras gostaram no ato! Ela tinha uma capacidade inventiva de criar, elaborar seus poemas para serem cantadas por homens, para homens, ela tinha uma incrível capacidade para adentrar a mente masculina. Era isso que muitos dos músicos de sua geração e que teve, de alguma forma, contato com ela, diziam a seu respeito. Mas não foi apenas a sua capacidade de criação de poemas que fez com que o After All se juntar com a jovem e talentosa Linda. Ela, à época, já estava construindo uma bela reputação na cena local de Tallahassee e tinha sido membro de uma banda dessa região chamada “The Other Side”, em 1967 e gravou inclusive, neste mesmo ano, um álbum com uma veia meio folk rock.
Mas Linda também encontrou no After All um grande parceiro, o baterista e vocalista Mark Ellerbee que praticamente compôs todas as músicas do álbum. E essa harmonização sonora entre Ellerbee e Hargrove foi sensacional! Essa parceria trouxe a banda, às suas músicas uma textura complexa, com uma atmosfera surreal, diria até sombria e contemplativa graças também a já dita experiência dos músicos que fez com que aflorasse nas músicas toda essa complexidade: jazz, rock, psicodélico, progressivo de vanguarda, folk. Uma verdadeira miscelânea que fez do After All importante para a sua cena, ou melhor, foi um verdadeiro desbravador do estilo em seu país. E essa experiência aliada a alguma reputação que criaram surtiu também alguns relacionamentos, aproximações com alguma pessoas, do mundo da música, que os ajudaram na caminhada para o lançamento do seu tão esperado novo trabalho. Os caras conheciam um produtor de Nashville e este estava disposto a gravar um material específico, algo diferente, novo com a banda e melhor: sem nenhum custo adicional por isso, desde que fizesse a gravação desse trabalho rapidamente para não extrapolar nos custos. Então o After All entrou em estúdio no ano de 1969 e gravaram, em poucos dias, “After All”. O lançamento se deu pela Athena Records em poucas cópias, tendo uma tímida e contida venda consequentemente.
Então vamos finalmente as notáveis e surreais músicas desse clássico obscuro. Comecemos com “Intangible She” faz jus ao nome, tão lisérgica que parece nos fazer sair do chão, algo intangível, mas que rompe a nossa alma de forma tão avassaladora que as vezes não temos palavras para descrever. Mas o início da música tem uma levada jazzística capitaneada pela bateria e um órgão envenenado e poderoso e que logo surge um vocal imperioso e grave chapante, que te faz viajar maravilhosamente. A psicodelia e o progressivo, ainda lactente, flertam cosmicamente, lindamente. Pura vanguarda! E o que dizer do solo de guitarra direto e muito bem executado? Que começo!
“Nothing Left To Do” introduz suavemente, um lindo e discreto piano traz o pano de fundo para um vocal limpo, mas cantado quase que de forma sussurrada e assim permanece até a aurora de uma bateria, mais uma vez, jazzística, envolta em um clima psicodélico, sendo adicionada por surtos de guitarra com solos curtos e diretos e aos poucos vai aumentando o tom, a música vai ganhando vida e irrompe em uma hecatombe de instrumentos e um vocal agora alto e rasgado, cantado de forma raivosa, diria. Mas logo volta a introspecção. Isso é um exemplo de música progressiva: cheia de contrastes sonoros, alternâncias rítmicas. Excelente!
“And I Will Follow” traz uma proposta lenta e viajante e o vocal se faz, mais uma vez, em pleno destaque. A faixa me remete a algo inteiramente psicodélico, algo do seu tempo e os teclados chapantes dão o tom da música, sem dúvida alguma. “Let It Fly”, por outro lado, é a antítese da faixa anterior, tem um balanço, um groove e a levada dos riffs da guitarra entrega isso plenamente. Essa faixa é o exemplo crucial das habilidades da banda e da sua capacidade de flertar com muitas vertentes sem pestanejar e deixar quaisquer dúvidas quanto ao talento desses músicos.
“Now What Are You Looking For?” talvez sintetize com fidelidade, diria, a minha percepção em relação ao prog rock de vanguarda deste álbum do After All. Uma música cheia de vivacidade, poderosa, complexa e o teclado tem o protagonismo nessa faixa. “A Face That Doesn't Matter” segue a mesma proposta da faixa anterior trazendo aquele clima meio sinistro e sombrio, em tom meio profético que nos faz lembrar The Doors, por exemplo. A faixa remete ao beat dos anos 1960, até bem dançante, contrastando com o clima meio pessimista antes analisado.
E fecha com a faixa “Waiting” que privilegia o belo trabalho de vocalização, entregando, mais uma vez, uma música lisérgica, lembrando os belos trabalhos psicodélicos de bandas como Vanilla Fudge, por exemplo, outro baluarte da música norte americana. O salutar duelo entre guitarra e teclado traz um contexto variado a música e a bateria entrega um desfecho jazzístico a música. Fechando em grande estilo. Após o lançamento do álbum, a banda se separou e seguiu caminhos separados, cada um com sua carreira, mas localmente, retornando para Flórida, embora continuassem amigos. Já Linda Hargrove, após ter seguido com a banda para Nashville para gravar o álbum, ficou por lá e decidiu enveredar a sua carreira no mundo do country music e depois de ter gravado um álbum obscuro foi apresentado ao ex- Monkee Mike Nesmith que a contratou para o seu selo country. Sua carreira parecia estar em franca ascensão quando foi diagnosticada com leucemia. Hargrove conseguiu se recuperar e retomar a sua carreira. Morreu em outubro de 2010. O álbum “After All” teve um renascimento em 2000-2001, quando foi relançado pelo selo “Gear Fab”. Graças a esse relançamento esse clássico obscuro e raro pode ser ouvido pelo máximo número de pessoas possível. E assim que tem de ser: boa música, independente de ser ou não de bandas consagradas, precisam ganhar luz e impactar, de forma avassaladora as mentes, os ouvidos e a alma de um bom audiófilo. E assim é o After All e seu único e nada fugaz álbum. Uma pérola!
A banda:
Bill Moon nos vocais e baixo
Charlie Short na guitarra
Alan Gold nos teclados
Mark Ellerbee na bateria e vocais
Faixas:
1 - Intangible She
2 - Blue Satin
3 - Nothing Left To Do
4 - And I Will Follow
5 - Let It Fly
6 - Now What Are You Looking For?
7 - A Face That Doesn't Matter
8 - Waiting







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