sexta-feira, 19 de setembro de 2025

Marco Antônio Araújo "Entre um Silêncio e Outro" (1983)

 

Os primeiros álbuns de Marco Antonio Araujo o consolidaram como uma figura de destaque na cena sinfônica progressiva brasileira. No entanto, o ousado experimentador não tinha a intenção de criar na mesma linha. Violonista profissional, compositor e indivíduo multitalentoso, Araujo decidiu se aventurar na música de câmara. Para tanto, retirou seus colegas (o conjunto Mantra ) do processo e remontou sua equipe de acompanhamento. Juntaram-se ao maestro em sua nova função o flautista Paulo Guimarães e os violoncelistas Marcio Mallard e Jacques Morelembaum.
O álbum "Entre um Silêncio e Outro" é, em grande medida, um desafio não apenas para o público, mas também para si mesmo. Não há flertes com o rock ou outros gêneros "elétricos". A instrumentação é clássica. A abordagem é monumental. O clima é sério. É verdade que Araujo tentou aliviar o peso do apelo do lançamento para um público mais amplo — e de uma forma bastante não convencional. Antes da parte principal do programa, Marco apresentou três faixas bônus, versões de câmara de peças do álbum "Influências" (1982). Traduzir composições progressivas complexas para faixas acústicas revelou-se desafiador, mas o brasileiro lidou com a tarefa com louvor. Na faixa de abertura, "Abertura I", a guitarra de Marco fornece mais ritmo do que solo, enquanto a performance principal cabe a Guimarães, nos metais e no duo de cordas. A síntese do quarteto entre música folclórica, artística e neoclássica é alcançada com incrível dinamismo, bom gosto e habilidade, confirmando ainda mais a sabedoria popular sobre a natureza abrangente do talento. O esquema de "Abertura II" é realizado em uma perspectiva semelhante, com suas memoráveis ​​linhas melódicas e ornamentação rendada de flauta e violoncelo. "Cantares II" tem um caráter limítrofe: se a fase inicial da ação prossegue na linha de uma comovente elegia romântica, então gradualmente os acentos mudam; o plano frontal é inundado por uma solenidade sinfônica antiquada com um toque latino à la Joaquin Rodrigo.E então vem o próprio propósito para o qual este empreendimento artístico foi concebido. A obra de 20 minutos, "Fantasia nº 2: Romance", é uma obra em tons acadêmicos com um espectro emocional bastante amplo. O tema central é o anseio lírico, habilmente ilustrado pelo quarteto sob a regência de Araújo. As passagens de Paulo, Márcio e Jacques emanam uma angústia espiritual, a tristeza universal de um homem perdidamente apaixonado. Às vezes, o herói insubstancial se distrai de seus pensamentos opressivos, e então cores carnavalescas tremulam no ar, o som de castanholas é ouvido e pequenas sementes de esperança despertam no coração... Um afresco surpreendentemente harmonioso, continuado pela não menos curiosa composição, "Fantasia nº 3: Folhas Mortas". Em primeiro plano, o tema do outono, com sua reflexão infinita, pausas significativas e a mais sutil beleza lúgubre. De certa forma, esta é uma apresentação beneficente para Marco, que passa os primeiros seis minutos decorando sozinho a paisagem sonora com acordes de cordas e arpejos. A partir daí, "Fantasia No. 3" se desenvolve em conjunto, adquirindo várias nuances ao longo do caminho, sem perder sua delicada elegância.
Em resumo: um soberbo mosaico de câmara, que certamente encantará tanto um frequentador de conservatório quanto um admirador de exercícios de art-rock bem pensados.




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