sábado, 8 de novembro de 2025

Chico Buarque – Duetos (2002)


Se Vinicius de Moraes estava certo (e certamente estava), e não há felicidade sem pares, sem casamentos de amizade, amor e música, então a música brasileira pode ser considerada muito feliz. Seus artistas, mesmo os mais antigos, aqueles que poderiam facilmente ter sucesso sozinhos, vivem de parcerias, compondo ou cantando juntos. Se existe rivalidade entre alguns, é um pecado que se dissipa quando, por qualquer motivo, eles se unem. Assim, pelo menos, existe um hábito saudável (e muitas vezes enriquecedor) de "convidados especiais" que os músicos brasileiros cultivam em seus shows e gravações. Um hábito geralmente conhecido como "duetos".

Chico Buarque tem sido um dos convidados mais requisitados. Os convites provavelmente se davam principalmente por dois motivos: o primeiro, e mais óbvio, é o seu prestígio pessoal e artístico. Quem não o quereria como colaborador? O outro motivo, não tão óbvio, reside no fato de que Chico — o letrista magistral, o compositor admirável — desenvolveu sua arte por meio do contato próximo com a música popular. Antes de começar a criar, ele ouvia. E ouvia muito. Das marchas de carnaval que cantava quando criança, a portas fechadas, fingindo ser locutor de rádio, a todos os tipos de canções que era obrigado a tirar do bolso para aquelas competições televisionadas no programa "Esta noite se improvisa".

Sua familiaridade com diversas formas e inúmeros gêneros pode não ter influenciado o compositor, com seu estilo único e inimitável, mas, em última análise, conferiu ao intérprete uma valiosa facilidade com todos os tipos de música: de Cole Porter a João do Vale, de Tom Jobim a Jackson do Pandeiro, de Pablo Milanés a si mesmo. Daí seu timbre sempre adequado em qualquer dueto. Só isso explica por que sua voz se harmoniza tão bem com todos, de Zeca Pagodinho a Dionne Warwick, de Ana Belén a Johnny Alf. Tudo isso sem jamais deixar de ser Chico Buarque, seja em dueto com Marçal, Nara, Elba, Nana ou Sister Miucha. O outro Vinicius, França, já sabia disso há mais tempo do que nós. E ele capitalizou o sucesso do prólogo do romance — Chico e Elza Soares, tão diferentes e, no entanto, tão perfeitamente em sintonia — para criar este CD.
Um CD que recomendo muito!

***

Lista de faixas:

01. Façamos – Elza Soares
02. Desalento – Mestre Marçal
03. Sem você – Tom Jobim
04. Mar e lua – Ana Belén
05. Dueto – Nara Leão
06. A Mulher Do Aníbal – Zeca Pagodinho
07. A Rosa – Sergio Endrigo
08. Até penso – Nana Caymmi
09. Seu Chopin, com licença – Johnny Alf
10. Iolanda – Pablo Milanés
11. Carcará – João do Vale
12. Piano na Mangueira – Dionne Warwick
13. Dinheiro em penca – Miúcha e Tom
14. Não sonho mais – Elba Ramalho

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