
John Anthony Gillis sofre de um delay temporal. Nascido em Detroit em 9 de julho de 1975, o vocalista e guitarrista de 38 anos que o mundo conhece como Jack White é um artista único, com um talento singular e uma maneira de ver a música que difere totalmente dos seus colegas de geração. E isso é uma qualidade gigantesca. Enorme. Decisiva.
Em uma conversa regada à música e algumas doses, um amigo levantou a questão: “Jack White é o único cara atual que poderia fazer a sua carreira durante os anos 1970 que não passaria vergonha com os artistas daquela época”. Não tive, e continuo não tendo, como fugir da resposta pura e simples: sim, concordo.
Mais uma vez, White surpreende com um trabalho primoroso, dono de uma personalidade hipnótica, com canções que trazem a própria vida para os sulcos, o sangue pulsando nas caixas de som. Assim como o sensacional Blunderbuss (2012), Lazaretto, seu segundo álbum solo (lançado dia 10 de junho pela Third Man Records, selo e gravadora do próprio White), é de cair o queixo. Arranjos inventivos, grandes melodias emoldurando excelentes canções, execução cheia de feeling: as onze faixas oferecem ao ouvinte um novo mergulho no universo imaginativo de Jack White, derramando doses maciças de dopamina direto na veia.
Como aconteceu em Blunderbuss, aqui vale o mesmo princípio: esqueça os tempos de Jack no White Stripes. As guitarras cheias de noise, os gritos descontrolados e a bateria monocórdica são coisas do passado. Em sua carreira solo, além de contar com músicos estupidamente melhores que a bela Meg White, Jack explora outros caminhos sonoros, ainda que com ocasionais olhadas para trás. Outra vez, o piano divide os holofotes com a guitarra, em um duo instrumental que acrescenta um terceiro ingrediente em Lazaretto: o violino. E a união entre as cordas, as teclas e o arco dão a característica própria e ao mesmo tempo peculiar do trabalho. As intervenções de violino imprimem, em algumas passagens, um agradabilíssimo tempero country, que soa ainda mais belo ao ser amparado e conduzido por arranjos que, em sua maioria, têm o piano como protagonista. A guitarra está sempre presente, com direito a alguns solos bastante inspirados e com uma abordagem que varia entre acordes sóbrios e ataques de fúria.
Com todos esses pontos, Lazaretto é um trabalho profundo e mais denso que Blunderbuss. A estreia solo de White agradava de imediato, apresentando uma sequência de faixas excelentes que impressionava logo de cara. Em Lazaretto a qualidade é similar, porém demanda mais do ouvinte. É preciso se acostumar com a abordagem própria, com a forma com que Jack White conduz as canções. É preciso abrir a cortina e penetrar nas trevas, na neblina, na escuridão. Mas, ao se acostumar com ela, tudo faz sentido, passando a soar de maneira tão intensamente bela quanto o disco anterior.
O vocalista e guitarrista entrega canções inspiradas, excelentes, boas mesmo - pra caramba, do caralho e afudê, pra deixar bem claro. Tudo é de alto nível, com detalhes capazes de colocar um grande sorriso no rosto de qualquer fã de música. A releitura desconcertante de “Three Women”, do bluesman Blind Willie McTell, que abre o disco. Os violinos na parte final da faixa-título, se alternando entre um canal e outro. O arrepiante coro feminino na linda “Would You Fight For My Love?”. As reviravoltas inusitadas da instrumental “High Ball Stepper”. A doçura deliciosa de “Alone in My Home”. E muitos outros, que se revelam a cada nova audição.
Lazaretto é um disco excelente de um artista sem igual. Um disco magnífico. Para a vida, para o ano, para sempre.
Nota 10
Faixas:
1 Three Women
2 Lazaretto
3 Temporary Ground
4 Would You Fight For My Love?
5 High Ball Stepper
6 Just One Drink
7 Alone in My Home
8 Entitlement
9 That Black Bat Licorice
10 I Think I Found the Culprit
11 Want and Able
Em uma conversa regada à música e algumas doses, um amigo levantou a questão: “Jack White é o único cara atual que poderia fazer a sua carreira durante os anos 1970 que não passaria vergonha com os artistas daquela época”. Não tive, e continuo não tendo, como fugir da resposta pura e simples: sim, concordo.
Mais uma vez, White surpreende com um trabalho primoroso, dono de uma personalidade hipnótica, com canções que trazem a própria vida para os sulcos, o sangue pulsando nas caixas de som. Assim como o sensacional Blunderbuss (2012), Lazaretto, seu segundo álbum solo (lançado dia 10 de junho pela Third Man Records, selo e gravadora do próprio White), é de cair o queixo. Arranjos inventivos, grandes melodias emoldurando excelentes canções, execução cheia de feeling: as onze faixas oferecem ao ouvinte um novo mergulho no universo imaginativo de Jack White, derramando doses maciças de dopamina direto na veia.
Como aconteceu em Blunderbuss, aqui vale o mesmo princípio: esqueça os tempos de Jack no White Stripes. As guitarras cheias de noise, os gritos descontrolados e a bateria monocórdica são coisas do passado. Em sua carreira solo, além de contar com músicos estupidamente melhores que a bela Meg White, Jack explora outros caminhos sonoros, ainda que com ocasionais olhadas para trás. Outra vez, o piano divide os holofotes com a guitarra, em um duo instrumental que acrescenta um terceiro ingrediente em Lazaretto: o violino. E a união entre as cordas, as teclas e o arco dão a característica própria e ao mesmo tempo peculiar do trabalho. As intervenções de violino imprimem, em algumas passagens, um agradabilíssimo tempero country, que soa ainda mais belo ao ser amparado e conduzido por arranjos que, em sua maioria, têm o piano como protagonista. A guitarra está sempre presente, com direito a alguns solos bastante inspirados e com uma abordagem que varia entre acordes sóbrios e ataques de fúria.
Com todos esses pontos, Lazaretto é um trabalho profundo e mais denso que Blunderbuss. A estreia solo de White agradava de imediato, apresentando uma sequência de faixas excelentes que impressionava logo de cara. Em Lazaretto a qualidade é similar, porém demanda mais do ouvinte. É preciso se acostumar com a abordagem própria, com a forma com que Jack White conduz as canções. É preciso abrir a cortina e penetrar nas trevas, na neblina, na escuridão. Mas, ao se acostumar com ela, tudo faz sentido, passando a soar de maneira tão intensamente bela quanto o disco anterior.
O vocalista e guitarrista entrega canções inspiradas, excelentes, boas mesmo - pra caramba, do caralho e afudê, pra deixar bem claro. Tudo é de alto nível, com detalhes capazes de colocar um grande sorriso no rosto de qualquer fã de música. A releitura desconcertante de “Three Women”, do bluesman Blind Willie McTell, que abre o disco. Os violinos na parte final da faixa-título, se alternando entre um canal e outro. O arrepiante coro feminino na linda “Would You Fight For My Love?”. As reviravoltas inusitadas da instrumental “High Ball Stepper”. A doçura deliciosa de “Alone in My Home”. E muitos outros, que se revelam a cada nova audição.
Lazaretto é um disco excelente de um artista sem igual. Um disco magnífico. Para a vida, para o ano, para sempre.
Nota 10
Faixas:
1 Three Women
2 Lazaretto
3 Temporary Ground
4 Would You Fight For My Love?
5 High Ball Stepper
6 Just One Drink
7 Alone in My Home
8 Entitlement
9 That Black Bat Licorice
10 I Think I Found the Culprit
11 Want and Able
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