sábado, 8 de novembro de 2025

Judas Priest: crítica de Redeemer of Souls (2014)

 



Seis anos atrás, com Nostradamus, o Judas Priest mostrou que ainda era capaz de experimentar. O disco é uma bosta (eu costumo chamá-lo de Noscagamus), só que isso não vem ao caso. De lá para cá, seu universo metálico foi abalado pela saída de K.K. Downing, mas assim como a visita do neto faz brotar um sorriso no rosto do idoso que desfruta o tempo que lhe resta num asilo, Richie Faulkner deu as caras injetando sangue jovem na banda, que embarcou numa assim chamada turnê de despedida. Eu estava lá e pude ver com meus próprios olhos Halford e companhia rejuvenescidos, motivados e, quem sabe, até avaliando se dar adeus aos palcos era de fato a escolha certa.

O efeito Faulkner no Judas não parou por aí e a prova material chegou às lojas recentemente. Em Redeemer of Souls, está claro que o grupo buscou referências em seu passado, reaprendeu o tradicional e entrega um punhado de canções que transpiram os clichês que outrora ajudaram a imprimir num ainda recém-nascido heavy metal. Com Faulkner, o som do Judas passa a ter uma frequência média e sua guitarra é a mais limpa que já se ouviu num disco da banda; seus solos são velozes e endiabrados, mas você ouve cada nota com clareza. Já Glenn Tipton, no auge de seus 66 anos, não abriu e nem tinha porque abrir mão do timbre esfiapado que lhe é característico. 

Pela primeira vez, o baixo de Ian Hill está audível em todas as faixas e, ainda que sua técnica não seja das mais apuradas (nunca foi), o encaixe com as levadas de Scott Travis é tremendo. Aliás, o baterista muito brilha por aqui; graças à produção de primeira, o som de seu instrumento é alto e nítido, e é cada nuance, quebrada de tempo ou virada fora do comum que não deixam dúvidas de que estamos ouvindo um dos melhores do mundo. Quando arrisca um grito como os de antigamente, tudo o que se ouve é um chiado, mas na falta de fôlego para notas que soariam melhor se mais longas e altas, não faltam a Halford recursos para arremates certeiros. E, sim, seus graves continuam assombrosos. 

Trovoadas anunciam “Dragonaut”, o novo reforço da equipe de canções de letras meramente adjetivas sobre heróis/algozes do Judas, que já conta com “Jawbreaker”, “Painkiller” e “Demonizer”, entre outras. E por falar em “Demonizer”, aqui temos “Metalizer”. Se há relação entre uma e outra, não sabemos, e ainda não sei dizer qual das duas prefiro. “Crossfire” é o que se pode chamar de a “N.I.B.” do Priest. Melhor dizendo, é o cruzamento entre o clima sabático e coisa ou outra de Sad Wings of Destiny. “Cold Blooded”, por sua vez, parece sobra de Defenders of the Faith e remonta a melhor época da banda na minha opinião. 

Em determinados momentos, o resgate ao passado transcende a ideia de mero resgate: “Redeemer of Souls” é quase uma releitura de “Hell Patrol”, assim como “March of the Damned” soa como uma nova “Metal Gods”. Ingredientes deste clássico de British Steel compõem também a receita de “Hell & Back” (que agrega, ainda, um quê de Sabbath). Mais Manowar que Judas, “Sword of Damocles” perpetua o caráter épico da polifônica “Halls of Valhalla”. Resquícios de Nostradamus aparecem na atmosférica “Secrets of the Dead”. O (a princípio) desfecho com “Beginning of the End” é triste e suave, mas em se tratando da edição deluxe do álbum, o fim é apenas o começo. 

Um riff de cordas soltas que poderia ser atribuído a qualquer guitar hero dos anos 1980, um som verdadeiramente festivo, refrão com chamada e resposta em coro: é assim que começa o CD bônus de Redeemer of Souls, com a hard rocker “Snakebite”. Na sequência, “Tears of Blood”, outro número que aponta para os tempos de Defenders of the Faith, com Halford despejando uma energia acima da média e sustentando o final dos refrões como nos velhos tempos. Os olhos se enchem de lágrimas… de sangue! 

Em “Creatures”, Halford encarna o papel da bicha má sobre um midtempo sombrio onde respingou um pouco do combustível que move “Turbo Lover”. Um atípico porém adequado encerramento vem na forma da belíssima “Never Forget”, balada construída sobre uma melodia simples, de acordes básicos; letra com mensagem positiva de despedida sem sofrimento ou arrependimentos. Os solos obedecem a linha vocal em algo até então inédito na história do Judas. Se for, de fato, um adeus, não poderia ser mais belo ou simbólico. 

O saldo em Redeemer of Souls é positivo. Há, obviamente, momentos questionáveis; a banda peca em algumas escolhas e alguns mínimos detalhes fazem a diferença na hora de separar o joio do trigo. Em comparação a Nostradamus, um salto de qualidade. Em comparação a Angel of Retribution, um salto de legitimidade. Lado a lado com Painkiller (e se for mesmo a saideira do Priest), tem tudo para ser reverenciado tanto quanto este é daqui a 20 anos. 

01. Dragonaut 
02. Redeemer Of Souls 
03. Halls Of Valhalla 
04. Sword Of Damocles 
05. March Of The Damned 
06. Down In Flames 
07. Hell & Back 
08. Cold Blooded 
09. Metalizer 
10. Crossfire 
11. Secrets Of The Dead 
12. Battle Cry 
13. Beginning Of The End 

CD bônus: 
01. Snakebite 
02. Tears Of Blood 
03. Creatures 
04. Bring It On 
05. Never Forget




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